domingo, dezembro 29, 2013

UMA BOA FARSA

File:Louis-Philippe de Bourbon.jpg
Louis-Philippe I,
o último rei dos franceses.
Uma manhã do mês de Dezembro,
quando te dirigias para o curso de Processo,
julgaste notar na rua Saint-Jacques mais animação do que de costume.
Os estudantes saíam precipitadamente dos cafés,
ou, pelas janelas abertas, chamavam-se de cada para casa;
os lojistas, no meio do passeio, observavam com ar inquieto;
as persianas fechavam-se;
e, quando chegaste à rua Soufflot,
viste um grande ajuntamento à volta do Panteão.

Jovens, em bandos desiguais de cinco a doze,
passeavam dando o braço uns aos outros,
e abordavam os grupos mais consideráveis
que estacionavam aqui e além, no fundo da praça,
encostados ao gradeamento,
homens de blusa discursavam,
ao passo que, de tricórnio sobre a orelha e mãos atrás das costas,
polícias erravam ao longo das paredes,
fazendo ressoar nas lajes as suas fortes botas.

Todos tinham um ar misterioso,
surpreso; aguardava-se alguma coisa evidentemente;
cada um continha na ponta dos lábios uma interrogação.

Achavas-te ao pé de um jovem loiro, de rosto aprazível,
e que usava bigode e barbicha como um elegante do tempo de Luís XIII.
Perguntaste-lhe qual a causa do movimento.
─ Nada sei ─ replicou o outro ─, nem eles!
É o seu modo de ser actual!
Que boa farsa!
E desatou a rir.

sábado, dezembro 28, 2013

MUDAR PARA MELHOR

Se o Povo quiser mudar de ares, se tiver um gesto de reprovação democrática do torpe e traiçoeiro caminho seguido até aqui [mais corrupção que progresso, mais desigualdade que justiça], escolherá a Monarquia por aclamação, mal tenha a oportunidade para se pronunciar e a lucidez para se pronunciar. A mim nada me repugna mais que saber estar a pagar, mesmo no ápice da minha pobreza e a de milhões, as pompas dos soares, as mordomias dos sampaios, sendo que cada vez que um presidente se torna ex-presidente transforma-se em ónus e despesa duplicada, triplicada, ao depauperado Erário, depois de uma vida de partidarização e favorecimento descarado à sua facção. Excluo deste rol Eanes porque foi o único abnegado, apartidário e por isso digno dos ex-presidentes: recusou as prebendas que a elite política engendrou para si mesma, uma vez fora do activo. Um Rei é livre. Não tem nem pode ter facção. Serve somente Portugal por quem dá a vida durante toda a vida. E se há coisa de que Portugal vai necessitar neste século é de Liberdade: um sentido de independência mais vincado e mais forte, dada a aglutinação federalista de fortes sobre fracos nesta União Europeia Frankenstein.

A Democracia é fantástica porque permite precisamente mudanças em paz, transformações serenas. Acomoda abstenções massivas e humilhantes na eleição de sucessivos governos e autarquias, com quase metade das populações a abster-se do exercício democrático do voto, direito que custou muito sangue a adquirir, mas permite que o mesmo Povo, em protesto abstémio no voto de governos, parlamentos e autarquias, se pronuncie esmagadoramente numa questão que realmente lhe importe. A Liberdade. A Isenção e a Estabilidade do seu representante político máximo. Os timorenses tiveram o seu Referendo Nacional. E foi a ânsia e o quórum pleno que se viram! Nós ainda não tivemos verdadeiramente um Referendo ao Regime, que aliás nos traiu porque depois de nos ter dado a cenoura das liberdades e garantias nos sonegou o progresso, a riqueza, a justa distribuição dela, cavalgando-nos e explorando-nos. Ai de quando pudermos dizer em liberdade qual a forma de Regime sob a qual queremos viver! Num Regime CleptoPlutocrático das Corrupções Protegidas e Comentadeiras na TV? Num Regime das bancarrotas sucessivas e sistémicas?! Num Regime com Justiça Dual, ricos-pobres, na mais completa falta de vergonha e de decência nesta desigualdade perpétua vergonhosa?! Ou num Regime Democrático, Aberto, com um representante acima dos partidos, acima dos Bancos, acima dos Escritórios de Advogados da Capital, acima dos Juízes, acima dos Sindicatos dos Transportes, acima das Corporações Cartelizadas da Energia e das Telecomunicações? Gostava de poder escolher. A República é linda, mas não nos fez nem faz felizes. Falhou. Temos o direito democrático à felicidade pela mudança a ver se desta vez, mudando, não falhamos.

quinta-feira, dezembro 26, 2013

NO TEATRO DO PALAIS ROYAL

Uma noite, no teatro do Palais Royal,
viste num camarote de boca,
Arnoux junto de uma mulher. Era ela?
O cortinado de tafetá verde,
puxado no rebordo do camarote,
ocultava-lhe o rosto.

