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quarta-feira, dezembro 12, 2012

MORRER COM JACINTHA SALDANHA

Há qualquer coisa nesta morte que me aflige e me toca e me enche de uma empatia absoluta, desmedida, como se fosse comigo, como se fosse eu mesmo. Está frio. De algum modo enregela-se-nos bem mais que o corpo, perante isto. Interrogo-me o que era a vida de Jacintha antes do telefonema, o que se passou logo a seguir, após a brincadeira do canal Nine Network, pelos locutores Mel Greig e Michael Christian, até culminar na sua morte por enforcamento. Há certamente mais, muito mais, por detrás desta perda tal como há milhões de Jacinthas por eclodir trágicas, tristeza para que se não inventaram ainda palavras. Poderias ser tu esse sofredor silencioso cujo íntimo jaz submerso na maior parte, icebergue de dores e de penas. Poderia ser eu, angustiado, terrivelmente em baixo, com o corpo e a alma, todo o meu ser, na ânsia de um catalisador qualquer, um pretexto para, agora sim, descrença completa na Humanidade, acabar. Por isso quero saber, tenho direito a saber, o tom e a substância do antes e depois daquele telefonema. Quero saber, tenho o direito de saber, tudo o que te fez desaguar nessa partida-punhal que nos estarrece, Jacintha!

quinta-feira, dezembro 08, 2011

CALMOS, MUITO MAIS CALMOS

«A therapist had told Trier that depressive people tend to act more calmly than others under heavy pressure, because they already expect bad things to happen.» Acerca do filme Melancholia (2011)

sábado, novembro 12, 2011

DEPRIMIDO, ESGOTADO, FOFINHO

Os homens falham, os homens esmagados, sabe Deus por que desatinos e dores, falham ainda mais clamorosamente aos olhos perscrutadores e politicamente correctos na sua sanha por correcção. Ser benfiquista é ter na alma a chama ardente, pois, onde diabo estava com a cabeça o poeta que escrevinho isto? Ser magistrado pode ser ter na alma a chama ardente da loucura, manifesta na fuga à linguagem processual e uma preguiça absolutamente compreensível em dar conta de centenas de processos importante e urgentes como percevejos para si. Ficar infeliz e deprimido está-nos nos genes, se o não contrariarmos por todas as formas saudáveis possíveis. Que nos esgotem a paciência é fatal. Coitado desse juiz num País de implacáveis coitados: «O magistrado, que sofre reconhecidamente de "incapacidade do foro psíquico", acumulou processos, num tribunal não especificado, desde Dezembro de 2005. Durante os mais de quatro anos decorridos, a responsabilidade da sua manutenção em funções pertenceu sempre ao CSM. No texto do Boletim Informativo do conselho há ainda referência a 50 sentenças judiciais que o referido juiz terá proferido por apontamento (apenas uma súmula, feita oralmente, da decisão final). Numa dessas sentenças, relativa a um processo iniciado em 2009 e terminado um ano mais tarde, "consta uma nota da acta" que diz que "pelo M.mo Juiz foi dito oralmente "absolvida a ré fofinha".» Público 

quinta-feira, abril 17, 2008

LIXEIRAS SECRETAS


Até sermos arrolados na sua devastação, nunca nos é dado imaginar como alguém, no seu caos endémico, pode interferir e afectar toda a gente à sua volta por estar deprimido. A depressão de que ele me falou está aí, desmobilizando-o da luta diária, servindo-lhe de pretexto para a sua desistência doentia de si mesmo, desencadeando-se violenta e selvagem sobre aqueles que deveria proteger e amar. Ninguém o pode contrariar nas suas teses de dinheiro fácil. Ninguém pode arrastar o tapete ilusório de receitas ilusórias onde apoia uns pés irrealistas, para devolvê-lo à realidade-granito frio de ter de começar do zero pela infinitesimal vez. Não há imunidade para os demais ao lixo que se enclavinha no coração de um homem insatisfeito na sua pele, na sua história, cego de nascença em relação ao seu tesouro. Nem o sexo, nem a festa, nem a família, nem a bebida, nem o futebol nem absolutamente nada o resgatará do fosso profundo a que se remete ensimesmado. Mil novenas que se rezassem, mil pregações laicas e racionais cheias de um fogo de apostolado anticlerical, mil actos espíritas e áfrico-animistas, nada pode reerguer um homem tornado a si mesmo o Perfeito Desajustado, vítima da ansiedade do dinheiro e do enriquecimento, do sonho do regresso em triunfo exibicionista, da vistosidade e do poder que escorrem como um mel devorador de insectos rolando compressor por sobre eles, resina de há milhões de anos rolando sobre eles, até ao ambar do esquecimento, milhões de anos depois. Ele tem sido o Catrina que tomamos por familiar e natural, com os seus destroços inumeráveis, mortos e desaparecidos no processo, e sempre pronto a reeditar-se e a não aprender as velhas lições
da contenção e da humildade. Tive sempre um Sacro Escudo para tudo, mas nunca pude proteger-me de espíritos autofágicos de caos crasso desabando por perto de mim, percutindo os seus efeitos desorganizadores sobre mim. Pobre de mim!

