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quarta-feira, abril 02, 2014

EM CASA DO NEGOCIANTE ARNOUX



Tu detiveste-te várias vezes na escada, tão forte o coração te batia.
Uma das tuas luvas, demasiado justa, rebentou;
e, na altura em que enfiavas o rasgão pode debaixo do punho da camisa,
Arnoux, que subia atrás de ti, agarrou-te pelo braço e fez-te entrar.

A antecâmara, decorada à chinesa,
tinha uma lanterna pintada no tecto,
e bambus nos cantos.
Quando atravessavas o salão, tropeçaste numa pele de tigre.
Não tinham acendido os brandões,
mas dois candeeiros ardiam no toucador ao fundo.
A Menina Marthe veio dizer que a mamã estava a vestir-se.
Arnoux levantou-a até à altura da boca para beijá-la;
depois, querendo ser ele próprio a escolher na cave certas garrafas de vinho,
deixou-te com a criança.

Tinha crescido muito desde a viagem de Montereau.
Os cabelos castanhos caíam-lhe em compridos canudos ondulados
sobre os braços nus. O vestido, mais tufado do que a saia de uma bailarina,
permitia ver as barrigas das pernas rosadas,
e toda a sua gentil pessoa cheirava a frescura
como um ramalhete.
Recebeu os comprimentos do cavalheiro com ares sedutores,
fixou neles os olhos profundos,
depois, esgueirando-se por entre os móveis,
desapareceu como um gato.

sexta-feira, março 14, 2014

O CALÇADO DO PROVINCIANO



 «Quando ando pelas ruas, as pessoas se parecem com as de Berlim, todas vestidas igual, os rostos mais ou menos os mesmos, a mesma cena, porém numa massa populosa».

Hegel, pela primeira vez em Paris, pouco antes da sua morte, em carta à sua mulher:
Recebeste, na mesma semana,
uma carta em que Deslauriers anunciava que chegaria a Paris,
na quinta-feira seguinte.
Então, atiraste-te violentamente a esta afeição
mais sólida e mais elevada.
Um tal homem valia todas as mulheres.
Já não precisarias de Regimbart, de Pellerin, de Hussonnet, de ninguém!

A fim de melhor alojares o amigo,
compraste uma cama de ferro,
uma outra poltrona,
desdobraste as suas roupas de cama;
e, na quinta-feira de manhã,
vestias-te para ires ao encontro de Deslauriers
quando retiniu a campainha da porta. Arnoux entrou.
— Apenas uma palavra! Ontem, mandaram-me de Genebra uma bela truta;
contamos consigo, logo, às sete em ponto… É na rua de Choiseul, 24 bis. Não se esqueça!

Foste obrigado a sentar-te.
Os joelhos fraquejavam-te.
Repetias para contigo: «Enfim! Enfim!».
Depois escreveste ao alfaiate, ao chapeleiro, ao sapateiro;
e mandaste entregar estes três bilhetes por três moços de recados diferentes.

A chave girou na fechadura
e o porteiro apareceu, com uma mala às costas.
Tu, ao veres Deslauriers, puseste-te a tremer
como uma mulher adúltera sob o olhar do esposo.
— Que é que tens tu, afinal? — disse Deslauriers. — Com certeza recebeste uma carta minha?
Não tiveste forças para mentir.
Abriste os braços e lançaste-te-lhe ao peito.
Em seguida, o praticante narrou a sua história.
O pai quisera prestar contas da tutela,
supondo que essas contas prescreviam em dez anos.
Mas, sabido em processo, Deslauriers havia, por fim,
arrancado toda a herança da mãe,
sete mil francos certos, que tinha ali,
consigo, numa carteira velha.
— É uma reserva, em caso de azar.
Tenho de tratar de coloca-los e de me arrumar, já amanhã de manhã.
Por hoje, férias completas, e todo teu, meu velho!
— Oh!, não te prendas — disseste. — Se tinhas para esta noite
alguma coisa importante…
— Essa agora! Seria um orgulhoso miserável…
Este epíteto, lançado ao acaso, tocou-te em pleno coração,
como uma alusão ultrajante.

O porteiro tinha posto em cima da mesa,
perto da lareira, costeletas, gelatina, uma lagosta,
uma sobremesa, e duas garrafas de vinho de Bordéus.
Uma tão boa recepção comoveu Deslauriers.
— Tratas-me como um rei, palavra de honra!
Falaram do passado, do futuro;
e, de vez em quando, davam-se as mãos por cima da mesa,
encarando-se um minuto com ternura.

Mas um moço de recados trouxe um chapéu novo.
Deslauriers assinalou, em voz alta,
o quanto o forro era brilhante.
Depois, o próprio alfaiate veio entregar a casaca,
passada a ferro.
— Dir-se-ia que te vais casar — disse Deslauriers.
Uma hora mais tarde, apareceu um terceiro indivíduo
e retirou de um enorme saco negro um par de botas de verniz,
esplêndidas. Enquanto as experimentavas,
o sapateiro observava sorrateiramente o calçado do provinciano.
— O senhor não precisa de nada?
— Obrigado — replicou o praticante,
metendo debaixo da cadeira os seus velhos sapatos de cordões.
Esta humilhação incomodou-te.
Hesitavas em fazer a tua confidência.
Por fim, exclamaste, como que tomado por uma ideia:
— Ah!, com mil diabos, já me esquecia!
— Mas que se passa?
— Esta noite, janto na cidade!
— Em casa dos Dambreuse? Por que é que nunca me falas deles nas tuas cartas?

