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quinta-feira, março 07, 2013

PEDRO PASSOS CARALHO NÃO ACORDA

Ontem, pela milésima vez diante da TV para assistir a mais um debate parlamentar, percebi como somos patetas nas francas expectativas colocadas em cada megamanifestação pacífica, repleta de insultos e pedidos de demissão que não mordem, cartazes-desabafos a vermelho contra a traição dos políticos e o terror pela miséria semeada já sentida ou iminente.

Para mudar algo, prioridades, acentos, sensibilidades governativas internas e globais externas, nem que fosse o discurso seco de um Primeiro-Ministro, remetido ao seu etéreo assento de estrelas cristalino, para qualquer coisa de mais afinado com o que sofremos, teríamos de ocupar a rua dias consecutivos, pacificamente, se conseguíssemos, ou suicidar-nos em massa, ou organizar-nos meticulosamente, descobrindo uma unidade semelhante à dos dedos de uma mão. Mas percebi sobretudo como é completamente tonto quer o que um Passos Caralho desta vida tenha a dizer quanto a isso quer o que um verdadeiro paneleiro político como Sócrates disse alguma vez em circunstâncias muito semelhantes. É que nisso são iguais. Lidam connosco, apesar de nós, e tal é imperdoável. Os mundos da rua e da decisão política, sobretudo no pico desta crise cega, mostram-se irredutíveis e não deveria ser assim. Ouvir não quer dizer ceder. Sentir com empatia a dor e a impaciência das massas não leva necessariamente à kryptonite de converter em hesitante e fraca a decisão resoluta do decisor.

sexta-feira, março 16, 2012

POVO, BORDÃO IRRISÓRIO DA LASSA ELITE

A palavra «Povo» anda na boca do pessoal político e o seu emprego mereceria mais decoro e frugalidade nessas bocas douradas. «Só o Povo me pode afastar!», dizia Assunção Esteves. Só o Povo a pode remover? Não sei. Sinto-nos, a nós, portugueses, irreais e irrisórios para colocar ou remover Assunções. Mesmo ela vê-se e deseja-se para instaurar um módico de construtividade na deputação decadente e laxa. Povo. Palavra passível do mesmo pudor reverente que os Judeus reservavam ao Nome de Javé, especialmente na boca da elite que nos traiu, ralé. Povo! A julgar por mim, que não sou parte da elite, nem tive cargos públicos, nem beneficiei de cunhas ou comissões, e, com 42 anos, sou precário, mal pago, pobre, esfomeado, vulnerável, Povo é ser trucidado e perder sempre. Povo é docilidade no aperto, paciência no esbulho, sorridência amarela no esmagamento fiscal. Quanto menos tenho, mais acossado e injustiçado sou pelo inescapável Cobrador de Impostos Pêlo e Cabelo. Povo é também brutalizar obcecadamente os Sujos, ainda que deslizando no grande esquecimento que oblitera e dissolve cada um, no grande Letes, rio mortífero do dia-a-dia.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

VIDA ENCORNADA

Quando o Povo se vê demasiado encornado, descansa o mais que pode. Deixemos a produtividade para os políticos e para os legisladores. Foram eles que nos trouxeram até aqui, faina penelopeniana de fazer e desfazer alternadamente. Os políticos que chularam festejam, fazem férias e têm folga. As pessoas desempregadas, tornadas imprestáveis, aconselhadas a emigrar, têm ainda muito que penar entre portas, quando ninguém pode ver o pedaço de pão e o gole de leite a servir de jantar.

