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sexta-feira, novembro 08, 2013

RASGÃO

Chovia, meu Deus,
mas àquela hora, entre o café da amizade,
e o amortecer da luz, eu sabia de que rasgões nublados
o horizonte se me abriria
e de que aves rumando ao Norte, rasantes,
se faria a minha hora de estesia,
extasiado outra vez,
na sólida certeza
do Teu seio.

sábado, julho 02, 2011

MENOS QUE TU, CADELITA!

À vista desarmada
tu amas, cadelita que não tenho!
Mais que isso, desesperas por que te afaguem,
derramas-te em latidos por que te recebam e te perdoem e te mimem!
E eu, tão sequioso do mesmo e tão só, emurcheço e estiolo,
sentindo o bem escasso da amizade, a míngua de amor por todo o lado.
Ver-te é ver-me tão igual a ti e até menos que tu,
faminto de pele, inquieto por beijos, infeliz, 
arfando à toa dentro da coleira
que te atrela.

quinta-feira, junho 30, 2011

ABRAÇO À BEIRA-PRAIA

Mas que belo colóquio na minha praia, amigo João! Ao largo, marulhando
à flor da empatia que se nos impunha natural e refrescante, o mar, muito azul e muito verde, descobria a espaços os dentes níveos de espuma. Também queria sorrir-nos pela Vida, nosso prazer e nosso prémio.
João Carvalho e Joaquim Carlos [joshua]

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

DAS PRETENSAS AMIZADES

«O divino Mourinho disse há dias, numa entrevista, que as pessoas que falam dele, vão para os jornais dizer que ele é isto ou aquilo, e que em privado o descrevem à sua maneira, revelando informações obtidas por causa de uma pretensa amizade, não são suas amigas. Concordo absolutamente com o nosso melhor treinador de sempre. A amizade é privada e íntima; e quem fala sobre ela porque está deslumbrado, ou porque não tem tema, não merece fazer parte do círculo de amigos. Falar dos amigos é pô-los a circular na boca dos estranhos. É colocar tudo ao mesmo nível, que, no fundo, é o que aborrece os apreciadores da discrição nos relacionamentos. Mas é aí que os «amigos» passam a estranhos. Assim ficam todos no mesmo grupo. E de fora, como convém. Até nestas coisas essenciais da vida, Mourinho é muito bom.» Charlotte

sábado, novembro 07, 2009

A JUSTIÇA DE SÓCRATES NÃO DÓI


As amizades não se discutem. Mas podem embaraçar com uma força devastadora. Os amigos de Hitler, de Al Capone, de Ahmadinejad não contam nem as amizades havidas interessam para o conjunto de distorções, violências e tiranias perpetrados pelas personagens referidas. Os padrões sim. E os padrões aqui, ao contrário do que possa atestar o Carlos, são sempre os mesmos em Godinho e nos vinculados a Godinho: negócios subterrâneos, lóbis económico-políticos, apoio económico em troca de favor político, posições de charneira na Banca para melhor movimentar influências e os milhões que custam todas as reeleições. Cumpre recordar que o conceito de Justiça, para Sócrates não dói. Nunca dói. Tudo se contorna. Lopes da Mota, por exemplo, deixou de aparecer nos jornais, permanecendo no entanto o problema. Não lhe doeu nada a ingerência no processo Freeport. Para Sócrates, Justiça, como os jornais e as TVs, é mais um departamento sob controlo. E é, para ele, como época de caça às lebres, evitando a caça grossa. As lebres são esses pobres jornalistas, criativos nas suas alegorias e leituras corrosivas. As lebres e as perdizes são afinal esses pobres jornalistas assediados pelo músculo do Poder e do Dinheiro. Quem persegue e intimida jornalistas por causa de palavras escritas e ideias expressas só pode conceber uma Justiça intimidatória que faz doer e empobrecer ainda mais o mais pobre e o mais fraco. Em Portugal não existe Justiça doa a quem doer. Há gente preservada do lado doloroso da Justiça e mesmo no Congresso Soviético de Espinho, foi o próprio Sócrates a colocar-se sob a alçada do voto popular como forma imediata de absolvição absoluta. A Operação Furacão não doeu nada. O caso Freeport continua indolor. As falcatruas do passado prescrevem e não torturam os culpados. Quando Sócrates fala em Justiça a doer, não é obviamente para levar a sério.

