segunda-feira, março 24, 2014

CIRCENSE MÁXIMO

O Show...
Só-Crash voltou a emocionar a Nação. Não temos gladiadores. Nem sempre o futebol excita. Há, por isso mesmo, ainda uma enorme expectativa de que um dia Só-Crash habite uma cela ou tropece nas próprias palavras trapaceiras, no tronco caído na estrada da própria antítese em movimento. Enquanto isso não é possível, enquanto o tempo da cela não chega, o desporto disponível é vê-lo no grande Circo que montou para si: ou a cavalgar póneis, ou a fazer de bailarina no dorso do puro-sangue, ou no trapézio, moça que voa de trapezista em trapezista, ou na figura de palhaço rico ou na figura do palhaço pobre, ou a apresentar a entrada dos leões, ou a fazer de domador de tigres, ou a conduzir uma manada de elefantes ou a ser um desses elefantes. Só-Crash é o espectáculo e pelo espectáculo. Não lhe interessa nada a montanha de famílias que a sua pré-bancarrota arrojou para o vazio e a morte social. Importa somente que o Show tem de continuar, como aliás o Regime que o pariu.

sexta-feira, março 14, 2014

O CALÇADO DO PROVINCIANO



 «Quando ando pelas ruas, as pessoas se parecem com as de Berlim, todas vestidas igual, os rostos mais ou menos os mesmos, a mesma cena, porém numa massa populosa».

Hegel, pela primeira vez em Paris, pouco antes da sua morte, em carta à sua mulher:
Recebeste, na mesma semana,
uma carta em que Deslauriers anunciava que chegaria a Paris,
na quinta-feira seguinte.
Então, atiraste-te violentamente a esta afeição
mais sólida e mais elevada.
Um tal homem valia todas as mulheres.
Já não precisarias de Regimbart, de Pellerin, de Hussonnet, de ninguém!

A fim de melhor alojares o amigo,
compraste uma cama de ferro,
uma outra poltrona,
desdobraste as suas roupas de cama;
e, na quinta-feira de manhã,
vestias-te para ires ao encontro de Deslauriers
quando retiniu a campainha da porta. Arnoux entrou.
— Apenas uma palavra! Ontem, mandaram-me de Genebra uma bela truta;
contamos consigo, logo, às sete em ponto… É na rua de Choiseul, 24 bis. Não se esqueça!

Foste obrigado a sentar-te.
Os joelhos fraquejavam-te.
Repetias para contigo: «Enfim! Enfim!».
Depois escreveste ao alfaiate, ao chapeleiro, ao sapateiro;
e mandaste entregar estes três bilhetes por três moços de recados diferentes.

A chave girou na fechadura
e o porteiro apareceu, com uma mala às costas.
Tu, ao veres Deslauriers, puseste-te a tremer
como uma mulher adúltera sob o olhar do esposo.
— Que é que tens tu, afinal? — disse Deslauriers. — Com certeza recebeste uma carta minha?
Não tiveste forças para mentir.
Abriste os braços e lançaste-te-lhe ao peito.
Em seguida, o praticante narrou a sua história.
O pai quisera prestar contas da tutela,
supondo que essas contas prescreviam em dez anos.
Mas, sabido em processo, Deslauriers havia, por fim,
arrancado toda a herança da mãe,
sete mil francos certos, que tinha ali,
consigo, numa carteira velha.
— É uma reserva, em caso de azar.
Tenho de tratar de coloca-los e de me arrumar, já amanhã de manhã.
Por hoje, férias completas, e todo teu, meu velho!
— Oh!, não te prendas — disseste. — Se tinhas para esta noite
alguma coisa importante…
— Essa agora! Seria um orgulhoso miserável…
Este epíteto, lançado ao acaso, tocou-te em pleno coração,
como uma alusão ultrajante.

O porteiro tinha posto em cima da mesa,
perto da lareira, costeletas, gelatina, uma lagosta,
uma sobremesa, e duas garrafas de vinho de Bordéus.
Uma tão boa recepção comoveu Deslauriers.
— Tratas-me como um rei, palavra de honra!
Falaram do passado, do futuro;
e, de vez em quando, davam-se as mãos por cima da mesa,
encarando-se um minuto com ternura.

Mas um moço de recados trouxe um chapéu novo.
Deslauriers assinalou, em voz alta,
o quanto o forro era brilhante.
Depois, o próprio alfaiate veio entregar a casaca,
passada a ferro.
— Dir-se-ia que te vais casar — disse Deslauriers.
Uma hora mais tarde, apareceu um terceiro indivíduo
e retirou de um enorme saco negro um par de botas de verniz,
esplêndidas. Enquanto as experimentavas,
o sapateiro observava sorrateiramente o calçado do provinciano.
— O senhor não precisa de nada?
— Obrigado — replicou o praticante,
metendo debaixo da cadeira os seus velhos sapatos de cordões.
Esta humilhação incomodou-te.
Hesitavas em fazer a tua confidência.
Por fim, exclamaste, como que tomado por uma ideia:
— Ah!, com mil diabos, já me esquecia!
— Mas que se passa?
— Esta noite, janto na cidade!
— Em casa dos Dambreuse? Por que é que nunca me falas deles nas tuas cartas?