domingo, julho 04, 2010

A RALÉ EMBIOCAVA-SE DE RENDAS

Dias de festa encharcam matronas de uma nostalgia pungente, ao entrarem nas igrejas floridas e florescentes, com altares que resplandecem. Tempos do passado, voltai no vosso paternalismo exacto sem pensamento político e só obediência  suspiram! «Era tudo tão mais puro, há cinquenta anos!» Multidões veteranas, femininas, regressam compactas aos templos para aspirar uma velha comoção toda floral. Homens maduros regressam ventrudos ao álcool para acomodar a própria inanição moral. Nas ruas repletas, rostos fechados cruzam-se, enfrentam-se, e por vezes realiza-se o milagre de conhecidos se saudarem entre rugas e inibições à inquirição de vida nesse entreolhar que sonda. Cabisbaixo vai o Povo. Ensimesmado, na sua insólita festa ao santo da terra.

quarta-feira, abril 07, 2010

TER, TERIA, MAS NÃO ERA A MESMA COISA

«Teria sido necessário um PEC visceralmente destruidor da classe média se não fosse o dinheiro que o Estado (dinheiro dos contribuintes) enterrou na falsa salvação de coisas como o BPN e o BPP ou que continua a enterrar na RTP? O "sistema", que é o regime, segura-se porque tem na base um povo manso, tendencialmente cornudo e sexualmente passivo mesmo quando julga que está por cima, que tudo aceita desde que lhe dêem bola fresca todos os dias. A culpa é do Mexia?» JG

sábado, junho 06, 2009

O POVO DE MÁRIO SOARES, O POLVO

Mário Soares não tardará a compreender que o Povo de que fala não existe senão como abstracção etérea na sua cabeça. É o Povo pré-fabricado dos autocarros e das jantaradas que o PS pode pagar à fartazana. É o Povo posto a jeito nos cenários de fingir e engodar. Não é o silente e oleoso Povo enganado e sofredor, avesso à espectaculosidade da campanha milionária do PS, campanha milionária obamaniana que o insulta nessa ostentação neo-riquista, aliás. Para além disso, a Crise que secou Portugal, nos últimos catorze anos, é fundamentalmente o próprio PS, é o extorcionarismo fiscal do PS, são os fracassos reformistas persecutórios PS, são os investimentos perdulários ou enganosos PS [Pelamis, Energie...], é o trauliteirismo e o autoritarismo de este PS, é o minúsculo Magalhães que desgasta desde cedo os olhinhos dos meninos, esse brinquedo a funcionar como anzol de fidelização partidária PS, como no-lo lembrou Maria de Lurdes. Mário Soares, o calamitoso democrata candidato a qualquer coisa, deveria descansar, portanto, de estes cios de facção. Lembrem-se dele, no seu primeiro discurso do 1.º de Maio de 1974. Vociferava contra aquilo em que se converteu, um lobista para quem há muito mais PS para além de Portugal: «Com a parte reservada da sala principal do Centro de Congressos completamente cheia, entre o colorido ondulante das bandeiras, a música apoteótica, o coro de vozes a gritar “Soares é fixe”, Mário Soares afirmou, com a autoridade de quem já participou em todas as campanhas do PS, que “esta campanha começou por ser difícil mas tornou-se numa campanha extraordinária”. E enalteceu “a popularidade de que goza o nosso primeiro-ministro e secretário-geral”, graças “ao povo”.»

sábado, fevereiro 02, 2008

NÃO ESTIGMATIZARÁS OS POLÍTICOS


O fado é sempre o mesmo.
A saudade doentia portuguesa da Mão Severa Messiânica e Tesa-Salazarina
é sempre a mesma. E essa Mãozinha é Sócrates, claramente, claro intérprete
da gritaria popular por Pau, Rigor e Exigência, venha de quem vier,
mesmo que venha de quem se esgueirou por aí acima com zero
(ou o oposto) de esses mesmos predicados.
lkj
Sim, o Fado é sempre o mesmo.
Finalmente, um discurso com tomates, o de Marinho Pinto,
que parece incomodar imensa gente
apanhada a comer da gamela pública com o olho convicto na privada garantida
e ainda é somente discurso, um discurso que não pode abrandar até que seja Lei,
ainda que logo assomem vozes que, piedosas dos políticos, vêm moderar tal linha de conduta,
exigindo que se não estigmatize a classe, já demasiado estigmatizada.
çlk
E pronto. É o fado que fode tudo porque tudo fica como dantes.
lkj
E a foda-fado é sempre a mesma.
Tenho pena que não se dê sequência a todas as insinuações
sobre a desonestidade na política em Portugal, mesmo debaixo dos nossos narizes,
que a Lei que pune o pequeno furto deixe impune o sábio e grosseiro furto por grosso
nas altas instâncias decisórias, nas sub-instâncias decisórias.
Se não há seriedade e ética aí, quem virá moralizar essa gente e exigir-lhe contas?
lkj
Mas o fado-fodido é sempre o mesmo.
Há por aí muito português a babar por Sócrates, embevecido da sua acção autoritária
e globalmente reformadora (está por clarificar em que domínios, se a sério,
por que processos e com que pertinência),
gente que se aflige com as aparentes notícias-assassinato de carácter no Público,
desenterradoras do passado criativo, flexivel e articulado do homem.
Deveriam ter calma. Ele sabe defender-se, muralhar-se contra seja que vendaval for.
Não é necessário que todos esses se pelem, conforme os oiço na rádio, cheios de Cio.
Ele, para o melhor e para o pior, é o nosso sempre-em-pé. Os russos têm Putin.
Os venezuelanos têm Chávez. Os zimbabueanos têm Mugabe,
por que não haveríamos de ter o nosso Sempre-em-Pé? Habituem-se!
Aqui só caem Santanas com os seus imperdoáveis cinco meses de Executivo errático
minado pelas corporações bancárias e outras que tais
e pela conspiração impaciente sampaionesca.
Ninguém está aqui a dizer que Santana não é patético muitas vezes. Não é isso.
Mas não consta que tenha atirado com dúzias de telemóveis contra a parede,
quando contrariado ou quando as coisas correm mal na arte de mentir e de manipular,
como a personagem Dr. Marconi Ferraço da novela Duas Caras,
personagem cujo desenho me leva a pensar que um certo Brasil construtor de enredos
está bem mais atento a Portugal e a quem o dirige.
ljj
Mas o fado-foda é sempre o mesmo.
Siderados devemos ficar ao olhar para o José Sá Fernandes.
Peçamos-lhe que interponha uma providência cautelar às obras no túnel-viaduto
do seu Vácuo Infinito: um homem tão dado
a mariquices cívicas, caras comó caralho, que se presta tanto a elas,
só passando a existir para o resto do País graças aos focos de luz que andou a bebericar
de um mediatismo vegetativo e lisonjeador, parece que gerou um prejuízo extra
de 18 milhões e tal de euros à autarquia lisboeta.
Não lhe pesar que nos pese tanto o ter brincado às obras.
Tais são os males comatosos da "democracia" portuguesa.
lkj
Mas o fado-que-nos-afunda é sempre o mesmo.
Num ano menos altivo, porque a altivez não ganha eleições,
Sócrates bem poderá fazer alguma coisa para moralizar
os vencimentos muito-mais-que-de-primeiro-mundo que aufere uma classe intocável
de directores gerais e equiparados, gente que passa completamente anónima
na sua açambarcante privilegiatura de ganho: quando eu vir refreado
o abuso e notar que as corporações políticas (coitadas das chamadas corporações
de interesses - os professores, os médicos, os enfermeiros, gente muita da qual
justificadamente em greve de zelo há muito e muito tempo,
como boa parte dos portugueses mal remunerados -
ou por que motivo acham que cá a puta da produtividade nunca mais arranca?!),
quando tudo se souber claramente, (que se investigue, que se devasse, -
para que raio serve a Comunicação Social-pau-mandado do Governo?)
então, sim, talvez eu vá aceitando melhor, isto é, com toda a revolta do meu ser,
mas a revolta 'Moderada' e Fria de um Buíça-da-Escrita, exímio a atirar e a ser louco,
decalque do Buíça-Real e Infame, o de carne e osso, depois crivado e pisoteado,
tão doido varrido que escreve o testamento, come uma Omelete,
bebe uma Bock no Café Gelo
antes da ir ali fazer um regicídio ou dois com a célebre pontaria,