sábado, janeiro 03, 2009

LOVERBOY EM VENEZA


Sim, meu amigo, vejo bem que te preocupas comigo,
com o meu desânimo de tudo, menos de escrever e fazer o meu blogue,
menos da minha vida familiar, com bebés ao colo dia vai dia vem.
Puxas por mim e realmente preocupas-te e procuras ajudar-me com honra.
ljk
Desempregado, não estou a conseguir ganhar honradamente
o meu dinheiro, não estou a conseguir sobreviver
no meio da barca romba portuguesa. Depois das humilhações no Pub
e da Escola por um Mês, não tenho conseguido sobreviver.
Duas filhas que, de tão pequeninas, ainda não falam e devo acalentar dia vai dia vem
e todos os dias as notícias e os factos que me mostram duas Crises:
a nossa, antiga e que continuará depois que finde a outra, a internacional.
E como isto me exige reacção e veemências!
A nossa Crise é um Falhanço num País que vai a pique. A outra Crise é desculpa.
Talvez esteja eu a viver tudo isto de um modo muito apaixonado e psicodramático,
talvez seja um luxo viver tudo isto como se não tivesse uma vida de que me ocupar
e uma família para alimentar. Mas, se estivesses no meu lugar, compreenderias
que é inútil resistir lutando no meu posto de trabalho putativo de 400 euros,
que JPP diz que é melhor que nada, competindo e resistindo contra aqueles que visam
destruir-te. É mais fácil aparentar estar já destruído, estar quietinho na máxima pobreza,
acuado sem o mínimo de dinheiro e perspectivas
para que não nos possam destruir ainda mais.
lkj
Não fosse assim e o Fisco viria dar-me a injusta e anacrónica machadada final;
não fosse assim e viria o BES extorquir-me setenta mil euros inexistentes e impossíveis,
até ao fim dos meus dias. Por outras palavras, meu amigo, deixa-me no meu buraco
que pelo menos para mim não poderá ser mais fundo que isto,
graças à vitalidade do meu Pai e às migalhas mal explicadas do Estado.
lkj
Tenho de ter esperança de que a negrura mentirosa chamada Regime trema e rua.
E esperar que o tempo do Loverboy está a chegar ao fim porque a Fachada de Fichas
não resistirá à Realidade e o Alheamento praticado contra as Gentes
não resistirá às Necessidades Delas. Bem pode ele ir alienar-se
e ir encher-se de frissons d'amour passionée em Veneza,
e despressurizar o seu Nulo, o Loverboy is finished.
lkj
Quarto para Quatro, Natal, 2008-2009

domingo, julho 20, 2008

IGREJA MÍNIMA


Nada vale a pena sem sensibilidade artística,
sem a sensibilidade de quem cria e a sensibilidade de quem frui criativamente a criatura.
lkj
Quando a Festa se faz, ninguém pode ficar de fora.
Anelo por essas Missas do Futuro em que todos participarão,
tempo em que Alguém fará unidos a todos, crianças, adultos, deficientes ou não,
tempo em que todos irão representar, exprimir com o corpo,
com a plena expressividade do rosto e da voz,
e dar vida e actualização, a uma Palavra de Amor Primigénia,
sempre dita e nunca removida por um Deus oposto a toda a espécie de mesquinhez.
Um Deus que convive bem com a minha excentricidade
e com a diversidade absoluta compresente em todos,
que abençoa as peculiaridades e o carácter único de cada pessoa:
aí reside a beleza completa nas relações humanas e é isso que me fascina inteiramente.
kjh
Que então se compreenda que ninguém foi excluído.
Que então se compreenda que eu tinha os braços abertos e não excluía ninguém,
apesar de excluído, tresolhado e mal visto.
Há uma flexibilidade convicta que não falseia a voz divina do amor
quando o relativismo e a rigidez são duas faces
da mesma moeda imperfeitamente cunhada: essa flexibilidade atrai e une.
lkj
Com os meus amigos construi isto mesmo, dentro de ti, ó Igreja chamada Católica.
E tu, Igreja, quando farás este mínimo de novo por toda a terra?
Quando? Nem sempre estamos prontos para consentir que cresça o Joio
entre as Espigas que aloiram ao sol da Salvação.