Por fim o pano subiu;
o cortinado foi corrido.
Era uma pessoa alta,
de cerca de trinta anos, gasta,
e cujos lábios grossos descobriam,
ao rir, dentes esplêndidos.
Conversava familiarmente com Arnoux
e batia-lhe com o leque nos dedos.

Depois uma jovem loira,
de pálpebras um pouco vermelhas
como se estivesse estado a chorar,
sentou-se entre eles.
Arnoux passou a estar meio inclinado sobre o seu ombro,
dirigindo-lhe palavras que ela ouvia sem responder.

Esforçavas-te por descobrir a condição destas mulheres,
com modestos vestidos sombrios e golas abatidas.

No fim do espectáculo,
precipitaste-te para os corredores.
A multidão enchia-os.
Arnoux, à sua frente, descia a escada,
degrau a degrau,
dando o braço às duas mulheres.

terça-feira, dezembro 24, 2013

TULIPAS

The Netherlands during tulip season.
The Netherlands during tulip season.

HALLELUJAH

E HABITOU ENTRE NÓS

«O Dia do Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; 
e de nenhum modo escaparão.» 1 Tessalonicenses 5, 1-3
A espiritualidade dos nossos antepassados está viva no nosso íntimo 
porque nos foi transmitida com imenso amor, 
um amoroso silêncio eloquente: 
Ele fez-Se Carne e habitou entre nós. 
Fez-se um de nós para nos absorver deste holograma tridimensional 
para a Plenitude Quadridimensional da Vida Eterna, o Pleroma. 

E Ele vem, está à Porta e bate. 
Na Parusia quotidiana e na hora do ladrão.

BLOOD IN MY EYES

ASSIM SE ESCOAVAM OS DIAS

Quiseste divertir-te.
Foste aos bailes da Ópera.
Estas alegrias tumultuosas gelavam-te logo à porta.
Aliás, sentias-te retido pelo receio de uma afronta pecuniária,
imaginando que uma ceia com um dominó provocaria despesas consideráveis,
era uma aventura arriscada.

Parecia-te, no entanto, que deviam amar-te.
Por vezes, despertavas com o coração pleno de esperança,
vestias-te cuidadosamente como para uma entrevista,
e davas em Paris voltas intermináveis.

Perante cada mulher que caminhava à tua frente,
ou que avançava ao teu encontro, dizias para contigo: «Cá está ela!».
Era, sempre, uma nova decepção.
A ideia da Senhora Arnoux fortificava estas cobiças.
Talvez a encontrasses no caminho;
e imaginavas, para abordá-la, complicações do acaso,
perigos extraordinários de que a salvarias.

Assim se escoavam os dias,
na repetição dos mesmos tédios e dos hábitos contraídos.
Desfolhavas brochuras nas arcadas do Ódeon,
ias ler a Revista dos Dois Mundos para o café,
entravas numa sala do Colégio de França,
escutavas durante uma hora uma lição de chinês
ou de economia política.

Todas as semanas, escrevias extensamente a Deslauriers,
jantavas de vez em quando com Martinon,
vias às vezes o Sr. de Cisy.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

ROMANCISTA ENFASTIADO

Pôr-do-sol em Veneza, Claude Monet.
Um remorso assaltou-te.
Voltaste ao curso.
Mas como não conhecias nada das matérias elucidadas,
coisas muito simples embaraçaram-te.

Puseste-te a escrever um romance intitulado:
Sílvio, o filho do pescador.
A coisa passava-se em Veneza.
O herói eras tu próprio;
a heroína a Senhora Arnoux.
Ela chamava-se Antonia;
e, para obtê-la, assassinavas vários fidalgos,
queimavas uma parte da cidade
e cantavas debaixo da varanda dela,
onde palpitavam à brisa
os toldos de damasco vermelho do bulevar Montmartre.