talvez eu vá olhando paciente para o peso desmesurado que impende
sobre quem trabalha duramente com o corpo e com a mente
para depois ganhar uma irrisória e humilhante merda,
uma merda que desanima, uma merda que humilha: 450 euros.
Ora foda-se!
lkj
É o fado!
A dormência que está, a dormência que permite
que se perpetuem situações obscenas é que não se tolera - esse é o país da modorra
a quem tanto faz como tanto fez.
lkj
É o foda-se!
Mais tarde, neste tempo em que tudo enrijece e o poder exercido se torna aqui
tão enraizado como na Rússia, trepadeira que estrangula a Árvore Social,
quero ver se haverá coragem para fazer de Portugal uma Suíça, um Canadá,
mesmo uma Argentina - lugares exóticos e cívicos onde se fulmina com o olhar,
com a Lei e com a coima quem quer que escarre, solte lixo, papelinhos, beatas,
sobre o sagrado chão pátrio - aí, sim, é que a completa moralização disciplinadora
se consumaria nisto, precisamente por causa disso piolheira, por causa disso desprezível,
- um lugar que se ama com quanta ganância açambarcante e imoral se pode,
um lugar que se ama com quanto desprezo activo e ideológico pelos pequenos se pode,
com quanta impunidade elipticamente elitista pode um buxo exclusivista
e socialmente indiferente conter:
o que é preciso é continuar a estigmatizar os pequenos pleonasticamente, não os políticos.
lkj
Portanto, foda-se!
Porque um português só é um inexcedível patriota se exilado disto,
sendo concomitantemente um perfeito cidadão do novo país onde se radique
e ganhe a vida que aqui, nisto, nunca foi e não lhe é ainda dado ganhar.
lkj
Pior foi ter tido de ver e ouvir o João Soares a elogiar a 1.ª República
a declarar-se maçon e a meter, no mesmo saco de vítimas, Rei, Príncipe e Regicidas.
(Foi na TVI. Estava constipado e tive de ver o inenarrável e cómico João Soares!
Nada a dizer do historiador José Miguel Sardica e de Gonçalo Pereira Ribeiro Telles.)
lkj
LKJ
«Sócrates despacha dois ministros,
o inenarrável Correia de Campos
e a briosa Pires de Lima.
Do primeiro já se escreveu aqui sobre a sua absoluta falta de humanidade
e sentido de solidariedade, à frente de um ministério
que é central na gestão do Welfare State.
Inabilidoso, obstinado, malcriado,
Correia de Campos foi a imagem da arrogância
e falta de bom-senso deste governo.
lkj
Apesar da sua política de fundo ser correcta
mostrou-se de pendor tecnocrático,
incapaz de ouvir e conciliar.
Afinal, a essência da política e da boa governança.
Retomará, seguramente, o seu lugar de deputado
onde se juntará à largissima representação do seu partido.
E onde, como é habitual, nestes casos, se remeterá ao silêncio,
limitando-se a embolosar o ordenado de deputado.
lkj
Da segunda apenas a constatação da inépcia para dirigir a política cultural do país,
recheada de inúmeros tiques intelectualóides
que datarão do seu tempo de militante do PCP,
mas absolutamente desfazada de uma política de cultura moderna.
Peão de Joe Berardo, no sector,
é provável que o conhecido empresário do Funchal lhe retribua,
generosamente, a forma enlevada como soube servir os seus interesses
no mecenato cultural.
lkj
Quanto aos substitutos, Ana Jorge que vai para o lugar de Correia de Campos,
directora do serviço de pediatria do Hospital Garcia da Horta em Almada,
é absolutamente estreante nestas andanças da política embora próxima do Partido Socialista.
É uma carta em aberto, imprevisível.
lkj
Pelo lado da cultura, um nome muito bom,
mas perfeitamente desfazado das funções para que é indigitado:
Pinto Ribeiro. Reputado jurista e professor de direito,
notável comercialista, é autor do Código Comercial
e das Sociedades Comerciais em vigor em Macau.
lkj
Privei com ele de relance quando o negociou com Magalhães da Silva,
então secretário-adjunto para a Justiça de Carlos Melancia.
Lidera, desde há anos, o Fórum Justiça e Liberdade,
uma NGO ligada à esquerda do PS e com ligações priveligiadas ao Bloco de Esquerda.
Trata-se de alguém com excelente currículo, respeitado, prestigiado,
mas a quem foi dada uma pasta de que pouco sabe.
lkj
Seria um excelente substituto para essa personagem esgotada do governo de Sócrates,
que se chama Alberto Costa. Mas o primeiro-ministro preferiu uma remodelação minimin silenciando a incomodidade do Presidente da República
com a gestão direitista dos pelouros com mais impacto social.
lkj
Outras pastas mereceriam uma boa varridela: a Agricultura,
as Obras Públicas e a Justiça.
Mas dificilmente o primeiro-ministro cederá nessas áreas à pressão da oposição.
E gostará de surpreender. Segue-se a remodelação dos secretários de estado.»
kjh

