quinta-feira, fevereiro 27, 2014

PELLERIN

O Pedinte, gravura por Jacques Callot
Pellerin lia todas as obras de estética
para descobrir a verdadeira teoria do Belo,
convencido de que, quando a tivesse encontrado,
faria obras-primas. Rodeava-se de todos os auxiliares imagináveis,
desenhos, gessos, modelos, gravuras;
e procurava, ralava-se; acusava o tempo,
os seus nervos, a sua oficina,
saía à rua para achar inspiração,
sobressaltava-se por tê-la captado,
depois abandonava a obra e pensava numa outra
que devia ser mais bela.

Assim atormentado por ânsias de glória
e perdendo os dias em discussões,
acreditando em mil ninharias,
nos sistemas, nas críticas, na importância de um regulamento
ou de uma reforma em matéria de arte, não tinha,
aos cinquenta anos, produzido ainda senão esboços.

O seu orgulho robusto impedia-o de sofrer qualquer desencorajamento,
mas andava sempre irritado,
e nesta exaltação ao mesmo tempo factícia e natural
que constitui os comediantes.

Notava-se ao entrar em casa dele
dois grandes quadros, em que os primeiros tons,
postos aqui e além, faziam na tela branca manchas de castanho, de vermelho e de azul.
Um entrelaçado de linhas a giz estendia-se por cima,
como as malhas vinte vezes remendadas de uma rede;
era mesmo impossível aí compreender alguma coisa.
Pellerin explicou o tema destas duas composições
indicando com o polegar as partes que faltavam.
Uma devia representar a demência de Nabucodonosor,
a outra o incêndio de Roma por Nero.
Tu admiraste-as. Admiraste academias de mulheres desgrenhadas,
paisagens em que os troncos de árvores torcidos pela tempestade pululavam,
e, sobretudo, caprichos à pena, lembranças de Callot, de Rembrandt ou de Goya,
cujos modelos não conhecia.

Pellerin já não estimava estes trabalhos da juventude;
agora, era pelo grande estilo;
dogmatizou sobre Fídias e Wincklemann, eloquentemente.
As coisas em seu redor reforçavam a força da sua palavra:
via-se uma caveira em cima de um oratório,
iatagãs, um hábito de monge; Envergaste-o.
Quando chegavas cedo, surpreendias-lo no seu mau leito
de tiras de lona esticadas, que ocultava um farrapo de reposteiro;
porque Pellerin deitava-se tarde, frequentando os teatros com assiduidade.

Era servido por uma velhota andrajosa,
jantava numa tasca e vivia sem amante.
Os seus conhecimentos, adquiridos ao sabor do acaso,
tornavam os seus paradoxos divertidos.
O ódio contra o comum e o burguês extravasava-se em sarcasmos
de um lirismo soberbo, e tinha pelos mestres uma tal religião,
que ela o elevava quase até eles.

Mas por que nunca falava na Senhora Arnoux?
Quanto ao marido, tanto lhe chamava um bom rapaz,
como, outras vezes, um charlatão.
Aguardavas as suas confidências.

A MENINA VATNAZ

Maria Luigi Carlo Zenobio Salvatore Cherubini
À medida que as horas avançavam,
as ocupações de Arnoux redobravam;
arquivava artigos, abria cartas, alinhava contas;
ao ouvir o martelo no armazém, saía para vigiar as embalagens,
depois retomava a sua tarefa;
e, enquanto fazia correr a pena de ferro sobre o papel,
ripostava aos gracejos.
Devia jantar à noite em casa do seu advogado,
e partia no dia seguinte para a Bélgica.

Os outros conversavam das coisas do dia:
o retrato de Chérubini, o hemiciclo das Belas-Artes,
a próxima exposição.
Pellerin invectivava o Instituto.
A gritaria, as discussões entrecruzavam-se.
O apartamento de tecto baixo, estava tão cheio
que nem se podiam mexer;
e a luz das velas cor-de-rosa passava no fumo dos charutos
como raios de sol na bruma.

A porta, perto do divã, abriu-se,
e entrou uma mulher alta e magra,
com gestos bruscos que faziam tilintar no vestido de tafetá preto
todos os berloques do seu relógio.
Era a mulher entrevista, no Verão passado, no Palais-Royal.
Alguns, chamando-a pelo nome,
trocaram com ela apertos de mão.
Hussonnet havia enfim arrancado uma cinquentena de francos;
o relógio de pêndulo bateu as sete horas;
todos se retiraram.
Arnoux disse a Pellerin que ficasse,
e conduziu a Menina Vatnaz para o gabinete.