As reminiscências demasiado numerosas
de que te apercebeste desencorajaram-te;
não foste mais longe,
e o teu fastio redobrou.

domingo, dezembro 22, 2013

REVÉRBEROS NA LAMA

«Os bicos de gás acendiam-se; e o Sena...» Candeeiros de gás, Paris, 1877-1878.
Depois voltavas a subir lentamente as ruas.
Os revérberos oscilavam,
fazendo estremecer na lama longos reflexos amarelados.

Sombras deslizavam na berma dos passeios,
com guarda-chuvas.
O pavimento estava gorduroso,
a bruma caía,
e parecia-te que as trevas húmidas,
envolvendo-te,
desciam indefinidamente ao teu coração.

sábado, dezembro 21, 2013

O DESDÉM

Ias jantar, mediante quarenta e três soldos o prato,
num restaurante, rua da Harpe.
Encaravas com desdém o velho balcão de mogno,
as toalhas manchadas,
a baixela gordurosa
e os chapéus pendurados na parede.

Os que te rodeavam eram estudantes como tu.
Falavam dos professores, das amantes.
Queriam bem saber dos professores!
Acaso tinhas tu uma amante?

Para evitar as suas alegrias, chegavas o mais tarde possível.
Restos de comida cobriam todas as mesas.
Os dois criados cansados dormiam nos cantos,
e um cheiro a cozinha,
a candeeiro de bomba
e a tabaco enchia a sala deserta.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

MULHERES



Mulheres, indolentemente sentadas em caleches,
e cujos véus flutuavam ao vento, desfilavam junto de ti,
no passo firme dos seus cavalos,
com um baloiço insensível que fazia estalar os coiros envernizados.
As carruagens tornavam-se mais numerosas,
e, afrouxando de andamento a partir do Rond Point,
ocupavam toda a via.

As crinas estavam perto das crinas,
as lanternas das lanternas;
os estribos de aço, as barbelas de prata, as fivelas de cobre,
lançavam aqui e além pontos luminosos
entre os calções curtos, as luvas brancas e as peles
que caíam sobre o brasão das portinholas.

Sentias-te como que perdido num mundo longínquo.
Os teus olhos erravam pelas cabeças femininas;
e semelhanças vagas traziam-te à memória a Senhora Arnoux.
Imaginava-la, no meio das outras,
num daqueles pequenos cupés,
idênticos ao cupé da Senhora Dambreuse.

Mas o sol declinava,
e o vento frio erguia turbilhões de poeira.
Os cocheiros metiam o queixo nas gravatas,
as rodas punham-se a girar mais depressa,
o macadame rangia;
e todas as equipagens desciam em trote vivo a longa avenida,
roçando-se, ultrapassando-se,
afastando-se umas das outras,
depois, na praça da Concorde,
dispersavam.

Atrás das Tulherias, o céu adquiria a cor das ardósias.
As árvores do jardim formavam duas massas enormes violáceas no alto.
Os bicos de gás acendiam-se;
e o Sena, esverdeado em toda a sua extensão,
rasgava-se em ondas prateadas de encontro aos pilares das pontas.

UMA EXPOSIÇÃO GENIAL

quinta-feira, dezembro 19, 2013

O SR. DE CICY

Fizeste na Escola um outro conhecimento,
o do Sr. de Cisy, filho de grande família
e que parecia uma donzela, devido à gentileza dos seus modos.

O Sr. de Cisy ocupava-se de desenho, gostava do gótico.
Diversas vezes fostes juntos admirar a Sainte-Chapelle e Notre-Dame.
Mas a distinção do jovem patrício encobria uma inteligência das mais pobres.
Tudo o surpreendia;
ria muito do mínimo gracejo,
e mostrava uma ingenuidade tão completa,
que tu o tomaste a princípio por um brincalhão,
e, finalmente, o consideraste como um palerma
dos mais completos.

LIBERDADE TOTAL E ABSOLUTA

MARTINON

Camille Corot, Mulher com uma Pérola
Não entendo as tuas indisposições, Frédéric.
Não têm causa razoável pois não podes invocar qualquer infelicidade,
Não compreendo nada das tuas lamentações sobre a existência.
Eu, sim, vou todas as manhãs à Escola,
passeio depois pelo Luxembourg,
tomo à tardinha a meia chávena no café,
e, com mil e quinhentos francos por ano
e o amor desta operária,
sinto-se perfeitamente feliz.

quarta-feira, dezembro 18, 2013

MISSA A QUATRO VOZES

O TEU TÉDIO NA RUA SAINT-HYACINTHE

E decidiste-te por um quarto no segundo andar,
num hotel mobilado, rua Saint-Hyacinthe.

