«Este início de Agosto tem
sido animado por um artigo
que Oscar Mascarenhas
escreveu no DN, intitulado
“Poiares Maduro e
Lomba são tão-somente o
fascismo a bater-nos ao de leve
à porta”. Muita gente criticou
o tom desbragado do texto e
questionou se um provedor dos
leitores deveria utilizar a sua
coluna semanal para se atirar ao
Governo. Tendo em conta que
este espaço se chama O respeitinho
não é bonito, ficar-me-ia mal estar
a chatear o Oscar por ter sido
indelicado ou por ter extravasado
as suas competências. Interessa-me muito mais chateá-lo por o seu
texto não ter pés nem cabeça.
Como muita gente sabe — e
quem não sabe fica agora a
saber — eu sou amigo do Pedro
Lomba. Mas sendo eu colunista
do PÚBLICO e ele o secretário de
Estado responsável pelos briefings
do Governo, faz parte do meu
trabalho criticá-lo. E critico-o:
aquilo que à partida poderia ser
uma ideia louvável — melhorar
a comunicação do Governo e
clarificar temas substanciais
— tornou-se um pesadelo para
todos os envolvidos. Só que,
João Miguel Tavares
ao contrário daquilo que Oscar
sugere no seu texto, a culpa não
é da ideia dos briefings em si,
por mais infeliz que tenha sido a
explicação do on e do off — a culpa
é de um governo que colecciona
polémicas com a devoção com
que um numismata colecciona
moedas antigas.
E assim, o que originalmente
era uma série de encontros com
a comunicação social para dar,
segundo as palavras oficiais,
“informação correcta e explicada”
e aumentar a “transparência”
do Governo transformou-se
rapidamente, com o avolumar
dos casos de swaps e das
nomeações com inconsistências
problemáticas, uma carreira de
tiro a secretários de Estado, onde
Pedro Lomba, até pelo seu papel
recente de colunista e de crítico
do Governo, não tem forma de
se sair bem. A este ritmo, todas
as semanas vai ser possível aos
jornais e aos blogues brincarem ao
vejam-o-que-ele-diz-e-comparem-com-o-que-ele-dizia — e por isso,
mantê-lo no papel de punching
bag mediático é uma crueldade
imerecida. Se Poiares Maduro é
tão inteligente como se diz, já o
devia ter percebido.
E
é porque as coisas são tão
evidentemente assim que o
tão popular texto de Oscar
Mascarenhas não tem os
tais pés nem a tal cabeça.
O provedor dos leitores
do DN escreve um longo artigo
para alegadamente defender que
os briefings do Governo são um
atentado à democracia quando
o que eles estão a ser, isso sim, é
um atentado à credibilidade de
todos os que se sentam àquela
mesa de mogno com o símbolo da
República. Sim, “estamos a viver
tempos perigosos”, mas como
Oscar Mascarenhas bem sabe, e
com certeza já terá testemunhado,
tendo em conta os anos que leva
como jornalista, o perigo não está
no que é feito debaixo da luz dos
holofotes — está no que é feito
nas sombras dos escritórios, dos
corredores, das lojas, dos cafés
da Avenida de Roma e até das
redacções.
Por isso, ao contrário do que
alguns querem fazer parecer,
o artigo do Oscar não é uma
corajosa defesa da liberdade de
imprensa, atitude que teria sido
infinitamente mais útil durante
a vigência do anterior Governo,
que atacou a comunicação social
como nenhum outro após o 25 de
Abril. É apenas um texto armado
com cartuchos de zagalote
para enfrentar uma questão do
tamanho de um pardalito. Se
Oscar acha que estes briefings
género hara-kiri são o fascismo
a entrar “de esguelha”, receio
bem que não consiga pegar o
verdadeiro fascismo pelos cornos
se algum dia ele vier bufar mesmo
à frente do seu nariz.» João Miguel Tavares, in Público, 08 de Agosto, 2013
«After he has suffered, he will see the light of life and be satisfied; by his knowledge my righteous servant will justify many, and he will bear their iniquities.Therefore I will give him a portion among the great, and he will divide the spoils with the strong, because he poured out his life unto death, and was numbered with the transgressors. For he bore the sin of many, and made intercession for the transgressors.» Isaiah 53
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Lomba. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Lomba. Mostrar todas as mensagens
sábado, agosto 10, 2013
segunda-feira, julho 01, 2013
EFICÁCIA DE PEDRO LOMBA
Até aqui, o Governo era um alvo sentado, um pato estático à mercê de qualquer tiro justo, imbecil, injusto, maldoso. Agora, chegou o momento da eficácia do contraditório. Factos contra treta. Pedro Lomba ditou as regras. E agora um qualquer membro do Governo pode pronunciar-se diariamente em tempo útil sobre quaisquer ataques mesquinhos e maldosos de que possa ser alvo e esses não faltam. Neste primeiro encontro Governo/Jornalistas, Maria Luís Albuquerque foi absolutamente eficaz no que transmitiu: a 18 de Junho de 2011, data de uma reunião entre Teixeira dos Santos e Gaspar, MLA não conhecia ainda o actual ministro nem sequer tinha sido convidada para o cargo e o que sabe é que, apesar de ter sido transmitida informação pelo anterior Governo, esta não reflectia a gravidade do problema. Foi o actual executivo que teve de começar tudo do zero porque não havia dados sobre as características dos contratos ou sobre a existência de cláusulas de reembolso antecipado. Os xuxas desejam imputar o máximo de culpas ao Executivo a fim de criarem uma bolsa de indulgência eleitoral nas próximas autárquicas. Boa sorte, rapazes. Vai ser necessário muito mais que especulação e estupidez. A materialização dessa ideia de Pedro Lomba recorda a narrativa de Commodus de uma certa cobra marinha sob ataque a fingir de morta até disferir um ataque mortífero a todos os inimigos. Aplica-se perfeitamente à estratégia de ressurreição eleitoral de PSD-CDS-PP. Responder à letra. Com vigor. Assertividade, rompendo com a cortina de calúnias e a nuvem de deturpação da realidade, a insistência na fraqueza, imobilidade, descoordenação, incompetência, como no caso de Santana, quando se proliferou um tipo de rumor e de pressão até produzir resultados, a demissão de um Governo Maioritário. A pedido.
sexta-feira, junho 28, 2013
SEMPRE A TEMPO
Os dois primeiros anos do ajustamento foram horríveis. Não ter trabalho, dinheiro, comida, é uma realidade para muitos de nós, sendo que a capacidade de partilha em Portugal é um mito: dificilmente haverá povo mais individualista e metido no seu casulo como o nosso: francês na França, norte-americano na América, alemão na Alemanha, suíço na Suíça, romano em Roma, o português é qualquer coisa de civicamente híbrido e indefinido em Portugal, por um pouco saídos da selva e por outro ainda nómadas de ideias quanto ao País que melhor resistirá ao Mercado Global. Tenho sido ajudado por muitos leitores e são eles que, com um donativo simbólico, impedem que desista e parta imediatamente para outro País. Entretanto, é horrível prosseguir tesos e sem perspectivas cá dentro. Acredito porém no espírito de serviço e de bom senso do Pedro Lomba, na inteligência em movimento permanente de leitura da realidade em Miguel Poiares Maduro, da mesma forma que me aposto todo na teologia dos afectos do meu Papa Francisco. Sou, sempre fui o que ele faz. Melhores dias virão para quem sofre em Portugal. Se os governantes nos explicarem o que fazem e para quê, esses dias virão mais rapidamente porque para eles nos havemos de mobilizar. Foi graças ao vazio discursivo do Governo até aqui que os imbecis da Esquerda-que-Berra e barra o trânsito medraram com os seus refrões velhos com trinta e nove anos de má memória de 1975-76.
quinta-feira, janeiro 31, 2013
sábado, dezembro 15, 2012
terça-feira, novembro 06, 2012
quinta-feira, julho 26, 2012
CÂNDIDA ABDUÇÃO DE UMA JUSTIÇA ISENTA
«Faltam 46 dias, 1104 horas,
para o dr. Pinto Monteiro
deixar de ser Procurador Geral da República. Mas não
está a ser um fim de mandato
calmo e meritório. No fecho
do julgamento do Freeport, o juiz
do Tribunal do Barreiro absolveu
os arguidos Manuel Pedro e
Charles Smith, mas deixou no
papel severas críticas ao modo
como todo o caso foi investigado.
Ao fim de sete anos acabou tudo
com o Ministério Público a pedir
absolvição dos acusados e com o
juiz principal a passar um atestado
de incompetência a Pinto Monteiro
e, sobretudo, a Cândida Almeida,
não só pelo tempo que demorou o
inquérito, não só pelas diligências
que não foram feitas, mas
precisamente por nunca ter sido
conduzido a fim de esclarecer que
papel teve José Sócrates na história.
Quase tudo no inquérito ao
licenciamento do Freeport foi,
do princípio ao fim, um desastre.
Ainda me lembro da entrevista
de Cândida Almeida à RTP, íamos
em 2009: “José Sócrates não é
arguido, não foi investigado”,
mas pode vir a ser, dizia então a
procuradora. Se a ideia de Cândida
Almeida era sossegar a opinião pública e velar pela presunção de
inocência do ex-primeiro-ministro,
eram declarações no mínimo
desastrosas. Não é arguido, não foi
investigado, mas podia vir a ser.
Sócrates nunca foi arguido,
nunca foi investigado e nunca
saiu, com danos para o próprio,
do purgatório do “podia vir a ser”.
Depois, foram as 27 perguntas
para o ex-primeiro-ministro que
os procuradores responsáveis
pelo inquérito disseram que
não tiveram tempo de fazer,
significando com isto que não
tiveram resposta superior de
Cândida Almeida. Agora, após
um julgamento em que várias
testemunhas foram aludindo a
reuniões com os promotores,
pagamentos, mudanças de
arquitectos, já para não falar da
figura de Bernardo, “o Gordo”,
o juiz do Barreiro ordenou a
extracção de certidões dos
depoimentos de três testemunhas
(o antigo administrador da
Freeport Alan Perkins, o advogado
Augusto Ferreira do Amaral,
e uma antiga funcionária de
Manuel Pedro), para a enviar
ao Departamento Central de
Investigação e Acção Penal.
Guardo ainda memória de outra
entrevista de Pinto Monteiro, à
SIC, em que o procurador-geral
aconselhou os cépticos a irem
consultar o processo, que, sendo
público, poderia desfazer todas
as angústias sobre aquilo que lá
estava. Imagino a surpresa de Pinto
Monteiro com as considerações
do Tribunal do Barreiro sobre o
inquérito que deveria ter existido,
mas nunca existiu. Não vejo como
é que Cândida Almeida pode
permanecer no cargo que ocupa.
O inquérito do Freeport não
foi só demorado e tumultuoso.
Teve acidentes processuais
pelo meio, pressões, inquéritos
aos inquéritos, processos
disciplinares que, mesmo
descontando as lutas intestinas
dentro do Ministério Público
entre o procurador-geral e o
Conselho Superior, acentuam a
nuvem sobre o que se passou.
É escusado pensar que, com
ou sem a certidão do juiz do
Barreiro, este estado de coisas
possa ser resolvido. Já ninguém
acredita nisso. Portanto, e
até pelo caos processual que
envolveu o caso, bem podia
o Parlamento constituir uma
comissão de inquérito para
apurar tudo aquilo que correu e
vai correndo mal na investigação
de casos como o Freeport,
que insufi ciências, problemas,
distorções, barreiras ou falta de
meios afectam a capacidade de
resposta do Ministério Público.
