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sexta-feira, setembro 05, 2014

LISTA DE DELÍCIAS NO MEU BRASIL

Na Roça, se silenciares a cidade que há em ti, renascerás rural,
místico, íntimo do Criador, sensível ao Seu
Sopro, dócil ao Seu Cristo.
Aquele enxame farto efémero de libélulas, voando à caça de moscas, numa vertigem rectilínea, obliqua, para trás, para diante, em torno da velha odorosa baraúna lá de casa; aquele beija-flor, mínimo, supersónico, em voo brusco, de arbusto em arbusto, entre pétalas rosa, roxo, encarnado; aquela profusão de pássaros sonoros e multicolores, laranja vivo, preto e branco, encarnado, o pica-pau de penugem à moicano, mas especialmente o pássaro azul, sempre só, sempre a solo, entre os demais, todos bicando os nossos restos de arroz, feijão, cuscuz, nenhum deles medindo demasiado distâncias com humanos; aquele sol tão ardente, mal o dia nasce, e ainda ardente enquanto se põe; aqueles crepúsculos de fogo no fim da tarde ou ao romper do dia perante os quais é preciso rezar; a hora intensa do amor, quando a hora do amor intenso chegou; aquele último suspiro da madrugada, o alfange lunar, dois planetas em conjunção; as minhas costas nuas, meu peito, embrenhado na caatinga por horas sentindo os cheiros umburana, quebra-faca, perscrutando chocalhos, revirando cristais, pontapeando espinhos; sol posto, abelhões zumbindo religiosamente como que em adoração ao Criador, entre os ramos e as flores da grande árvore; aquele silêncio místico à hora rubra do horizonte rubro; aquele céu nocturno absoluto, silente, repleto de estrelas desnudando sem mácula a Via Láctea; aquele meu reclinar na rede defronte a quase tudo isto e repleto disto tudo. Este meu encontro com o Criador, à brisa da tarde, e o Seu Santo, lá, no mais completo abandono filial, sem ânsias, sem medos, sem passado, sem futuro, absorto no Momento, fora do mundo, submerso no Cerne.

quarta-feira, agosto 21, 2013

ISTO É QUE ME DÓI

«O escritor paraibano Ariano Suassuna, 86, foi internado no Real Hospital Português, no Recife, na manhã desta quarta-feira (21) em razão de um infarto.» FdSP

quinta-feira, junho 13, 2013

ELECTROCUTADO NA VIA PÚBLICA

Jarbas, 13/06/2013 -
Cartoon por Jarbas
A ocorrência a seguir transcrita não suscita auxílio da parte da CELPE, mas indemnização e séria: «Davi Lima morreu electrocutado na Avenida Visconde de Jequitinhonha, em Setúbal, Zona Sul do Recife, por volta das 21h, quando passeava com seu cachorro e foi atravessar a rua. Ele encostou em um fio que estava caído cerca de 1,5 metro. A fiação atingiu o peito do rapaz, que não sobreviveu a descarga eléctrica.» Diário de Pernambuco