Transportando debaixo do braço uma pasta nova em folha,
dirigiste-te para a abertura dos cursos.
Trezentos jovens, de cabeça descoberta,
enchiam um anfiteatro onde um velhote de sotaina vermelha
dissertava numa voz monótona.
Penas rangiam sobre o papel.
De novo o odor poeirento das aulas,
uma cadeira com a mesma forma, o mesmo tédio!
Sem paciência, abandonas as Institutas na Summa divisio personarum.

As alegrias que a ti próprio tinhas prometido não apareciam;
e, quando esgotaste um gabinete de leitura,
percorreste as colecções do Louvre,
foste várias vezes de seguida ao espectáculo,
caindo numa ociosidade sem fundo.

Mil coisas aumentavam a tua tristeza.
Tinhas de contar a roupa e aturar o porteiro,
rústico com ares de enfermeiro,
que vinha de manhã fazer-te a cama,
cheirando a álcool e resmungando.

O apartamento, enfeitado com um relógio de pêndulo de alabastro,
desagradava-te. As paredes divisórias eram finas;
ouvias os estudantes a fazerem ponche, a rirem e a cantarem.
Farto desta solidão,
procuraste um dos seus antigos camaradas, Baptiste Martinon.
E descobriste-o numa pensão burguesa
da rua Saint-Jacques, engolindo o seu Processo,
diante de um lume de carvão de terra.

Em frente dele, uma mulher com um vestido de chita passajava-lhe as peúgas.

terça-feira, dezembro 17, 2013

A UNS OLHOS GLAUCOS

De longe, graças à tua pouca altura, ainda parecias novo.
Mas os teus raros cabelos, brancos, os membros débeis
e, sobretudo, a palidez extraordinária do teu rosto,
acusavam um temperamento malbaratado.

Uma energia impiedosa repousava-te nos olhos glaucos,
mais frios do que olhos de vidro.
Tinhas as maçãs do rosto salientes,
e mãos com articulações nodosas.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

O SR. DAMBREUSE

Gustav Flaubert
«O Sr. Dambreuse tinha como nome verdadeiro o de conde de Ambreuse; mas, desde 1825, abandonando aos poucos a sua nobreza e o seu partido, voltara-se para a indústria; e, o ouvido em todas as repartições, a mão em todas as empresas, à espreita das boas ocasiões, subtil como um grego e laborioso como um natural de Auvergnat, havia acumulado uma fortuna que se dizia considerável; além disso, era oficial da Legião de Honra, membro do Conselho Geral do Aube, deputado, par de França um dia destes; querendo ser amável, cansava o ministro com os seus pedidos contínuos de auxílio, de cruzes, de lojas de tabaco; e, nos seus arrufos contra o poder, inclinava-se para o centro esquerda. A mulher, a linda Senhora Dambreuse, que os jornais de modas citavam, presidia às assembleias de caridade. Adulando as duquesas, apaziguava os rancores do nobre subúrbio e deixava crer que o Sr. Dambreuse ainda podia arrepender-se e ser prestável.» 
A Educação Sentimental, Gustav Flaubert

quinta-feira, dezembro 12, 2013

PS EVISCERADO

Nada como ver por dentro de que é feito o Partido Socialista.

VÁ, PLEBISCITE-ME, POR FAVOR!

VIDA DURA

Foto: Não perca, na edição de dezembro, a Constituição do Homem Livre. Amanhã nas bancas.

YIELDS ABAIXO DOS 6%

Grão a grão. Monitorizar o comportamento das yields portuguesas aqui,
no sítio do costume.