Não era em casa dos Dambreuse, mas em casa dos Arnoux.
— Devias ter-me avisado! — disse Deslauriers. — Teria vindo um dia mais tarde.
— Impossível! — replicaste bruscamente. — Só me convidaram esta manhã,
há bocadinho.

E, para resgatar a tua falta e distraíres o amigo,
desataste as cordas entrelaçadas da mala,
arrumaste na cómoda todas as tuas coisas,
querias dar-lhe a tua própria cama,
dormir no gabinete da lenha.
Depois, a partir das quatro horas,
começaste a fazer os preparativos da sua toilette.
— Tens tempo de sobra! — disse o outro.
Enfim, vestiu-se, partiu.
«Cá estão os ricos!», pensou Deslauriers.
E foi jantar à rua Saint-Jacques, a um pequeno restaurante seu conhecido.
«Walter Benjamin é fascinado pela multidão, pela massa que circula pela Paris do século XIX. Ele encontra, nesse acúmulo de indivíduos, o assassino e o detective, o comerciante esperto que fica aberto até mais tarde e, é claro, encontra também o poeta, que flana pelas ruas de olhos e ouvidos bem abertos, captando a pulsação do anonimato. Benjamin defende a ideia de que não havia nada como Paris.» KFK

quarta-feira, março 12, 2014

A VULGARIDADE DO NEGOCIANTE ARNOUX

Os Pescadores Afortunados, gravura francesa Século XIX.
E, cedendo às suas obsessões, deixaste-te conduzir ao botequim Bordelais.
Enquanto o companheiro, apoiado no cotovelo, encarava a garrafa,
tu lançavas os olhos à direita e à esquerda.
Mas notaste o perfil de Pellerin no passeio;
bateste com força na vidraça, e, mal o pintor se sentar,
logo Regimbart lhe perguntou por que já não o viam no Arte Industrial:
 Que eu rebente, se lá volto! É uma besta, um burguês, um miserável, um velhaco!

Estas injúrias lisonjeavam a tua cólera. Sentias-te, no entanto, ferido,
porque pareciam-te que elas atingiam um pouco a Senhora Arnoux.
 Mas, afinal, o que é que ele lhe fez?  disse Regimbart.
Pellerin bateu com o pé no chão,
e bufou com força, em vez de responder.
Entregava-se a trabalhos clandestinos,
tais como retratos a dois lápis ou imitações de grandes mestres
para os amadores pouco esclarecidos;
e, como tais trabalhos o humilhavam,
preferia calar-se, geralmente.

Mas o «sórdido Arnoux» exasperava-o de mais.
Aliviou-se. De acordo com uma encomenda, de que tu foras testemunha,
tinha-lhe trazido dois quadros.
O negociante, então, permitira-se fazer críticas!
Reprovava a composição, a cor e o desenho, sobretudo o desenho,
em suma, não o quisera por nenhum preço.
Mas, forçado pela proximidade do pagamento de uma letra,
Pellerin tinha-os cedido ao judeu Isaac;
e, quinze dias mais tarde, Arnoux, em pessoa, vendia-os a um espanhol,
por dois mil francos.
 Como exagera!  disseste com voz tímida e quase sumida.
 Vamos! Está bem! Exagero!  exclamou o artista,
dando um grande murro na mesa.

Essa violência devolveu-te toda a tua compostura.
Sem dúvida, podiam portar-se com mais gentileza;
contudo, se Arnoux achava essas duas telas…
 Más! Diga a palavra! Conhece-as? É esse o seu ofício?
Ora, sabe, meu menino, eu não admito isso, aos amadores!
 Eh! Essas coisas não me dizem respeito!  disseste.
 Que interesse tem, então, em defendê-lo?  replicou friamente Pellerin.
Balbuciaste:
 Mas… porque sou seu amigo.
 Dê-lhe um abraço em meu nome! Adeusinho!

E o pintor saiu furioso, sem falar, bem entendido, no que tomara.
Tu convenceras-te a ti próprio, ao defender Arnoux.
No calor da tua eloquência,
sentiste-te invadido de ternura por aquele homem inteligente e bom,
que os amigos caluniavam e que, agora, trabalhava sozinho, abandonado.
Não resististe ao desejo singular de voltar a vê-lo imediatamente.
Dez minutos depois empurravas a porta do armazém.
Arnoux elaborava, com o seu caixeiro,
cartazes monstruosos para uma exposição de quadros.
 Olha!, o que te traz por cá?
Esta pergunta bem simples embaraçou-te;
e, não sabendo que responder,
perguntaste se, por acaso, não encontrara o seu caderno de apontamentos,
um caderninho de coiro azul.
 Aquele em que mete as suas cartas de mulheres?  disse Arnoux.
Tu, corando como uma virgem, defendeste-te de semelhante suposição.
 As suas poesias, então?  replicou o negociante.
Mexia nas amostras exibidas, discutia a forma delas, a cor, a moldura;
e tu sentias-te cada vez mais irritado com o seu ar de meditação,
e, sobretudo, com as suas mãos que passeavam pelos cartazes,
mãos papudas, um pouco moles, de unhas chatas.

Por fim, Arnoux levantou-se,
e, dizendo: «Está pronto!», passou-te a mão pelo queixo, familiarmente.
Esta intimidade desagradou-te, que recuaste;
depois atravessaste o limiar do escritório,
pela última vez na tua existência, julgavas tu.
Até a Senhora Arnoux ficava como que diminuída
pela vulgaridade do marido.

terça-feira, março 11, 2014

É A MINHA

Camille im grünen Kleid Claude Monet, 1866
No dia seguinte de manhã,
ao entrar com Hussonnet no seu escritório,
viste através da porta (a que dava para a escada) desaparecer a fímbria de um vestido.
 Mil desculpas!  disse Hussonnet.  Se soubesse que havia mulheres…
 Oh!, quanto a essa é a minha  replicou Arnoux.  Tinha subido
para me fazer uma visitinha, de passagem.
 Como?  disseste.
 Sim, sim!, ela volta para casa.