Mesmo que no Parlamento os
inquéritos sejam muitas vezes
inconsequentes, a credibilidade da
Justiça justifi ca aqui uma comissão.
Não sobre o caso em si, claro, mas
sobre a impotência judicial que o
caso nos revela. Isto se ainda nos
quisermos levar a sério» Pedro Lomba
quinta-feira, junho 21, 2012
«A MELHOR SELECÇÃO DE SEMPRE»
«Miguel Esteves Cardoso,
sempre tolerante e
bem-humorado, dizia
ontem, depois da vitória
contra a Holanda, que
os adeptos portugueses
perderam e estão de castigo.
Admito que ele tenha razão.
O povo português é, como
sabemos, um povo enlutado. Na
primeira derrota, veste a capa
negra, tinge os cabelos de branco
e fi ca chorando mortos e feridos
que nunca aconteceram. Como
país, somos uma viúva.
Mas eu queria mesmo, desta
vez, não era tratar da viúva.
Assistindo ao Euro no estrangeiro
como tenho feito, o que mais me
tem chocado são os desabafos
dos “entendidos”. Com uma
linguagem meio esotérica
(felizmente ainda ninguém
usou a palavra “bascular”),
jornalistas, comentadores da
bola, treinadores, ex-treinadores,
ex-jogadores, começaram por
desfi lar nas televisões e nos
jornais distribuindo críticas e
sentenças definitivas sobre a
equipa portuguesa.
Esta tem sido a selecção com a
pior imprensa de sempre. Quando
perdemos contra a Alemanha, os entendidos disseram que
nos faltava estofo, atitude,
superioridade. Numa frase: uma
selecção apagada, ou mesmo
uma selecção de coxos. Claro
que Portugal até jogou bem. Mas
que interessavam os factos aos
entendidos? Eles só queriam que
os factos confirmassem as suas
piores profecias eliminatórias.
Mas são maus profetas estes
entendidos. Vejam, a seguir, o
anti-ronaldismo. Por amor de
Deus! Nem nos próximos 50
anos teremos um futebolista
com a qualidade e a perfeição
de Ronaldo. É um fora-de-série.
Devíamos guardar o ADN dele
num frasco.
terça-feira, abril 10, 2012
SUSPENSÃO FURTIVA DAS REFORMAS ANTECIPADAS
«É
verdade que um Estado
que precisou de assistência
externa para continuar
a cumprir as suas
obrigações não pode ser
considerado normal. A
presença contínua dos burocratas
internacionais na nossa política
inaugurou na prática um
período de excepção baseado
em austeridade, sacrifícios e
aceleração das reformas. Tudo
isso justifica maior “liberdade”
do Governo com o objectivo de
repor alguma sanidade financeira.
Precisamente, também impõe
maior vigilância colectiva sobre
essa “liberdade” governamental.
Este estado transitório não
significa, nem pode significar,
que os nossos governantes
comecem a manobrar numa zona
cinzenta, aceitando que qualquer
justificação serve para decisões
políticas que não tomariam em
circunstâncias normais. O caso da
suspensão furtiva das reformas
antecipadas da Segurança Social é
um bom exemplo.
Aconteceu que o Governo
suspendeu as reformas
antecipadas da Segurança Social
praticamente em segredo.
Decidido a justificar a medida,
Pedro Lomba
Passos Coelho afirmou em
Moçambique que a suspensão
foi firmada sem conhecimento
público para que não houvesse
um recurso anormal às reformas.
E comparou a decisão com a
desvalorização da moeda. “É
um bocadinho como, quando
se tinha moeda própria, fazer a
desvalorização da moeda. Tem de
se anunciar a medida quando os
mercados estão fechados”, referiu
Passos Coelho.
Não, esta suspensão furtiva
não é um “bocadinho” como
a desvalorização da moeda.
Nem pode ser apresentada
nesses termos, porque as
responsabilidades do Estado
são muito diferentes num caso
e noutro. Quando os governos
desvalorizavam a moeda, o
anúncio dessa decisão faria
com que toda a gente tentasse
libertar-se dela, trocando-a por
outros activos cujo preço subiria
fatalmente em relação à moeda
nacional. Daí poderia resultar
uma desvalorização superior ao
pretendido.
Percebe-se que a intenção
do Governo com a suspensão surpresa era contrariar o mesmo
comportamento racional de quem
iria correr em massa às reformas
antecipadas antes de a torneira
fechar.
Só que a analogia é desastrada,
quando se compara as
expectativas dos agentes nos
mercados com as expectativas
e os direitos das pessoas sobre
as suas pensões. Não foram os
portugueses que descontaram
para a Segurança Social que
aprovaram a possibilidade de
anteciparem a sua reforma.
Podemos ou não achar a reforma
antecipada um direito bizantino
– eu tenho dificuldade em
compreender reformados de 55
anos –, mas a verdade é que esse
direito existe, foi com ele que as
pessoas contavam e, ainda que
seja necessário revê-lo, isso não
pode ser feito à sorrelfa, sem ao
menos conceder aos destinatários
o tempo adequado para decidirem
o que fazer.
Qualquer governo que
pretendesse, por compreensíveis
razões orçamentais, alterar este
estado de coisas teria sempre
que suportar o “risco” de um
aumento exponencial dos pedidos
de reformas. Esse seria, como
disse, um risco que o governo
teria de interiorizar, seria um
risco natural, podemos mesmo
dizer “compensatório”, mas pelo
menos o governo estaria a agir
com lisura e transparência. Uma
decisão-surpresa é que só pode
ser inaceitável para qualquer
pessoa de boa-fé. Coloquemo-nos
na pele destas pessoas. Sobretudo
sabendo que o Governo nunca
faria o mesmo, se fossem outros
os privados e os contratos.
