Domingo, Maio 03, 2009

O HÁBITO DE NÃO COMPRAR NADA


O hábito de não comprar veio para ficar. Não comprar nada. Nada mais que alimentos. Viver em abstinência e em jejum banalizou-se e reveste-se de um secretismo e silêncio bem portugueses. Se nos vierem com espectáculo e optimismo isso é porque os optimistas estão no lugar certo do erro, alojaram-se na Alta Pirataria de Estado, vivem num mundo à parte e por isso não o sentem colapsar para si mesmos. Vão inventando viabilidades inviáveis e malbaratando recursos irrepetíveis. O hábito do povo comum de nada mais comprar que alimentos, de levar a vida com jejuns e abstinências veio para ficar. E nem assim. Nada sobra. Passa-se mal. É preciso encher o peito de ar e tentar suportar os meses, um a um, como vagas de falta franciscana de tudo. Esta novidade vai atacar os nervos de muito bom rapaz e boa rapariga cansados de levar com a porta na cara e de arrostar com os mesmos problemas por mais que lutem. Asquerosamente ricos vão os políticos e os empreiteiros seus amigos. Asquerosamente ricos vão os corruptos e quem lhes respalda a impunidade. Asquerosamente rica vai uma parte obscena de Portugal, agente cínica e vexatória da larga maioria em dificuldades, em fomes e em faltas. Se a Crise internacional não eclodisse, ainda assim em Portugal o acordar lento para um processo horrendo de empobrecimento geral haveria de bater, conforme agora bate, na consciência de enganados dos portugueses. Lateja na sua mente o crime de uma entorse social sem paralelo desde o pós-25 de Abril, 1974: «Se há indicador que a crise parece ter deixado ileso é o consumo de bens alimentares: os portugueses preferem abdicar de outros luxos, como as idas aos restaurantes, mas enchem a despensa de casa. Mais até do que em alturas de estabilidade económica. Há, no entanto, produtos que já não entram tão facilmente no carrinho de compras nacional, como a carne vermelha e os doces. São considerados acessórios, ao contrário do que se passa com bens mais acessíveis e que servem de base a refeições mais económicas, como as conservas e as massas. Isto sem contar com o fenómeno das marcas próprias (comercializadas pela grande distribuição), cuja quota de mercado tem vindo sempre a aumentar nos últimos tempos. Uma mudança de hábitos que tem como grande meta a poupança.»

0 comentários: