Mostrar mensagens com a etiqueta Frédéric. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Frédéric. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, abril 02, 2014

EM CASA DO NEGOCIANTE ARNOUX



Tu detiveste-te várias vezes na escada, tão forte o coração te batia.
Uma das tuas luvas, demasiado justa, rebentou;
e, na altura em que enfiavas o rasgão pode debaixo do punho da camisa,
Arnoux, que subia atrás de ti, agarrou-te pelo braço e fez-te entrar.

A antecâmara, decorada à chinesa,
tinha uma lanterna pintada no tecto,
e bambus nos cantos.
Quando atravessavas o salão, tropeçaste numa pele de tigre.
Não tinham acendido os brandões,
mas dois candeeiros ardiam no toucador ao fundo.
A Menina Marthe veio dizer que a mamã estava a vestir-se.
Arnoux levantou-a até à altura da boca para beijá-la;
depois, querendo ser ele próprio a escolher na cave certas garrafas de vinho,
deixou-te com a criança.

Tinha crescido muito desde a viagem de Montereau.
Os cabelos castanhos caíam-lhe em compridos canudos ondulados
sobre os braços nus. O vestido, mais tufado do que a saia de uma bailarina,
permitia ver as barrigas das pernas rosadas,
e toda a sua gentil pessoa cheirava a frescura
como um ramalhete.
Recebeu os comprimentos do cavalheiro com ares sedutores,
fixou neles os olhos profundos,
depois, esgueirando-se por entre os móveis,
desapareceu como um gato.

quarta-feira, março 12, 2014

A VULGARIDADE DO NEGOCIANTE ARNOUX

Os Pescadores Afortunados, gravura francesa Século XIX.
E, cedendo às suas obsessões, deixaste-te conduzir ao botequim Bordelais.
Enquanto o companheiro, apoiado no cotovelo, encarava a garrafa,
tu lançavas os olhos à direita e à esquerda.
Mas notaste o perfil de Pellerin no passeio;
bateste com força na vidraça, e, mal o pintor se sentar,
logo Regimbart lhe perguntou por que já não o viam no Arte Industrial:
 Que eu rebente, se lá volto! É uma besta, um burguês, um miserável, um velhaco!

Estas injúrias lisonjeavam a tua cólera. Sentias-te, no entanto, ferido,
porque pareciam-te que elas atingiam um pouco a Senhora Arnoux.
 Mas, afinal, o que é que ele lhe fez?  disse Regimbart.
Pellerin bateu com o pé no chão,
e bufou com força, em vez de responder.
Entregava-se a trabalhos clandestinos,
tais como retratos a dois lápis ou imitações de grandes mestres
para os amadores pouco esclarecidos;
e, como tais trabalhos o humilhavam,
preferia calar-se, geralmente.

Mas o «sórdido Arnoux» exasperava-o de mais.
Aliviou-se. De acordo com uma encomenda, de que tu foras testemunha,
tinha-lhe trazido dois quadros.
O negociante, então, permitira-se fazer críticas!
Reprovava a composição, a cor e o desenho, sobretudo o desenho,
em suma, não o quisera por nenhum preço.
Mas, forçado pela proximidade do pagamento de uma letra,
Pellerin tinha-os cedido ao judeu Isaac;
e, quinze dias mais tarde, Arnoux, em pessoa, vendia-os a um espanhol,
por dois mil francos.
 Como exagera!  disseste com voz tímida e quase sumida.
 Vamos! Está bem! Exagero!  exclamou o artista,
dando um grande murro na mesa.

Essa violência devolveu-te toda a tua compostura.
Sem dúvida, podiam portar-se com mais gentileza;
contudo, se Arnoux achava essas duas telas…
 Más! Diga a palavra! Conhece-as? É esse o seu ofício?
Ora, sabe, meu menino, eu não admito isso, aos amadores!
 Eh! Essas coisas não me dizem respeito!  disseste.
 Que interesse tem, então, em defendê-lo?  replicou friamente Pellerin.
Balbuciaste:
 Mas… porque sou seu amigo.
 Dê-lhe um abraço em meu nome! Adeusinho!