BALA DE BORRACHA

terça-feira, dezembro 10, 2013

MARTE INCITA E SEDUZ

Vivemos indiscutivelmente uma época das mais estimulantes, no plano Científico, e cujas descobertas não são para medíocres, egoístas e mesquinhos: o Cosmos é a casa de biliões elevado a biliões de oportunidades para a Vida, a Alma, a Inteligência, num dinamismo impressionante. Não tardaremos a descobri-lo e logo no nosso quintal planetário.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

RUI RIO, MEDOS DE UM SURFISTA POLÍTICO

Rio não tem uma noção muito clara do que quer fazer no PSD nem do grau de adesão do eleitorado à sua pessoa e projecto, caso existam. Grande parte dos apoiantes de Passos, da maior parte do que o Passismo fez bem, tem vergonha em assumi-lo porque a fronda situacionista e imobilista grita mais alto, tem mais antena, e ameaça todas as semanas com golpes de Estado o Governo e o Presidente da República. Quem apoia Passos não quer destoar. Esconde-se e não o assume. Mas também os que dão como favas contadas a derrota deste líder do PSD e deste Primeiro-Ministro deve perguntar-se por que motivo as intenções de voto das mais recentes sondagens dão um PSD bastante resistente na casa acima dos 20%; e devem interrogar-se se é líquido que este Ajustamento falhe, agora que a meta pode finalmente ser cruzada. Significa isto que mais de meio País está na expectativa quanto ao desfecho final da Intervenção Externa e quanto à nossa recuperação. As boas ou más notícias e os bons ou maus resultados na economia farão com que as coisas pendam ou contra ou a favor da reeleição de Passos Coelho. Seguro e Rio poderão nunca colher os melhores frutos da Dura Austeridade Concentrada em três anos de Passismo. Por isso genericamente concordo com Luís Rosa, menos na importância desestabilizadora que atribui a Aula Mini da Social Democracia. E digo mais: talvez só mesmo Pedro Passos Coelho possa beneficiar da governação do mesmo Pedro Passos Coelho, sendo reeleito em próximas legislativas. Não por ser excelente, mas por ter sido eficaz no essencial e ter suportado um insultuoso tsunami de demagogia e facilitismo sem ter cedido.

NÓS QUEREMOS SAIR. ELES, ENTRAR

Erin B Taylor
Erin B Taylor
É adorável que digam bem de nós e muito bom ver-nos segundo olhos alheios. Concordo e subscrevo:
«9. The Portuguese tend to underestimate their own country. They will tell you that it is always in crisis, that it is badly managed, their bureaucracy is a nightmare, everything is so expensive, and so on. But actually, despite the current crisis, it compares very well to most other countries I’ve spent time in, so much so that I’d quite happily see out the course of my natural life here. You can buy fantastic bottles of wine for a few euros, the transport system is well-designed and aesthetically pleasing, it is constantly sunny over summer, and people are very polite and helpful. The result of all this is that many Portuguese want to escape to another country, while everyone else seems to want in!» 

O ACIDENTAL GEORGE HICKEY

Mortal Error: The Shot That Killed JFK

quarta-feira, dezembro 04, 2013

EVOCAÇÃO DE JACQUELINE ENQUANTO JOVEM

Mulher, não interessa a verdade,
nada interesse à tua face de anjo,
senão que já passou.
Agridoçura seria em qualquer caso
teres vivido metades de metades de verdades,
chumbo comum a mortais e que cimenta o mystério.

Nada te pese,
somente que houve um tempo pétala para a tua beleza,
um tempo ominoso para o carácter dele,
para alento e sorriso útil de muitos e muitas
e talvez isso baste.

E um dia o baque, o fim do charme.
Ter um só de morrer e esse um ser ele, inerme,
um só, outro, pela totalidade da carne, destinos de alma
um só, outro, por todo um Hemisfério sob ameaça
de aniquilação e conflito letal!
Um só, outro, pela multidão, velha reedição,
troca. Outra vez.

Dia do teu absurdo.
Dia do teu Sentido,
Mulher!

