quarta-feira, janeiro 22, 2014

O POBRE RAPAZ ERA BASTARDO

Café Tabourey

─ Queres que diga alguma coisa a alguém? ─ perguntaste.
─ Não, obrigado, a ninguém!
─ Mas a tua família?
Ele baixou a cabeça sem responder;
o pobre rapaz era bastardo.

Os dois amigos ficaram espantados com o seu silêncio.
─ Tens com que fumar? ─ recomeçaste.
Ele apalpou-se, depois retirou do fundo da algibeira
os restos de um cachimbo ─ um belo cachimbo de escuma,
com um cano de madeira preta,
uma tampa de prata e uma boquilha de âmbar.
Desde há três anos que trabalhava para fazer dele uma obra-prima.
Tivera o cuidado de manter o forno constantemente apertado
numa cinta de camurça,
de fumá-lo o mais lentamente possível,
sem nunca o pôr em cima do mármore,
e, todas as noites, pendurava-o à cabeceira da cama.

Agora, sacudia os pedaços na mão cujas unhas sangravam;
e, de queixo enfiado no peito, pupilas fixas, estupefacto,
contemplava estas ruínas da sua alegria
com um olhar de inefável tristeza.
─ E se nós lhe déssemos charutos, hein? ─ disse baixinho Hussonnet,
fazendo o gesto de ir busca-los.
Tu tinhas já posto, à borda do postigo, uma charuteira cheia.
─ Serve-te, anda! Adeus, ânimo!
Dussardier atirou-se às duas mãos que avançavam.
Apertava-as freneticamente, a voz entrecortada de soluços.
─ Como?... para mim!... para mim!...
Tu e Hussonnet furtaram-se ao seu reconhecimento,
saíram, e foram almoçar juntos ao café Tabourey,
em frente do Luxembourg.

domingo, janeiro 19, 2014

OS AMOTINADOS

À medida que avançavam, a multidão tornava-se menos densa.
Os polícias, de vez em quando, voltavam com ar feroz;
e os amotinados, já não tendo mais nada que fazer,
e os curiosos mais nada para ver,
todos se afastaram a pouco e pouco.

Passantes com que se cruzavam,
encaravam Dussardier e entregavam-se em voz alta
a comentários ultrajantes.
Uma velha, à porta de casa exclamou até
que ele tinha roubado um pão;
esta injustiça aumentou a irritação dos dois amigos.

Por fim, chegaram à frente do corpo da guarda.
Apenas ficara uma vintena de pessoas.
A vista dos soldados bastou para dispersa-los.
Tu e o camarada reclamaram, atrevidamente,
a liberdade daquele que acabavam de meter na prisão.
O funcionário ameaçou, se insistissem, metê-los também lá a eles.

Perguntaram pelo chefe de posto,
e declinaram os seus nomes
com as suas qualidades de alunos de Direito,
afirmando que o prisioneiro era seu condiscípulo.
Mandaram-nos entrar para uma sala completamente vazia,
onde quatro bancos se alinhavam contra as paredes de estuque, enegrecidas.
Ao fundo, abriu-se um postigo.
Apareceu então a cara robusta de Dussardier,
que, no desalinho do cabelo,
lembrava confusamente a fisionomia de um bom cão.

─ Então tu não nos reconheces? ─ disse Hussonnet.
Era este o nome do jovem de bigode.
─ Mas… ─ Balbuciou Dussardier.
─ Não continues a fazer de parvo ─ recomeçou o outro ─; sabes que és,
como nós, aluno de Direito.

Apesar das suas piscadelas de olho,
Dussardier não compreendia nada.
Pareceu recolher-se; depois, de repente:
─ Encontraram a minha caixa de cartão?
Tu ergueste os olhos, desencorajado.
Hussonnet replicou:
─ Ah!, a caixa de cartão, onde metes os teus apontamentos do curso?
Sim, sim, fica descansado! Redobravam a pantomima.
Dussardier compreendeu, enfim, que vinham ajudá-lo.
E calou-se, receando compromete-los.
Aliás, sentia uma espécie de vergonha
ao ver-se elevado à classe social de estudante
e ao nível daqueles jovens que tinham mãos tão brancas.

SÃO PAULO - RIO DE JANEIRO

terça-feira, janeiro 14, 2014

BANDIDO, ASSASSINO, AMOTINADOR!