domingo, junho 29, 2008

PTERODACTILONIANA PAISAGEM


Sabor ferroso a sangue. Ferida.
Jorra. Provo-o involuntariamente, quente, meu.
No Céu, onde, com umas nuvenzinhas róseas muito a nordeste,
a aurora lentamente se afoita, rósea, áurea, sanguínea,
vejo o gume vestigial de uma lua recedente,
muito a prumo toda dentro dum Azul Esbranquiçado.
Acomete-me de repente sentir-me somente um homem só,
pterodáctilo da escrita e do sonho
com a ponta dos meus dedos-asas,
ao alijar só assim toda a espécie de sofrimentos.
lkj
Outros pterodáctilos, esses emplumados, cruzam os céus, centenas, milhares deles,
níveos músculos alados nas alturas oscilam nos recessos mais recônditos dele.
Vou pela auto-estrada e olho-os, hora de ponta celeste das gaivotas,
voando em desencontro, enquanto piam celebrativas, deplorativas.
Têm o Rio e a Cidade Iluminada por baixo, eis a Alfândega e a Ribeira.
Rodando sobre a Ponte, sinto-me já perto de casa.
É o triunfo das Aves e provavelmente da Grande Gripe
prodigamente esparzida do Alto.
lkj
Afinal, um casal meu amigo lá casou, mas não foi por eles que o soube!
A brisa matinal é o melhor perfume do Cosmos. Sangro ainda.
Intromete-se-me o meu sangue com o seu paladar e dói-me esse casal de amigos agora casado
sem que mo anunciassem, como seria de esperar, ou afinal não seria nada de esperar.
Pterodáctilos por todo lado nestes Céus Litorais. Imobilizo o carro. Cheguei ao meu lar.
Afinal, todos os meus amigos me traíram! Pardais, melros, em montePio poisam nas ruas,
o ruído da fome avícola avulta pela minha janela automóvel num cagaçal festivo e faminto,
pombas, rolas, tudo é das aves, o fresco amanhecer é todo delas.
Afinal, todos os meus conhecidos me desconheceram. É do sono que penso nisso.
E toda a gente outrora próxima me desagendou das suas agendas.
Não os encontro. Nunca. Não lhes interessa encontrar-me, ver-me. Ouvir-me.
lkj
Sou culpado de ser eu mesmo. Tornei-me-lhes evitável, assunto muito cochichado.
Que ando muito irado, que estou muito diferente, que agora sou deselegante,
desagradável, feroz, temível, cheio de palavras serrilhadas,
afiadas, envenenadas, maledicentes, cozidas e cerzidas de raiva e baba rebelada.
Que tenho agora demasiado inconformismo e rebeldia para ainda lhes parecer
o mesmo indivíduo cordato e cristão.
Que agora tenho demasiado Poema
e demasiado longa Narrativa para lhes ser inteligível e interessável.
Falhei na Indústria Conserveira dos Amigos, esse enlatado de luxo! E estou só.
lkj
Não quer dizer que esteja infeliz. Não. Simplesmente estou só,
só como Fernando Pessoa a sós com a sua própria genialidade privativa e por desabrochar
nos orgasmos de aclamação, de publicidade e de triunfo póstumos,
só como certos presidiários inundados de cínico e do clarão desapontado com a Espécie,
só como boa parte dos velhos, as mais crassas vítimas de Portugal
que politicamente e socialmente e individualmente
vai praticando com eles um cruel e asqueroso Geronticídio
nesses Lares da Terceira Idade, onde certas Tias
gerem proventosamente a idosa baba, a sopa idosa e o silêncio pesaroso ante-mortem,
Geronticídio também nesses casebres miseravelmente degradados das cidades
onde se escondem e escondem todas as faltas de pão e saúde.
Geronticídio porque as partilhas, as contas bancárias, as jóias e os ouros
vêm certos chacais filhos-cabrões-chulos de seus parkinsonianos pais alzeimerianos
conflituar entre si e exigir antecipadamente
como é próprio de Abutres Apressados.
lkj
Estar só é estar só higiénica, heróica e convictamente!
lkj
