DUZENTOS MIL, PORÉM SEM CAMIÕES

O contempto pela polifonia completa da sociedade portuguesa que caracterizou a chamada maioria (e os interesses a cujo serviço exclusivo ela se colocou) foi sempre obstinado, insensível e clamoroso ao longo de estes quatro anos. Obstinadamente, a corrida governamental foi toda para auxiliar a criação de riqueza para os ricos a fim de estes poderem jogá-la no Casino Global ou conservá-la de uma forma recordista, mas completamente associal, certamente para um retorno apoiísta no futuro escrutínio eleitoral. O governo fez o seu galope pela criação de novas oportunidades de negócios para os ricos ou então para os que estão sempre à mão do favor do Governo e do Regime, esses espertos perpétuos à boca nepótica e amiguista de todas as cunhas, para a satisfação dos seus desígnios dissipatórios, egoístas na rapina de sempre. Excepção nesta política caolha foi o músculo dos Camionistas, em Junho de 2008, os quais, para além da Lei, bloquearam Lisboa, e após a morte de um de eles sob o rodado de um outro camionista, com ordens de um patronato mais forte e resistente para que resistisse e furasse os piquetes de greve. Esse bloqueio eloquente de Lisboa foi o suficiente para se fazerem ouvir como estrutura e como mole de profissionais, apesar das transgressões à Lei danosas de um colectivo bem maior. Do mesmo modo, foi preciso a grande mensagem do colapso financeiro a mostrar a malícia de um caminho desequilibrado e desarmonioso pró-Lucro, por parte de vários governos e grupos económicos, para que se passasse a fingir, rapidamente e em força, de repente toda uma necessidade imprevista de mais Estado, de mais Esquerda e de mais componente social. O cata-ventismo verbal é notório nos governos, sobretudo o nosso. O vazio mais cínico também. A sua prática, porém, é e será só uma: um governo apoiando empresas fortes, globalizadas, modernas, competitivas, o que nada tem de mal, mas sem qualquer equivalência e contrapartida no domínio social; só com mais miséria, mais exclusão e logo na ordem de milhões de seres humanos arredados da dignidade pelo trabalho por força de lógicas de automação fatais para vastas multidões de seres humanos. Por isso mesmo, hoje 200 mil sem duzentos mil camiões não os atemoriza. Não os avisa. Eles sabem que o Trabalho está a entrar em extinção, para além da Crise e esperam passar incólumes, vendendo o peixe demagógico, lavando as mentes e os corações de muitas jovens e velhas apenas com cio e outro oco, como a grande Câncio exemplifica e dissolve. Eles aguardam, em virtude da desgraça adveniente, por que os surpreendamos com gestos ainda mais extraordinários, mais drásticos ou mais dramáticos, como se a realidade não lhes pudesse impregnar a prolongada fantasia nem inspirar a imaginação ou uma mudança de linha errónea de curso: «O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, afirmou que a manifestação de hoje deve ser a maior de sempre "deste tipo" realizada em Lisboa. "Estão mais de 200 mil trabalhadores e trabalhadoras. Dezenas e dezenas de milhar que lutam pelas empresas e pelo emprego", disse o secretário-geral da CGTP, já nos Restauradores. [...] O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, afirmou hoje que a actual crise não é resultado da acção de um vírus, mas sim a expressão das práticas patronais e políticas seguidas nos últimos anos.»
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Comments
Ou talvez seja melhor, um 5 de Outubro, um 25 de Abril!...
Este país não aprende senão transportadores de arroz e gasóleo!
Um abraço a subir a avenida