VARGAS LLOSA, PROTESTO VIVENTE
Sangro o mesmo que Mario Vargas Llosa, quanto aos livros e à leitura. Cá, como no soneto camoniano* «Cá, nesta Babilónia, donde mana», sob um outro exílio da memória portuguesa e do brio português, temos os nossos grandes esquecidos da literatura, os quais, de tão obnubilados, sepultam o nosso carácter, a nossa percepção do belo, a vivência musical da nossa língua. E temos de arrostar com o lastro de uma sociedade com apreço sobejo por objectos e não mais pela alma capaz de olhar, vogar, sonhar, viajando por dentro, na medida em que leia. Vargas Llosa aprendeu a ler aos cinco anos, nas aulas do irmão Justiniano, no Colegio de la Salle, em Cochabamba, na Bolívia: «Essa foi a coisa mais importante que me aconteceu na vida... A leitura convertia o sonho em vida e a vida em sonho.»; «Seríamos piores do que somos sem os bons livros que lemos, mais conformistas, menos insubmissos e o espírito crítico, motor do progresso, nem sequer existiria»; «ler é protestar pelas insuficiências da vida.» Toda a leitura é pouca e o bálsamo espiritual escasso ao Portugal Terminal prometido para 2011. *«Cá nesta Babilónia, donde mana / matéria a quanto mal o mundo cria; / cá onde o puro Amor não tem valia, / que a Mãe, que manda mais, tudo profana; / cá, onde o mal se afina, e o bem se dana, / e pode mais que a honra a tirania; / cá, onde a errada e cega Monarquia / cuida que um nome vão a desengana; / cá, neste labirinto, onde a nobreza / com esforço e saber pedindo vão / às portas da cobiça e da vileza; / cá neste escuro caos de confusão, / cumprindo o curso estou da natureza. / Vê se me esquecerei de ti, Sião!»

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