Ninguém nas ruas. Ninguém em lado nenhum. Só aves, pios, a fome de rato
das aves pela manhãzinha. Tudo está deserto. Já não tenho amigos!
É isso. Não os mereço omnipresentes e invasivos.
Não me merecem. Dois ou três tenho, vá!, que me pagam associativamente
um jantar quando me vêem uma só vez e pela primeira vez na vida
porque anelam perceber, cara a cara comigo, se só em bytes instilo vinagre
e não no trato pessoal, onde tresando a amor e ternura.
Tiram a prova jantarina e depois partem tranquilizados. Amigos!
lkj
Amigos talvez só mesmo um, extraordinário cantor e músico, e que por vezes me
encontra a malucar umas raivas, umas tristezas e umas apatias
à porta e em serviço do meu Pub, onde ocasionalmente toca,
e por isso mesmo vem, intuitivo, todo sorrisos antecipando o próprio humor-rebuçado,
a contar-me aquelass anedotas certas, a fazer-me rir muito.
Ele, com quem é sempre muito bom conversar,
ele, a quem é bom escutar e sentir-me por igual escutado
e falar do que calhe, nossas filhas, nossas mulheres,
do trabalho, desta amizade da boa.
lkj
Mas, pronto, falhei de ser inteiramente convencional,
não tenho sucesso por que me procurem inquisitivos,
e falhei ainda mais de ser inteiramente social, porque sou mais interiorístico
e perdido em saberes, textos e palavras.
Preciso de amigos que me amem e aceitem apesar disso e para além disso
desconvencional e associal.
Não preciso de amigos que se gabam de me conhecerem bem
somente para melhor me desmoralizarem e menoscabarem, Amigos da Onça e de Peniche.
Fui espremido, ponto negro social espremido do rosto amistoso, por vizinhos e conhecidos.
Fui desolhado e tresolhado, riscado e emendado, deslargado e emprastado contra a parede.
Fui metrocado e metralhado: não sou sequer digno de um talvez ou de um moche a mim.
Que eu não tinha o direito de me tresmalhar e me tornar um Pródigo Guardador de Porcos,
dizem eles e pensam ainda mais que o dizem, os Porcos das Incertezas,
os Porcos do Labirinto da Vida, os Porcos do Desconforto e da Luta Acérrima
por Pão e Dignidade, rasgada a cortina Matrix com que afinal Tudo nos Mente.
lkj
Os meus amigos, vizinhos e conhecidos, afinal casam e não me dizem nada.
Os meus conhecidos, vizinhos e amigos, afinal têm planos muito honestos e cumprem-nos
e vão todos aos aniversários e casamentos uns dos outros sem mim
e afinal são mais amigos uns dos outros e mais sensíveis uns com os outros que eu com eles,
que não vou a casamentos nem a aniversários porque não sei ou não posso ou me esqueço.
E ignoram informar-me, e preferem ofertar-me com a sensação de que lhes morri.
Ah, então é isso?, estou-lhes morto?!
E não poderia jamais escrever o que penso sem que lhes morresse?
E não poderia afinal dizer abertamente que acredito em Cristo-Deus
sem que lhes morresse?
kljh
Pois então já me lhes fizeram o funeral e nem para ele me convidaram?
Não é justo. Na verdade, isso não é nada aceitável.
Não deixarei de me queixar à Entidade Reguladora Amizade da Boca para Fora,
e à Comissão de Farra e Convívio Natural entre gente que mutuamente se viu o cu.
Vou mandar vir a ASAE inspeccionar essas instalações venosas e canalizações
coronárias com muito mau hálito e preocupante colestrol espiritual.
Então eu aqui, muito sozinho, ignorado e cuspido, sem saber de casamentos,
e vós, aí, afinal a murmurar de mim e a tecer exclusões cirúrgicas e silêncios sornas?!
E querem que eu vos perdoe essas habilidades sabiamente engendradas?
lkj
Francamente, amigos, vizinhos e conhecidos, não vos explicaram que murmurar é feio?
Murmurar é como influenciar à boca das urnas. Vício filho da puta!