Não era em casa dos Dambreuse, mas em casa dos Arnoux.
— Devias ter-me avisado! — disse Deslauriers. — Teria vindo um dia mais tarde.
— Impossível! — replicaste bruscamente. — Só me convidaram esta manhã,
há bocadinho.

E, para resgatar a tua falta e distraíres o amigo,
desataste as cordas entrelaçadas da mala,
arrumaste na cómoda todas as tuas coisas,
querias dar-lhe a tua própria cama,
dormir no gabinete da lenha.
Depois, a partir das quatro horas,
começaste a fazer os preparativos da sua toilette.
— Tens tempo de sobra! — disse o outro.
Enfim, vestiu-se, partiu.
«Cá estão os ricos!», pensou Deslauriers.
E foi jantar à rua Saint-Jacques, a um pequeno restaurante seu conhecido.
«Walter Benjamin é fascinado pela multidão, pela massa que circula pela Paris do século XIX. Ele encontra, nesse acúmulo de indivíduos, o assassino e o detective, o comerciante esperto que fica aberto até mais tarde e, é claro, encontra também o poeta, que flana pelas ruas de olhos e ouvidos bem abertos, captando a pulsação do anonimato. Benjamin defende a ideia de que não havia nada como Paris.» KFK

quinta-feira, março 13, 2014

TETRAGRAMMATON

Tetragrammaton vivia na quarta dimensão. Era poderoso, inteligente e feliz. Por isso desejava comunicar a sua felicidade. O problema estava — Ele sabia-o — em que, ao fazê-lo, deveria produzir seres distintos d'Ele: seres da terceira dimensão, inferiores, limitados, incapazes de compreendê-lo, praticamente cegos à totalidade do real. Porque, como pode o ponto compreender a linha? O que sabe a linha da grandeza da superfície? O que retém a linha da profundidade dos corpos? Que relação poderiam ter alguns seres tridimensionais com o abismo omnicompreensivo da quarta dimensão? E havia algo mais grave ainda: esses seres estranhos e quase impossíveis teriam de aguentar as consequências das suas inevitáveis limitações: o sofrimento da precariedade, a tragédia do desajuste, a luta pela sobrevivência.

Tetragrammaton estava em dúvida. Valia a pena? A felicidade que pretendia dar-lhes compensava a for que não lhes poderia evitar? Eles chegariam a compreender e aceitar?

Mas a força do amor acabou por vencer. Ele estava disposto a fazer todo o possível e a perdoar todo o necessário. Além disso, pensou: de qualquer modo, a sua substância mais íntima, o dinamismo profundo do seu ser, o próprio espaço em que habitam, acabarão por fazer com que Me pressintam em tudo quanto sintam, pensem e façam. Estando atento, pressionando com todos os meios do amor, conseguirei fazer-me notar. Cedo ou tarde aprenderão a pronunciar o meu nome.

E assim tomou a decisão e começou a aventura.

Tetragrammaton, que na sua quarta dimensão tudo vê e tudo compreende, não desiste dos seus projectos. Procura, por todos os meios, dar-se a conhecer. Aproveita qualquer circunstância — às vezes quem sabe discretamente provocada — para fazer sentir mais claramente a sua presença.

Nem tudo é fácil, mas prossegue. Na terceira dimensão, parece que muitos nem se inteiram. Mas outros sim. E inclusive há os que mostram uma sensibilidade especial. então ele, sem lhes forçar a liberdade, impulsiona-os adiante, e os faz sentir o seu fascínio. Eles, por sua parte, entusiasmados pela descoberta, compreendem que Tetragrammaton é o nome daquele que já estava sempre aí, chamando a todos e por todos de algum modo pressentido. Por isso não podem guardar o segredo: proclama a sua experiência e gastam a vida procurando que, finalmente, todos se possam ir dando conta.

Como sempre, uns fazem caso e outros não: uns compreendem bem e outros compreendem pela metade ou não compreendem nada: há os que riem, e não faltam os que se enfurecem; em outros lugares não negam a experiência, mas oferecem explicações alternativas. Experiência chama experiência, e cada avanço abre novas possibilidades. Criam-se comunidades e formam-se tradições. Tetragrammaton não perde ocasião. Onde há uma descoberta, alegra-se como um pai olhando os primeiros passos do eu filhinho, e até há quem diga que se lhe alegra o coração. Apoia todos e está atento à menor possibilidade.

Aconteceu até que um dia descobriu um ponto que, por sua situação, por sua sensibilidade, pelo jogo misterioso das circunstâncias, oferecia possibilidades especiais. acompanha com cuidado os seus habitantes, cultiva-os, consegue ir-lhes descobrindo um a um os seus projectos mais íntimos. Chega o momento em que, dentro do que permite a terceira dimensão, consegue o que parecia impossível: aparece alguém que enfim abre-se totalmente a ele, e compreende que o seu amor é uma presença irreversível, que a sua promessa é mais forte que todas as faltas. Algo tão magnífico que consegue, efectivamente, contagiar: os poucos que vivem no começo formam uma espécie de phylum expansivo que se abre a todo o âmbito da terceira dimensão.