Governar um povo em
emergência não pode ser governá-
lo pelas costas.» Pedro Lomba
sexta-feira, abril 06, 2012
"PARRHESIA" — INDIVÍDUO E SOCIEDADE
«O
processo de Jesus a que
sempre regressamos
na Páscoa condenou
um homem por dizer
a verdade. No Novo
Testamento encontramos
muitas manifestações desse dizer
a verdade, dessa revelação da
verdade, que aí e no pensamento
cristão se confundem com a
confiança que podem ter os que
acreditam em Deus e os que
aceitam pregar “francamente”,
como diz S. Paulo, em nome
de Jesus. Quando se apresenta
aos fariseus, Jesus afirma
abertamente que é filho de
Deus. Jesus assume que tem de
usar um discurso directo, claro,
desprovido de obscuridade ou
figuras de estilo.
Este falar com franqueza, ou
este falar livre (não é por acaso
que os franceses dizem “franc
parler” e os ingleses “free speech”,
discurso franco ou discurso livre)
era uma prática a que os antigos
gregos chamavam “parrhesia”.
Na Grécia antiga o conceito de
parrhesia significava literalmente
“falar tudo” e, por arrastamento,
“falar livremente”, “falar
ousadamente”, o que em certos
contextos era não só necessário
Pedro Lomba
como inescapável. Falar com
parrhesia não consistia numa
simples actividade verbal,
não era apenas liberdade de
expressão, porque aquele
que discursava com parrhesia
aceitava dizer tudo, com
abertura, aceitava dizer a
verdade para o bem comum,
mesmo em situação de risco
pessoal. Não omitia nada, não
concedia nada, não tinha em
vista convencer uma audiência
mas expor uma verdade
potencialmente inconveniente
e destruidora. E, como não
conhecia que consequências
recairiam sobre si por dizer o
que disse, os riscos podiam ser
de morte.
No último curso que deu
no Collège de France antes
de morrer, Michel Foucault
dedicou-se a estudar a parrhesia
como conceito essencial da
vida política para os gregos,
relacionando-o com o papel da
verdade e dos discursos sobre
a verdade em democracia. Era
um conceito ambivalente, difícil
de deslindar. Foucault lembrava
que já na Grécia a parrhesia era
entendida tanto num sentido
positivo (o que diz tudo para
o bem comum) como negativo
(o que diz qualquer coisa que
lhe vem à cabeça, o que não se
cala, o que não se restringe). Por
isso, podíamos ver a democracia
como o regime que permitia a
parrhesia, mas também como
o que facilitava o seu uso
destemperado por quem tudo
diz sem pensar no que diz.
Para regressarmos ao processo
de Jesus Cristo, torna-se agora
evidente que a sua condenação
não partiu só de uma multidão
ou, dizendo de outra maneira,
de uma maioria democrática,
ansiosa por punir uma voz
que lhe parecia fraudulenta e
ameaçadora. Foi, mais do que
isso, a condenação de um acto
de parrhesia, a recusa de um
gesto corajoso de franqueza.
Porque em democracia — e
essa é uma das lições políticas
do julgamento de Jesus — são
sobretudo os que dizem falar com
abertura, falar ousadamente,
que mais expostos ficam a um
voto de desconfiança e rejeição.
Temos muitos exemplos disso
sempre que alguém denuncia
um escândalo, uma fraude, uma
mentira colectiva — e a multidão
reage inquieta, talvez por ter sido
disturbada no seu sono injusto.
A parrhesia, o acto de dizer
a verdade, pode ser perigoso
para a sociedade no seu todo,
tal como pode ser perigoso
para o indivíduo na sua própria
vida e integridade. Ninguém
diria que viver em democracia
é “viver perigosamente”, mas é
isso exactamente que é. E quem
nunca teve ou procurou o seu
momento de parrhesia, falando
tudo, aceitando todos os riscos de
uma espécie de conversão?» Pedro Lomba
terça-feira, abril 03, 2012
MESMICE DE OS MESMOS COMENTAREM OS MESMOS
«Ao fim de certo tempo em
contacto com o que se vê
lá fora, acessível hoje em
dia quer nas televisões
quer nos jornais, é
inevitável que nos surja
uma amarga pergunta. Se me
puderem esclarecer, eu agradecia,
porque admito que não chego lá.
Há pouco tempo comentava com
gente do ofício sobre essa realidade
que coloca o nosso discurso
público, não digo ao nível do Mali
mas de regimes capacitários e
pré-democráticos, anteriores à
separação de papéis entre aqueles
que mandam, aqueles que fazem
política e leis, e aqueles que
controlam, em teoria todos nós. A
discussão não foi conclusiva.
Comecemos pela dúvida. Qual a
razão para os jornais e as televisões
domésticas estarem cheios de
políticos em funções, deputados,
antigos ministros, fazendo o papel
de comentadores interessados,
de jogadores e árbitros ou de
pretensos observadores externos
de um meio em que os próprios
estão ou acabaram de estar
profi ssionalmente envolvidos?
Não pretendo queixar-me de
ninguém em especial. Como
sempre, os humores pessoais são inúteis para o caso. E excluo
do problema quem tem cartão
partidário, porque pertencer a
um partido não faz de alguém
um político, nem lhe retira
liberdade. Na RTP há um programa
semanal em que deputados do
Parlamento Europeu debatem
as coisas da Europa, que em
princípio discutiram antes nas
salas apropriadas. Na SIC há
debates diários entre deputados
sobre os acontecimentos do dia
e já sucedeu os ditos deputados
acabarem por debater na televisão
à noite sobre os debates em que
tinham intervindo no Parlamento de
manhã, numa curiosa duplicação
de debates sobre debates. Se
ainda esses políticos aceitassem
discutir com outros cidadãos, até
seria meritório. Mas não: trata-se de discussões entre políticos,
em circuito fechado, ficcionando
uma liberdade de espírito que não
existe.