quinta-feira, novembro 29, 2007

MINHAS DISFORIAS. MINHA EUFORIA


Depois de um dia de trabalho com 24 horas de acção e actividade plenas,

entre duas horas totais de autotransporte,
momentos bruscos e curtos de mais para a ingestão de algo vagamente alimentar,
aulas a doer e, finalmente, a madrugante vigilância no Pub do costume,
compreende-se que me sinta agora mesmo como que um soldado
acabadinho de sair de uma trincheira de Verdun,
e logo varado, antes e depois morituro,
mas moribundo já.
Agora só com muito e compensatório sono ressuscitarei para batalhas semelhantes.
Mas compreendo de igual modo que as minhas madrugadas
se tornem absolutamente explosivas para o acto da escrita,
o que me agrada e compensa sinceramente.
lkj
Todos os indivíduos que dançam lá atrás,
ou então diante de mim, quando me ponho do lado de dentro,
a sua exaltação dos sentidos, o seu álcool-bebericar em abandonos,
a testosterona que transborda, tudo isto eu capto e absorvo,
tudo isto converte-se-me numa fúria escrevente e permite-me afirmar,
categórico, o quanto cada uma e qualquer de estas madrugadas
me acorda um intenso desejo de expressão,
uma expressão apolvorada, cáustica e doce,
perdoante e impiedosa.

lkj
Os exorcismos que então me acontecem em verbo
fazem-me crocante e pétala em musgo.
Como sou feliz no acto redentor da escrita!
lkj
Um nevoeiro cai místico sobre as ruas.
Casais vão saindo com um tom subcondescendente sobre mim
como outrora os senhores olhavam para os escravos: «Ó preto!...»; «É o preto!»
ou para as mulheres: «Ó puta!...»; «É a puta!».
Sinto, e ao senti-lo mando-os foder entre dentes,
que o seu olhar me apoda: «Ó rapaz!»; «É o rapaz!».
Mas não. Há aqui um homem calado, ou de braços cruzados ao frio,
ou a passar cartões, ou a recebê-los, ou a registar os consumos constantes dos cartões,
ou a encher folhas, densas folhas de tinta, linhas bem geométricas e apertadas,
onde um ácaro talvez se perdesse em labirinto.
Mas por vezes saem com um olhar, pelo contrário, em tom cerimonioso
e salamalequesco, não sei o que se lhes planta no espírito acerca do meu papel
que os torna excessiva e enjoativamente reverenciais.
Quase me sinto implicado em dar-lhes, em retorno, qualquer espécie de bênção.
lkj
Mas as mulheres, meu Deus, por que sofrem tanto?!
Feias, sós, frias, dançam entre si, rodopiando e baloiçando
e ventre-abanando, rabo-gingando, rabo-roçando-rabo
e assaltou-me ser toda aquela sua alegria nisso tão triste e fúnebre.
Entristeci. Deprimi. Fiquei magoado em face daquelas flacidezes, daqueles óculos,
daquelas rugas recusadas, rasuradas,
daqueles corações tão sem homem, tão viúvos, tão sem companhia.
Já vi corpos iguais e no entanto mais realizados do lado de fora deste dionisíaco.
Mas é a noite no seu esplendor e na sua verdade.