Estudantes e polícia confrontam-se do lado de fora da Faculdade de Justiça, Paris.
Os polícias tratavam de circular,
dizendo o mais baixinho que podiam:
─ Partam, cavalheiros, partam, retirem-se!
Alguém gritou:
─ Abaixo os espancadores!
Era uma injúria usual desde as perturbações do mês de Setembro.
Todos a repetiram. Apupavam, assobiavam os guardas da ordem pública;
eles começavam a empalidecer;
um não pôde resistir,
e, atentando num jovem baixote que se aproximara de mais,
rindo-lhe na cara, afastou-o tão rudemente
que o fez cair cinco passos mais longe, de costas,
em frente da loja do vendedor de vinho.

Todos se afastaram; mas, quase de seguida,
ele próprio rebolou, derrubado por uma espécie de Hércules
cujo cabelo, tal como um pacote de estopa,
transbordava sob um boné de oleado.

Parado há alguns minutos na esquina da rua Saint-Jacques,
tinha largado uma grande caixa de cartão
que transportava para se atirar ao polícia
e, mantendo-o deitado debaixo de si,
atingia-lhe a cara com socos enormes.

Os outros polícias acorreram.
O terrível mocetão era tão forte que foram precisos quatro,
pelo menos, para o dominar.
Dois sacudiam-no pelo colete,
dois outros puxavam-no pelos braços,
um quinto dava-lhe com o joelho, encontrões nos rins,
e todos lhe chamavam bandido, assassino, amotinador.

O peito nu e o fato em farrapos,
ele protestava a sua inocência;
não pudera manter o sangue-frio ao ver bater numa criança.
─ Chamo-me Dussardier!, da loja dos Srs. Valinçart irmãos,
rendas e novidades, rua de Cléry.
Onde está a minha caixa? Quero a minha caixa!
Repetia:
─ Dussardier!... rua de Cléry. A minha caixa!

No entanto acalmou-se, e com um ar estóico,
deixou-se levar para o posto da rua Descartes.
Uma onda de gente seguiu-o. Tu e o jovem de bigode
caminhavam imediatamente atrás,
cheios de admiração pelo moço de recados
e revoltados contra a violência do Poder.

sexta-feira, janeiro 10, 2014

PALAVRA ARDENDO NA PRADARIA SUBJECTIVA

Não é que o Daniel Oliveira pense mal este assunto "Eusébio no Panteão". Pelo contrário. Chego mesmo a concordar com ele em muitos pontos. Sucede que os nossos tempos são mesmo feitos disto que ele acaba por questionar com a ironia e o distanciamento possíveis: imediatismo e mediatismo. Vivemos numa democracia mediática e imediata em perpétuo e vertiginoso movimento, a qual, para o bem e para o mal, encontrou meios de expressão cada vez com mais impacto e eficácia: as Redes Sociais, a Palavra ardendo na pradaria da subjectividade e consumindo-se toda numa subjectividade prevalecente: por exemplo, contra Só-Crash, contra Só-Ares, o que prevalece é a rejeição e mesmo o asco. Os que pensam Portugal — o dynamismo da nossa identidade, a syncronia dos nossos valores, destino, moções, os que criticam e julgam em permanência a nossa vida pública politica e culturalmente — em vão procurarão ficar a salvo tirando o corpo deste vórtex, deste tornado subjectivista e judicativista em tempo real, escapando ao agora na Grande Ágora Facebookiana Portuguesa. Isto para dizer que continua válida a ideia de Eusébio no Panteão e se isso nos não passou pela cabeça relativamente a outros, a culpa não é de ninguém. Nada a fazer se entre a nossa galeria de deuses, heróis e mortos, nem todos nos arrebataram, nos uniram e encheram de orgulho sob uma clara unanimidade. Já os romanos idolatravam os seus melhores gladiadores até à loucura como se fossem semi-deuses: eram as suas estrelas e aquele o seu desporto de paixão. Os pachecos nunca entenderão isto.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

UMA VOCIFERAÇÃO UNIVERSAL

François Guizot
A multidão oscilou, e, apertando-se contra a porta do pátio
que estava fechada,
impedia o professor [Samuel Rondelot] de ir mais adiante.
Ele parou em frente da escada.
Depressa o viram no último dos três degraus.
Falou; um zumbido cobriu-lhe a voz.
Embora há pouco o amassem, agora odiavam-no,
porque representava a Autoridade.

Sempre que tentava fazer-se ouvir,
os gritos recomeçavam.
Fez um gesto largo para levar os estudantes a segui-lo.
Respondeu-lhe uma vociferação universal.
Encolheu os ombros desdenhosamente
e enfiou-se no corredor.
Martinon tinha aproveitado a situação
para desaparecer ao mesmo tempo.
─ Que cobarde! ─ disseste.
─ É prudente! ─ replicou o outro.