Olho à volta e não descubro
paralelo. Um jornal americano,
alemão ou inglês é escrito
por jornalistas, escritores,
economistas, académicos, isto é,
por gente diversa que em comum
só tem o facto de não fazer da
política a sua ocupação e de
dominar ou uma generalidade ou
uma especialidade. Os espaços de
debate nas televisões são a mesma
coisa. A SIC publicita a Quadratura
do Círculo como um programa de
comentário político. Em sonhos,
porventura.
Em Portugal, a mera
circunstância, fortuita ou
planeada, de um indivíduo chegar
à política, quer no presente, quer
no pretérito perfeito, confere um
significado oracular ao que ele tem
para dizer. Ninguém aceitaria que
o director de uma grande empresa
escrevesse por norma uma coluna
sobre temas em que a empresa
fosse interessada. Aos políticos
tolera-se tudo.
Não admira que os jornais e as
televisões se tenham transformado
numa extensão dos pequenos ou
grandes dramas da vida política
pátria. Em vez de construírem um
discurso autónomo e informado
sobre o “jogo” do poder, são
uma espécie de recreio onde os
praticantes do “jogo” se exercitam
testando a sua influência e agenda.
Podia dar-se o caso de os nossos
políticos serem especialmente
verbosos e telegénicos. Não
são. Podia faltar na sociedade
portuguesa gente capaz de formar
a chamada “classe discutidora”,
para usar uma expressão
reaccionária com que era
catalogada a burguesia liberal. Bem
pelo contrário.
Lendo os jornais do início do
século XX, uma pessoa esbarra
com anúncios colocados pelos
próprios políticos, publicitando
um encontro ou um jantar nesse
dia. À altura ainda se percebia.
Não mudámos nada. Existe o país
político que fala e o resto que
assiste.» Pedro Lomba
sexta-feira, março 30, 2012
PARA SEMPRE, MESTRE MILLÔR!
«Entre 1964 e 1974, Millôr
Fernandes escreveu
regularmente para o
nosso Diário Popular. Não
digo que foram esses os
seus anos mais férteis,
porque até aos 88 manteve
uma genialidade constante,
insofismável. Mas foram anos
em que o talento de Millôr
andou especialmente à solta, no
desenho e na crónica, na revista
Pif-Paf, na colecção de maravilhas
das letras brasileiras que forjaram
O Pasquim, publicação subversiva
e revolucionária, que em Portugal
talvez tenha paralelo na revista
Kapa. Esses foram também
os anos que culminaram em
Trinta Anos de Mim Mesmo, livro
publicado em 1972 e um bom
ponto de partida para o que
Millôr escreveu nas primeiras
décadas.
Em Portugal Millôr não sabia
que tinha um leitor no governo:
Salazar. Diz-se que, comentando
com algum ministro as suas
crónicas, Salazar terá soletrado:
“Este gajo tem piada. Pena que
escreva tão mal o português.”
Difícil não ficar siderado. Como
era possível que Salazar achasse
a prosa de Millôr mau português? Mau português as Notas de um
ignorante, uma das mais belas
crónicas da nossa língua? Mau
português as centenas de frases e
aforismos de Millôr, hoje reunidas
em A Bíblia do Caos?
Millôr deve ter sabido da
história. Em Currículo, um texto
tipicamente millôriano, porque
desafia as leis gramaticais e
outras, ele escreve um texto que
funciona como sucessão de frases
cortadas, omitindo sempre o
facto essencial:
“Millôr Fernandes nasceu. Todo
o seu aprendizado, desde a mais
remota infância. Só aos 13 anos de
idade, partindo de onde estava (…)
Quando o conheceu em Lisboa, o
ditador Salazar, o que não significa
absolutamente nada.”
Mas não é estranho que Salazar
tivesse embicado com o estilo
de Millôr, ou com a ausência de
estilo, já que o brasileiro se definia
precisamente como um “escritor
sem estilo”. Estava ali o choque
frontal entre um ditador e um
humorista. Um ditador pensa que
é o mais livre dos seres, quando na
realidade é o mais enclausurado,
preso às malhas que sustentam
o seu próprio poder e à ilusão
que estabelece no povo. Um
humorista, pelo menos como
Millôr, só pode ser um espírito
livre, desafiando todos os poderes
e todas as normas; só pode ser
radicalmente contra a obediência
imposta, o politicamente correcto,
a subserviência de quem diz
que sim a tudo, de quem segue
cartilhas, de quem age e pensa em
manada. “Nada é mais falso do
que uma verdade estabelecida”,
diria Millôr.
Quando em 1968 Millôr se
apresentou aos leitores para uma
coluna na revista Veja, começou
assim:
“E lá vou eu de novo, sem freio
nem pára-quedas. (…) Quem é
que sou eu? Ah, que posso dizer?
Já não fazem Millôres como
antigamente! Nasci pequeno e
cresci aos poucos. Primeiro me
fizeram os meios e, depois, as
pontas. Só muito tarde cheguei
aos extremos. E não me revolto.
Fiz três revoluções, todas
perdidas.”
As pequenas prosas de Millôr
Fernandes, contos fabulosos,
composições lúdicas, às vezes
exercícios surreais, outras vezes
manifestos tão humanos quanto
cépticos, foram a âncora de um
homem que questionava tudo
e, por isso, também olhava a
esquerda e a direita com o mesmo
realismo cínico: “A diferença
fundamental entre direita e
esquerda é que a direita acredita
cegamente em tudo que lhe
ensinaram, e a esquerda acredita
cegamente em tudo que ensina.”
Na América houve Mark
Twain, que tinha também uma
imaginação prodigiosa. No
Brasil e na língua portuguesa
houve Millôr Fernandes. Ontem
morreu um génio.» Pedro Lomba
quarta-feira, março 28, 2012
CRIMINALIZAR O QUE É CRIMINALIZÁVEL
«Nos últimos tempos
apareceu nos jornais,
a propósito da
responsabilidade dos
políticos pela nossa actual
condição, a expressão
‘judicialização da política’.
