Quarta-feira, Junho 03, 2009

AF 447 — A CONFIRMAÇÃO

O penoso processo de luto de amigos e familiares das vítimas conhece agora uma nova fase. A recolha exaustiva, dentro do possível, dos destroços do aparelho permitirá porventura responder a algumas questões, mas as dificuldades são enormes, enorme é a área a recobrir. A Airbus, provavelmente, tem uma avançada noção preliminar sobre o que correu tão mal ao vôo AF 447. O que é que, no plano da meteorologia, pôde comprometer tão imediatamente a coesão estrutural de um avião como aquele? Algum tipo de gelo rápido de densidade e dimensões inabituais com que a fuselagem, por uma única vez, não pôde lidar? Alguma particularidade magnética, eléctrica, de ocorrência rara? Danos imperceptíveis acumulados aguardando um factor de ignição decisivo para o desastre? Enfim, para além do problema ser o próprio avião, conforme muito bem explanou Carlos Portugal, e também aqui se desenvolve, há que ponderar a hipótese de uma agressão ambiental absolutamente atípica: «Os destroços avistados pela Força Aérea brasileira no oceano Atlântico são “sem nenhuma dúvida” do avião da Air France que desapareceu quando viajava do Rio de Janeiro para Paris, disse o ministro da Defesa, Nelson Jobim, numa conferência de imprensa. Pouco depois, Brasília anunciava três dias de luto em memória das vítimas do acidente.»

9 comentários:

Margarida Pereira disse...

Não sendo, infelizmente, inédito, este acidente brutal também me tem mantido em angústia constante...
Dizer que se imagina o que eles passaram é uma falácia. Não imaginamos nada. Foi terrível e o nó na garganta impede as palavras ditas.
Marejam-se os olhos e somem-se os ditames.
Sofrer para exorcisar. Para acompanhar a dor indizível de quem tem o fardo desta saudade envolta nos terríveis últimos momentos.
Nada que possamos fazer por eles?
Prevenir que volte a suceder e orar sentidamente, é um caminho.
E acreditar.
Acreditar que há um propósito até - ou sobretudo - naquilo que ultrapassa a nossa vã compreensão...

manuel gouveia disse...

Comecemos agora o debate sério:

Na impossibilidade da cobertura por radar das rotas sobre o Atlântico, para quando utilizar o sistema de americano de rastreio por satélite?

Para quando um sistema alternativo de comunicação ao HF, impraticável em certas condições atmosféricas, por um via satélite?

Porque esperaram as autoridades Francesas para divulgar o desaparecimento do avião até à hora da sua chegada a Paris e não à sua hora de entrad no controlo aéreo do Atlântico Norte?

manuel gouveia disse...

Comecemos agora o debate sério:

Na impossibilidade da cobertura por radar das rotas sobre o Atlântico, para quando utilizar o sistema de americano de rastreio por satélite?

Para quando um sistema alternativo de comunicação ao HF, impraticável em certas condições atmosféricas, por um via satélite?

Porque esperaram as autoridades Francesas para divulgar o desaparecimento do avião até à hora da sua chegada a Paris e não à sua hora de entrad no controlo aéreo do Atlântico Norte?

joshua disse...

Manuel, sem dúvida sério, mas bastante delicado. Tudo o que elencas deveria ser barbaramente obrigatório há muito tempo.

Naturalmente que a gestão francesa do problema teve de ser e ainda é em atenção às severas dificuldades inerentes à Companhia e a quaisquer consequências de um tratamento menos correcto capaz de despoletar queixas e mais tarde indemnizações. A gestão do desaparecimento foi lenta e 'prudente'.

Depois há o problema da Airbus. Em época de crise e baixa de vendas, ser directo e absolutamente compreensivo, isto é, global no elencar dos problemas não é conveniente no plano comercial e no da imagem.

Ambos sabemos que a Airbus sabe imensamente mais acerca de este vôo e dos seus problemas terminais do que alguma facultará aos media.

O Luto e a dor sobrepõem-se às exigências da Razão e à fria consideração dos problemas.

Carlos Portugal disse...

Caro Joshua:

«Depois há o problema da Airbus. Em época de crise e baixa de vendas, ser directo e absolutamente compreensivo, isto é, global no elencar dos problemas não é conveniente no plano comercial e no da imagem.