O que me faz chegar mais tarde a casa
(em vez de às cinco horas da manhã, somente às seis)
são os retardatários. A música acaba, mas eles ficam por cá, cigarros em riste,
a combinar jantares, a resumir a noite, a burilar elogios e bocas.
E não saem. E não me entregam os cartões, paralisando-me ali de tédio.
Ficam-se.
Deixam-se ficar.
lkj
Se tivessem, como eu, uma cama com mulher à espera, aberta em flor,
não se deixariam arrastar por aqui em tédios. Vá lá, já saem.
Arrastam-se. Deslizam, entregando-me os cartões. Os cartões têm noite dentro também.
Às vezes molhados, negligenciados. Às vezes dobrados, revelam sempre do portador.
Revelam a contenção minimalista e timorata do consumo mínimo
ou os excessos que depois se pagam brandindo notas de 500 euros,
que despertam sorrisos de tão insólitas.
Cuba Libre, Safari, Whisky - noite faz-se disto.
Mas também de muita água de Luso, água das Pedras, água Castelo,
muita 7Up e muita Coca-Cola.
Há umas horas, veio o cantor de serviço, cotovelinamente falador,
aproximar-se para duas de letra, numa das suas pausas e não deu descanso aos meus ouvidos,
dizendo umas banalidades que me obrigaram a dizer banalidades também.
Quando dou por mim, já estou a enfardar com uns: «Pá, não sou um bom pai!»
O quê? «Pá, não sou porque habituei mal a miúda!»
A miúda tem cinco meses e só adormece com doses maciças de colo.
Tudo bem, é um desabafo.
«Pá, o Sócrates está a fazer bem. Pá, sou PS, mas tento ser isento.»
Aí, preparo-me eu para inviabilizar argumenticiamente o músico-cantor fala-barato
e com um whisky-Cola na mãozinha, o que se me revela impossível: ele é mais um daqueles
que corta o discurso alheio com mais uma frase e mais uma e outra e mais outra,
que, portanto, não sabe escutar. «Pá, no geral, no geral!» É no geral, diz ele,
que Sócrates sai aprovado.
Eu, partindo do mais específico, tiro a espécie.
Custa-me ouvir certas coisas desinformadas, superficiais, mas por aí eu tiro o efeito bruto
de um bom marketing político, a sua eficácia real, o modo como resulta,
mesmo junto do primeiro-ministro indiano, que se convence que o 'reformista' José Sócrates
castiga de exigência fisco-sacrificial e assimetria social
a sociedade portuguesa e ainda assim mantém altos os índices de popularidade.
E resulta por muito que os blogues baixem as calças ao sistema,
exponham tanta malfeitoria e cretinice, previnam outro tanto,
o que passa é, «... no geral!» engolível.
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O povo tem sempre intuições certeiras e essas intuições,
passando o crivo da boçalidade grunha, da imbecilidade mais crónica e crassa,
tranformam-se facilmente em servilismo, em doxa, em confiança cega,
benefício da dúvida ilimitado,
como aquele de que beneficia o eterno presidente da Junta da minha freguesia,
que ganha somente porque paga em géneros ao público-alvo votante
para quem se orienta necessariamente: os idosos. Bastam uns passeios, uns jantares gratuitos
e ninguém lhe fará a desfeita de não votar no seu sorriso cheio de vírgulas.
lkj
Líderes como o Zé Sócrates sabem de que plasticina é feito o Povo Português,
