Quarta-feira, Maio 04, 2011

POEMA, CARNE DE EMOÇÃO

«O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção nos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência. Emoção viva, sim, como aliás era de esperar, mas sempre a mesma, sempre simples, sempre simples emoção, sem auxílio crítico da inteligência ou da cultura. A ironia emotiva, a sutileza passional, a contradição no sentimento  não as encontrareis em nenhum dos nossos poetas emotivos, e são quase todos emotivos. Escrevem, em matéria do que sentem, como escreveria o pai Adão, se tivesse dado à humanidade, além do mau exemplo já sabido, o, ainda pior, de escrever. A demonstração fica completa quando conduzimos a análise à região da vontade. Os nossos escritores e artistas são incapazes de meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordenação, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos pelas emoção, não sabem o que é a disposição das matérias, ignoram que um poema, por exemplo, não é mais que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio.» Fernando Pessoa, in Portugal entre Passado e Futuro

1 comentários:

bmcr disse...

Acho que com provincialismo tanto tu como Pessoa se referem à falta de sentido crítico, à racionalização daquilo que sentimos e observamos.
E como disse ele prospera em Lisboa. Lembro o circo mediático em torno dos candidatos por Lisboa ou dos casamentos de Santo António.
Na lógica de muitos que circulam nos corredores da capital, o país, isto é, nós, os 10 milhões de portugueses, estamos suspensos pelos acontecimentos que eles vivem.