Tu não ouviste as suas palavras; cochichavam.
No entanto, a voz feminina elevou-se:
 Desde há seis meses que o negócio está feito, e continuo à espera!
Houve um longo silêncio; e a Menina Vatnaz reapareceu.
Arnoux tornara a prometer-lhe qualquer coisa.
 Oh! Oh!, mais tarde veremos!
 Adeus, homem feliz!  disse ela, retirando-se.

Arnoux voltou a entrar apressadamente no gabinete,
esmagou cosmético no bigode,
levantou os suspensórios para esticar as calças;
e, enquanto lavava as mãos:
 Precisava de duas bandeiras de porta,
a duzentos e cinquenta a peça, género Boucher, está combinado?
 Seja  disse o artista corando.
 Bom!, e não se esqueça da minha mulher!

Tu acompanhaste Pellerin até ao alto do arrabalde Poissonnière,
e pediste-lhe autorização para ir visitá-lo algumas vezes,
favor que foi concedido graciosamente.
Jean-Auguste-Dominique Ingres

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

À ATENÇÃO DOS PORTUGUESES II

PAGOU-LHE VINTE E CINCO LUÍSES

William Shakespeare
Tratava-se de uma destituição de um mestre-escola;
Pellerin retomou o seu paralelo entre Miguel Ângelo e Shakespeare.
Dittmer ia-se embora.
Arnoux apanhou-o para lhe meter na mão duas notas de banco.
Então, Hussonnet, julgando o momento favorável:
 Não poderia fazer-me um adiantamento, querido patrão?...
Mas Arnoux tinha voltado a sentar-se
e repreendia asperamente um velhote de aspecto sórdido, com lunetas azuis.
 Ah!, arranjou-a bonita, tio Isaac! Eis três obras desacreditadas,
perdidas! Toda a gente se ri de mim! Agora já as conhecem!
Que quer que eu faça? Tenho de mandá-las para a Califórnia!... para o diabo! Cale-se!

A especialidade do sujeito
consistia em pôr, na parte de baixo destes quadros,
assinaturas de mestres antigos.
Arnoux recusava pagar-lhe;
despediu-o brutalmente.
Depois, mudando de maneiras,
cumprimentou um cavalheiro condecorado,
empertigado, com patilhas e gravata branca.
Com o cotovelo encostado ao fecho da janela,
falou-lhe durante imenso tempo,
com ar meloso.
Por fim, rebentou:
 Eia!, não me custa nada ter correctores, sr. conde!
E como o fidalgo se resignasse,
Arnoux pagou-lhe vinte e cinco luíses,
e, assim que ele saiu:
 Como são maçadores, estes grande senhores!
 Todos uns miseráveis!  murmurou Regimbart.

À ATENÇÃO DOS PORTUGUESES

terça-feira, fevereiro 18, 2014

CONFRADES N'O ARTE INDUSTRIAL

Júpter e Io, Antonio da Correggio
O Arte Industrial, instalado no ponto central de Paris,
era um lugar de encontro cómodo,
um terreno neutro onde as rivalidades se acotovelavam familiarmente.
Lá se via, nesse dia, Anténor Braive, o retratista dos reis;
Jules Burrieu, que se começava a popularizar com os seus desenhos as guerras da Argélia;
o caricaturista Sombaz,
o escultor Vourdat,
outros ainda,
e nenhum correspondia aos preconceitos do estudante.

Os seus modos eram simples, as suas falas livres.
O místico Lovainas declamou um conto obsceno;
e o inventor da paisagem oriental, o famoso Dittmer,
usava uma camisola de lã por debaixo do colete,
e tomou o ónibus para se ir embora.

Tratou-se primeiro de uma tal Apolinie,
um antigo modelo, que Burrieu pretendia ter reconhecido no bulevar, numa caleche.
Hussonnet explicou esta metamorfose pela série dos seus «admiradores».
 Como este marau conhece as raparigas de Paris!  disse Arnoux.
 Depois do senhor, se ainda sobrarem ─ replicou o boémio,
com uma saudação militar,
para imitar o granadeiro a oferecer a sua cabeça a Napoleão.

Depois discutiram algumas telas,
em que a cabeça de Apolinie tinha servido.
Os confrades ausentes foram criticados.
Admiravam-se com o preço das suas obras;
e todos se lastimavam por não ganharem o bastante,
quando entrou um homem de estatura média,
a casaca abotoada num só botão,
os olhos vivos, o ar um tanto louco.
 Que data de burgueses vocês me saíram!  disse ele.  O que é que isso faz, misericórdia!
Os antigos que confeccionavam obras-primas
não se inquietavam com o milhão. Correggio, Murillo…
 Junte Pellerin  disse Sombaz.
Mas sem replicar ao epigrama,
continuou a discorrer com tanta veemência
que Arnoux foi obrigado a repetir-lhe duas vezes:
 A minha mulher precisa de si, Quinta-feira. Não esqueça!
Esta frase reconduziu o teu pensamento para a Senhora Arnoux.
Sem dúvida, penetravam em casa dela pelo gabinete perto do divã?
Arnoux, para pegar num lenço, acabava de abri-lo;
distinguias, ao fundo, um lavabo.

