quarta-feira, maio 15, 2013

A GRISALHA MANELA E O GRISALHO SILVA LOPES

Não poderia haver maior Babel que o comentário político-económico em Portugal, se por trás não houvesse uma teia de interesses particulares e de estômagos inseparáveis dos seus privilégios, enquanto a maioria definha e morre. Manuela Ferreira Leite, por exemplo, tem sido uma acérrima defensora das suas pensões e das decisões de atrito, óbice e agravamento do Tribunal Constitucional. Fá-lo com argumentos legitimistas mais emocionais que racionais, mais tacticistas e politiqueiros que radicados na gestão fria das contas públicas, talvez desconhecedora das extremas dificuldades com que os portugueses encheram vinte aviões para ir ver o Sport Lisboa e Benfica brilhar em Amesterdão. Pois agora, corajoso num ponto lá, onde em tantas matérias não o foi, especialmente aquando das governações deprimentes do Partido Socialista, vem o antigo ministro das Finanças Silva Lopes defender as taxas sobre as pensões que o Governo [a Troika, Bruxelas, Berlim, o Inferno] quer aplicar em alternativa às medidas chumbadas pelo Tribunal Constitucional. 

Porquê? Porque, diz Silva Lopes, «não há outro remédio».
Porque a geração mais nova está a ser asfixiada pelos mais velhos, vocifera. Porque a geração grisalha não pode asfixiar a geração nova da maneira como tem feito até aqui, garante. Não pode ser, insiste: «Eu sou pensionista, sou da geração grisalha, quem me dera a mim que não toquem nas reformas, mas tocam, vão tocar e eu acho muito bem. Não há outro remédio.»

Silva Lopes parece ser daqueles que reconhecem muitas injustiças em matéria de pensões e reformas, talvez mesmo a sua e a de muitos políticos e privilegiados reformados aos 40 ou 50 anos e outras distorções da Justiça, e que é de todo impossível, nesta e noutras matérias, ter sol na eira e chuva no nabal. De resto, cada decisão constitucionalíssima do Tribunal Constitucional, ao não dar aval a algumas das medidas de absoluta emergência inscritas no Orçamento do Estado para 2013, só tem cavado o agravamento da crise em Portugal, uma vez que à pala da recusa daquelas, o Governo, a Troyka, Bruxelas, Berlim, o Inferno, apresentam-nos alternativas cada vez mais gravosas, ainda que, segundo muitos, mentindo e escamoteando outro tipo de medidas que o Partido Socialista ainda não apresentou e o CDS-PS, vasculhando por todos os caixotes e interstícios da Reforma do Estado, também não vislumbra. 

Neste ponto, Silva Lopes parte mesmo a loiça e mostra-se uma espécie de anti-Manela e anti-chorão Seguro e anti-Portas, fazendo da Manela, do Chorão Seguro e do Portas três indignados segundo a óptica do que soa mais manso e melhor. A primeira, corporativa, sem sentido do todo. O segundo meramente cantando a música mais doce, o terceiro em negaças, esquivas e jogos de cintura. Porém, Silva Lopes, um ancião com alguma autoridade para falar, é taxativo: «Sou a favor da contribuição de solidariedade social, sou a favor desta taxa que o Governo agora promete e que, se calhar, também vai ser declarada inconstitucional. E digo uma coisa: se nós temos a Constituição e a interpretação do Tribunal Constitucional a impedir estas coisas, isto rebenta tudo.»

Então a líder da Oposição Portas, Manuela Ferreira Leite e o seu ajudante Seguro querem que isto rebente tudo? Não seria ideal evitarmos, por todas as formas, um segundo resgate, agora que a França atascou na recessão, a Alemanha está lá muito perto e a insuspeita Holanda está a viver, afinal, gigantescamente acima das suas possibilidades e com uma bomba entre mãos?! Estamos, é certo, num nível de austeridade insustentável. A pressão é total. Saídas? Silva Lopes, um sustentáculo dos Governos Sócrates pelas opiniões sucessivamente favoráveis, quando toda a gente já estava a ver o filme, não deixa de surpreender, debitando ao arrepio dos grandes coreutas de uma desgraça anunciada. Não se pode dizer que esteja cego, seja covarde ou raciocine segundo as lógicas estritamente político-partidária: «A decisão do Tribunal Constitucional vai custar-nos muito, muito caro». Com esta história das pensões, o melão está bem à vista.

2 comentários:

Anónimo disse...

Mas v. acredita mesmo que se a TSU de Set e os cortes chumbados pelo TC tivessem ido para frente não estaríamos na mesma? Isto é, a sofrer mais umas alcavalas além daquelas? Que ingénuo! Isto só acabará ou pela força ou por inanição. Espero que pela primeira!
moz

Floribundus disse...

há muito que deixei de ser grisalho.
vamos ter de viver com o que conseguirmos produzir.
falta tecnologia e vontade de trabalhar