Entretanto, apesar das aparências, Tetragrammaton não abandona os demais. O que poderia parecer um privilégio de "escolhidos" — muitas vezes eles, lamentavelmente, pensam assim — não é mais que a estratégia do seu amor a todos: cultivar intensamente a um só é o melhor modo de alcançar mais rapidamente os demais. Ainda assim, é inevitável que nem todos compreendam e que surjam em seguidas lutas e rivalidades: na precariedade da terceira dimensão todos querem ser únicos e privilegiados. Mas os que estão no segredo sabem que Tetragrammaton sorri compreensivo: ele pensa em todos e a todos envolve no seu amor.

Além do mais, guarda uma surpresa misteriosa que somente ele pode compreender e realizar: um dia acabará por romper os limites do seu espaço para reunir a todos na quarta dimensão. Ali se lhes abrirão os olhos. Nesse meio tempo, ele acompanha, impulsiona... e compreende.

Andrés Torres Queiruga, O Diálogo das Religiões

quarta-feira, março 12, 2014

A VULGARIDADE DO NEGOCIANTE ARNOUX

Os Pescadores Afortunados, gravura francesa Século XIX.
E, cedendo às suas obsessões, deixaste-te conduzir ao botequim Bordelais.
Enquanto o companheiro, apoiado no cotovelo, encarava a garrafa,
tu lançavas os olhos à direita e à esquerda.
Mas notaste o perfil de Pellerin no passeio;
bateste com força na vidraça, e, mal o pintor se sentar,
logo Regimbart lhe perguntou por que já não o viam no Arte Industrial:
 Que eu rebente, se lá volto! É uma besta, um burguês, um miserável, um velhaco!

Estas injúrias lisonjeavam a tua cólera. Sentias-te, no entanto, ferido,
porque pareciam-te que elas atingiam um pouco a Senhora Arnoux.
 Mas, afinal, o que é que ele lhe fez?  disse Regimbart.
Pellerin bateu com o pé no chão,
e bufou com força, em vez de responder.
Entregava-se a trabalhos clandestinos,
tais como retratos a dois lápis ou imitações de grandes mestres
para os amadores pouco esclarecidos;
e, como tais trabalhos o humilhavam,
preferia calar-se, geralmente.

Mas o «sórdido Arnoux» exasperava-o de mais.
Aliviou-se. De acordo com uma encomenda, de que tu foras testemunha,
tinha-lhe trazido dois quadros.
O negociante, então, permitira-se fazer críticas!
Reprovava a composição, a cor e o desenho, sobretudo o desenho,
em suma, não o quisera por nenhum preço.
Mas, forçado pela proximidade do pagamento de uma letra,
Pellerin tinha-os cedido ao judeu Isaac;
e, quinze dias mais tarde, Arnoux, em pessoa, vendia-os a um espanhol,
por dois mil francos.
 Como exagera!  disseste com voz tímida e quase sumida.
 Vamos! Está bem! Exagero!  exclamou o artista,
dando um grande murro na mesa.

Essa violência devolveu-te toda a tua compostura.
Sem dúvida, podiam portar-se com mais gentileza;
contudo, se Arnoux achava essas duas telas…
 Más! Diga a palavra! Conhece-as? É esse o seu ofício?
Ora, sabe, meu menino, eu não admito isso, aos amadores!
 Eh! Essas coisas não me dizem respeito!  disseste.
 Que interesse tem, então, em defendê-lo?  replicou friamente Pellerin.
Balbuciaste:
 Mas… porque sou seu amigo.
 Dê-lhe um abraço em meu nome! Adeusinho!

E o pintor saiu furioso, sem falar, bem entendido, no que tomara.
Tu convenceras-te a ti próprio, ao defender Arnoux.
No calor da tua eloquência,
sentiste-te invadido de ternura por aquele homem inteligente e bom,
que os amigos caluniavam e que, agora, trabalhava sozinho, abandonado.
Não resististe ao desejo singular de voltar a vê-lo imediatamente.
Dez minutos depois empurravas a porta do armazém.
Arnoux elaborava, com o seu caixeiro,
cartazes monstruosos para uma exposição de quadros.
 Olha!, o que te traz por cá?
Esta pergunta bem simples embaraçou-te;
e, não sabendo que responder,
perguntaste se, por acaso, não encontrara o seu caderno de apontamentos,
um caderninho de coiro azul.
 Aquele em que mete as suas cartas de mulheres?  disse Arnoux.
Tu, corando como uma virgem, defendeste-te de semelhante suposição.
 As suas poesias, então?  replicou o negociante.
Mexia nas amostras exibidas, discutia a forma delas, a cor, a moldura;
e tu sentias-te cada vez mais irritado com o seu ar de meditação,
e, sobretudo, com as suas mãos que passeavam pelos cartazes,
mãos papudas, um pouco moles, de unhas chatas.