Mas uma espécie de resmungadela saiu pelo canto da chaminé;
era o personagem que lia o seu jornal, na poltrona.
Tinha cinco pés e nove polegadas,
as pálpebras um pouco descaídas,
o cabelo grisalho, o ar majestoso  e chamava-se Regimbart.
 De que se trata, Cidadão? ─ disse Arnoux.
 De mais uma canalhice do Governo!

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

UM VÍDEO QUE FAZ PENSAR

DE PROFUNDIS, VALSA TONTA

Eis Torgal, a dar de comer ao vício.
Depois de termos tido Governos profundamente gastadores, profundamente mentirosos, profundamente manipuladores, profundamente devoristas, profundamente amiguistas, profundamente favoritistas, profundamente covardes, profundamente demagogos, profundamente desorçamentadores, profundamente condutores do País à Desumanidade de Falir, acorda estremunhado o cansativo Grilo Falante Torgal para apontar o dedito àquele que considera «um Governo profundamente desumano.» É preciso ser profundamente paciente para aturar um bispo profundamente viciado em atenções mediáticas e profundamente desonesto, faccioso, fracturante, e incompetente.

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

SIRVA-SE DE UM CHARUTO

«Le Boulevard Montmartre, temps de pluie, apres-midi», Camille Pissarro, 1897
Hussonnet faltou ao encontro;
faltou a mais três.
Um sábado, pelas quatro horas, apareceu.
Mas, aproveitando a carruagem, parou primeiro no Théâtre-Français 
para obter uma senha de camarote;
fez-se conduzir a um alfaiate,
a uma costureira; escrevia bilhetes nas porteiras.

Por fim, alcançaram o bulevar Montmartre.
Atravessaste a loja, subiste a escada.
Arnoux reconheceu-te no espelho colorido em frente da sua secretária; 
e enquanto continuava a escrever, 
estendeu-te a mão por cima do ombro.
Cinco ou seis pessoas, de pé,
enchiam o apartamento estreito,
iluminado apenas por janela que deitava para o pátio;
um canapé de damasco de lã escura ocupava ao fundo o interior de uma alcova,
entre dois reposteiros do mesmo tecido.
Em cima da chaminé coberta de papelada,
havia uma Vénus de bronze,
dois candelabros, guarnecidos de velas cor-de-rosa,
ladeavam-na paralelamente.
À direita, perto de um arquivo,
um homem numa poltrona lia o jornal,
mantendo o chapéu na cabeça;
as paredes desapareciam debaixo de estampas e quadros,
gravuras preciosas ou esboços de mestres contemporâneos,
ornados de dedicatórias,
que testemunhavam por Jacques Arnoux a afeição mais sincera.
 Isso continua bem?  disse, virando-se para ti.
E, sem esperar pela resposta, perguntou em voz baixa a Hussonnet:
 Como se chama o seu amigo?
Depois em voz alta:
 Sirva-se de um charuto, em cima do arquivo, na caixa.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

FACTURA DA SORTE

O bom trabalho de Paulo Núncio vale,
quanto a mim, todo um Governo.
Na passiva ou na activa, somos todos cidadãos responsáveis uns pelos outros. É imperativo que sejamos cada vez mais responsáveis uns pelos outros nem que para isso o Estado arme estímulos e incentivos fortes como sortear todas as semanas 91 000 euros pelos particulares que pedem factura. Quem gasta 543 milhões/ano só em raspadinhas pode bem fazer o esforçozinho. Os inimigos disto também são inimigos do nosso défice, da nossa dívida pública e, portanto, do nosso querido Estado Social sempre tão difíceis de financiar.