Sempre num tom cáustico ou
desconfiado. Como nestas alturas
a velha complacência portuguesa
vem ao de cima, vale a pena
pensar naquilo que pode ser essa
judicialização.
A expressão não me parece
bem empregue. Há muito tempo
que a política se judicializou.
Os juízes são frequentemente
obrigados a “fazer política”, ainda
que o escondam, ou pelo menos a
medir as consequências políticas
das suas decisões. Quando se
pede aos tribunais que julguem
políticas públicas, o que é isso
senão uma forma de judicializar
a política? Quando o Tribunal
Constitucional, como outros,
considera, e bem, o rendimento
de inserção um direito assente
na dignidade humana, não existe
aí judicialização da política?
Quando os fautores do regime
distribuíram uma pletora de
controlos pelos tribunais, não
estavam a judicializar a política? Os exemplos podem multiplicar-se. Em defesa da igualdade ou
da protecção de bens públicos
os tribunais escrutinam
rotineiramente escolhas políticas
e sociais. Podemos dizer, por
exemplo, que o Estado Social
depende da judicialização da
política.
Por conseguinte, não pode
ser a judicialização da política
que, neste caso, atormenta
algumas opiniões. O problema
está então em criminalizar
a responsabilidade de quem
nos meteu neste sarilho. Ora,
devem os políticos responder
só politicamente ou também
criminalmente por ilegalidades
que pratiquem? Devem ficar
expostos a investigações e
inquéritos como qualquer
cidadão, ou a leis, processos
e tribunais especiais? Devem
responder por crimes gerais
ou também por crimes
especificamente desenhados
para as suas funções? E por que
géneros de crimes?
Estas são dúvidas de princípio.
Nada fáceis. Sem dúvida que o
recurso aos tribunais com vista a
punir condutas políticas ilegais
e danosas pressupõe toda a
cautela e razoabilidade. Por toda
a parte as perseguições do poder
judicial contra o poder político
redundaram quase sempre em
vitórias e derrotas para os dois
lados, e com erros e indignidades
pelo meio. Só por isso, a iniciativa
da Associação Sindical de Juízes
de querer levar a tribunal 14
ministros do anterior governo,
por supostas despesas abusivas, é
insensata e gratuita.
Mas o absurdo deste último
exemplo não pode servir,
de nenhuma maneira, para
prescindirmos da criminalização
da actividade política.
Em primeiro lugar, um Estado
que se prepara para usar o
Código Penal para perseguir
cidadãos que prestarem
declarações falsas não pode
ser brando, por razões de
justiça, com os crimes de
responsabilidade em que
incorram os titulares de cargos
políticos. Segundo, não existe
nenhuma democracia do mundo
que não admita algum tipo de
criminalidade especial para
governantes e altos funcionários.
Terceiro, não esqueçamos que,
depois de largar o poder por
vontade própria ou por perder
eleições, resta apenas uma
forma eficaz de responsabilizar
um político: a criminal. E
quarto, quando se sabe que
um ministro, um secretário de
Estado ou um gestor público
autorizaram arbitrariamente
encargos financeiros de milhões
sem qualquer “mandato” legal,
não vejo como é que tais actos
podem ser outra coisa senão
crimes devidamente tipificados.
À justiça o que é da justiça.
Parece-me um bom princípio.» Pedro Lomba
quinta-feira, março 22, 2012
MARINHO, O TOM E A DEMAGOGIA
«O
bastonário dos advogados,
Marinho Pinto, costuma
desferir ruidosos ataques
contra aquilo a que
chama “mercantilização
da Justiça”. Pelo meio
confunde sempre várias coisas,
por exemplo, que já vai sendo
tempo de a Justiça ser pensada
como realidade económica.
Sabendo-se que a Justiça
portuguesa tem problemas com
a efi ciência, que não se deve
necessariamente, é bom dizer,
à improdutividade dos agentes
do sistema, mas a causas mais
profundas, as queixas de Marinho
Pinto deixam sempre a impressão
de vir de um tempo pré-troika.
Nesse tempo pré-troika
podíamos fazer discursos
rompantes na abertura do ano
judicial, repetindo que a Justiça é
um bem público e que o direito à
justiça está a ser saqueado. Mas o
tom e a demagogia não chegam.
Há muito em que a organização
da Justiça ganharia, se passasse
por terapia económica. A Justiça
é demasiado importante para ser
deixada aos juristas.
Mas Marinho Pinto está certo,
quando aponta o dedo para certas
manifestações de privatização
Pedro Lomba
da Justiça. Ele parece meter tudo
no mesmo saco: uma mediação
de conflitos de consumo é igual
a uma arbitragem em contratos
públicos. O que não se pode dizer
que ajude à clareza. Onde ele tem
razão, no entanto, é por denunciar
dois fenómenos que corroem em
absoluto o Estado de direito e a
igualdade perante a Justiça.
O primeiro desses fenómenos
é a privatização do Estado.
Em minha opinião, só muito
excepcionalmente é que o Estado
deveria poder encomendar a
preparação de leis a escritórios
de advogados. Pior ainda se
essas leis estiverem pejadas de
consequências financeiras para
o erário público. Para dar um
exemplo, nunca a lei das parcerias
público-privadas deveria ter
passado à nascença por aqueles
que depois iriam socorrer-se dela
em representação dos privados.
Há uma errada divisão do trabalho
entre o Estado e os advogados na
gestação de certas leis. [...] Se não me engano, grande
parte dos contratos de concessão
do Estado tem cláusulas de
arbitragem que garantem decisões
secretas. Escapa-me, mas não é
tema para aqui, como é que estas
decisões arbitrais respeitam a
Constituição. E sobre este tema
das arbitragens dos contratos
públicos, em que há muito
dinheiro em jogo, muito mais
haveria a dizer.