terça-feira, agosto 23, 2011

BRASIL, MEDITAÇÃO DESFALECENTE

Estou sentado sob o alpendre brasileiro da casa onde me refugio.
Faz calor, apesar da brisa, e é tarde,
neste Nordeste de sol impiedosamente mordente, e no entanto manso, por ser Agosto.
Olho o céu matizado de um azul indescritível, sempre denso, e penso em não pensar,
pois férias que o são dispensam labutas mentais e fadigas pensantes.
Passam nuvens num assombro de formas e entidades.
Colossos ou materializações imateriais tão humildes passam.
Deito-me. Quero embeber-me de Belo, desfalecer de Céu.
Garanto que estou inteiramente só,
deitado sob o alpendre da casa brasileira onde me acoito.
No alto, nubladamente,
passam carrancas, gárgulas, pégasos.
Formam-se-me, exactos ou disformes. Vejo-os. Existem. Sucedem-se.
No alto, miram-me todos os velhos barbudos dos iogurtes Longa Vida,
reverberando o quando Longa Vida existia e era iogurte cremoso como nuvens,
barbas brancas eternas servidas com óculos.
Não penso em nada senão no coligir desses pontos imaginários
para construir bocas, olhos, bigodes, faces, perfis neblinados de gente e criatura,
mas também fustes, capitéis, colunas de luz, que se verticaliza, como uma cidade celeste,
apenas vislumbrada, logo perdida, entre nostalgias e ânsias de Paraíso estranhamente familiar.
Vejo claramente visto e vidente o perfil de John Lennon
e faces de deuses, musas e duendes, no desfiar da brancura que desfila
babando o meu olhar, no gigantismo do esgar em censura, na subtiliza de um beijo Adamastor.
Passam horas. Permaneço imóvel. Urubus deslizam como cangalheiros negros,
planando, altíssimos, no célebre voo térmico, circular, ou em carreira necrófaga,
recta como se os movesse um motor comercial
para cruzarem comercialmente e com objectivos os ares, de lés a lés...
Dolorosamente azuis.
Absolutamente belos neste Pernambuco onde enlanguesço e repouso.
lkj
"Ôxe, cobra preta mata de arrocho... Jiboia.", repercute-me a memória.
Mulher também, respondo-lhe.
çlj
No céu passam, conjugam-se, essas faces de fêmeas que logo se transmutam
em caveiras e bruxas e entes quiméricos e exactamente o inverso.
Há coelhos, linces, leões, bicos de águia, aliens, fantasmas, vaginas polpudas feitas de nuvem,
tudo é possível no aleatório das nuvens que passam acima. Enorme, o dorso branco de uma ninfa
formata-se agora de costas, sobre os joelhos de vapor d'água. Nívea, absolutamente nua,
as nádegas definidas,
exacta a linha escura que as separa, rego de delícias,
cintura adelgaçada, cabeça pendida,
prostra-se, oblíqua, suplicando que eu a ame, lhe perdoe a ousadia... De costas e à minha mercê.
Logo o vento metamorfoseia a aparição em crina, depois farrapo, depois nada.
Filha mais nova vem brincar comigo.
No jogo de estes avistamentos, tornei-me estátua, deitado, ridente,
os óculos de sol postos. Filha tem sono. Deita-se de borco sobre mim.
O céu faz-se-me respirável e a pressa urbana não passa de escarro, escuma desprezível.
Respiro uma paz infinita. Talvez esteja a rezar, sem saber, no meu assombro celeste.
Filhinha canta, saracoteia, palra. Dois aninhos, alegria de viver explodindo
em dois meses brasileiros repleta do sotaque local e da prosódia.
O meu bebé! O soninho! O soninho.
Estou deitado há horas sob o alpendre olhando o céu brasileiro,
mais de metade do meu campo de visão. A outra metade é o tecto do alpendre.
Filhinha adormece. Meu braço é travesseiro da novinha.
Aconchega-se a mim. Aconchego-a a mim.
Tanta paz tenho que parece ter desaparecido o corpo para haver somente olhar.
Meu corpo seu berço de serenidade.
Tantas quantas as horas serenas que dormir,
quantas aquelas em que ficarei aqui, deitado, velando filhinha,
olhando as nuvens brasileiras,
só, sobre a lage morna, saudoso de nada
porque repleto de tudo o que importa.
lkj
Ter havido rede, onde me deitava todas as noites com o meu amor,
para ver a negrura diamantífera de todas as estrelas,
nos confins do sertão.
Ter-me embrenhado "nos mato" para caçar animais e emoções,
por vezes parando,
apenas para reclinar-me nas veredas ao odor nobre da caatinga,
fragrância à casca da umburana,
que a brisa rumorejante nos traz,
rompendo o nosso silêncio, à escuta dos latidos longínquos no acuar da presa.
Nossos cães, que companheiros!
Bendito antídoto, quando foi ele, o Calçado, e não nós, o mordido pela jararaca,
que por sorte, se esgueirava entre as nossas botas,
mas nos poupou as pernas de qualquer bote às cegas.
lkj
Regresso ao céu que me presenteia de brancura.
Meu coração azuleja.
Dissolvo-me, inteiriço e evanescente,
vapor que se evola do caldeirão
borbulhante de fadigas e vaidades europeias.
Desprezo-as. Não passo sem elas.

