REVOLUÇÃO BLOGUEANA

Para além do que JPP possa acrescentar como caracterização da revolução blogueana da Imprensa em Portugal, há na mesma bloga antes de mais a criatividade e a força expressiva de uma linguagem mais permeável à hiperbolização violenta de tropos, mas nem por isso menos autêntica. Se a imprensa igualmente envereda pela marginalidade temática, pode ganhar em autenticidade de registos e pertinência, tendo em conta a pulverização dos diversos púlbicos. Suponho que é precisamente aí que alguma coisa de novo emerge, por força do fascínio das diversas subjectividades linguísticas: a Imprensa, para continuar atractiva descobre a bloga, contamina-se e penetra-se dela, e redescobre-se afinal na bloga; ela, que aliás é efémera, pode assim imediatizar-se mais e tornar-se mais sensível e permeável às subjectividades. Ninguém mais está somente interessando em frias análises, mas nos registos insólitos e inesperados que por uma vez angulam matérias de outra forma tratadas com pinças e escrúpulos, como o Ventre de Courbet: «O resultado está à vista na bloguização da comunicação social, perdoe-se o neologismo. Temas marginais e das franjas, "fracturantes" no seu pleno sentido, são centrais nos blogues e passaram daí para fora. O casamento dos homossexuais, uma causa minoritária em todos os sentidos, a começar pelo da sua relevância social, passou para tema corrente, quando na realidade não o é para quase ninguém fora dos blogues e da extrema-esquerda. Não é sequer possível compará-lo com a questão do aborto, que parece antecedê-lo, essa sim, com significado social. O mesmo se pode passar com a eutanásia, sem minimizar os enormes dilemas éticos que comporta, mas igualmente marginal.Blogues e comunicação social dão relevância muito semelhante a temas deste tipo, em detrimento de questões sociais muito mais sérias e que quase não existem nos blogues, como seja os despedimentos, as condições laborais, a condição operária, o mundo rural, etc.» Mas a bloga faz muito mais que isso. Permite ao leitor, blogger ou não blogger, aceder à subjectividade e subjectivismo de enunciados que precisamente exprimem e intensificam o lado que justamente sofre na carne essas questões sociais, esse despedimento, essa exploração grotesca pelo trabalho, essa condição não tanto 'operaria', que é uma realidade em retrocesso, mas o desgaste psicológico e a fragilidade em quantos vendem ou tentam vender o seu trabalho. Este meu blogue, por exemplo, nasceu provavelmente da desadequação entre as expectativas na Escola e a realidade kafkiana anti-indivíduo e anti-profissional que os últimos quatro anos viram estabelecer-se pecaminosa e criminosamente, devido à incompetência errática e maliciosa do ME, que infelizmente Pacheco viu com bons e bovinos olhos, incompetência muitíssimo bem caracterizada por Mário Lopes («Por outro lado, é clara a intenção deste Governo ao fixar numerus clausus no acesso ao topo da carreira e não querer pagar aos professores, independentementedo seu mérito ou competência. Ora, como quer o Governo atrair para a carreira bons profissionais se não lhes paga em consonância? A proletarização da classe docente é uma realidade típica de países de Terceiro Mundo, não de países civilizados. E mal vai Portugal se tenciona continuar a desvalorizar a profissão de professor. Parafraseando a magnífica frase de Medina Carreira há alguns dias na RTP, também "eu gosto dos determinados, mas é quando acertam." Como já aqui demonstrei, a nomeação desta equipa da Educação é um monumentalerro de casting e o País vai pagar caro a política populista e voluntarista que está a ser seguida neste sector. Em vez de mobilizar energias, Maria de Lurdes Rodrigues mais não faz do que incendiar o País e comprar guerras inúteis e despropositadas com os professores.»). «Por razões que têm a ver com a origem social dos seus autores, mas também da mecânica comunicacional e política do meio, há temas típicos dos blogues, e cada vez menos diferenças entre esses temas e os da comunicação social em geral. O resultado é que a perda de proporções, de relevância, de valor social, típica dos discursos radicais e politizados, impregna a comunicação social quase sem se dar por isso.» Pois, mas mesmo isso é dinâmico e permite reajustes permanentes. A Imprensa, enquanto negócio, não pode ser ingénua nem regressar a modelos de lisibilidade que apenas satisfariam o leitor aposentado e fiel, mas não a massa de agitados e escrutinadores de factos sucessivos. Na Escola deveria aprender-se que a relação crítica e criativa entre factos faz toda a diferença e o certo é que a fonte de estímulos à escrita sobre o quotidiano é não apenas global mas minudente e exaustiva e, graças à bloga, reciprocamente complementar. A bloga é um fenómeno demasiado rico e fermentador para se submeter a qualquer categorização em si mesma preconceituosa. Senão explicitamente nesta análise, certamente em sobejas afirmações provocatórias emitidas anteriormente.

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