terça-feira, abril 22, 2008

SINAIS DE LUZES


Que fique registado para a posteridade, meu amigo,
que quando um de estes dias, com os nossos carros,
numa curva familiar, de repente nos cruzámos,
foste tu que primeiro me fizeste sinais de luzes
e fui eu que, quase em simultâneo, com uma das mãos,
apenas te acenei num autómato gesto reflexo natural de reconhecimento.
Demo-nos um magnífico cumprimento competitivo ocasional e eu perdi em grau.
E perdi porque podia ter buzinado ou esbracejado efusivamente, depois do cruzamento,
ou feito também sinais de luzes no entusiasmo pomposo de reparar que eras tu.
E só consegui acenar-te murchamente com uma mãozita soerguida do volante.
Faróis por faróis, antes os da Nicole.
lkj
Foi tudo muito rápido para ser devidamente processado pelo meu olhar-em-crise.
lkj
Tu, meu amigo, devias saber que em certos dias festivos,
na estrada, por pura euforia festiva que não cabe em nós,
fazemos sinais de luzes ou buzinamos intensamente para mostrar que existimos,
ao cruzarmo-nos com outras pessoas conhecidas e mesmo desconhecidas.
É a vitória do clube, a conquista da taça, o partido que ganha com maioria,
o cortejo de casamento.
lkj
E é bom que elas, as pessoas, todas as pessoas, vejam que estamos felizes.
E é bom que vejam que temos o carro cheio de amigos
naturalmente proibidos de peidar lá dentro,
essa convenção tão veemente em ti
(eu nunca proibi a ninguém de vomitar ou peidar-se no meu carro
e aliás tive sempre quem o fizesse, uma dessas pessoas infelizmente já morreu!)
e evidentemente felizes também porque é excitante
o sentimento de grupo quando se vai em conjunto a um jogo de futebol.
lkj
Já não sei fazer sinais de luzes festivos,
eufóricos, cumprimentadores, meu amigo,
nem que o meu clube ganhe,
nem que ganhe o partido que me calhe ou me aconteça votar.
Ter o carro cheio de amigos é-me impossível e improvável
porque sou difícil, voilà!,
porque nunca tive habilidade ou gosto para disfarçar o meu prazer em estar só,
nem gosto ou habilidade para arrebanhar gente e intimá-la a seguir-me.
Se gostaram de mim e me seguiram foi porque quiseram.
Eu era mesmo mais livros e silêncio.
O tempo da minha alegria exibicionista e sedutora e triunfal de grupos eufóricos acabou, pá!
O tempo de ser tolerado ou desejado euforicamente por gajas de todas as gerações acabou, pá!
Este é só o meu novo tempo de andar fodido e insatisfeito, ó tempo novo e excepcional!,
com o rumo geral das coisas gerais e algumas pessoais por reflexo e efeito das gerais.
Um tempo para ser realisticamente autêntico e profundamente inconformista,
aceitem-me ou rejeitem-me, quero lá saber! Eu sou isto e isto é pegar ou largar.
lkj
Um tempo para fazer estes poemas dolorosos, labirintokafkianos, magoados.
lkj
Não quero ter piada e parecer feliz e bem sucedido,
ser aquele bacano de sempre, sempre desconhecido,
mas depois nem sequer ouvido com o coração e o afecto,
compreendido e aceite por mim mesmo, o leproso, o mendigo, o erróneo, o errado.
Quero foder-te o juízo, mal te apanhe a jeito, meu amigo,
ou continuar a ignorar-te, o que vai dar no mesmo para quem vive em Marte
e anda sempre cheio de razões, reparos e ressentimentos, como tu.
lkj
Tens ainda mais alguns anos, poucos, para continuar a viver alienado e iludido
nessa areia, nessa espuma, que julgas ser rochedo,
fumando o teu cigarro obcessivo,
fungando o lugar vazio do teu dente molar,
gesto primo da unha excrescente, suino canivete suiço, no dedo mínimo,
moendo o juízo a quem te apeteça (tens a mania que és engraçado!),
convidando e intimando os teus favoritos
para aquelas andanças de camaradagem e de amizade
que se transformarão depois nessa tua grande festa de aniversário infalível
e na voz consensual, muito beata e muito de Igreja mas sem Igreja,
de que és um tipo muita'p'rreiro, um tipo fixe.
lkj
Fora isso, talvez um dia possamos conversar como homens,
sem as tuas tretas superficiais e os teus subterfúgios escapistas,
sem as tuas poluições mentais, sem as tuas ideias feitas e opiniões do outro viciadas.
A tua opinião sobre as outras pessoas por vezes é a face amarela da Tirania.
A tua gestão do lazer em grupo por vezes é um Tratado de Exclusão Punitiva,
é repreensão repressiva e assédio controleiro
ao jeito da insuportável e mal-fodida mulher de Fidel com as respectivas noras.
lkj
As minhas tretas estão aqui todas à mostra e,
como vês e sabes (se não sabes também não me interessa para nada!),
não te escondo nada do que penso.