quarta-feira, agosto 17, 2011

IMPRESSÕES BRASILEIRAS II

1. O consumo, no sentido ocidental do termo, veio para ficar no Brasil. O sector bancário começa agora, e só agora, a alimentar prodigiosamente o acesso aos bens de conforto e qualidade de vida sobretudo de uma classe média emergente na ordem dos trinta e oito milhões de neoconsumidores a cada ciclo político. Eis o risco, mas também o desafio. Será necessário uma pedagogia preventiva, que de facto os principais media empreendem, sobretudo a Globo, de modo a orientar os cidadãos e conservar a sociedade em equilíbrio, evitando o vergonhoso descalabro das dívidas pessoais e nacionais monstruosas por décadas, descalabro de que Portugal se pode penitenciar por erros próprios, incompetência, malícia e avidez sectária. O Brasil produz tudo, exporta massivamente, tem como normalidade o superavit fiscal e comercial e deve atentar no lema: não há país rico com uma sociedade pobre. Há, portanto, muito a fazer por uma sociedade mais consciente, apostada no civismo e na justa distribuição da riqueza. 2. O potencial e a solidez económicas do Brasil, avassaladores, não se conjugam com os ratings de que é objecto pelas agências funerárias de notação, tanto quanto sei, os piores: BBB, desde há décadas, com a desculpa do respectivo historial de intervenções externas. Nunca a vida financeira internacional foi tão debochada e cínica, sobretudo quando se contrasta tal realidade com o tratamento recebido pelos EUA. 3. Há dois problemas semelhantes que a política e a sociedade brasileiras não parecem debelar com eficácia, embora todos os sinais de reacção e determinação estejam ao rubro: o tratamento dos lixos e a criminalidade, aqui recorrente e violentíssima. Também há imenso a fazer na separação e reciclagem dos primeiros e na detecção e repressão exemplar da segunda.

sábado, julho 30, 2011

IMPRESSÕES BRASILEIRAS

1. O Brasil que reencontro agora em 2011 soa-me [e sabe-me a] particularmente diverso daquele que descobri em 2007. Ainda não descortinei se será dos meus olhos. Num momento em que todos os indicadores da economia são fabulosos no plano federal [receitas fiscais, actividade económica explosiva e invejável], ao nível do povão médio-baixo e médio-médio as razões legítimas para um certo ufanismo nacional servem talvez para camuflar a óbvia ressaca geral depois dos excessos de uma vida a "crédito" [extrabancário, mão em mão, clandestino], quando o crédito e o fraccionamento milimétrico dos pagamentos era instigado como vício e modo de vida. O mergulho na realidade dura, com a sua sobriedade e contenção forçadas, conduz a um evidente retraimento da componente social ao ponto de se poder pensar que, por este caminho, um certo Brasil ainda afável e sensual não escapará, no espaço de cem anos [psicológicos ou reais], à frieza e ao individualismo que castigam o hemisfério norte. 2. A região pernambucana em que me encontro, Vale do São Francisco, floresce economicamente graças à produção frutícola, sendo que a ignição de esse crescimento feliz, pelas sólidas safras da manga, coco, da uva ou do caju, se deveu em grande parte ao empreendedorismo japonês, israelita e também português, no aproveitamento do potencial hídrico do rio São Francisco. O interior de esse Nordeste há muito que já não é o mesmo. Mas só pode crer quem puder ou quiser ver. 3. A esta distância, Portugal parece-me um local imóvel há séculos, fulminado pela ganância de uma elite política e económica medíocre, egoísta e incapaz, que prefere conservar o país pobre e repleto de empobrecidos, onde as cartas estão todas marcadas: poderão os nichos onde se abrigam os mais ricos entre os ricos do mundo suster o absurdo construído até aqui? O lixo de crimes e inépcias que se vai desenterrando não surpreende, mas a placidez e a contemporização da sociedade, essas sim. E enojam. 