Como a Justiça normal não
funciona, os “ricos” partem para
outra. Com o tempo, os tribunais
do Estado passam a ser para o zé
povinho. Os ricos têm a sua Justiça
privada e sigilosa. Ora, não será
isto uma grande injustiça?» Pedro Lomba, Público
terça-feira, março 20, 2012
PARQUE CHULAR, REVOLTANTE QUE SE SAIA ILESO
«O
aeroporto de Luanda
é conhecido em todo
o mundo pelos seus
reluzentes limpa-neves.
As escolas renovadas
pela Parque Escolar não
possuem tais adereços. Mas,
segundo o relatório da Inspecção Geral de Finanças, que tem
gerado leituras contraditórias,
e em apenas uma das auditorias
realizadas ou em curso à
empresa, algumas das escolas
alvo da intervenção da Parque
Escolar atulharam-se de adornos
babilónicos. Os inspectores
assinalaram o uso maciço de
“iluminação decorativa”, “estores
eléctricos”, “iluminações de
parede”, o que certamente
encareceu as obras muito para
além do razoável e, sobretudo, a
factura do funcionamento normal
das escolas.
Parecem pormenores que roçam
um pouco o grotesco. Infelizmente,
não são só pormenores. A Parque
Escolar operava, como sabemos,
sem qualquer concorrência. Não
havia outra Parque Escolar com
os mesmos fins, competindo
pelas mesmas empreitadas. No
entanto, da sua orgânica constava
uma “direcção de comunicação e
Pedro Lomba
imagem”, isto é, um departamento
de propaganda com a nobre
tarefa de assistir o conselho de
administração “em todos os
eventos sociais”. Custava 130
mil euros por ano. E, segundo o
DN de há uns dias, para lançar a
inauguração das obras na Passos
Manuel, que entretanto se tornou
numa das escolas mais caras da
Europa e cujas obras mereceram
a reprovação do Tribunal de
Contas, a Parque Escolar acabou
por gastar mais de 15 mil euros na
adjudicação de serviços de design e
publicidade.
Mas nenhum destes factos pode
espantar os inocentes. Em Arouca,
por exemplo, a Parque Escolar
prometeu transformar a escola
secundária “no maior edifício” da
zona. Porquê? Ainda segundo o
relatório da IGF, a Parque Escolar
nunca definiu tectos máximos
para os investimentos. A empresa
parecia andar de rédea solta. E
a entrega das obras por ajuste
directo e consulta prévia só
favorecia a opacidade. Não admira
que Nuno Crato tivesse levado à
Assembleia o estrondoso aumento
do custo médio de construção
por escola de uma estimativa
inicial de 2,82 milhões em 2007
para 15,3 milhões em 2011, ou, de
acordo com a resposta da própria
Parque Escolar, de 12,1 milhões,
mais 329% do que os valores
iniciais. São números que não
batem certo com os da auditoria
da IGF, que aponta para bastante
menos. Seja como for, só uma
alma pura ou encolhida pode dar
a Parque Escolar como exemplo
de rigor, transparência e sanidade
financeira.
Não por acaso, segundo o
Expresso, o relatório do Tribunal
de Contas, que já está concluído
em versão preliminar, aponta para
indícios de crime na gestão da
Parque Escolar. E a procissão só
agora começou.
É pena, porque também
me parece que as escolas
secundárias precisavam de um
plano sério de remodelação.
Recordo que, na campanha para
as eleições fatídicas de 2009,
Manuela Ferreira Leite e outros
contrapuseram aquilo a que
chamaram de “investimento
de proximidade” ao tipo de
megalomania venezuelana que
presidiu à criação da Parque
Escolar. A ideia de que quem
critica o método pretende a
destruição da escola pública não é
especialmente sofisticada.
Agora, ao mesmo tempo
que Parque Escolar excedeu
largamente as suas verbas em
obras sem controlo, subsistem
centenas de escolas deterioradas
para as quais já não há dinheiro.
Só que a Parque Escolar, e isto
também depreendemos da
auditoria, foi criada para servir
uma encenação, uma propaganda,
uma rede por explicar. Ora,
estamos ainda no começo para
perceber tudo o que se passou.» Pedro Lomba
quinta-feira, março 15, 2012
A COABITAÇÃO MAIS DRAMÁTICA E SUJA
«O prefácio de Cavaco Silva é
um documento importante
sobre os seus anos com
José Sócrates. Reduzi-lo
a um memorial, a um
ajuste de contas, não faz
jus ao que lá está escrito nem ao
que dele podemos extrair para
compreender o conflito entre o
primeiro-ministro e o Presidente.
É um texto mais político do que
constitucional, mais pragmático
do que teórico e mais prospectivo
do que retrospectivo. Aprendemos
algumas coisas com esta
coabitação Sócrates-Cavaco,
confirmámos outras, desde a fase
plácida à fase aguda; aprendemos
sobretudo que esta foi a coabitação
mais dramática e suja, aquela
em que a concorrência entre
duas legitimidades políticas — e o
Presidente é um actor político —
degenerou para uma coexistência
impossível que só poderia ter
terminado como terminou. [...] Sócrates perdeu as eleições,
evadiu-se para Paris e luta pela
sobrevivência. Pode dizer-se que
Cavaco ganhou, mas foi somando
erros e é hoje o mais impopular
dos presidentes. Talvez o país
estivesse melhor se Cavaco tivesse
actuado mais cedo, mas será que
ele podia e será que o país queria?» Pedro Lomba, Público
terça-feira, março 06, 2012
GASPAR, TALIBAN APOLÍTICO
«Vítor
Gaspar? É um tecnocrata obcecado
por submeter a política às finanças
e ao que agora chamam de
“economês”. Até na polémica com
o ministro Álvaro Santos Pereira,
não se pensa que Gaspar quer
as verbas do QREN para ser ele
também mais ou menos ministro
da Economia. O que se diz é que
Gaspar quer controlar aquelas
verbas para ser o empecilho do costume. Nesta visão das coisas,
não há um pingo de política em
Gaspar, que age sempre como um
taliban apolítico. Não sou economista, nem
partilho do optimismo da casta.