Por fim, Arnoux levantou-se,
e, dizendo: «Está pronto!», passou-te a mão pelo queixo, familiarmente.
Esta intimidade desagradou-te, que recuaste;
depois atravessaste o limiar do escritório,
pela última vez na tua existência, julgavas tu.
Até a Senhora Arnoux ficava como que diminuída
pela vulgaridade do marido.

terça-feira, março 11, 2014

É A MINHA

Camille im grünen Kleid Claude Monet, 1866
No dia seguinte de manhã,
ao entrar com Hussonnet no seu escritório,
viste através da porta (a que dava para a escada) desaparecer a fímbria de um vestido.
 Mil desculpas!  disse Hussonnet.  Se soubesse que havia mulheres…
 Oh!, quanto a essa é a minha  replicou Arnoux.  Tinha subido
para me fazer uma visitinha, de passagem.
 Como?  disseste.
 Sim, sim!, ela volta para casa.

O encanto das coisas ambientes retirou-se de súbito.
O que aí sentias confusamente espalhado acabava de desvanecer-se,
ou, antes, nunca lá estivera,
sentias uma surpresa infinita
e como que a dor de uma traição.
Arnoux, rebuscando na gaveta, sorria.
Estava a zombar de ti?
O caixeiro pôs-lhe em cima da mesa um maço de papéis húmidos.
 Ah!, os cartazes!  exclamou o negociante.  Nunca mais consigo jantar esta noite!

Regimbart pegava no chapéu.
 O quê, vai deixar-me?
 Sete horas!  disse Regimbart.
Tu acompanhaste-o. À esquina da rua Montmartre,
voltaste-te; fitaste as janelas do primeiro andar;
riste-te interiormente com piedade por ti próprio,
ao te lembrares com que amor as tinhas contemplado tantas vezes!
Então onde vivia ela? Como encontrá-la agora?
A solidão tornava a abrir-se em torno do teu desejo mais imensa do que nunca!
 Vem tomá-lo?  disse Regimbart.
 Tomar quem?
 O absinto!

ENFIM, LEITOR, É ISTO!

Vejo a beleza do pôr-do-sol quase todos os dias à beira-maresia e prostro-me interiormente
em adoração ao Criador e ao Seu Santo, Jesus Cristo.
Fiz 44 no Domingo passado. Foi um dia feliz em família, com os meus pais com quem vivo, as minhas irmãs, um dia cheio de amor, mensagens inspiradoras das centenas de amigos e admiradores no Facebook. Ando cheio de esperança, apesar de sem grandes razões para ela. Procuro dar uma corrida todos os dias e, de vez em quando, aquela caminhada de 20 quilómetros, costume meu que já leva mais de catorze anos. Vejo a beleza do pôr-do-sol quase todos os dias à beira-maresia e prostro-me interiormente em adoração ao Criador e ao Seu Santo, Jesus Cristo: tenho tido êxtases, tenho tido emoções espirituais muito fortes. Depois regresso a casa cheio de alegria e de amor, com um sorriso que não é deste mundo. Sem correrias, sem outras rotinas que não sejam as meninas, escola, infantário, a esposa, e o meu activismo cívico através da escrita, acabo por recentrar-me sabaticamente no meu íntimo, no que me é fundamental, e aí descubro o cerne da felicidade, podando o bonsai do meu coração. Somente a escassez de dinheiro é que, a espaços, tolda esta nossa vida e se faz problema, para mais impossibilitando, após 2011, uma viagem ao Brasil para estancar as saudades que são muitas e me trazem a mulher algumas vezes chorosa e nostálgica dos pais, dos irmãos, dos sobrinhos. Enfim... é isto.

segunda-feira, março 10, 2014

MALICIOSO NO SEU COMÉRCIO

Rembrandt, O artista em seu estúdio, 1626-28.
Representação do estúdio de um pintor no século XVII
Uma outra vez, Regimbart exibiu em cima da sua escrivaninha papéis
que diziam respeito a minas de caulino na Bretanha;
Arnoux recorria à sua experiência.
Tu mostraste-te mais cerimonioso para com Regimbart,
a ponto de ofereceres-lhe absinto de vez em quando;
e embora o julgasses estúpido,
muitas vezes ficavas na sua companhia durante uma hora inteira,
unicamente porque era amigo de Jacques Arnoux.

Após ter lançado nos seus começos mestres contemporâneos,
o vendedor de quadros, homem progressista, tentara,
conservando ares artísticos,
alargar os seus proveitos pecuniários.
Buscava a emancipação das artes,
o sublime barato.
Todas as indústrias do luxo parisiense sofreram a sua influência,
que foi boa para as pequenas coisas, e funesta para as grandes.
Com a sanha de adular a opinião,
desviou da sua rota os artistas hábeis,
corrompeu os fortes,
esgotou os fracos
e ilustrou os medíocres;
dispunha deles através das suas relações e da sua revista.