O encanto das coisas ambientes retirou-se de súbito.
O que aí sentias confusamente espalhado acabava de desvanecer-se,
ou, antes, nunca lá estivera,
sentias uma surpresa infinita
e como que a dor de uma traição.
Arnoux, rebuscando na gaveta, sorria.
Estava a zombar de ti?
O caixeiro pôs-lhe em cima da mesa um maço de papéis húmidos.
 Ah!, os cartazes!  exclamou o negociante.  Nunca mais consigo jantar esta noite!

Regimbart pegava no chapéu.
 O quê, vai deixar-me?
 Sete horas!  disse Regimbart.
Tu acompanhaste-o. À esquina da rua Montmartre,
voltaste-te; fitaste as janelas do primeiro andar;
riste-te interiormente com piedade por ti próprio,
ao te lembrares com que amor as tinhas contemplado tantas vezes!
Então onde vivia ela? Como encontrá-la agora?
A solidão tornava a abrir-se em torno do teu desejo mais imensa do que nunca!
 Vem tomá-lo?  disse Regimbart.
 Tomar quem?
 O absinto!

segunda-feira, março 10, 2014

MALICIOSO NO SEU COMÉRCIO

Rembrandt, O artista em seu estúdio, 1626-28.
Representação do estúdio de um pintor no século XVII
Uma outra vez, Regimbart exibiu em cima da sua escrivaninha papéis
que diziam respeito a minas de caulino na Bretanha;
Arnoux recorria à sua experiência.
Tu mostraste-te mais cerimonioso para com Regimbart,
a ponto de ofereceres-lhe absinto de vez em quando;
e embora o julgasses estúpido,
muitas vezes ficavas na sua companhia durante uma hora inteira,
unicamente porque era amigo de Jacques Arnoux.

Após ter lançado nos seus começos mestres contemporâneos,
o vendedor de quadros, homem progressista, tentara,
conservando ares artísticos,
alargar os seus proveitos pecuniários.
Buscava a emancipação das artes,
o sublime barato.
Todas as indústrias do luxo parisiense sofreram a sua influência,
que foi boa para as pequenas coisas, e funesta para as grandes.
Com a sanha de adular a opinião,
desviou da sua rota os artistas hábeis,
corrompeu os fortes,
esgotou os fracos
e ilustrou os medíocres;
dispunha deles através das suas relações e da sua revista.

Os pinta-monos ambicionavam ver as suas obras na montra
e os estofadores iam buscar-lhe a casa modelos de móveis.
Tu considerava-lo ao mesmo tempo
como milionário,
como diletante,
como homem de acção.
Muitas coisas, porém, o espantavam,
porque o Senhor Arnoux era malicioso no seu comércio.
Recebia dos confins da Alemanha ou da Itália
uma tela comprada em Paris por mil e quinhentos francos, e,
exibindo uma factura que a elevava a quatro mil,
revendia-a por três mil e quinhentos, por favor.

Um dos seus estratagemas vulgares com os pintores era exigir como «luvas»
uma miniatura do quadro, sob o pretexto de lhe publicar a gravura;
vendia sempre a miniatura
e nunca a gravura aparecia.
Aos que se queixavam de ser explorados,
respondia ele com uma pancadinha no ventre.
Excelente, aliás, prodigalizava charutos,
tratava por tu os desconhecidos,
entusiasmava-se por uma obra
ou por um homem, e,
obstinando-se então, não olhando a nada,
multiplicava as correrias, as correspondências, os reclamos.

Tinha-se por muito honesto, e,
na sua necessidade de expansão,
contava ingenuamente as suas indelicadezas.

Uma vez, para vexar um confrade
que inaugurara um outro jornal de pintura
com um grande festim,
pediu-te que escrevesses,
sob as suas vistas, um pouco antes da hora da reunião,
bilhetes em que eram anulados os convites feitos.
 Isso não ataca a honra, compreende?
E não te atreveste a recusar-lhe este serviço.

sexta-feira, março 07, 2014

O CIDADÃO REGIMBART

A Fada Verde

As grandes letras que compunham o nome de Arnoux na placa de mármore,
no alto da loja, pareciam-lhe muito particulares e cheias de significado,
como uma escritura sagrada.
O passeio largo, a descer, facilitava o andar,
a porta girava quase por si própria;
e a maçaneta, lisa, tinha a doçura,
e como que a inteligência, de uma mão na sua.

Insensivelmente, tornou-se tão pontual como Regimbart.
Todos os dias Regimbart sentava-se à lareira,
na poltrona, apossava-se do Nacional, não mais o largava,
e exprimia o seu pensamento através de exclamações
ou de simples encolher de ombros.

De vez em quando enxugava a testa
com o lenço enrolado como um chouriço,
e que usava ao peito,
entre dois botões da sobrecasaca verde.
Tinha umas calças pregueadas, sapatos-botas, uma gravata comprida;
e o chapéu de abas reviradas fazia-o reconhecer, ao longe, nas multidões.