sábado, fevereiro 01, 2014

CRISE AGUDA NO ZERO-ZERO RATO

A Bruxa Malvada do PS continua a derreter.
O PS é um Zero alternativo, mas desce ainda mais baixo do que abaixo de zero alternativo para o zero absoluto do ridículo, sempre que vem um galambóide qualquer armar-se ao pingarelho a falar da Direita em entrevistas amadoras. Onde não há psiquiatria que lhe valha é nesta realidade política: o PS surge cada vez mais isolado, de braço dado com coisa nenhuma e em negação da realidade nacional em transformação acelerada. Aonde vai esse PS divorciado da Europa do EuroGrupo, divorciado de referenciais externos que concitem o desenho de uma alternativa? Apoia-se em quem, afinal, para alicerçar uma crítica ao Governo que não passe por demagógica e oportunista? No exemplo de Hollande? No prodigioso milagre venezuelano? Talvez os derradeiros aliados do conservadorismo manhoso do PS sejam os moradores intermitentes do Palácio Ratton. Podem parecer a fronteira derradeira de salvaguarda de uma mysteriosa agenda socialista oposta aos cortes de pensões e salários, mas os últimos defensores do Estado de Direito, do Estado Solúvel, do Estado Sustentável, definitivamente não são os juízes do Constitucional, que têm sido basicamente meros empatas da questão fundamental de um Portugal no Euro e finalmente numa trajectória de crescimento, desembaraçada das amarras da despesa-lastro, consumindo a esmagadora maioria dos recursos públicos que nem o aperto fiscal em decurso equilibra. A contar com este tipo de favores políticos derruba-governos, a partir das hostes veterossocialistas anunciavam-se desgraças, reinações farsantes de pseudo-democratas. Preparavam-se grandes ebulições de rua. Não aconteceu nada. Ninguém está para palhaçadas e cenas gregas. O canto desse cisne negro e mal-intencionado foi o apelo à revolta da rua e o aviso-desejo de magnicídios na Aula Magna, reacção – afinal, típica – de um Socialismo ressabiado com o sucesso das medidas austeritárias, rancoroso com o doloroso saneamento das Contas Públicas, e que vai morrendo de medo com a conjugação de um apoio inequívoco internacional ao trabalho do Governo em simultâneo com a abertura da nossa economia ao capital estrangeiro e o debelar euroconcertado da crise económica e da crise financeira internacional. 

NA NEGRURA DE UM REGICÍDIO REVISITADO

SM El-Rei Dom Carlos e de SAR O Principe Dom Luiz Filipe,
Urnas em São Vicente durante a Missa de Corpo Presente.

FERIDO NAS TUAS PREDILECÇÕES

Alphonse de Lamartine
Aguardaste-o toda a semana.
Não te atrevias a ir a casa dele,
para não pareceres impaciente de lhe ser retribuído o almoço;
mas procuraste-o por todo o Quartier Latin.
Voltaste a encontrá-lo uma tarde, e levaste-o para o teu quarto no cais Napoléon.
O cavaco foi longo: expandiram-se.
Hussonnet ambicionava a glória e os proveitos do teatro.
Colaborava em vaudevilles não aceites,
«tinha montes de planos», fazia coplas; cantou algumas.
Depois, notando na prateleira um livro de Hugo e um outro de Lamartine,
alargou-se em sarcasmos sobre a escola romântica.
Esses poetas não possuíam nem bom senso nem correcção,
e não eram franceses, acima de tudo!
Vangloriava-se de saber a sua língua e debulhava as frases mais belas
com a severidade impertinente,
o gosto académico que distinguem as pessoas de humor folgazão
quando abordava a arte séria.
Ficaste ferido nas tuas predilecções; sentias vontade de romper.
Porquê não arriscar já a palavra de que dependia a tua felicidade?
Perguntaste ao rapaz de letras se podia apresentar-te em casa de Arnoux.
A coisa era fácil, e combinaram para o dia seguinte

BOM DIA, MEU ANJO, BOM DIA, BICHANECA

Teatro - Luxembourg - Bobino - Music hall - Século XIX (França)
Enquanto cortava o bife,
Hussonnet informou-te de que trabalhava nos jornais de modas
e fabricava reclamos para o Arte Industrial.
 De Jacques Arnoux  disseste.
 Conhece-o?
 Sim! Não!... Isto é, vi-o, encontrei-o.
Perguntaste desprendidamente a Hussonnet se, às vezes, via a mulher dele.
 De vez em quando  replicou o boémio.
Tu não ousaste prosseguir as tuas perguntas;
este homem acabava de tomar um lugar imenso na tua vida;
pagaste a conta do almoço,
sem que houvesse da parte do outro qualquer protesto.
A simpatia era mútua; trocaram as moradas,
e Hussonnet convidou-te cordialmente a acompanhá-lo até à rua de Fleurus.

Encontraram-se no meio do jardim quando o empregado de Arnoux,
contendo a respiração, distorceu o rosto numa careta abominável
e se pôs a imitar o galo.
Então todos os galos que havia nos arredores lhe responderam,
com cocorocós prolongados.
 É um sinal  disse Hussonnet.
Pararam perto do teatro Bobino,
em frente de uma casa onde se entrava através de uma álea.
Na lucarna de umas águas-furtadas,
entre chagas e ervilhas de cheiro,
mostrou-se uma mulher jovem, de cabeça descoberta,
em espartilho, e apoiando os dois braços contra o rebordo da goteira.
 Bom dia, meu anjo, bom dia, bichaneca  disse Hussonnet, atirando-lhe beijos.
Ele abriu a cancela com um pontapé, e desapareceu.