Os pinta-monos ambicionavam ver as suas obras na montra
e os estofadores iam buscar-lhe a casa modelos de móveis.
Tu considerava-lo ao mesmo tempo
como milionário,
como diletante,
como homem de acção.
Muitas coisas, porém, o espantavam,
porque o Senhor Arnoux era malicioso no seu comércio.
Recebia dos confins da Alemanha ou da Itália
uma tela comprada em Paris por mil e quinhentos francos, e,
exibindo uma factura que a elevava a quatro mil,
revendia-a por três mil e quinhentos, por favor.

Um dos seus estratagemas vulgares com os pintores era exigir como «luvas»
uma miniatura do quadro, sob o pretexto de lhe publicar a gravura;
vendia sempre a miniatura
e nunca a gravura aparecia.
Aos que se queixavam de ser explorados,
respondia ele com uma pancadinha no ventre.
Excelente, aliás, prodigalizava charutos,
tratava por tu os desconhecidos,
entusiasmava-se por uma obra
ou por um homem, e,
obstinando-se então, não olhando a nada,
multiplicava as correrias, as correspondências, os reclamos.

Tinha-se por muito honesto, e,
na sua necessidade de expansão,
contava ingenuamente as suas indelicadezas.

Uma vez, para vexar um confrade
que inaugurara um outro jornal de pintura
com um grande festim,
pediu-te que escrevesses,
sob as suas vistas, um pouco antes da hora da reunião,
bilhetes em que eram anulados os convites feitos.
 Isso não ataca a honra, compreende?
E não te atreveste a recusar-lhe este serviço.

QUANDO OS DEMAGOGOS DEMAGOGIZAM

Os socialistas pedem peixes à Alemanha
e a Alemanha quer ensinar-nos tudo da arte da pesca.
Se os socialistas se esforçarem um bocadinho para captar as ponderosas razões por que o eleitorado se lhes esvai por entre os dedos, atentarão no teor falhento das suas próprias propostas, como a de António Costa, que agora quer contemos com mais um ovo no cu da Galinha Europeia: que esta crie um programa de apoio ao crescimento para os países sob programa. Nunca vi um Governo mais ansioso por "estimular" os amigos, estimular as Fundações dos amigos, estimular as economias, como o anterior do famigerado José Só-Crash. E, no entanto, resultados? Zero em crescimentos da produtividade. E no entanto, como consequência, a bancarrota 2011. Mais uma. Não podemos consentir num regresso ao tempo em que os Governos Socialistas prodigalizavam robalos, charutos, programas, cheques especiais, estímulos e apoios com efeito perverso e inverso ao suposto. Nem podemos consentir que a demagogia socialista demagogize impunemente o reabrir de tribunais, o reverter dos cortes e reduções salariais na FP. É também por aí, pelo lado peregrino da Política, que se perdem votos, sobretudo agora que começamos a andar por nossas próprias pernas.

sexta-feira, março 07, 2014

O CIDADÃO REGIMBART

A Fada Verde

As grandes letras que compunham o nome de Arnoux na placa de mármore,
no alto da loja, pareciam-lhe muito particulares e cheias de significado,
como uma escritura sagrada.
O passeio largo, a descer, facilitava o andar,
a porta girava quase por si própria;
e a maçaneta, lisa, tinha a doçura,
e como que a inteligência, de uma mão na sua.

Insensivelmente, tornou-se tão pontual como Regimbart.
Todos os dias Regimbart sentava-se à lareira,
na poltrona, apossava-se do Nacional, não mais o largava,
e exprimia o seu pensamento através de exclamações
ou de simples encolher de ombros.

De vez em quando enxugava a testa
com o lenço enrolado como um chouriço,
e que usava ao peito,
entre dois botões da sobrecasaca verde.
Tinha umas calças pregueadas, sapatos-botas, uma gravata comprida;
e o chapéu de abas reviradas fazia-o reconhecer, ao longe, nas multidões.

Às oito horas da manhã,
descia das alturas de Montmartre,
para tomar vinho branco na rua Notre-Dame-des-Victoires.
O almoço, a que se seguiam várias partidas de bilhar, conduzia-o até às três horas.
Dirigia-se então para a passagem dos Panoramas,
a fim de tomar absinto.
Depois da sessão na casa de Arnoux,
entrava no botequim Bordelais,
para tomar vermute;
a seguir, em vez de ir ter com a mulher,
preferia muitas vezes jantar sozinho,
num pequeno café da praça Gaillon,
onde queria que lhe servissem pratos caseiros, coisas «naturais!».
Por fim, transportava-se para um outro bilhar,
e aí ficava até à meia-noite,
até à uma da manhã,
até ao momento em que, gás apagado e persianas corridas,
o dono do estabelecimento, extenuado, lhe suplicava que saísse.
E não era o amor das bebidas
que atraía a estes locais o cidadão Regimbart,
mas o hábito antigo de falar ali de política;
com a idade, fora-se-lhe o espírito,
apenas tinha uma morosidade silenciosa.
Dir-se-ia, ao reparar no ar sério da sua cara,
que revolvia o mundo na cabeça.
Nada de lá saía; e ninguém, mesmo entre os seus amigos,
lhe conhecia ocupações, embora passasse por ter um gabinete de negócios.
Arnoux parecia estimá-lo infinitamente.
Disse-te um dia:
 Aquele sabe-a toda, bolas! É um homem forte!