domingo, fevereiro 24, 2008

COMBUSTÍVEL DO AMOR



Vieram dizer-me, como quem revela um segredo, meu amigo, que eras Gay.
Imagina a minha falta de choque perante essa suposta revelação
na minha caixa de comentários moderada. Zero!
Seres Gay é, para mim, como uma cor específica de olhos,
é ter mais ou menos pêlos púbicos, mais rapados, menos rapados e por acaso reparar nisso,
é um modo de vestir, um modo particular de ser como outro qualquer.
lkj
És Gay, pronto! Eu já sabia e virem dizer-mo
nunca poderia servir de arma de arremesso contra ti. És Gay, pronto!
Mas não és paneleiro como os que vêm tentar estigmatizar-te perante mim, malévolos,
de que és Gay. Paneleiros são todos os que funcionam com pouca humanidade
e conspiram muito contra aqueles que invejam.
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Paneleiros são aqueles que nos olham de soslaio como se fôssemos homúnculos
e nos não perdoam opções opostas às suas e a sua intransigente defesa:
«Sim, sou católico, ó paneleiro laico!, porquê?! Tem vírus que o seja? Tem bicho?»,
apetece-me gritar a esses paneleiros terraplanadores desprezivos de gente com Fé!
lkj
Olha, meu amigo, sê Gay à tua vontade e não te obliteres.
Brindo a ti e a isso só teu e só tu: não permitas que te magoem,
escondendo-te em rebeliões contra seja o que for que és.
São impuros todos os que te olhem ostracizadores, em desconfortável asco.
Vou continuar a amar-te a partir da minha mais estrita heterossexualidade
porque é só nesse âmbito que amo todos os meus amigos e todas as minhas amigas
- é com a minha heterossexualidade que os abraço e lhes sinto os corpos
cujo coração ainda bata. Às vezes esfriam, como glaciações prolongadas,
e temos de seguir além porque não é pouco vulgar que mesmo os nossos amigos,
também eles, se transformem em vis paneleiros!
lkj
Assexuando-se, é que ninguém ama ninguém.
O meu combustível é o Amor e, nisto, as ideias, as opções sexuais estão à parte e aquém.
Gosto de ti, meu amigo Gay. Acredita no que te digo e funda-te nas minhas palavras:
já não há Judeu, Romano ou Grego, Homem Livre ou Escravo, Mulher ou Gay:
todos são UM, em Cristo. Todos são Gente e Filhos Amáveis de Deus,
que nunca foi um Estreito de Ideias, mas a Loucura por Amor em Pessoa.
lkj
O Pecado é outra coisa, outro coito,
esse, sórdido e amarelo, entre velhos Inspectores de Almas,
os infames «escrupulosos detritos», que verbera O'Neill.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

VAI UM NATAL DE ARRANCAR PINHEIROS?


