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quarta-feira, abril 02, 2014

GETSEMANI

Da obra de José Manuel dos Santos Ferreira, Jesus Cristo Luz e Sentido da Solidão do Homem
Toda esta tese do José Manuel dos Santos,
e em particular este capítulo,
tem um significado absolutamente vital
e luminoso para mim,
para o sentido da minha vida
e da minha história pessoais.

Viver unido a Cristo e assim morrer
é todo o programa de Vida Feliz
a que posso aspirar
e bem eu sei de que Plenitude pode ela ser feita.
Nasci e cresci nesse halo de Amor Reverencial
e de Adoração ao Senhor Jesus,
numa espera activa e lúcida de Ele, 
Parusia dentro de mim,
Parusia na Plenitude, Loura Seara, para todos,
bebendo da Água Viva da Sua Palavra,
comendo a Sua Humaníssima Carne
e bebendo o Seu Sacratíssimo Sangue,
vivificado desde o meu cerne por Ele todos os dias.

Não tenho eu, Joaquim Carlos da Rocha Santos,
testemunho e testamento maior
a dar da minha passagem pelo mundo
que o meu Encontro Pessoal, olhos nos olhos,
com o Rei e Senhor do Universo,
Deus Filho, Messias, meu Redentor, Yeshua.

CAPÍTULO SEGUNDO

1. O PARADOXO E A HISTÓRIA


Entremos, pois, com Jesus, na sua Hora, que se cumprirá plenamente, quando o Filho do homem for «entregue às mãos dos pecadores» (Mt 26, 45; Mc 14, 41), pelo que a seu respeito se poderá também dizer: «Esta é a vossa hora e o poder das trevas» (Lc 22, 53). Não obstante, e como o IV Evangelho nos permite entender, será a hora em que Jesus realizará integralmente a missão que o Pai lhe confiou ― «foi precisamente para esta hora que Eu vim» (Jo 12, 27) ― e assim, glorificando o Pai (12, 28), virá a ser Ele mesmo glorificado (12, 23).

Antes, porém, da sua integral consumação no alto da Cruz, esta hora tem já de algum modo o seu início na oração de Jesus no Jardim das Oliveiras ou, mais exactamente, é aí que o seu sentido se manifesta de maneira irrevogável e definitiva por parte do próprio Jesus, como veremos.
Com a consideração da agonia do Getsemani, o nosso itinerário atinge um momento de particular densidade, aquele em que ― deixando de lado por agora a mesma morte ― a solidão de Jesus se nos apresenta mais intensa, mais dramática, quase palpável, pese embora tudo o que há nela de impenetrável e inexprimível.

É aqui que o paradoxo que já anteriormente considerámos, tendo acompanhado toda a vida de Jesus, se revela mais agudo, atingindo de certa forma o seu ponto culminante: na hora derradeira, e apesar de ter expressamente desejado a presença dos seus, Jesus será por eles abandonado, e desde logo a partir do Jardim das Oliveiras. Mas, por outra parte, que poderiam eles fazer, nesse momento em que o Unigénito de Deus iria ser entregue à morte por todos os homens?

As narrativas da oração de Jesus no Getsemani (Mt 26, 36-46; Mc 14, 32-42; Lc 22, 40-46), não obstante a orientação própria de cada evangelista, são todas ela percorridas por esta dialéctica de presença e ausência que tem os apóstolos como protagonistas, e que não pode ser considerada como um mero artifício literário ou apenas como uma composição da comunidade primitiva, mas exige um preciso fundamento histórico.

Em sentido contrário, poderia alguém observar que o núcleo essencial de tudo o que sucedeu no Getsemani consiste na relação de Jesus com o Pai, que os três relatos nos apresentam sob a forma de uma dramática oração. Sendo assim, admitir-se-ia a hipótese de que os primeiros cristãos, conhecendo a íntima relação entre Jesus e o Pai, e sabendo também que Jesus experimentara realmente a agonia na véspera da sua Paixão, sem contudo quebrar os laços que O uniam ao Pai, tenham simplesmente procurado formular os diversos elementos em presença, o que viria a constituir, segundo as diversas tradições, os actuais relatos da agonia (1). Em consequência, seria fácil prescindir da existência de testemunhas directamente envolvidas no acontecimento da agonia, superando deste modo delicados problemas que se lhes encontram conexos e que adiante serão recordados.

Pensamos, porém, que a existência de testemunhas que acompanharam de perto, ainda que de modo francamente imperfeito, a agonia de Jesus, e que é atestada pelos três relatos evangélicos, não pode ser eliminada, e não tanto por se tratar de testemunhas que viriam depois a comunicar o que viram e ouviram, quanto porque, sem elas, a agonia de Jesus ficaria privada de uma dimensão «horizontal» que desempenha, no entanto, uma função insubstituível.

Julgamos que o seu papel de testemunhas, no sentido próprio do termo, não pode ser também menosprezado, porque o carácter único da agonia de Jesus, com tudo o que esta tem de insólito e portanto de verdadeiramente imprevisível, não seria passível de invenção nem sequer de simples «composição» ou projecção do anteriormente sabido; não poderia ser algum modo conhecido o relatado, se não tivesse, de facto, acontecido, e se não tivesse, de facto, sido testemunhado.