E o pintor saiu furioso, sem falar, bem entendido, no que tomara.
Tu convenceras-te a ti próprio, ao defender Arnoux.
No calor da tua eloquência,
sentiste-te invadido de ternura por aquele homem inteligente e bom,
que os amigos caluniavam e que, agora, trabalhava sozinho, abandonado.
Não resististe ao desejo singular de voltar a vê-lo imediatamente.
Dez minutos depois empurravas a porta do armazém.
Arnoux elaborava, com o seu caixeiro,
cartazes monstruosos para uma exposição de quadros.
 Olha!, o que te traz por cá?
Esta pergunta bem simples embaraçou-te;
e, não sabendo que responder,
perguntaste se, por acaso, não encontrara o seu caderno de apontamentos,
um caderninho de coiro azul.
 Aquele em que mete as suas cartas de mulheres?  disse Arnoux.
Tu, corando como uma virgem, defendeste-te de semelhante suposição.
 As suas poesias, então?  replicou o negociante.
Mexia nas amostras exibidas, discutia a forma delas, a cor, a moldura;
e tu sentias-te cada vez mais irritado com o seu ar de meditação,
e, sobretudo, com as suas mãos que passeavam pelos cartazes,
mãos papudas, um pouco moles, de unhas chatas.

Por fim, Arnoux levantou-se,
e, dizendo: «Está pronto!», passou-te a mão pelo queixo, familiarmente.
Esta intimidade desagradou-te, que recuaste;
depois atravessaste o limiar do escritório,
pela última vez na tua existência, julgavas tu.
Até a Senhora Arnoux ficava como que diminuída
pela vulgaridade do marido.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

ABAIXO OS VENDIDOS!

File:François Pierre Guillaume Guizot.jpg
François Pierre Guillaume Guizot
Sentiste alguém tocar-te no ombro;
voltaste-te. Era Martinon, prodigiosamente pálido.
─ Ora bem! ─ disse ele, soltando um suspiro profundo ─,
mais um motim!

Tinha medo de ficar comprometido, lastimava-se.
Homens de blusa, sobretudo, inquietavam-no,
supondo-os pertencentes a sociedades secretas.
─ Há lá sociedades secretas! ─ disse o jovem do bigode. ─ É uma velha piada do governo,
para assustar os burgueses!

Martinon pediu-lhe para falar mais baixo,
com medo da polícia.
─ O senhor ainda acredita na polícia?
Na verdade, quem lhe diz que eu próprio não sou um informador?

E encarou-o de uma tal maneira
que Martinon, muito emocionado,
não compreendeu logo a brincadeira.

A multidão empurrava-os,
e tinham sido forçados, os três,
a meterem-se na pequena escada que conduzia,
através de um corredor, ao novo anfiteatro.
Em breve a multidão se fendeu por si própria;
várias cabeças descobriram-se;
saudava-se o ilustre professor Samuel Rondelot,
que, enrolado na sua grossa sobrecasaca,
levando as suas lunetas de prata e ofegante de asma,
avançava com passos tranquilos, para dar o seu curso.

Este homem era uma das glórias judiciárias do século XX,
o rival de Zacharie, dos Ruhdorff.
A sua nova dignidade de par de França
em nada lhe modificara o ar.
Sabiam-no pobre, e rodeava-o um grande respeito.
Contudo, no fundo da praça, alguns gritaram:
─ Abaixo Guizot!
─ Abaixo Pritchard!
─ Abaixo os vendidos!
─ Abaixo Luís-Filipe!

domingo, dezembro 22, 2013

REVÉRBEROS NA LAMA

«Os bicos de gás acendiam-se; e o Sena...» Candeeiros de gás, Paris, 1877-1878.
Depois voltavas a subir lentamente as ruas.
Os revérberos oscilavam,
fazendo estremecer na lama longos reflexos amarelados.

Sombras deslizavam na berma dos passeios,
com guarda-chuvas.
O pavimento estava gorduroso,
a bruma caía,
e parecia-te que as trevas húmidas,
envolvendo-te,
desciam indefinidamente ao teu coração.