Às oito horas da manhã,
descia das alturas de Montmartre,
para tomar vinho branco na rua Notre-Dame-des-Victoires.
O almoço, a que se seguiam várias partidas de bilhar, conduzia-o até às três horas.
Dirigia-se então para a passagem dos Panoramas,
a fim de tomar absinto.
Depois da sessão na casa de Arnoux,
entrava no botequim Bordelais,
para tomar vermute;
a seguir, em vez de ir ter com a mulher,
preferia muitas vezes jantar sozinho,
num pequeno café da praça Gaillon,
onde queria que lhe servissem pratos caseiros, coisas «naturais!».
Por fim, transportava-se para um outro bilhar,
e aí ficava até à meia-noite,
até à uma da manhã,
até ao momento em que, gás apagado e persianas corridas,
o dono do estabelecimento, extenuado, lhe suplicava que saísse.
E não era o amor das bebidas
que atraía a estes locais o cidadão Regimbart,
mas o hábito antigo de falar ali de política;
com a idade, fora-se-lhe o espírito,
apenas tinha uma morosidade silenciosa.
Dir-se-ia, ao reparar no ar sério da sua cara,
que revolvia o mundo na cabeça.
Nada de lá saía; e ninguém, mesmo entre os seus amigos,
lhe conhecia ocupações, embora passasse por ter um gabinete de negócios.
Arnoux parecia estimá-lo infinitamente.
Disse-te um dia:
 Aquele sabe-a toda, bolas! É um homem forte!

segunda-feira, março 03, 2014

A CRÓIA E A HONESTA

Da Prostituição, pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553).
Um dia, ao folheares uma das suas pastas de desenho,
achaste no retrato de uma boémia algo da Menina Vatnaz,
e, como esta pessoa te interessava, quiseste saber a sua posição.
Ela tinha sido, julgava Pellerin, primeiro professora na província;
agora, dava lições e procurava escrever nas pequenas folhas.
Segundo os seus modos para com Arnoux, podia-se, na tua opinião,
supô-la sua amante.
 Ah! bah!, há outros!
Então, desviando o teu rosto que corava de vergonha pela infâmia do teu pensamento,
acrescentaste com um ar decidido:
 A mulher paga-lhe na mesma moeda, sem dúvida?
 De maneira nenhuma! É honesta!
Sentiste remorsos, e mostraste-te mais assíduo ao jornal.

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

PELLERIN

O Pedinte, gravura por Jacques Callot
Pellerin lia todas as obras de estética
para descobrir a verdadeira teoria do Belo,
convencido de que, quando a tivesse encontrado,
faria obras-primas. Rodeava-se de todos os auxiliares imagináveis,
desenhos, gessos, modelos, gravuras;
e procurava, ralava-se; acusava o tempo,
os seus nervos, a sua oficina,
saía à rua para achar inspiração,
sobressaltava-se por tê-la captado,
depois abandonava a obra e pensava numa outra
que devia ser mais bela.

Assim atormentado por ânsias de glória
e perdendo os dias em discussões,
acreditando em mil ninharias,
nos sistemas, nas críticas, na importância de um regulamento
ou de uma reforma em matéria de arte, não tinha,
aos cinquenta anos, produzido ainda senão esboços.

O seu orgulho robusto impedia-o de sofrer qualquer desencorajamento,
mas andava sempre irritado,
e nesta exaltação ao mesmo tempo factícia e natural
que constitui os comediantes.

Notava-se ao entrar em casa dele
dois grandes quadros, em que os primeiros tons,
postos aqui e além, faziam na tela branca manchas de castanho, de vermelho e de azul.
Um entrelaçado de linhas a giz estendia-se por cima,
como as malhas vinte vezes remendadas de uma rede;
era mesmo impossível aí compreender alguma coisa.
Pellerin explicou o tema destas duas composições
indicando com o polegar as partes que faltavam.
Uma devia representar a demência de Nabucodonosor,
a outra o incêndio de Roma por Nero.
Tu admiraste-as. Admiraste academias de mulheres desgrenhadas,
paisagens em que os troncos de árvores torcidos pela tempestade pululavam,
e, sobretudo, caprichos à pena, lembranças de Callot, de Rembrandt ou de Goya,
cujos modelos não conhecia.

Pellerin já não estimava estes trabalhos da juventude;
agora, era pelo grande estilo;
dogmatizou sobre Fídias e Wincklemann, eloquentemente.
As coisas em seu redor reforçavam a força da sua palavra:
via-se uma caveira em cima de um oratório,
iatagãs, um hábito de monge; Envergaste-o.
Quando chegavas cedo, surpreendias-lo no seu mau leito
de tiras de lona esticadas, que ocultava um farrapo de reposteiro;
porque Pellerin deitava-se tarde, frequentando os teatros com assiduidade.

Era servido por uma velhota andrajosa,
jantava numa tasca e vivia sem amante.
Os seus conhecimentos, adquiridos ao sabor do acaso,
tornavam os seus paradoxos divertidos.
O ódio contra o comum e o burguês extravasava-se em sarcasmos
de um lirismo soberbo, e tinha pelos mestres uma tal religião,
que ela o elevava quase até eles.

Mas por que nunca falava na Senhora Arnoux?
Quanto ao marido, tanto lhe chamava um bom rapaz,
como, outras vezes, um charlatão.
Aguardavas as suas confidências.

A MENINA VATNAZ

Maria Luigi Carlo Zenobio Salvatore Cherubini
À medida que as horas avançavam,
as ocupações de Arnoux redobravam;
arquivava artigos, abria cartas, alinhava contas;
ao ouvir o martelo no armazém, saía para vigiar as embalagens,
depois retomava a sua tarefa;
e, enquanto fazia correr a pena de ferro sobre o papel,
ripostava aos gracejos.
Devia jantar à noite em casa do seu advogado,
e partia no dia seguinte para a Bélgica.