Hoje foi um dia intenso.
Vou-me conformando com o meu re-desemprego do Ensino.
Era aquela uma substituição por doença e é tudo muito complexo
porque quem está doente pode melhorar e ter de voltar à escola, a qualquer momento,
mesmo que re-adoeça imediatamente a seguir. E eu sabia disso.
Depois as pessoas do meio escolar, se ele é local e massivo,
na verdade não sabem muitas vezes se devam gostar de alguém novo ou diferente.
Muito menos de alguém bizarro e discreto, como eu,
que nesta fase da minha vida não faço por agradar
e não abro mão da minha loucura ou do meu pathos.
lkj
Perante o meu vulto discreto e obscuro, uns diriam «Ai, é um óptimo rapaz.»
Outros, sobretudo os que mais esfregam as mãos de ansiedade
pelo putativo apertar do gasganete às liberdades blogosferianas:
«Aquilo é um baldas, um libertário, um demónio, um incendiário doido!»
Outros não saberiam opinar nem teriam como.
Mas o meio exerce uma clara pressão inclusiva ou eliminatória sobre um estranho.
O meio avalia, acerta posições e conspira, se farejar algo inabarcável e esse algo for gente.
Não é Sócrates mais popular onde a mediocridade medra? Porquê?
Porque as coisas têm de ser simples e abarcáveis.
Se forem complexas e contraditórias de mais, é porque não servem
os propósitos normalizadores a que tudo deve obedecer.
lkj
Seja como for, foi um dia intenso.
No local costumeiro para o café da manhã,
local que frequento há anos, reencontrei um amigo de infância,
que até tinha motivos para se manter impassível, caso aconchegasse o casulo do orgulho,
talvez para nem sequer corresponder ao cumprimento efusivo e automático que lhe lancei,
mal o reconheci. Pedi-lhe desculpas por qualquer coisa de ofensivo
lá bem soterrado no passado.
Aceitou-as.
Reconheci que fui grosseiro e estúpido na altura, ressalvei o desespero
que então me espicaçava de impaciências.
E a nossa conversa fluiu, entrecortada pela pressa,
esta opressão por outras tarefas urgentes.
Reiterei-lhe várias vezes as desculpas.
Sempre fomos monstros da conversação.
Se nos deixassem, seriam talvez horas de narrativas de vida reciprocadas.
Ele as dele. Eu as minhas. Se nos deixarem, talvez na velhice conversemos
como quem sintetizará as brincadeiras no Recreio da Escola,
os triunfos adolescenciais e as artrites de fim de vida, as literais e as metafóricas.
É a época dos Pinheiros e das Luzes.
lkj
A dado passo, abracei-o. O assunto culposo teimava em aflorar-me aos lábios.
Abracei-o mais a ele que ele a mim.
Respeito que ele se contenha e marque uma pose urbana em toda e qualquer situação social,
ao passo que estou cada vez mais me cagando para essa componente.
Foi bom revê-lo. Escutá-lo.
Talvez me visite ao menos aqui, no meu PALAVROSSAVRVS REX,
pois deixei-lhe o endereço.
lkj
O pior foi depois. Saído dali, em família, feitas algumas magras compras no shopping de eleição
e de proximidade, enquanto eu, mulher e filha, já estávamos no estacionamento,
irrompe à minha esquerda um conflito de casal tão brutal e torrencial
na violência, nas palavras duras,
que em sobressalto senti necessidade
de me conservar atento, não se desse o caso de ele a matar.
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Tudo começou quando ouvi ela a dizer-lhe: «Ó meu grande filho da puta...» Olhei.
Ele já estava dentro do carro, do lado do passageiro, acomodava grandes sacos cheios,
acomodavam, cada qual no seu lado, uma infinidade de sacos,
e ela manda-lhe aquela boca vexatória.
«Que é?, que é?, anda aqui, se és mulher, minha grande puta...»
Fala daqui, fala dali, de repente
estava a moça, de longos cabelos, soluçando, a apanhar na boca,
a ser escovada e prensada por punhos e palmas, soluçando, chorando sempre,
palmas e punhos pelo corpo a eito, entre um sacudir de moscas e um pregrar de pregos.
lkj
Ninguém se aproximava do casal, É Natal!, é natural que ainda hoje façam as pazes,
mas muitos eram os pescoços que agora volteavam para ver e avaliar a coisa.
O careca do namorado, mais baixo que ela,
mas bravo e ameaçador como o Demónio da Tasmânia,
mete-se no carro como quem quer arrancar, mas não arranca. Ela de fora, em prantos!
Ele liga o automóvel. Desliga-o.
Ela luta pelo carro, gritando, batendo no muro vítreo, unhando-o.
Ele sai do carro.
Ela foge.
Ele apanha-a e continua o processo de escovagem do corpo dela
com música soluçante de fundo.
lkj
Um segurança motorizado do shopping acerca-se e é logo ameaçado
pelo careca passado namorado que ela apodara de «grande filho da puta».
O segurança acelera dali, como quem foge antes que beba, para pedir reforços.
O jovem careca afasta-se da namorada chorosa. Tacticamente seria melhor desaparecer.
Reentra no shopping e eu, que já me afastara e rolava lento pelo estacionamento,
todo olhos e alertas para aquilo desbragado, compreendi que era Natal.
O jovem careca olha fixamente a traseira do meu carro que se afasta também.
lkj
Ali estava eu, com a minha doce mulher e doce filha,
na harmonia e paz celestes de sempre onde não falta a devida adrenalina meiga,
a fazer umas pobres compritas despretensiosas,
a conversar da vida, cooperantes, amiguinhos,
eu a dizer que aquilo era falta de dinheiro
e ela a achar que era mas é hábito e que o traste só era 'homem' com aquela pobre
e talvez fosse todo negocial com um macho maior que ele. Já se sabe.
Eu, além da tese da falta de dinheiro, também considerei,
dentro do grande espírito do Natal, tal como ele está e o põem,
que um companheiro violento é sempre um tipo de homem em conflito
com a sua masculinidade: como o seu consciente e subconsciente a negam,
o que é uma auto-agressão, ele arranja maneira de a afirmar, agredindo o fácil.
Assim.
lkj
Talvez ainda hoje durmam juntos.
Ele trará um ramo de flores.
Chorará de paixão e desespero por que lhe perdoe.
Ela aconchegará uma lágrima comiserativa junto ao olho inchado e aureolado de carmim,
passará as costas da mão pelo lábio cortado.
Mais tarde, o cimento de uma boa foda, melhor que todas as outras,
deixará em aberto mais Natais com prendas e cenas iguais
num estacionamento qualquer.
lkj
As coisas que uma boa foda atenuam!
Enfim, é Natal! Está tudo demente!