aquele povo que também aparece no Youtube, com flagrantes hilariantes, lacunas culturais,
gaffes linguísticas e de raciocínio desprevenido,
bem reveladoras do seu carácter simplório, conformado e feliz precisamente aí,
na simploriedade.
Eu, que não me canso de sublinhar que o auge da realização humana
pode convergir com o auge da derrota e da frustração,
sublinho que tal felicidade é real, é da estirpe da da avó do José Saramago,
mulher de trabalho e sempre virgem nos encantamentos misteriosos de um mundo misterioso,
onde é encantador viver e do qual nos dói separar-nos. Bela sabedoria de avó aquela!
lkj
Agora sai, finalmente, um cliente sem que o seu cartão ostente qualquer consumo,
qualquer carimbo que exprima 'pago'. Estranho.
É polícia, diz-mo. Está, obviamente, à paisana.
Mostra-me o crachá, documentos e a arma lá está,
exibe-ma ali, entalada no cinto ao lado nadegueiro,
segura pelo osso da bacia, como nos filmes.
Diz que há um criminoso procurado que se sabe se acoita aqui, no Pub, e tal.
Mas mais tarde o meu patrão lingrinhas, com aquela pronúncia do Norte,
bem portuense, aclara, entre risos, que o cornudo do polícia à paisana estava era ali
apenas para tentar surpreender a própria mulher, encontrá-la em flagrante deleite,
numa traição explícita e despudorada.
Não sei. Às vezes, os cornos não permitem olhar em frente, pelo peso com que nos dobram,
pela obstrução à mais elementar visibilidade em frente.
Lembram os prémios na blogosfera. Dão-nos. São simpáticos.
Mas algo nos pesa que temos de ir lá buscá-los. E vamos. Mas pesa.
lkj
Com cinquenta e cinco anos e vestígios capilares da era hippie,
o meu patrão part-timesco parece que ainda tem o seu fogo na cama,
a sua regularidade com direito a repetições e tudo
(surpreendo, sem culpa nenhuma, uma conversa de mulheres
onde estas e outras minudências assomam), mas o mal é que mesmo assim,
com tal caudal, não satisfaz, não preenche a quarentona brasileira que o preenche.
Ou é por ser lingrinhas e não ter como desabar sobre ela machezas brutas à bruta
ou é porque tem o temporizador pau-precocizado
ou então é aquela treta do amor, de toda a linguagem do corpo,
da intensidade dos sentimentos,
(para que precisais da intensidade dos sentimentos, senhores e senhoras?!
não vos basta a força grave da gravidade do cio e a delicadeza
subtil de uma monogamia poligâmica para variar?!)
intensidade de sentimentos,
cuja falta traz destesão, desintensidade, deslibido, desmobilização da cona,
preguiça de um clítoris distraído,
fodas, enfim, a solo embora com e dentro de um corpo deleitoso.
lkj
Na verdade, soube-o de fonte segura porque há profilácticas perguntas solidárias
que sempre nos devemos colocar neste mundo gelatinoso e mutante,
é a brasileira quarentona que não é lá muito boa do juízo. É, afinal, lingrinhas na alma.
E o Papageno em todos nós, que não está para grandes trânsitos iniciáticos
rumo à felicidade da sabedoria e da iluminação iniciáticas, diz,
desde o mais fundo de si: «Je nun, da bin ich nicht der Einziger.
Es gibt noch viel meher leute meinesgleichen!»