Ambos sabemos que a Airbus sabe imensamente mais acerca de este vôo e dos seus problemas terminais do que alguma facultará aos media.»

Estou inteiramente de acordo. Aliás, nos voos que fiz em diversos Airbus, raro foi aquele que não teve problemas, alguns deles graves ou potencialmente graves, até estruturais. Inclusivamente a quebra do perno de suporte dianteiro do reactor esquerdo de um A-320, proveniente dos Açores. Aterrou em Lisboa num só reactor, com o outro descaído uns dez centímetros (dava para ver da cabina). Resta louvar o camandante, que soube aceitar a observação de um passageiro e regressar só num reactor.

Mas estas coisas - acidentes evitados quase (ou mesmo) por milagre - não são notícia, e a Airbus, como qualquer companhia ciosa dos seus dinheiros, não tem qualquer interesse em que se divulguem.

Francamente, preferia voar num velho DC-3 do que num destes Airbus. E que saudades tenho dos Boeing 747, 707, 727 e até dos pequenos e acanhados Caravelle!

Cumprimentos.

Carlos Portugal disse...

Querida Margarida:

Tem toda a razão. Apenas podemos orar e - dentro das nossas parcas possibilidades - pressionar companhias e construtores para evitar que tal não volte a acontecer. Um avião, mais do que ser moderno, tem de ser fiável, já que na aeronáutica a fiabilidade significa segurança. E a 10.000 metros sobre o meio do Atlântico uma avaria grave é inexoravelmente fatal.

E, como bem escreve, não dá para imaginar a angústia daqueles terríveis últimos momentos. Aperta-se-nos o coração e a garganta...

Talvez fosse bom pensar em se repor as rotas regulares de navios de passageiros entre os dois continentes, sem serem só de cruzeiro. É que a trágica lição do Titanic já foi aprendida na marinha mercante. E o conforto é incomparável.

Beijinho.

Carlos Portugal disse...

Caro Joshua:

Apenas uma adenda aos meus comentários acerca desta tragédia... Ao que parece, também o voo 191 da Tap, um outro Airbus que passava perto da rota do AF-447 na mesma altura, teve um «apagão» de cerca de uma hora nas luzes e vídeos da cabina (apagão esse negado - obviamente - pela Tap).

Mas não é caso único, infelizmente.

Na questão das travessias aéreas, em 11 de Maio de 1922, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a bordo do segundo hidroavião Fairey, baptizado «Pátria» (o primeiro, o Lusitânia, afundara-se na amaragem), ao passarem junto aos penedos de São Pedro e São Paulo (local muito próximo do da queda do Airbus), tiveram uma avaria da bússola e depois da parte eléctrica do motor. Amararam (era um hidroavião!) e tentaram desesperadamente reparar os fios em curto-circuito. Conseguiram-no, e levantaram voo em «marcha lenta» a rasar as águas, até que, uma hora depois, o motor parou de vez. Sem possibilidade de reparação do motor, os dois aviadores ficaram 9 horas à deriva até que, a meio da noite, foram encontrados por um cargueiro inglês.

Mas, se recuarmos no historial destes penedos solitários no meio do Atlântico, veremos que, logo em 1511, uma armada portuguesa que ia rumo ao Brasil perdeu-se durante a noite por... avaria das bússolas de marear e por o céu estar encoberto (impossibilitando a navegação pelas estrelas). Um dos navios encalhou nos penedos, abrindo o casco, Foi assim que estes foram descobertos.

Resta dizer que a zona é muito próxima do Equador, com perturbações magnéticas e meteorológicas graves, e que os penedos estão sobre uma falha geológica activa, que gera também alterações do campo magnético.

Que os Airbus tenham blindagem magnética das cablagens não duvido, mas esta está escalonada para uma determinada intensidade de campo, considerada «normal». Se é excedida...

Cumprimentos

joshua disse...

Caríssimo Carlos, parabéns pelo seu magnífico apanhado diacrónico altamente ensinante e que muito aproveitará ao olhar holístico de esta tragédia pelos meus leitores. Considere incondicionalmente casa e coisa sua este meu blogue.

Um Abraço

Carlos Portugal disse...

Caro Joshua:

Muito obrigado pelas suas amabilíssimas palavras. Sem querer abusar, vir a esta sua Casa é sempre um prazer.

Bem-haja.