Os outros conversavam das coisas do dia:
o retrato de Chérubini, o hemiciclo das Belas-Artes,
a próxima exposição.
Pellerin invectivava o Instituto.
A gritaria, as discussões entrecruzavam-se.
O apartamento de tecto baixo, estava tão cheio
que nem se podiam mexer;
e a luz das velas cor-de-rosa passava no fumo dos charutos
como raios de sol na bruma.

A porta, perto do divã, abriu-se,
e entrou uma mulher alta e magra,
com gestos bruscos que faziam tilintar no vestido de tafetá preto
todos os berloques do seu relógio.
Era a mulher entrevista, no Verão passado, no Palais-Royal.
Alguns, chamando-a pelo nome,
trocaram com ela apertos de mão.
Hussonnet havia enfim arrancado uma cinquentena de francos;
o relógio de pêndulo bateu as sete horas;
todos se retiraram.
Arnoux disse a Pellerin que ficasse,
e conduziu a Menina Vatnaz para o gabinete.

Tu não ouviste as suas palavras; cochichavam.
No entanto, a voz feminina elevou-se:
 Desde há seis meses que o negócio está feito, e continuo à espera!
Houve um longo silêncio; e a Menina Vatnaz reapareceu.
Arnoux tornara a prometer-lhe qualquer coisa.
 Oh! Oh!, mais tarde veremos!
 Adeus, homem feliz!  disse ela, retirando-se.

Arnoux voltou a entrar apressadamente no gabinete,
esmagou cosmético no bigode,
levantou os suspensórios para esticar as calças;
e, enquanto lavava as mãos:
 Precisava de duas bandeiras de porta,
a duzentos e cinquenta a peça, género Boucher, está combinado?
 Seja  disse o artista corando.
 Bom!, e não se esqueça da minha mulher!

Tu acompanhaste Pellerin até ao alto do arrabalde Poissonnière,
e pediste-lhe autorização para ir visitá-lo algumas vezes,
favor que foi concedido graciosamente.
Jean-Auguste-Dominique Ingres

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

PAGOU-LHE VINTE E CINCO LUÍSES

William Shakespeare
Tratava-se de uma destituição de um mestre-escola;
Pellerin retomou o seu paralelo entre Miguel Ângelo e Shakespeare.
Dittmer ia-se embora.
Arnoux apanhou-o para lhe meter na mão duas notas de banco.
Então, Hussonnet, julgando o momento favorável:
 Não poderia fazer-me um adiantamento, querido patrão?...
Mas Arnoux tinha voltado a sentar-se
e repreendia asperamente um velhote de aspecto sórdido, com lunetas azuis.
 Ah!, arranjou-a bonita, tio Isaac! Eis três obras desacreditadas,
perdidas! Toda a gente se ri de mim! Agora já as conhecem!
Que quer que eu faça? Tenho de mandá-las para a Califórnia!... para o diabo! Cale-se!

A especialidade do sujeito
consistia em pôr, na parte de baixo destes quadros,
assinaturas de mestres antigos.
Arnoux recusava pagar-lhe;
despediu-o brutalmente.
Depois, mudando de maneiras,
cumprimentou um cavalheiro condecorado,
empertigado, com patilhas e gravata branca.
Com o cotovelo encostado ao fecho da janela,
falou-lhe durante imenso tempo,
com ar meloso.
Por fim, rebentou:
 Eia!, não me custa nada ter correctores, sr. conde!
E como o fidalgo se resignasse,
Arnoux pagou-lhe vinte e cinco luíses,
e, assim que ele saiu:
 Como são maçadores, estes grande senhores!
 Todos uns miseráveis!  murmurou Regimbart.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

CONFRADES N'O ARTE INDUSTRIAL

Júpter e Io, Antonio da Correggio
O Arte Industrial, instalado no ponto central de Paris,
era um lugar de encontro cómodo,
um terreno neutro onde as rivalidades se acotovelavam familiarmente.
Lá se via, nesse dia, Anténor Braive, o retratista dos reis;
Jules Burrieu, que se começava a popularizar com os seus desenhos as guerras da Argélia;
o caricaturista Sombaz,
o escultor Vourdat,
outros ainda,
e nenhum correspondia aos preconceitos do estudante.

Os seus modos eram simples, as suas falas livres.
O místico Lovainas declamou um conto obsceno;
e o inventor da paisagem oriental, o famoso Dittmer,
usava uma camisola de lã por debaixo do colete,
e tomou o ónibus para se ir embora.

Tratou-se primeiro de uma tal Apolinie,
um antigo modelo, que Burrieu pretendia ter reconhecido no bulevar, numa caleche.
Hussonnet explicou esta metamorfose pela série dos seus «admiradores».
 Como este marau conhece as raparigas de Paris!  disse Arnoux.
 Depois do senhor, se ainda sobrarem ─ replicou o boémio,
com uma saudação militar,
para imitar o granadeiro a oferecer a sua cabeça a Napoleão.

Depois discutiram algumas telas,
em que a cabeça de Apolinie tinha servido.
Os confrades ausentes foram criticados.
Admiravam-se com o preço das suas obras;
e todos se lastimavam por não ganharem o bastante,
quando entrou um homem de estatura média,
a casaca abotoada num só botão,
os olhos vivos, o ar um tanto louco.
 Que data de burgueses vocês me saíram!  disse ele.  O que é que isso faz, misericórdia!
Os antigos que confeccionavam obras-primas
não se inquietavam com o milhão. Correggio, Murillo…
 Junte Pellerin  disse Sombaz.
Mas sem replicar ao epigrama,
continuou a discorrer com tanta veemência
que Arnoux foi obrigado a repetir-lhe duas vezes:
 A minha mulher precisa de si, Quinta-feira. Não esqueça!
Esta frase reconduziu o teu pensamento para a Senhora Arnoux.
Sem dúvida, penetravam em casa dela pelo gabinete perto do divã?
Arnoux, para pegar num lenço, acabava de abri-lo;
distinguias, ao fundo, um lavabo.