segunda-feira, março 03, 2008

CHOVE NO MEU PERNAMBUCO


Chovem, na minha alma, saudades da minha Roça,
do meu Açude de Piabas, Traíras e Tilápias,
ânsias pela minha Caatinga cerrada, espinhosa e odorosa,
ainda mais odorosa pela noite e madrugada fora,
sob aquele Céu Intenso que Canta
como vibra e canta a insectagem em derredor.
lkj
Chovem, na minha alma, saudades de um Povo Dado,
capaz de amar e de acolher «o Português» como se fosse e falasse chinês,
convocando a anedota compensatória e a ancestralidade essencial reclamada.
Chovem, na minha alma, saudades, ânsias,
pelas conversas emotivas, vivas, entre caçadores e amantes da Vida Toda,
e a surpresa de uma Cascavel, na sua cova, chocalhando à mão que escava,
e o Tamanduá, o Tatu, a Caranguejeira elegante e peçonhenta
assomando da Mandacaru em fenda,
Oh, saudade do sorriso amigo que cumplicia e ama!
Oh, saudade da palavra dada que ama e cumplicia.
lkj
E escrevo isto com filha, meu fruto, ao colo, hemifeita com o sangue de lá:
(temos almoço familiar, bem regional, com Bode, Macaxeira e Rubacão!)
esta minha Lindinha tem sono, mas não se lhe rende, não está na sua casa,
a casa da tia Tá não tem o mesmo cheiro,
a mesma manta de afagar e o mesmo berço de aconchego,
para se deixar adormecer confiante.
E escrevo isto a dedo, só com um braço e uma mão sobre o teclado
(negra plataforma que, deste 5.º Esquerdo, pela janela,
parece lançar-se em vôo para o horizonte de Mar beijando, lá longe, Matosinhos),
com o outro braço e a outra mão
estou só a prover de ninho e consolo
o desconsolo deste meu Bebé desconsolado e doce colado ao meu peito.
ljkjh
E dizem-me que chove lá, no recôndito interior do meu Pernambuco,
e vai tudo verdejante e viçoso lá,
onde, há tempos, me autorizei a saborear a Vida e a Amizade em pleno,
mitificando-as, talvez, avisam-me certos escrupulosos escrutinadores
dos meus porventura mitos gozosos,
porque para certos escrupulosos escrutinadores dos meus porventura mitos gozosos,
gente como eu, mitifica sempre tudo o que alguma vez lhe deu Plenitude e Sabor,
querem que eu seja realista,
que trabalhe muito as Receitas do Sucesso
escachadas nessas dezenas de milhares de livros light
com que certos escritores portugueses têm 'sucesso' em Portugal,
e que ainda não estou no meu verdadeiro ponto literário do 'sucesso'
e que sou imoderado na verve e no impróprério,
e que só estou no ponto em matéria de Azedume Criativo,
mas não em convergência com o que essas massas pagantes
demandam de mim postador e escritor.
E eu já não sei se me interessa convergir!
Porque não estou nada em convergência
com o Colete Invasivo-Sanitário-Democrático Europeu,
que é uma burocracia sem Povo,
nem com a produtividade esmagadora de um Chinês,
nem com a eficiência auschwitziana da implacável Lurdes da Educação a fazer Despachos
e a rolocomprimir absolutamente ensinadores como uma baleia destravada a filtrar kril,
nem com a maravilhosa auxiliância do Sistema de Saúde Nacional a fazer desmanchos,
nem com a consoladora conformidade geral anedotesca
de anedotizar placidamente Luís Filipe Menezes,
o Saco-Porradeiro mais à mão de Anões como Sarmento ou como Aguiar Branco,
ou como o que subjaz à Ética-Marreta falante Pacheco-Pereira
ou à Sibila Absoluta Infalível Marcelo Rebelo de Sousa,
e, cuidado, que ainda me despenho de tanto Prazer, Sorriso, Alegria e Fecundação
havidas lá, no meu Céu Imaculado, Humanado, Interior Pernambucano.
lkj
Abandonem-me ao meu direito de ilusão, deixem-me ao pensar ter sido feliz e amado!
Não me estigmatizem a experiência pernambucana
com os mitos que delas faça eu!
Não me roubem até as ilusões e os tesões havidos,
as Festas e as Recepções, as Longas Noites em Conversa,
o Balançar na Rede,
o Cheiro das Frutas,
o Português Oratório e Amplo,
a profusão de Gente Amável e Solícita,
as Mulheres que desfilam em Seda e em Cio tão Pele, pela avenida principal,
ou o cheiro a Crime Passional e a Febre por Cachaça,
ou a libertação mais liberta do Motel com Tudo, até Privacidade Libertina para quem se lhe dê,
ou as Narrativas-Macho de Aventura,
ou as Narrativas-Fêmea de Sepultura Afectiva e submissão a Infernos de Mel,
a Fome, o Calor e a Seca,
a Húmida e Fecunda Simplicidade e Bem Viver,
as crianças que brincam e bulham.
lkj
Uma Família Enorme que se acalenta e confirma.
lkj
Com efeito, tudo isto é abolutamente meu!
E pode, porque assim eu quero!, chover de saudades ou fazer sol de possuir Isto,
o Pernambuco Profundo que se me entranhou no Coração.