terça-feira, dezembro 03, 2013

FRONDA EM TORNO DO NADA E DA AMARGURA

«E todas pareciam ressentidas, amarguradas, fora do tempo. Era um encontro de reformados. 
De gente que pode ter tido um grande passado 
mas que vive o drama de não ter futuro.»
«As imagens transmitidas pela TV do encontro das esquerdas na Aula Magna fizeram-me imensa impressão. A idade da maioria das pessoas era bastante avançada.Figuras que eu conheci relativamente novas estavam ali velhas, a defender ideias diferentes das que defendiam antes. E todas pareciam ressentidas, amarguradas, fora do tempo. Era um encontro de reformados. De gente que pode ter tido um grande passado mas que vive o drama de não ter futuro. E unida apenas por sentimentos negativos de vingança ou ressentimento. Não as animava um projecto, não havia uma vontade comum, não queriam construir nada; a única coisa que pretendiam era deitar abaixo o Presidente da República e o Governo. Aquelas pessoas reviviam o tempo do PREC, da agitação irracional, da emoção incontida, a que nem faltou uma sublevação das forças da ordem. Mas já lá vamos. Embora fosse uma reunião das esquerdas, existia uma distinção clara entre nobreza e povo: os 'nobres' sentavam-se num sector isolado à frente (onde estavam Almeida Santos, Ferro Rodrigues, Maria de Belém, João Semedo, etc., e em que havia muitas cadeiras vazias), o 'povo' apinhava-se atrás e aplaudia com muito mais convicção. Julgo que Mário Soares, Pacheco Pereira e outros que lutaram contra o PCP no pós-25 de Abril não se terão sentido confortáveis a receber o aplauso cúmplice dos militantes do PCP e do BE, que enchiam a zona reservada ao 'povo'. Mas pior seria se Freitas do Amaral e António Capucho, que chegaram a estar previstos, tivessem ido. Como se sentiriam estes, que nunca andaram pelas 'esquerdas', no meio de tanta gente ululante, de punho direito erguido? Embora as pessoas reunidas na Aula Magna dissessem querer defender a Constituição, na realidade estavam a afrontá-la. Porque exigiam a demissão de um Presidente e de um Governo democraticamente eleitos. Aliás, Soares deveria lembrar-se que foi esmagadoramente batido por Cavaco Silva nas eleições de 2005, e que, há menos de três anos, Cavaco teve mais votos do que todos os candidatos da esquerda juntos. Que legitimidade tem Soares para exigir a demissão do PR e do Governo? E sabe o que isso custaria ao país em termos de desconfiança internacional e de juros? Em qualquer sociedade há uma linha que separa o que é aceitável e democrático do que é antidemocrático. Os que estiveram na Aula Magna puseram-se do lado de lá dessa linha. Colocaram-se fora do campo democrático. Foi exactamente por isso, aliás, que António José Seguro não foi: porque quer que o seu partido continue do lado da legalidade. Não quer misturar-se com gente que diz que é preciso «correr com eles à paulada». Neste sentido, a presença de António Costa foi um tanto desconcertante. Mas é preciso ver que Mário Soares o apoiou ao longo da vida, que o seu pai era comunista, e que portanto tem tradições nesta área. O que não se percebe mesmo é a associação à iniciativa por parte do presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira. Ele subiu ao poder apoiado pela burguesia do Porto - aquela burguesia liberal a que pertenceu Sá Carneiro e inclui advogados da Foz, empresários, banqueiros, bem como gente humilde que tem empurrado o país para a frente; ora, que pontos de contacto poderá haver entre estas pessoas e a esquerda serôdia da Aula Magna? Quando a Aula Magna estava ao rubro, com Soares a discursar, tinha lugar em S. Bento um ensaio do 'assalto ao Palácio de Inverno'. Polícias manifestavam-se em frente do Parlamento, forçavam o cordão policial e invadiam a escadaria. E enquanto os agentes aos gritos subiam os degraus, os manifestantes da Aula Magna aplaudiam frenéticos. Foi uma verdadeira cena de filme. Mais uma vez se percebia quem estava do lado da legalidade e quem não estava. Sobre estes acontecimentos, gostaria de dizer o seguinte: a Polícia é vista como um exemplo pelos cidadãos e por isso tem responsabilidades especiais. Um polícia não pode desrespeitar a lei, pois a sua missão é exactamente defendê-la. Aqueles polícias que invadiram as escadarias colocaram-se a si próprios numa posição insustentável: como vão amanhã impedir manifestantes civis de fazerem o mesmo? Que autoridade terão para isso? E os colegas que os deixaram furar a barreira terão cumprido as suas obrigações? Na Avenida 24 de Julho, centenas de camionetas de turismo, que tinham trazido de todos os pontos do país os polícias rebeldes, esperavam pelo fim da manifestação. O cenário fez-me lembrar os dias em que a CGTP se manifesta. Muitos daqueles guardas seriam simpatizantes da central sindical comunista. Ora é muito difícil servir ao mesmo tempo dois senhores. Ninguém é obrigado a ir para a Polícia - mas, quem vai, aceita o encargo de defender o cumprimento da lei e respeitar as instituições. Os polícias que invadiram as escadarias de S. Bento, aplaudidos pelos manifestantes da Aula Magna, transpuseram também a linha que separa o legal do ilegal - e portanto puseram-se fora da lei. Espero que o país perceba o perigo que isso representa. De hoje para amanhã os polícias podem virar-se contra as instituições que se comprometeram a defender. Podem virar-se contra a democracia.» 