Mas uma espécie de resmungadela saiu pelo canto da chaminé;
era o personagem que lia o seu jornal, na poltrona.
Tinha cinco pés e nove polegadas,
as pálpebras um pouco descaídas,
o cabelo grisalho, o ar majestoso  e chamava-se Regimbart.
 De que se trata, Cidadão? ─ disse Arnoux.
 De mais uma canalhice do Governo!

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

SIRVA-SE DE UM CHARUTO

«Le Boulevard Montmartre, temps de pluie, apres-midi», Camille Pissarro, 1897
Hussonnet faltou ao encontro;
faltou a mais três.
Um sábado, pelas quatro horas, apareceu.
Mas, aproveitando a carruagem, parou primeiro no Théâtre-Français 
para obter uma senha de camarote;
fez-se conduzir a um alfaiate,
a uma costureira; escrevia bilhetes nas porteiras.

Por fim, alcançaram o bulevar Montmartre.
Atravessaste a loja, subiste a escada.
Arnoux reconheceu-te no espelho colorido em frente da sua secretária; 
e enquanto continuava a escrever, 
estendeu-te a mão por cima do ombro.
Cinco ou seis pessoas, de pé,
enchiam o apartamento estreito,
iluminado apenas por janela que deitava para o pátio;
um canapé de damasco de lã escura ocupava ao fundo o interior de uma alcova,
entre dois reposteiros do mesmo tecido.
Em cima da chaminé coberta de papelada,
havia uma Vénus de bronze,
dois candelabros, guarnecidos de velas cor-de-rosa,
ladeavam-na paralelamente.
À direita, perto de um arquivo,
um homem numa poltrona lia o jornal,
mantendo o chapéu na cabeça;
as paredes desapareciam debaixo de estampas e quadros,
gravuras preciosas ou esboços de mestres contemporâneos,
ornados de dedicatórias,
que testemunhavam por Jacques Arnoux a afeição mais sincera.
 Isso continua bem?  disse, virando-se para ti.
E, sem esperar pela resposta, perguntou em voz baixa a Hussonnet:
 Como se chama o seu amigo?
Depois em voz alta:
 Sirva-se de um charuto, em cima do arquivo, na caixa.

sábado, fevereiro 01, 2014

FERIDO NAS TUAS PREDILECÇÕES

Alphonse de Lamartine
Aguardaste-o toda a semana.
Não te atrevias a ir a casa dele,
para não pareceres impaciente de lhe ser retribuído o almoço;
mas procuraste-o por todo o Quartier Latin.
Voltaste a encontrá-lo uma tarde, e levaste-o para o teu quarto no cais Napoléon.
O cavaco foi longo: expandiram-se.
Hussonnet ambicionava a glória e os proveitos do teatro.
Colaborava em vaudevilles não aceites,
«tinha montes de planos», fazia coplas; cantou algumas.
Depois, notando na prateleira um livro de Hugo e um outro de Lamartine,
alargou-se em sarcasmos sobre a escola romântica.
Esses poetas não possuíam nem bom senso nem correcção,
e não eram franceses, acima de tudo!
Vangloriava-se de saber a sua língua e debulhava as frases mais belas
com a severidade impertinente,
o gosto académico que distinguem as pessoas de humor folgazão
quando abordava a arte séria.
Ficaste ferido nas tuas predilecções; sentias vontade de romper.
Porquê não arriscar já a palavra de que dependia a tua felicidade?
Perguntaste ao rapaz de letras se podia apresentar-te em casa de Arnoux.
A coisa era fácil, e combinaram para o dia seguinte

BOM DIA, MEU ANJO, BOM DIA, BICHANECA

Teatro - Luxembourg - Bobino - Music hall - Século XIX (França)
Enquanto cortava o bife,
Hussonnet informou-te de que trabalhava nos jornais de modas
e fabricava reclamos para o Arte Industrial.
 De Jacques Arnoux  disseste.
 Conhece-o?
 Sim! Não!... Isto é, vi-o, encontrei-o.
Perguntaste desprendidamente a Hussonnet se, às vezes, via a mulher dele.
 De vez em quando  replicou o boémio.
Tu não ousaste prosseguir as tuas perguntas;
este homem acabava de tomar um lugar imenso na tua vida;
pagaste a conta do almoço,
sem que houvesse da parte do outro qualquer protesto.
A simpatia era mútua; trocaram as moradas,
e Hussonnet convidou-te cordialmente a acompanhá-lo até à rua de Fleurus.

Encontraram-se no meio do jardim quando o empregado de Arnoux,
contendo a respiração, distorceu o rosto numa careta abominável
e se pôs a imitar o galo.
Então todos os galos que havia nos arredores lhe responderam,
com cocorocós prolongados.
 É um sinal  disse Hussonnet.
Pararam perto do teatro Bobino,
em frente de uma casa onde se entrava através de uma álea.
Na lucarna de umas águas-furtadas,
entre chagas e ervilhas de cheiro,
mostrou-se uma mulher jovem, de cabeça descoberta,
em espartilho, e apoiando os dois braços contra o rebordo da goteira.
 Bom dia, meu anjo, bom dia, bichaneca  disse Hussonnet, atirando-lhe beijos.
Ele abriu a cancela com um pontapé, e desapareceu.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O POBRE RAPAZ ERA BASTARDO

Café Tabourey

─ Queres que diga alguma coisa a alguém? ─ perguntaste.
─ Não, obrigado, a ninguém!
─ Mas a tua família?
Ele baixou a cabeça sem responder;
o pobre rapaz era bastardo.