O PARADOXO AUSTERITÁRIO ALEMÃO

Se a Alemanha impõe uma política alemã à Europa, nos planos financeiro e económico, será preciso recordar que, em traços gerais, tal política alemã é a que a Alemanha se impõe a si mesma, sendo, como é, um caso raro de sucesso e eficácia na mesmíssima Europa e no Mundo. Ana Sá Lopes esquece este ponto e, pelo contrário, dá a entender que essa política é trágica e explosiva. Será trágico e explosivo Portugal sair robustecido na sua capacidade exportadora? Será trágico e explosivo Portugal melhorar nos índices de poupança, crescer e desenvolver-se numa nova industrialização, progredir na baixa do desemprego, no aproveitamento estratégico da nossa periferia europeia que na verdade é uma centralidade axial mundial?! Está ainda em aberto saber se o processo de germanização económico-financeira da Europa não fará dos demais países do Euro um pouco mais semelhantes a essa Alemanha, portanto, mais bem sucedidos na organização, na exigência e sobretudo no sucesso desse modelo. Acresce recordar que, antes de a Alemanha alcançar os superavit e o pleno emprego actuais, teve de ter a coragem de se impor a si mesma uma fase de «austeridade inenarrável.» Tenho pena que a Ana não perceba que, como tantas coisas na vida, o caminho do bem-estar e do sucesso é sempre estreito, mas é o caminho. Ad augusta per angusta, os Romanos lá sabiam porquê e os Portugueses do século XV e de Quinhentos, o século de Ouro, também: 

«Há um processo revolucionário em curso e ele não é desencadeado pelos "comunistas" - o partido que ficou culpado pelo chamado PREC, embora os comunistas nunca estivessem estado sozinhos nesses acontecimentos. Este novo PREC é desencadeado pelas instituições europeias, com a bênção de todos os governos europeus, incluindo o nosso. Este PREC não se restringe à "comuna de Lisboa" (como era conhecida a zona de maior influência vermelha, a capital e o distrito de Setúbal), é um PREC que envolve toda a Europa e que nos obriga a nós, portugueses, a aceitar condições de austeridade inenarrável em nome de continuar a pertencer ao "clube dos ricos. Qualquer partido que vá para o governo se confrontará com isto - as regras da Europa, onde manda a Alemanha, impõem-nos um caminho de sentido único, o do empobrecimento generalizado. A situação é explosiva e o que aconteceu ontem pode repetir-se em versões mais negras.» 
Ana Sá Lopes, ionline

segunda-feira, março 03, 2014

ÉCFRASIS A UM BRUEGEL

Há um grito por palavras neste texto pictórico A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559), de Pieter Bruegel, na Kunsthistorisches Museum, Viena. Vejo agora tudo com o detalhe minucioso do meu interesse, espécie de presença física no íntimo da História que a pintura-texto ressuma.

No vestíbulo da Igreja, à direita jaz um crucifixo dourado colocado sobre uma almofada e lençol de cetim alvíssimos, crivados de moedas atiradas por quem entra ou por quem passa; à esquerda, um vulto, talvez pedinte segura o seu recipiente; mais atrás e à direita, um Padre ouve em confissão; no exterior, à esquerda um piedoso funcionário, de braços cruzados, vigia sobre a piedosa mesa uma bandeja dourada com algumas moedas e a cujo centro pontifica um translúcido borrifador de água benta perfumada, ao lado do qual, alinhado, está o breviário que devotamente acompanha as borrifações. 
À entrada da Igreja.
Repare-se no pormenor bem quaresmal dos santos recobertos:

Triunfará a Quaresma ou o Carnaval? A Quaresma leva vantagem. É certo que as crianças brincam ao pião, correm, sorriem e gritam, completamente alheias, na sua inocência, à tensão religiosa do Tempo e hedonista da Rua. Há jejum forçado e reforçado nas carnes, nos rostos, no exército de pedintes e excluídos da salvação mundanal pelo saciar das fomes.
Crianças brincando.
Estrénuo, o Carnaval extenua-se na loucura das carnes de porco trinchadas, lubricidade do excesso, na sátira sem freio do que apareça pela frente, bebendo o generoso vinho ou a generosa cerveja desde a generosa barrica. Desliza pesada e livre a carroça dos bêbados nos seus tons rubros, álacres, e rotundas intumescências do cio. Num mundo esquálido e ressequido de fome e sede, numa época de trabalheiras até à morte, que vida venturosa torna possível a abundância obesa da felicidade?! Note-se com que humor o espeto foi preenchido: a cabeça de suíno, seguida de um frango ou outra ave média, uma salsicha dependurada, outra ave mais pequena e o que parecem chispes. Um folião empurra a barrica todo curvado segurando os copos por onde foi bebendo, outro desprovido de rosto pelo que parece uma máscara espectral e inexpressiva, com um vistoso unicórnio verde-rubro produz zoada com uma faca correndo pelos dedos de uma grelha. Na barrica, um presunto varado por um trinchão simula uma proa de embarcação, espécie de Vitória de Samotrácia presuntícia.
A folia, entre a bebida e a comida.
Pormenor do fornecedor da tracção ao esqui satírico, a corda pelo ombro, o joelho esquerda roto, a precária cobertura na cabeça:

São várias e diversificadas as sociedades de desvalidos na mais ruidosa mendicância e em competição espectacular entre si. À vista desarmada, a esmagadora maioria dos elementos que compõem esta sociedade medieval parece composta por pedintes, mendigos, homens castigados pelos sofrimentos, pelas amputações em refregas militares ou gangrenados da lepra, de qualquer modo feridos pela doença. E tudo isto é espectáculo. Mais ainda no Carnaval pois aí cada um pode fazer da própria dor ruidosa e da própria fome e da própria falta a hipérbole perfeita e a auto-ironia acabada que façam render a difícil compaixão e a quase inacessível generosidade dos portadores de moeda. Esta roda de pedintes e estropiados anda literalmente à roda em torno da caixa de esmolas colectiva, em movimento contra-relógio, as bocas muito abertas em gritos e esgares de maus dentes, nos seus pregões de algazarra. Um deles, com um gizo na perna sã, oferece a sua zoada implorativa à multidão que passa. Aguarda por dádivas, as quais decididamente não chegam.
Corporação de Mendigos.
A Quaresma insinua-se processional, mas o Carnaval também é procissão provavelmente sátira burlesca ao desfile beato e devocional. A indústria medieval da mendicância compartimenta-se em especializações, mas mesmo alguns colectivos e comunas de desfavorecidos não resistem à privatização espectacular da própria desgraça. Note-se, à esquerda, a mulher, talvez mãe, que implora pelo infeliz triplamente amputado, talvez filho. Dir-se-ia que este pobre trabalha por sua conta e risco em sociedade, circunstancial ou não, com a mulher, longe da sua corporação natural, a roda dos estropiados que manqueja, espoja-se e se arrasta mais atrás em torno da sua própria caixa de esmolas colectiva. Outra hipótese de leitura passará pelo facto de o triplo amputado ser também cego, o que de infere do olhar projectado no vazio em desencontro com o caridoso embuçado. E além de cego, demente, portanto passível de roubos e abusos, explorações e desconsiderações de quantos companheiros de infortúnio, os quais, mesmo com membros a menos em relação ao comum dos mortais teriam sempre membros a mais para prevaricar na corporação contra o mais fraco de todos. A aristocracia, por vezez, recorda-se de ser e parecer generosa, dentro do grande espectáculo social da sociedade medieval. Eis um fidalgo, saído da Igreja e quaresmalmente compungido, a favorecer, com o seu donativo, um dentre um duo de cegos, depositando no chapéu continente das ofertas o óbolo sonhado. Note-se o leal e sadio cão cuja trela parece subir e envolver o pescoço do cego em primeiro plano, órbitas vazadas, recôncavas, que segura o seu robusto cajado de cabeça descoberta e descomposta. Repare-se na riqueza e proporcionalidade do traje envergado pelo fidalgo, os tecidos, as peles, as cores, o bolsão na ilharga, e no adorno vivo, o pajem, sonolento, curvado, vestido de cor bem rubra e ostensiva, que segue mais atrás carregado de espadas [pormenor 5 a]. A guerra entre o Carnaval e a Quaresma não tem tréguas. A dor de viver não tem pausas. A folia reveza-se com a desgraça num mesmo espectáculo repleto de possibilidades pequenas, entre febres e azares, o sopro de vida em cada um é uma ilusão semelhante à efemeridade do feno. Tudo, especialmente respirar, recorda a certeza da morte.
Corporação dos Cegos.
O Nobre e o Pajem Sonolento carregado de Espadas.
Na grande praça medieval, onde se trava a batalha entre o grotesco sagrado e grotesco profano, o desfile de caracteres não dá sossego a si mesmo. Aqui, um quarteto aparentemente coordenado, processional, talvez uma família. A mulher, atrás, em vestimenta agreste de palha, travessa de grandes bolachas quadrangulares entre as mãos; ao pescoço talvez um colar de nabos que vemos noutras personagens deste texto-pintura, no rosto uma máscara lunar; às costas uma caixa de esmolas?, uma caixa para pedidos e mensagens de correspondência?, uma gaiola-ninho de aves? um reservatório de sal, farinha ou outro tipo de alimentos?, e sobre a cabeça uma travesseira ajustada para servir de chapéu tricórnio. À sua frente, talvez o homem da casa, caricaturando uma entidade ventruda qualquer, tangendo uma espécie de cavaco; sobre a cabeça, um pequeno pote-caldeirãozinho de cozinha, com efeito de cornadura caprina graças ao tripé invertido, a servir de capacete, na ilharga um jarro dependurado. Depois, o corpo pequenino do que seria o filho, abrindo caminho, ostentando uma vassoura com duas velas acesas em pleno dia, uma máscara aviária, uma sacola pesada, sobre a cabeça uma cobertura espampanante com uma colher de pau em lugar da pluma da praxe. A sátira e o cómico como grande divertimento familiar com um reportório de piadas, reacções e expressões para mais tarde recordar.
Uma família de três foliões por sua conta e risco.
Finalmente, a avozinha à frente, a liderar a folia:

