PUTATIVO E PARADOXAL BRILHARETE DE PASSOS

Há pouco menos de dois anos, um grande amigo, ex-militante socialista, costumava dizer-me: «Tu detestas Sócrates, mas quando Pedro Passos Coelho for Governo, vais ter saudades.» O meu caríssimo amigo manifestamente exagerava. Chegados aqui, olho para a Coligação PSD/CDS-PP e ainda espero por sinais e efeitos benéficos das suas decisões o que me obriga a ser benévolo por enquanto. Governantes, Países, homens, talis vita finis ita, isto é, «cada um morre como viveu». Ora, se era verdade que andávamos «a viver acima das nossas possibilidades», conviria clarificar quais de nós. O Estado partidarizado? Se dúvida tem sido esmagador dos indivíduos, especialmente através do assédio fiscal sem moderar atitudes nem se reformar rumo à frugalidade dos países nórdicos mais frugais e racionais com os recursos de todos. Daí a minha preliminar estranheza que a imposição de sacrifícios se aproxime do paroxismo do garrote sobre Funcionários Públicos e não se vislumbre outros implicados de peso nesse retrocesso sócio-económico. O corte dos subsídios de Natal para 2012 e 2013 parece-me a mim aquele passo sem retorno que, das duas uma, ou representará um surpreendente brilharete deste Governo no défice, à custa de muito aperto e inesperado empobrecimento de quem paga e não bufa, ou significará uma mudança radical de paradigma que nos tornará não já competitivos com espanhóis, franceses ou ingleses [nunca o fomos], mas directamente competitivos com o leste europeu e, talvez, com os mais estimulantes países da Ásia como a Coreia do Norte e mesmo a China do interior rural. Não sabemos o que pensar. É nessa linha que temos de ler Passos ao ter reconhecido na semana passada que o País teria de «empobrecer» para conseguir sair da crise. Mas já não seremos suficientemente pobres? Quem, neste Governo, está verdadeiramente do lado dos mais fracos?! Aceitarão os monopolistas e principais detentores de fortunas nacionais empobrecer também eles para o País no seu conjunto sair da crise? Quem acomoda o máximo de lucro num ano civil normal verá alguma espécie de corte de direitos ou regalias ou continuará imune ao fisco como desde há décadas? Aparentemente, só os Funcionários Públicos apanham pela medida grande nem que seja no plano simbólico. Sobre as prestações sociais é possível concluir que não se pode passar do oitenta ao oito. Será que o sonho do passos-coelhismo é o oito? Se sim, não parece nem viável nem racional, mas destituído de bom senso. Por outro lado, os benefícios sociais estão em risco, a sustentação a médio e longo prazo parece estar comprometida, pelo que será inevitável ficarmos mais perto do oito que do velho e pseudo-optimista oitenta. Entretanto, a taxação sobre os rendimentos do trabalho, em Portugal, ao contrário do que seria suposto, roça a obscenidade enquanto as mais-valias do capital permanecem isentas. Não seria de bom senso defender a taxação das grandes fortunas ou há a temer que os ganhos de leão nos cartéis e monopólios incrustados em Portugal desapareçam do País para se internarem ainda mais em paraísos fiscais?! É duvidoso para quem fica sempre a ganhar nesta lógica de casino em que se converteu a economia. Para o Governo, jogar pelo seguro significa limpar os desequilíbrios e ficções despesistas no Estado e jamais contar com transformações revolucionárias no contexto europeu. Nada há a esperar de uma acção de conjunto com os outros Países de cuja desgraça todos se demarcam e com a qual o que querem é nada ter a ver. Não se esperem resultados voluntaristas e heróicos, tipo remar contra a maré para que a Europa consiga ser e fazer o que obviamente nunca mais fará nem será.

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