Os dois amigos ficaram espantados com o seu silêncio.
─ Tens com que fumar? ─ recomeçaste.
Ele apalpou-se, depois retirou do fundo da algibeira
os restos de um cachimbo ─ um belo cachimbo de escuma,
com um cano de madeira preta,
uma tampa de prata e uma boquilha de âmbar.
Desde há três anos que trabalhava para fazer dele uma obra-prima.
Tivera o cuidado de manter o forno constantemente apertado
numa cinta de camurça,
de fumá-lo o mais lentamente possível,
sem nunca o pôr em cima do mármore,
e, todas as noites, pendurava-o à cabeceira da cama.

Agora, sacudia os pedaços na mão cujas unhas sangravam;
e, de queixo enfiado no peito, pupilas fixas, estupefacto,
contemplava estas ruínas da sua alegria
com um olhar de inefável tristeza.
─ E se nós lhe déssemos charutos, hein? ─ disse baixinho Hussonnet,
fazendo o gesto de ir busca-los.
Tu tinhas já posto, à borda do postigo, uma charuteira cheia.
─ Serve-te, anda! Adeus, ânimo!
Dussardier atirou-se às duas mãos que avançavam.
Apertava-as freneticamente, a voz entrecortada de soluços.
─ Como?... para mim!... para mim!...
Tu e Hussonnet furtaram-se ao seu reconhecimento,
saíram, e foram almoçar juntos ao café Tabourey,
em frente do Luxembourg.

domingo, janeiro 19, 2014

OS AMOTINADOS

À medida que avançavam, a multidão tornava-se menos densa.
Os polícias, de vez em quando, voltavam com ar feroz;
e os amotinados, já não tendo mais nada que fazer,
e os curiosos mais nada para ver,
todos se afastaram a pouco e pouco.

Passantes com que se cruzavam,
encaravam Dussardier e entregavam-se em voz alta
a comentários ultrajantes.
Uma velha, à porta de casa exclamou até
que ele tinha roubado um pão;
esta injustiça aumentou a irritação dos dois amigos.

Por fim, chegaram à frente do corpo da guarda.
Apenas ficara uma vintena de pessoas.
A vista dos soldados bastou para dispersa-los.
Tu e o camarada reclamaram, atrevidamente,
a liberdade daquele que acabavam de meter na prisão.
O funcionário ameaçou, se insistissem, metê-los também lá a eles.

Perguntaram pelo chefe de posto,
e declinaram os seus nomes
com as suas qualidades de alunos de Direito,
afirmando que o prisioneiro era seu condiscípulo.
Mandaram-nos entrar para uma sala completamente vazia,
onde quatro bancos se alinhavam contra as paredes de estuque, enegrecidas.
Ao fundo, abriu-se um postigo.
Apareceu então a cara robusta de Dussardier,
que, no desalinho do cabelo,
lembrava confusamente a fisionomia de um bom cão.

─ Então tu não nos reconheces? ─ disse Hussonnet.
Era este o nome do jovem de bigode.
─ Mas… ─ Balbuciou Dussardier.
─ Não continues a fazer de parvo ─ recomeçou o outro ─; sabes que és,
como nós, aluno de Direito.

Apesar das suas piscadelas de olho,
Dussardier não compreendia nada.
Pareceu recolher-se; depois, de repente:
─ Encontraram a minha caixa de cartão?
Tu ergueste os olhos, desencorajado.
Hussonnet replicou:
─ Ah!, a caixa de cartão, onde metes os teus apontamentos do curso?
Sim, sim, fica descansado! Redobravam a pantomima.
Dussardier compreendeu, enfim, que vinham ajudá-lo.
E calou-se, receando compromete-los.
Aliás, sentia uma espécie de vergonha
ao ver-se elevado à classe social de estudante
e ao nível daqueles jovens que tinham mãos tão brancas.

terça-feira, janeiro 14, 2014

BANDIDO, ASSASSINO, AMOTINADOR!

Estudantes e polícia confrontam-se do lado de fora da Faculdade de Justiça, Paris.
Os polícias tratavam de circular,
dizendo o mais baixinho que podiam:
─ Partam, cavalheiros, partam, retirem-se!
Alguém gritou:
─ Abaixo os espancadores!
Era uma injúria usual desde as perturbações do mês de Setembro.
Todos a repetiram. Apupavam, assobiavam os guardas da ordem pública;
eles começavam a empalidecer;
um não pôde resistir,
e, atentando num jovem baixote que se aproximara de mais,
rindo-lhe na cara, afastou-o tão rudemente
que o fez cair cinco passos mais longe, de costas,
em frente da loja do vendedor de vinho.

Todos se afastaram; mas, quase de seguida,
ele próprio rebolou, derrubado por uma espécie de Hércules
cujo cabelo, tal como um pacote de estopa,
transbordava sob um boné de oleado.

Parado há alguns minutos na esquina da rua Saint-Jacques,
tinha largado uma grande caixa de cartão
que transportava para se atirar ao polícia
e, mantendo-o deitado debaixo de si,
atingia-lhe a cara com socos enormes.

Os outros polícias acorreram.
O terrível mocetão era tão forte que foram precisos quatro,
pelo menos, para o dominar.
Dois sacudiam-no pelo colete,
dois outros puxavam-no pelos braços,
um quinto dava-lhe com o joelho, encontrões nos rins,
e todos lhe chamavam bandido, assassino, amotinador.

