DE SOLNADO NADA SE PERDEU

Li e reli, intimamente assombrado, a entrevista dada por Solnado a Duarte Mexia, 2002, "Pública". Como é possível o cotejo de factos pessoais a Raul iluminar-me a vida?! O que diz de si fala a qualquer português exactamente de si mesmo. Factos e Pessoa. Errância de Ulisses. Certeza de Penélope. Espelho colectivo. Ter havido Solnado! Há uma Lisboa imprecisa em cada português que obriga a zarpar. Sentimento de um caminho que se define e redefine no navegar. Necessidade fisiológica de Mar Alto e outras Ilhas onde se ame mais, máscaras caiam e castrações, apenas a fim de que finalmente floresça o âmago de um Homem entre e para os demais. Começar por ser humano. Em todas as coisas. Realização buscada, amores muitos, poucos, afectos todos, trabalho e felicidade, sensibilidades ideológicas em trânsito para a equidistância de quaisquer veleidades ideológicas ou ilusões políticas nas suas insensações a pés de barro. Acumula-se informação e alija-se a escória. Viver é sequenciar o ADN da dor que foi nossa, do prazer e da alegria que nos pertenceram quanto mais foram partilhadas. Solnado, passando, veio iluminar-me este Agosto triste, profundamente só, quando a solidão também é a mesquinhez ressabiada dos outros no seu silêncio medíocre, que não estende a mão nem constrói pontes. Veio-me dele também recordar quanta abominação nos deve merecer a Mentira. De que imortalidade se faz um só ser humano bom, capaz de nos tocar, com o mais sensível e intenso ardor, pela sua simples passagem no Mundo, sorrindo sempre, como Raul. Dádiva suprema de artista é ter sido e continuar sendo artesão de emoções alheias. Porque nada se perdeu, de Solnado retenho este pequeno testamento perene: 1. Homem raro, solidário e generoso. 2. Bondade e sabedoria sem pose. 3. Reencontro-prazer de estar com gente, conversar com gente. 4. Sabor renovado no luminoso convívio com os netos, agarrado à vida, amando-a. 5. Superação de toda a estreiteza de facção a que tantos se condenam. Cinco modos, entre mil, de não mais morrer: «Quando começou a fazer teatro amador todas as dúvidas desapareceram, e acabou por comunicar ao pai: "olhe pai, vou para o teatro". Foi. Em 53 estreou-se na revista com "Viva o Luxo", no Monumental. E no final da década no cinema com os filmes "Sangue Toureiro" e "O Tarzan do Quinto Esquerdo".»

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