Mas há qualquer coisa nesta fronda
anti-económica em 2012, unindo
sectores à esquerda e à direita, que
neste momento me parece leviana
e primária. Tal como a crise de
1983-85 fez de Ernâni Lopes uma
figura nacional, secundarizando
até o primeiro-ministro da altura,
é normal que num período em
que os cofres estão vazios o país
faça contas à vida e se torne mais
economicista. Em ditadura ou em
democracia as coisas são como são.» Pedro Lomba, Público
quarta-feira, agosto 11, 2010
«LAMENTO, MAS TEMOS DE A MATAR»
A literatura está cheia de narrativas de assassinos "misericordiosos", incapazes de recuos, mas que pedem desculpas às suas vítimas, num derradeiro sussurro, pelo que estão na iminência de perpetrar. Trata-se de uma metáfora, mas deve ter sido mais ou menos isto o que a cúpula da PGR declarou à Verdade inteira, nua e crua, do processo Freeport: "Lamento muito, Verdade, mas temos de a matar!" No entanto, este tipo de liquidação comporta uma alteração imprevista dentro do voltarete irónico e caprichoso da História. Pedro Lomba detém-se sobre o problema, explicando-o por outras palavras: «Basta ter acompanhado nos últimos dias a imprensa (Público, DN, Expresso) para perceber que Pinto Monteiro e Cândida Almeida se contradizem ou são contraditados pelos factos. A interpretação a que alguns acriticamente aderiram sobre os procuradores-infames que não ouviram Sócrates porque não quiseram, pois tiveram mais do que condições para isso, era inteiramente falsa e deslocada.»
segunda-feira, fevereiro 15, 2010
PAIRA UM CLIMA ESQUISITO
A natureza humana é o que é. Devemo-nos constantemente um módico de moderação, por muito duro que seja: «Cabeça fria, como tem pedido o Filipe. Não é fácil, mas tem de ser feito. Este primeiro-ministro perigoso, mais a sua camarilha mais próxima, em quem ninguém mais confia, são um capítulo que se está a fechar. Mas este governo tem muita gente competente e digna. Tem muita gente que conheço pessoalmente, nos ministérios, na Adminstração, pessoas de uma enorme qualidade. Foi um bom governo pelo menos durante os primeiros dois anos. Perdeu-se, sim, pelas razões conhecidas. O poder é dramático e, quando pensamos que podemos fazer tudo com ele, rebenta-nos fatalmente nas mãos. Não transformemos os dias de hoje numa caça às bruxas, não idolatremos os nossos (quem são os "nossos"?), não demonizemos os políticos ou os magistrados, nem endeusemos os jornalistas, que também escorregam muitas vezes. Nada de esticar a corda com um ambiente de "guerra civil" que torne o ar ainda mais irrespirável. Uma "providência cautelar" não é um acto de censura. As pressões, que fazem parte da relação conflitual que existe entre poderes, não atentam forçosamente contra a liberdade de imprensa. Magnanimidade, mesmo com quem nos tem ofendido. Não é tempo de confundir mas de tentar ver com clareza e distanciamento, para percebermos como é que podemos evitar muitos dos atropelos que têm ocorrido nestes tempos mais recentes. Tentar distinguir é um dever permanente. (Este post responde também ao Eduardo, que só li agora, depois de o ter escrito, e de quem também sou leitor. Não, Eduardo, não existe nenhuma intolerância da minha parte. Nunca houve. Intransigência, sim, mas é outra coisa. E fecho este assunto).» Pedro Lomba
sábado, fevereiro 06, 2010
NERVOSA PESTILÊNCIA
Pedro Marques Lopes pertence àquele número de virgens que se insurgem contra a divulgação de escutas pelos meios de comunicação, quando a verdade é que escutas com conteúdo indiciador da prática de crimes só são divulgadas depois de terem sido dadas como inúteis para os processos em que estão envolvidas. PML não pode esconder-se como espécie de candidato a corporativo passos-coelhista. Ele, tal como o Daniel, resume o sistema tal como ele fede. Que ao menos certos jornais contornem as derivas partidário-dependentes que a suposta Justiça manifesta envergonhando tudo e todos, além do conceito ele-mesmo de justiça em que ninguém acredita: Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento estão, tal como o País, em maus lençóis. Sempre defendi que as violações do segredo de Justiça têm sido o último recurso quando ela não se faz ao mais alto nível. As regras institucionais têm servido cinicamente os propósitos sôfregos do poder a todo o transe por parte da pequena clique socratista, marrando a verdade quando ela expõe o descrédito e a indecência dos respectivos actores políticos. Os escândalos que envolvem o Príncipe das Trevas nunca, até ao momento, viram provada a sua inteira inocência ou a sua inteira e culpável imputabilidade. Nada pior. É a pestilência a clamar por mudança grossa, de gente e de Regime, onde todos pactuam demasiado com todos nos seu pior. Pedro Lomba não cede no seu ponto habitual – todos falam da forma, das regras, dos procedimentos processuais, mas dos factos, da substância, do escândalo e do enredo propriamente ditos isso não interessa para nada, não aconteceram, foi tudo uma invenção. Foge-se do fundo do problema. Fica-se só pela secretaria e pela impunidade. Ora, não fora dar-se a ruptura com o segredo, a corrupção grassaria fora do nosso olhar censório, amplificando a degradação. Ao menos que ela se patenteie. Nada resolve matar-se o mensageiro. A loucura, tal como a ignorância, é uma qualidade atrevida.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