Não obstante, mais importante do que tudo isto nos parece ainda o facto de que é a presença desses homens que faz da solidão de Jesus uma solidão total, diversa da solidão que Ele mesmo tantas vezes procurou, nomeadamente para se isolar das multidões ou para se dedicar à oração. Aqui, como veremos adiante mais de perto, Jesus procura a solidão, porque tudo se decide exclusivamente na sua relação com o Pai. Mas procura também a companhia de alguns dos seus discípulos, segundo o dinamismo da partilha que com eles instituíra, e acabara de se consumar na Eucaristia, a qual, porém, ficará agora inteiramente por realizar. Vai para o Jardim das Oliveiras para estar a sós com o Pai, mas experimentará também a solidão do abandono por parte daqueles mesmos que quis levar consigo. Tudo se define no seu diálogo com o Pai, mas os discípulos recusarão participar nessa hora crucial, ainda que, de facto, só «à distância» o pudessem vir a ter feito.

É esta presença dos discípulos na agonia do Jardim das Oliveiras que, por contraste, nos faz ver até ao fundo a inconcebível extensão dessa agonia, a sua abissal profundidade. Por outro lado, porém, se a própria dinâmica interna da solidão assumida por Jesus reclama a presença dos discípulos, é também esta que nos permite o conhecimento da sua efectiva historicidade e do seu conteúdo essencial. Como acima afirmámos, não é primordialmente como testemunhas que os discípulos presentes no Getsemani nos interessam, mas essa sua qualidade é também muito relevante, e merece por isso ser adequadamente valorizada (2).

No entanto, este dado poderia ser posto em dúvida, como frequentemente tem acontecido, em razão, sobretudo, da referência ao sono dos discípulos, mencionado por qualquer dos três relatos evangélicos. Julgamos, porém, que não se justifica uma atitude de cepticismo radical, pois, como observa W. Marchel, «é impossível que todos os discípulos tenham adormecido instantaneamente, automaticamente, ao mesmo tempo e pelas três vezes (cf. Mc; Mt), desde que Jesus se afastou deles para rezar. Aliás, nessa noite, após os grandes acontecimentos das últimas horas, não menos impressionantes que solenes ― a Ceia, a traição de Judas, os discursos de Jesus ― os discípulos estavam todos muito perturbados.

Captando ao menos em parte a gravidade da situação, é de admitir que não tenham sido imediatamente tomados pelo sono, e que tenham permanecido despertos ainda por algum tempo. Eis porque não podem ter deixado de ouvir Jesus, antes de se abandonarem a um semi-sono cheio de inquietação» (3).

Outra objecção muito comum observa que, segundo Lc 22, 41, Jesus se afastou dos discípulos «à distância de cerca de uma pedrada», coisa que parece privá-los de toda a possibilidade de acompanhar o que se tenha passado. Mas também esta dificuldade não se afigura decisiva, porque essa distância é a que separava Jesus do grupo maior dos discípulos (Lc 22, 40), não a que O separava de Pedro, Tiago e João, a quem S. Lucas não se refere, e que (segundo Mt 26, 37; Mc 14, 33) acompanharam mais de perto Jesus, que deles se separou apenas «um pouco» (Mc 14, 15) (4).

Por outra parte, o uso feito por diversos autores desta mesma expressão: «à distância de cerca de uma pedrada» ou de outras semelhantes, parece referir um limite dentro do qual seria ainda possível ver e ouvir (5), coisa que S. Lucas pretenderia também indicar, sugerindo, em consequência, que o acontecimento por ele relatado «teve testemunhas, e foi delas que, directa ou indirectamente, receberia o essencial dos pormenores que nos transmite» (6).

A angustiosa luta de Jesus esteve, pois, de algum modo e por pouco tempo que fosse, ao seu alcance, e apesar disso não puderam ou quiseram vigiar com Jesus. Mais tarde, um ou outro daqueles que Jesus tomou consigo transmitiria à comunidade cristã o testemunho desse episódio singular em que o seu Senhor abraçou humanamente de modo tão dramático, mas ao mesmo tempo com completo assentimento, a vontade do Pai, sem que, porém, da parte dos seus, tivesse podido contar com a mais remota solidariedade.

E não é de excluir que o facto mesmo do sono dos apóstolos possa ter sido literalmente sublinhado nos relatos da cena da Agonia, para pôr ainda mais de manifesto a sua radical incapacidade de estar e lutar com Jesus nesse momento decisivo. Será assim como que um símbolo da desunião que se instaurou entre os discípulos e Jesus (7). O paradoxo é deste modo acentuado até ao extremo, o que mais fortemente destaca, a nosso ver, a sua plena autenticidade histórica, em que cada um dos evangelistas nos introduz segundo a sua acentuação peculiar.

2. «PERMANECEI AQUI E VIGIAI COMIGO»

O episódio do Jardim das Oliveiras pode ser considerado de dois pontos de vista diversos, de importância desigual, mas ambos merecedores de atenta análise: a relação de Jesus com o Pai e a sua relação com os discípulos. Aquela é, evidentemente, a mais importante, mas também esta contém um profundo significado. Analisá-la-emos em primeiro lugar.