A multidão rompeu em aplausos.
Esta saída do professor
tornava-se uma vitória para ela.
Em todas as janelas, curiosos olhavam.
Alguns entoavam a Marselhesa;
outros propunham ir ter com Béranger.
─ Vamos ao Laffite!
─ Vamos ao Chateaubriand!
─ Vamos ao Voltaire? ─ berrou o jovem do bigode loiro.

ABAIXO OS VENDIDOS!

File:François Pierre Guillaume Guizot.jpg
François Pierre Guillaume Guizot
Sentiste alguém tocar-te no ombro;
voltaste-te. Era Martinon, prodigiosamente pálido.
─ Ora bem! ─ disse ele, soltando um suspiro profundo ─,
mais um motim!

Tinha medo de ficar comprometido, lastimava-se.
Homens de blusa, sobretudo, inquietavam-no,
supondo-os pertencentes a sociedades secretas.
─ Há lá sociedades secretas! ─ disse o jovem do bigode. ─ É uma velha piada do governo,
para assustar os burgueses!

Martinon pediu-lhe para falar mais baixo,
com medo da polícia.
─ O senhor ainda acredita na polícia?
Na verdade, quem lhe diz que eu próprio não sou um informador?

E encarou-o de uma tal maneira
que Martinon, muito emocionado,
não compreendeu logo a brincadeira.

A multidão empurrava-os,
e tinham sido forçados, os três,
a meterem-se na pequena escada que conduzia,
através de um corredor, ao novo anfiteatro.
Em breve a multidão se fendeu por si própria;
várias cabeças descobriram-se;
saudava-se o ilustre professor Samuel Rondelot,
que, enrolado na sua grossa sobrecasaca,
levando as suas lunetas de prata e ofegante de asma,
avançava com passos tranquilos, para dar o seu curso.

Este homem era uma das glórias judiciárias do século XX,
o rival de Zacharie, dos Ruhdorff.
A sua nova dignidade de par de França
em nada lhe modificara o ar.
Sabiam-no pobre, e rodeava-o um grande respeito.
Contudo, no fundo da praça, alguns gritaram:
─ Abaixo Guizot!
─ Abaixo Pritchard!
─ Abaixo os vendidos!
─ Abaixo Luís-Filipe!

domingo, janeiro 05, 2014

AO PARTIR UM PEQUENO DEUS

Estarás sempre nos nossos corações, Eusébio, enorme Português.
 Não tenho a mínima dúvida que uma importante vitória nacional,
 algo que tanto desejaste e nunca viste, ser-te-á dedicada em breve
pois a partir de hoje és o Grande Farol da nossa ambição.

sábado, janeiro 04, 2014

sexta-feira, janeiro 03, 2014

JUVENTUDE DAS ESCOLAS

Ficheiro:Benjamin Constant.jpg
Henri-Benjamin Constant de Rebecque
As petições para a Reforma,
cuja assinatura se fazia na Guarda Nacional,
juntas ao recenseamento Humann,
outros acontecimentos ainda, provocavam desde há seis meses, em Paris,
inexplicáveis ajuntamentos;
e até se renovavam tantas vezes que os jornais já nem falavam no caso.
─ A isto falta perfil e cor ─ continuou o teu vizinho.
─ Cuido eu, messire, que degenerámos!
Nos bons tempos de Luís XI, os mesmos de Benjamin Constant,
havia mais agitação entre os estudantes.
Acho-os agora pacíficos como carneiros,
estúpidos como pepinos,
e bons para serem merceeiros, valha-lhes Deus!
E eis aquilo a que se chama a Juventude das escolas!

Abriu os braços, largamente, como Frédéric Lamaître em Robert Macaire.
─ Juventude das escolas, eu te abençoo!
Em seguida, apostrofando um trapeiro,
que remexia cascas de ostras de encontro
à entrada de um vendedor de vinho:
─ Fazes tu parte, estás a ouvir, da Juventude das escolas?
O velhote ergueu um rosto hediondo onde se distinguia,
no meio de uma barba cinzenta,
um nariz vermelho e dois olhos avinhados estúpidos.
─ Não, antes me pareces um desses homens de cara patibular 
que se vêem em diversos grupos, a semear oiro a mãos plenas
Oh!, semeia, meu patriarca, semeia!
Corrompe-me com os tesoiros de Albion!
Are you English?
Não repilo os presentes de Artaxerxes!
Falemos um pouco da união aduaneira.