E AGORA, PORTUGUESES?

Adelie Penguin
Não há solução para os Estaleiros de Viana?
O Estado. O Estado. O Estado.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

MANOBRAS MEDIÁTICAS PCP, BE, SOCRATESIANOS

Ora vamos lá descodificar a eterna calmaria das nossas massas:

«Depois abortada manif a pé na Ponte, o PC mudou a táctica de protestos. Através da CGTP, sua principal organização de massas, ocupou quatro ministérios; promoveu a acção ilegal dum piquete na greve nos CTT; organizações de polícias, associadas ao PC, romperam o cordão policial em S. Bento. 
Porquê a nova táctica? A mobilização de grandes massas pelo PC diminuiu muito nos últimos meses, como se viu em Alcântara. Depois do êxito de 2012, a manif ‘Que Se Lixe a Troika' fracassou em 2013. As massas cansaram-se da rua. O PC voltou, pois, à táctica de 1975: um pé dentro e um pé fora da legalidade. 
É um toca e foge: polícias em S. Bento e o piquete de greve nos CTT rompem com a lei, mas sem violência; militantes sindicais invadem ministérios, mas sem estragos; 30 pessoas manifestam-se sem autorização frente à casa de Passos em Massamá; funcionários da câmara PC na Moita apupam Maria Cavaco Silva. O PC quer manter a fachada de amante da legalidade - Jerónimo falou da "ilegalidade" dos polícias em S. Bento - ao mesmo tempo que está à frente, ou por trás, dessas acções à beira ou fora da lei. Opta por uma táctica que o ilibe de ilegalidade. 
E assim desgasta o poder eleito do Presidente e do governo. Este mostra não ter receio, mas Cavaco está "amedrontado", como disse um arguto Soares. 
Sem conseguir grandes manifes que façam cair o governo, com sondagens mostrando a oposição dos portugueses a eleições antecipadas, o PC faz acções de grande visibilidade mediática, talvez esperando que alguma delas desencadeie violência que leve um Cavaco fraco a convocar eleições. O PC precisa de acções que só existam pelos media, em especial nas TVs. 
Arménio Carlos disse, sobre as invasões "secretas" dos ministérios, que precisa de "puxar pela imaginação", isto é, de imaginar acções que atraiam as TVs: os PCs ocupantes dos ministérios enviaram mensagens convocando as TVs, nomeadamente a SIC, que esteve nas quatro invasões. Sem massas na rua, o PC tem as TVs para criar desgaste. Sem a cobertura televisiva, estas iniciativas de umas dezenas não teriam qualquer impacto. Talvez o PC nem as organizasse. 
É uma nova era: não do espaço público, mas do ecrã público. Não pode durar muito: a táctica de desgaste também se desgasta. Mas o PC, com o BE e a facção socratinista do PS, tem de arriscar. Não tem muito tempo: se a economia melhorar no primeiro semestre, só uma inesperada violência de rua, resultante dalguma acção minoritária, conseguiria derrubar o governo. E, sem as TVs, isso não poderá acontecer.»

domingo, dezembro 01, 2013

SUITE BERGAMASQUE

MARINHO, BALUARTE EM BRUTO

Degustei delongadamente a longa entrevista de Marinho e Pinto ao Público. Parece absolutamente livre e independente e em muito o será, concedo. Mas fundamentalmente deixa falar as vísceras e é com elas e por elas que se move e não por princípios de coerência inatacáveis. Sensibilizou-me a ternura reverencial pela sua Mãe. Tenho a lamentar que nada tivesse a dizer acerca da sua pega-polémica no JN com Manuel António Pina poucos meses antes da morte deste. Tenho a lamentar também que nem uma palavra tenha expendido acerca do seu adorado e protegido Só-Crash. Complexo e multifacetado, este Marinho, um viciado nos holofotes mediáticos. Eu, que nem sempre o poupei e nem sempre o pouparei, dou o braço a torcer: um homem, se for homem e quiser o melhor e o mais recto para Portugal, tem de gostar um pouquinho deste Camião TIR sem travões.

O NOSSO REDUTO DE DIGNIDADE