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quarta-feira, abril 02, 2014

EM CASA DO NEGOCIANTE ARNOUX



Tu detiveste-te várias vezes na escada, tão forte o coração te batia.
Uma das tuas luvas, demasiado justa, rebentou;
e, na altura em que enfiavas o rasgão pode debaixo do punho da camisa,
Arnoux, que subia atrás de ti, agarrou-te pelo braço e fez-te entrar.

A antecâmara, decorada à chinesa,
tinha uma lanterna pintada no tecto,
e bambus nos cantos.
Quando atravessavas o salão, tropeçaste numa pele de tigre.
Não tinham acendido os brandões,
mas dois candeeiros ardiam no toucador ao fundo.
A Menina Marthe veio dizer que a mamã estava a vestir-se.
Arnoux levantou-a até à altura da boca para beijá-la;
depois, querendo ser ele próprio a escolher na cave certas garrafas de vinho,
deixou-te com a criança.

Tinha crescido muito desde a viagem de Montereau.
Os cabelos castanhos caíam-lhe em compridos canudos ondulados
sobre os braços nus. O vestido, mais tufado do que a saia de uma bailarina,
permitia ver as barrigas das pernas rosadas,
e toda a sua gentil pessoa cheirava a frescura
como um ramalhete.
Recebeu os comprimentos do cavalheiro com ares sedutores,
fixou neles os olhos profundos,
depois, esgueirando-se por entre os móveis,
desapareceu como um gato.

segunda-feira, março 03, 2014

A CRÓIA E A HONESTA

Da Prostituição, pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553).
Um dia, ao folheares uma das suas pastas de desenho,
achaste no retrato de uma boémia algo da Menina Vatnaz,
e, como esta pessoa te interessava, quiseste saber a sua posição.
Ela tinha sido, julgava Pellerin, primeiro professora na província;
agora, dava lições e procurava escrever nas pequenas folhas.
Segundo os seus modos para com Arnoux, podia-se, na tua opinião,
supô-la sua amante.
 Ah! bah!, há outros!
Então, desviando o teu rosto que corava de vergonha pela infâmia do teu pensamento,
acrescentaste com um ar decidido:
 A mulher paga-lhe na mesma moeda, sem dúvida?
 De maneira nenhuma! É honesta!
Sentiste remorsos, e mostraste-te mais assíduo ao jornal.

terça-feira, dezembro 24, 2013

ASSIM SE ESCOAVAM OS DIAS

Quiseste divertir-te.
Foste aos bailes da Ópera.
Estas alegrias tumultuosas gelavam-te logo à porta.
Aliás, sentias-te retido pelo receio de uma afronta pecuniária,
imaginando que uma ceia com um dominó provocaria despesas consideráveis,
era uma aventura arriscada.

Parecia-te, no entanto, que deviam amar-te.
Por vezes, despertavas com o coração pleno de esperança,
vestias-te cuidadosamente como para uma entrevista,
e davas em Paris voltas intermináveis.

Perante cada mulher que caminhava à tua frente,
ou que avançava ao teu encontro, dizias para contigo: «Cá está ela!».
Era, sempre, uma nova decepção.
A ideia da Senhora Arnoux fortificava estas cobiças.
Talvez a encontrasses no caminho;
e imaginavas, para abordá-la, complicações do acaso,
perigos extraordinários de que a salvarias.

Assim se escoavam os dias,
na repetição dos mesmos tédios e dos hábitos contraídos.
Desfolhavas brochuras nas arcadas do Ódeon,
ias ler a Revista dos Dois Mundos para o café,
entravas numa sala do Colégio de França,
escutavas durante uma hora uma lição de chinês
ou de economia política.

Todas as semanas, escrevias extensamente a Deslauriers,
jantavas de vez em quando com Martinon,
vias às vezes o Sr. de Cisy.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

ROMANCISTA ENFASTIADO

Pôr-do-sol em Veneza, Claude Monet.
Um remorso assaltou-te.
Voltaste ao curso.
Mas como não conhecias nada das matérias elucidadas,
coisas muito simples embaraçaram-te.

Puseste-te a escrever um romance intitulado:
Sílvio, o filho do pescador.
A coisa passava-se em Veneza.
O herói eras tu próprio;
a heroína a Senhora Arnoux.
Ela chamava-se Antonia;
e, para obtê-la, assassinavas vários fidalgos,
queimavas uma parte da cidade
e cantavas debaixo da varanda dela,
onde palpitavam à brisa
os toldos de damasco vermelho do bulevar Montmartre.

As reminiscências demasiado numerosas
de que te apercebeste desencorajaram-te;
não foste mais longe,
e o teu fastio redobrou.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

MULHERES



Mulheres, indolentemente sentadas em caleches,
e cujos véus flutuavam ao vento, desfilavam junto de ti,
no passo firme dos seus cavalos,
com um baloiço insensível que fazia estalar os coiros envernizados.
As carruagens tornavam-se mais numerosas,
e, afrouxando de andamento a partir do Rond Point,
ocupavam toda a via.

As crinas estavam perto das crinas,
as lanternas das lanternas;
os estribos de aço, as barbelas de prata, as fivelas de cobre,
lançavam aqui e além pontos luminosos
entre os calções curtos, as luvas brancas e as peles
que caíam sobre o brasão das portinholas.

Sentias-te como que perdido num mundo longínquo.
Os teus olhos erravam pelas cabeças femininas;
e semelhanças vagas traziam-te à memória a Senhora Arnoux.
Imaginava-la, no meio das outras,
num daqueles pequenos cupés,
idênticos ao cupé da Senhora Dambreuse.

Mas o sol declinava,
e o vento frio erguia turbilhões de poeira.
Os cocheiros metiam o queixo nas gravatas,
as rodas punham-se a girar mais depressa,
o macadame rangia;
e todas as equipagens desciam em trote vivo a longa avenida,
roçando-se, ultrapassando-se,
afastando-se umas das outras,
depois, na praça da Concorde,
dispersavam.

Atrás das Tulherias, o céu adquiria a cor das ardósias.
As árvores do jardim formavam duas massas enormes violáceas no alto.
Os bicos de gás acendiam-se;
e o Sena, esverdeado em toda a sua extensão,
rasgava-se em ondas prateadas de encontro aos pilares das pontas.