O peito nu e o fato em farrapos,
ele protestava a sua inocência;
não pudera manter o sangue-frio ao ver bater numa criança.
─ Chamo-me Dussardier!, da loja dos Srs. Valinçart irmãos,
rendas e novidades, rua de Cléry.
Onde está a minha caixa? Quero a minha caixa!
Repetia:
─ Dussardier!... rua de Cléry. A minha caixa!

No entanto acalmou-se, e com um ar estóico,
deixou-se levar para o posto da rua Descartes.
Uma onda de gente seguiu-o. Tu e o jovem de bigode
caminhavam imediatamente atrás,
cheios de admiração pelo moço de recados
e revoltados contra a violência do Poder.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

UMA VOCIFERAÇÃO UNIVERSAL

François Guizot
A multidão oscilou, e, apertando-se contra a porta do pátio
que estava fechada,
impedia o professor [Samuel Rondelot] de ir mais adiante.
Ele parou em frente da escada.
Depressa o viram no último dos três degraus.
Falou; um zumbido cobriu-lhe a voz.
Embora há pouco o amassem, agora odiavam-no,
porque representava a Autoridade.

Sempre que tentava fazer-se ouvir,
os gritos recomeçavam.
Fez um gesto largo para levar os estudantes a segui-lo.
Respondeu-lhe uma vociferação universal.
Encolheu os ombros desdenhosamente
e enfiou-se no corredor.
Martinon tinha aproveitado a situação
para desaparecer ao mesmo tempo.
─ Que cobarde! ─ disseste.
─ É prudente! ─ replicou o outro.

A multidão rompeu em aplausos.
Esta saída do professor
tornava-se uma vitória para ela.
Em todas as janelas, curiosos olhavam.
Alguns entoavam a Marselhesa;
outros propunham ir ter com Béranger.
─ Vamos ao Laffite!
─ Vamos ao Chateaubriand!
─ Vamos ao Voltaire? ─ berrou o jovem do bigode loiro.

ABAIXO OS VENDIDOS!

File:François Pierre Guillaume Guizot.jpg
François Pierre Guillaume Guizot
Sentiste alguém tocar-te no ombro;
voltaste-te. Era Martinon, prodigiosamente pálido.
─ Ora bem! ─ disse ele, soltando um suspiro profundo ─,
mais um motim!

Tinha medo de ficar comprometido, lastimava-se.
Homens de blusa, sobretudo, inquietavam-no,
supondo-os pertencentes a sociedades secretas.
─ Há lá sociedades secretas! ─ disse o jovem do bigode. ─ É uma velha piada do governo,
para assustar os burgueses!

Martinon pediu-lhe para falar mais baixo,
com medo da polícia.
─ O senhor ainda acredita na polícia?
Na verdade, quem lhe diz que eu próprio não sou um informador?

E encarou-o de uma tal maneira
que Martinon, muito emocionado,
não compreendeu logo a brincadeira.

A multidão empurrava-os,
e tinham sido forçados, os três,
a meterem-se na pequena escada que conduzia,
através de um corredor, ao novo anfiteatro.
Em breve a multidão se fendeu por si própria;
várias cabeças descobriram-se;
saudava-se o ilustre professor Samuel Rondelot,
que, enrolado na sua grossa sobrecasaca,
levando as suas lunetas de prata e ofegante de asma,
avançava com passos tranquilos, para dar o seu curso.

Este homem era uma das glórias judiciárias do século XX,
o rival de Zacharie, dos Ruhdorff.
A sua nova dignidade de par de França
em nada lhe modificara o ar.
Sabiam-no pobre, e rodeava-o um grande respeito.
Contudo, no fundo da praça, alguns gritaram:
─ Abaixo Guizot!
─ Abaixo Pritchard!
─ Abaixo os vendidos!
─ Abaixo Luís-Filipe!

sexta-feira, janeiro 03, 2014

JUVENTUDE DAS ESCOLAS

Ficheiro:Benjamin Constant.jpg
Henri-Benjamin Constant de Rebecque
As petições para a Reforma,
cuja assinatura se fazia na Guarda Nacional,
juntas ao recenseamento Humann,
outros acontecimentos ainda, provocavam desde há seis meses, em Paris,
inexplicáveis ajuntamentos;
e até se renovavam tantas vezes que os jornais já nem falavam no caso.
─ A isto falta perfil e cor ─ continuou o teu vizinho.
─ Cuido eu, messire, que degenerámos!
Nos bons tempos de Luís XI, os mesmos de Benjamin Constant,
havia mais agitação entre os estudantes.
Acho-os agora pacíficos como carneiros,
estúpidos como pepinos,
e bons para serem merceeiros, valha-lhes Deus!
E eis aquilo a que se chama a Juventude das escolas!

Abriu os braços, largamente, como Frédéric Lamaître em Robert Macaire.
─ Juventude das escolas, eu te abençoo!
Em seguida, apostrofando um trapeiro,
que remexia cascas de ostras de encontro
à entrada de um vendedor de vinho:
─ Fazes tu parte, estás a ouvir, da Juventude das escolas?
O velhote ergueu um rosto hediondo onde se distinguia,
no meio de uma barba cinzenta,
um nariz vermelho e dois olhos avinhados estúpidos.
─ Não, antes me pareces um desses homens de cara patibular 
que se vêem em diversos grupos, a semear oiro a mãos plenas
Oh!, semeia, meu patriarca, semeia!
Corrompe-me com os tesoiros de Albion!
Are you English?
Não repilo os presentes de Artaxerxes!
Falemos um pouco da união aduaneira.