À frente vai a avozinha ruidosa, com a sua cuíca artesanal.
O Estado Social na luminosa organização estratificada medieval é um Estado Individualista cercado de morbilidade, doença e morte por todo o lado: qualquer febre ceifava mil, poupava cem. Cadinho de doença e sobrevivência, acamar não era geralmente bom sinal e o desfecho habitual seria falhar o teste da superação vital, sobretudo na infância. Mas nesse Estado Individualista socializado na caridade pelo Mandato Eclesial, o órfão e a viúva, postados à saída das igrejas, podiam pelo menos publicitar-se e estender a mão para migalhas da sobrevivência ao sabor da sensibilidade e caridade de cada um. Aqui, dois homens piedosos cumprem o seu gesto de fundamento quaresmal e pressuposto religioso. Um deles, o que está em segundo plano em vestes escuras, avalia a dádiva do outro, esquecendo-se completamente da sua. Com uma mão no bolsão e a outra segurando o invisível óbolo em oferta, a figura em primeiro plano curva-se à necessidade da pobre mulher embuçada, cuja mão, bem aberta e súplice, perfaz a sintaxe-assinatura de quem se decide a pedir para viver ou compensar a desgraça. Trata-se de uma mão incrustada no tempo que reflecte uma face. Note-se o pormenor do ventre bem redondo, indicio de uma nova gravidez. Note-se a máscara sobre a boca e a alvura do lenço na cabeça, o manto sobre os joelhos, tudo a fazer pressupor mil e um cuidados e outro tanto de surperstições, tendo em conta a reiterada dose de infortúnios. Mais atrás no enfiamento da sua cabeça, provavelmente a silhueta obscura do seu marido.
Dois homens e as suas duas esmolas
A seu lado, num plano inferior, publicamente acamada, a sua criança convalesce, eventualmente desesperançada. Por recosto e cama, uma cadeira deitada. Provavelmente, o destino iminente da morte desta criança é o que precisamente se sequencializa no pormenor adicional mais abaixo desta cena [Pormenor 7 a], em que um alvíssimo sudário desproporcional cobre um pequeno cadáver. Note-se a silhueta dos pequenos pés e a forma como o tecido se desorganiza sobre o solo, aguardando a inumação sagrada.
A criança doente e o pequeno cadáver coberto com o enorme sudário.

Pois, e à saída da Igreja, as procissões...

Ao centro da praça, um poço comunitário, para todo o serviço, sobretudo o processamento de peixe e a lavagem de legumes e cujas águas se prestam à máxima das desconfianças:

Alternam e sucedem procissões de irmandades. Comercia-se, faz-se a roda, faz-se o fogo, é celebrada a festa da proeza de beber de mais e comer de mais.

O esqui da barrica com o presunto apresta-se ao combate satírico com o carrinho do homem com a pá de padeiro com peixes, que segue acompanhado de ruidosas e roliças crianças. Todas transportam o seu pão doce em forma de laço:

[...]

A CRÓIA E A HONESTA

Da Prostituição, pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553).
Um dia, ao folheares uma das suas pastas de desenho,
achaste no retrato de uma boémia algo da Menina Vatnaz,
e, como esta pessoa te interessava, quiseste saber a sua posição.
Ela tinha sido, julgava Pellerin, primeiro professora na província;
agora, dava lições e procurava escrever nas pequenas folhas.
Segundo os seus modos para com Arnoux, podia-se, na tua opinião,
supô-la sua amante.
 Ah! bah!, há outros!
Então, desviando o teu rosto que corava de vergonha pela infâmia do teu pensamento,
acrescentaste com um ar decidido:
 A mulher paga-lhe na mesma moeda, sem dúvida?
 De maneira nenhuma! É honesta!
Sentiste remorsos, e mostraste-te mais assíduo ao jornal.

sábado, março 01, 2014

RADICAIS

Vasco Pulido Valente descreve o modo como o PS definha, se acantona-se e se isola, capturado pelas agendas nihilistas do BE e do PC e por ter, «à perna Soares, Sócrates, Costa e uma matilha enraivecida de personagens menores, que não o deixam sossegar, nem agir.» E não se subestime o papel da Esquerda Radical, segundo VPV. Dentro do espectro político português claro que PC e BE são radicais. A radicalidade de que aqui estamos a falar é só esta e não é pequena: estar contra o Mundo tal como ele é e tende a ser; estar contra qualquer coisa que mexa e desalinhe do grande projecto cubano ou norte-coreano ou venezuelano-chavista-madurista que esses partidos têm para Portugal. Estar contra e nada ter para oferecer, haverá maior radicalidade que esta?!