O VAZIO QUE OCUPA O OCO


O culto da personalidade é uma idolatria política de péssima extracção. Está lá, quando tudo o mais rareia: ideias construtivas, estratégias mobilizadoras, capacidade de liderança, relativização do líder em favor da partilha plural e solidária dos poderes, a prática da legitimação permanente pelos cidadãos de todas as políticas e decisões mais ou menos relevantes, em vez de permitir a arbitrariedade que flagramos nos políticos actuais, cuja venalidade e favorecimento da oligarquia dominante não poupa atropelos ambientais, cívicos e legais com a conivência e incapacidade de vigilância e escrutínio consequentes por parte das oposições. A deriva personalista que se fecha em torno do PM é por isso mesmo o resíduo mais tóxico de uma notória degenerescência democrática que Portugal testemunha. À apreensão com outras personalidades inócuas, pense-se em Cavaco, contra o qual vimos luminárias como Mário Soares armar um zum-zum sem tamanho no início da década de noventa segue-se que os mesmos nem sequer se pronunciam contra esse vinco africano e chavista, logo num país que rasteja pelos mínimos da cidadania pulsante e influenciadora das agendas políticas. Não admira o horror que em surdina muitos espíritos manifestam contra essa concentração anacrónica de poder nas mãos de Sócrates. Todos têm a perder com essa via porque é o deserto e a arbitrariedade que se instalam inexoráveis, impróprios e excessivos num tempo de crise como em todos os tempos porque uma sociedade livre não é tutelável paternalisticamente por Salazar nenhum, por caudilho nenhum, por general ou condottiero nenhum, por Asno de Ouro nenhum. O PS prostra-se diante de Sócrates? Isso quer dizer que se rende ao vazio nele que preenche o oco em todos: «A presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, considerou hoje que o Congresso do PS foi uma manifestação de culto da personalidade de José Sócrates, excessiva e imprópria em tempos de crise. Por outro lado, Manuela Ferreira Leite disse já ter definido o perfil do cabeça-de-lista do PSD às eleições europeias, mas não quis divulgá-lo nem indicar o prazo em que será anunciado o nome do candidato. Manuela Ferreira Leite falava aos jornalistas na sede nacional do PSD, em Lisboa, no final de uma reunião com a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP).»

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