sábado, setembro 08, 2007

PARAÍBA II


Aí, na casa que abraçaste,
no lar que tomaste e te tomou e onde és livre,
aí, onde comemos juntos o cuscuz matinal ou vespertino
e tomámos café e conversámos muito,
aí, onde o sol abençoa enquanto caustica,
e onde és imbatível no teu trabalho descomunal,
e onde és herói verdadeiro,
o homem de paz
e o bravo guerreiro adormecido,
aí é onde a braúna e a imburana-de-cheiro
te saúdam e veneram,
meu caríssimo amigo.

PARAÍBA


Aqui tô bom.
Pego capim dech cêdim pru gado, todu dia pegânu e botânu capim.
Boto feijão... dô veneno nêl.
À noite vô pescá, toda a noitinha pescânu.
Aqui é bom.
Nem eu nunca na vida tive doente.
Os cabra pegaru o meu fiu.
Dois, os cabra foru e pegaru êl.
Eu tava lá. Bala num qué nada comigu não.
Eu tava lá. Eu sô brabo!
Vieru e deru mei-mundo de tiro lá
por coisa di nada, uã pernada de outro dia, um bate-boca perdido.
Mach vieru.
Primeiru tiru tombou di bucho êl logo ali mêchmo, meu fiu.
Aí eu vô e quero salvá êl,
ser cobertô dêl, os cabra pegaru à traição,
tiru aqui, tiru ali, meu fiu no chão,
procuro a arma dêl, num tem, não. Num tá no cinto. Cadê? Num tá.
Esqueceu êl. Tenhu di fugi, cadê a achma?
Os cabra mi persegui, tiram em mim,
mei-mundo de tiro em mim,
sombrio mi perco na sombra e vejo tudim di longi:
os cabra vorta e tiru mais em meu fiu,
um tiru pegou a mão,
outro pegô a perna.
Meu fiu no chão.
Os cabra fugiru.
Sei quem são êli.
Fiu chega vivo ao hospital, mach morri logo ali mêchm.
Vim embora di lá, cidade ruim.
Aqui tô bom.
Trabalhu o di todim.
Sessenta e três anu e semp fui macho,
tem aí uma galeguinha, ela vem, a gente rebola nus matu...
Aqueles cabra vão pagá...
Não ness'estante, mach vão pagá...
Meus ôto fiu telefona: «Paínho, vamu pegá êli, fiu duma rapariga, vamu?»
Eu digo: «Mior não. Deixá poeia'sentá.»
Aqui tô bom.
Quandu cê voltá
vou cunzinhá uma gibóia pá ocê.
Tá bom?
çlk
Está bem, meu querido amigo!

Às Pessoas que Eu Conheci e Amei Profundamente
no Meu Primeiro Brasil.

quinta-feira, junho 14, 2007

O MEU AMIGO POETA PERSA



Há comentários que comovem. E comovem por vários motivos, o principal é o sabermos como vivem amordaçados pela censura e pelo medo tantos milhões de bons seres humanos que, ainda assim, se mantêm bons e humanos, em nada procurando imitar uma corrente maioritária de autoritários punidores. É o caso de este meu novo amigo poeta persa, que me deixou tão simpático comentário na penúltima postagem: امیر said... hola Joaquim,:) I know it's funny, but that's all I can say in your beautiful language! no, even if the visitations you make are a matter of more audiences,  I'm still happy that you visited mine. Gracias! if you look at the posts, you are the only one who has ever commented :)  and it's not strange to me, because I have never given my blgg's address to anyone :p  I write my Persian poems there, just for my own sake  (I also write my favorite poems from other poets).  I do this because I can't read them for the one I produce them for.O your are right, picture's talk.  they even talk better than humans.  humans could be silenced, but pictures couldn't!  they will say everything before anyone wants to silence them :) hope some day the world changes...