terça-feira, abril 15, 2008

TODOS SOMOS A CHINA


E só ao fim de três anos lá me soube ou lá me pôde admitir que estava deprimido.
Alguém, como ele, outrora um furacão de trabalho,
uma coragem infinita para o trabalho,
para todas as privações e sacrifícios pela miséria de dez euros, trabalhando,
estava afinal deprimido. Bastou compaginar os seus sintomas e sinais
com o elencado numa reportagem que vira na televisão sobre Depressão.
lkj
Também detestava os outros.
Também recusava qualquer espécie de convívio com eles
e tinha asco de todos aqueles com quem fosse obrigado a conviver.
Também não suportava a vida que levava nem se suportava a si mesmo,
nem aos trabalhos de nojo e de lixo que tivera e talvez tivesse de ter novamente,
na construção civil, que lhe liquidou literalmente a saúde,
nos cafés e confeitarias de Matosinhos e do Porto,
onde se concentravam os piores instintos
de uma clientela invejosa, linguaruda e badalhoca, segundo ele,
e dos patrões maus pagadores, abusadores nos horários extra-impostos e infrapagos;
na assistência avulsa a velhinhas, às quais ia limpar o cu duas vezes por dia
por trezentos euros/mês, acumulando estas fraldas laborais
com o pesado horário de servir ao balcão.
lkj
Agora estava deprimido e queria soluções rápidas para ter dinheiro,
expedientes arriscados, muito bem calculados por ele,
mas certamente erróneos e erráticos, como tantos que tentara no passado,
ainda mais agora que se via dolorosamente endividado.
lkj
E eu disse-lhe que o compreendia.
Que eu mesmo roçava infinitas vezes o que ele sentia,
mas tinha coisas no meu dia-a-dia, em especial este meu blogue,
que me mantinham vivo e motivado,
que mesmo os dez euros semanais na treta megamentirosa, megamanipulada do Euromilhões
eram somente uma janela de esperança tendo em conta um panorama difícil
herdado de uma fugaz ligação a uma mulher-problema-louro,
Aventureira da Loucura e da Ignorância, que tanto e tanto e tanto me lesou
e ainda hoje lesa com as dívidas que contraíu
e depois vêm cair sobre mim como meteoritos de inesperado e de injusto,
venham do Fisco, esse especialista em foder com os mais fodidos e rebentados,
enchendo-os de ressentimento e de desmoralização, como eu,
venham do Condomínio que ela não pagou,
da TVCabo que ela não pagou, dos serviços de Água, Gás e Luz que ela não pagou,
e que me vêm cair no colo inocente para que lhos remeta para que os pague ela.
Disse-lhe que ao menos eu tinha esperança em ser lido e amado um dia,
que lutava por isso todos os dias,
que ele deveria procurar ajuda urgentemente.
Era o que eu faria.
lkj
E, no dia seguinte, quando armou aquela discussão com a mulher,
sempre violentíssimas e unilaterais da parte dele, ela é toda lágrimas silenciosas,
eu estava lá, vi e ouvi, quando disse que mais lhe valia dar um tiro na cabeça
se fosse para continuar a amargar trabalho e humilhações na merda de este país.
lkj
Mal sabe ele a urgência de este país recheado de desempregados,
como ele, como eu,
se assemelhar com a China o mais depressa possível,
para melhor sobreviver aos critérios devastadores do seu crescimento económico,
ou não fosse Portugal, segundo Pinho, o paraíso dos baixos salários
por que qualquer investidor estrangeiro, de preferência o chinês!, deveria salivar.
lkj
Naturalmente, eu disse-lhe que se estiver novamente disponível para limpar cus a velhas,
mesmo que por muito menos de trezentos euros/mês, como no passado,
eu o acompanharia e ajudaria no serviço, com toda a prontidão.
Tal como a ele, também me agonia a falta de dinheiro
e o espectro da miséria sobre mim e a minha família é notório e deprimente.
Não sou nenhum Pina Moura, nada tenho a ver com Armando Vara
e só noutra vida aspirarei ser o foguete natural do sucesso-Jorge Coelho
alcandorado a uma qualquer mega-Mota-Engil
absolutamente isenta e desinteressada.