quarta-feira, março 07, 2012

ESCUTAS, FUGA E MISTIFICAÇÃO

Já elogiei implicitamente Marques Mendes e volto a elogiá-lo pelas observações conclusivas à conduta asquerosa e reprovável do ex-primeiro-ministro José Sócrates enquanto tal. Não estamos aqui perante um combate entre partidos ou na óptica da destruição cega de um carácter porque sim ou por razões de luta de facções, mas perante todas as consequências do levantamento dos factos, indícios e elementos que testificam a violação sistemática dos bons princípios de Estado por parte de um agora ex-servidor. Já se percebeu que a deontologia jornalística, a moral pública, a ética privada e o Estado de Direito nunca se aplicam às violações de José Sócrates, mas podem ser invocados se vierem em seu auxílio a fim de desviar as atenções ou silenciar quem clama contra os seus lixos. Porque nada se passa na PGR, resta aos media fazer mossa em intocáveis. Na hora da verdade, quem lhes vale e por eles vela é Pinto Monteiro além da caducidade natural dos escândalos de cada dia. «Os assuntos morrem.», dizia sintomaticamente António Morais ao telefone. Por mais horrendos, por mais reveladores de um carácter mau e abusivo. Daí que a honestidade intelectual em Marques Mendes não tenha mácula porque as escutas que o Correio da Manhã divulgou respeitam a legalidade da sua divulgação, anterior conservação, anterior transcrição e anterior captação, coisas secundárias perante o que está em causa e é gravíssimo: objectivamente, Sócrates, acolitado pelo seu 'ex-professor' António Morais, condicionou Arouca, tentou concertar versões sobre a sua licenciatura diluída na memória, quando todos os factos e documentos indicam que não houve qualquer licenciatura, nem trabalho sério, nem frequência, nem exames, nem estudo, nada. Neste caso, não se invoque violação da privacidade de um concidadão pela simples razão de que esse concidadão assumiu responsabilidades públicas e cargos de altíssima relevância e delicadeza que o tornam exaustivamente escrutinável e responsabilizável por nós. No caso da pseudo-licenciatura, a reprovação geral exerce-se retroactivamente pelo efeito dissoluto e revelador de um carácter e da sua falta de escrúpulos. As escutas documentam um mau exemplo para a sociedade. Por alguma razão misteriosa, os actos do ex-primeiro-ministro não obtiveram nem cabal esclarecimento nem a ruptura do manto diáfano da sua igualmente inimputabilidade.

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