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segunda-feira, fevereiro 18, 2013

À MINHA TIA-AVÓ AMÉLIA

Um telefonema. A notícia. Foi esta madrugada, agonizando entre as 06:30 e as 08:30 da manhã, que a minha querida tia-avó Amélia soltou amarras. Sabendo-a em doença terminal há semanas, uma daquelas gravíssimas situações dormentes e insuspeitas as quais, mal se manifestam, em menos que nada aniquilam a vítima, tive, na passada Quarta-Feira de Cinzas, um impulso interior poderoso para visitá-la. E fui. Foi como se todos os meus amados mortos do lado materno — o meu Avó Joaquim, a minha Avó Ana, os brasileiros meu querido Tio-Avô Manoel e a minha Tia-Avó Madalena, a minha querida tia-Avó Madrinha Emília, gente que amei e me amou [a Tia Madalena partiu em Agosto do ano em que nasci] —, gerassem no meu coração um ímpeto de despedida e de consolação. Ai de mim se não obedecesse ao que me gritava o íntimo. Ao influxo das suas vozes vivas, meu coração-vela panda foi ajoelhar-se ao pé daquela lucidez bruxuleante, tomar-lhe a mão, beijá-la, beijá-lá muito, muitas vezes, e à sua fronte, beijá-la muito, muitas vezes, dizer-lhe que me era querida, dizer-lhe que tudo correria bem, invocar numa prece Jesus, o Deus Vivo, Espírito Consolador da Estirpe Humana, ser, enfim, abençoado pela irmã da minha querida Avó Ana, no Seio de Deus há vinte anos. Logo me reconheceste. Estendeste a tua mão sobre a minha cabeça, mão que ficou na minha mão, os olhos nos meus olhos. Balbuciaste reconhecimento, não ter dores. Senti na estrema da tua fronte com o teu cabelo o odor familiar da nossa carne, do nosso sangue, e ao mesmo tempo exclusivamente maternal, comum à minha Avó. E foi cheia de esperança e suavidade que uma luz muito bela do Sol da tarde irrompia pelo quarto, quando já estava para apartar-me de ti. E como me custou sair da tua beira, minha Tia. 95 anos. Mas que esterilidade de País injusto e que inconsequência de História Colectiva testemunhaste?! Que transes pessoais suportaste?! A espada de um filho morto no Ultramar, único filho homem. A espada de um neto de repente morto, único neto homem, tão novo, colapsado por força de um mau coração, ainda há seis anos, mulher e filhos para trás. E tu, atravessando a vida, sempre, num serviço vital à tua filha, cozinhando para ela, cuidando dela, num oferecimento pessoal, como se não tivesses nem idade nem limites nem cansaço. Existindo só para ela, para o seu cansaço, para os seus limites, para a sua idade. E tu, resistindo a tudo, dando tudo, num silêncio e numa serenidade, apesar de tudo espirituosa e leve, que poucos compreenderiam e de que menos ainda seriam capazes. Do País, as notícias de se ter transformado num fóssil comunitário, um oásis para a desonestidade e o oportunismo, uma caricatura de democracia, um corpo associal e injusto, onde é redutor pôr as coisas na rançosa dicotomia Esquerda-Direita, uma vez que a injustiça em Portugal, além de democratíssima, portanto, generosa, não tem qualquer noção da lateralidade. Não poderias imaginar que este teu sobrinho-neto, apesar de mais de década e meia de mester, não está professor [talvez não mais beba desse cálice sobretudo porque não quer!], nem se fez empreendedor com dinheiros do Estado, do Partido, do Privilégio, nem rebola de esquemas de sucesso fútil, nem chafurda no dinheiro fácil, pornográfico, homicida, dos Loureiro, dos Sócrates, dos diabo que os carregue, nem inocula mais vaidade à vaidosa petulância dos que se julgam imunes ao sofrimento e à morte. Não. Foi beijar-te e dar-te amor, minha Tia, um coração amoroso, repleto de Cristo e assente n’Ele-Rocha, um empobrecido dos tempos como o são milhões, convicto ambientalista, convicto não-consumista, pluralista, ecuménico, espiritualmente feliz e reencontrado consigo mesmo no preciso paradoxo de todas as perdas pessoais e sociais, pecador de muitas verrinas e catilinárias, mas humilde diante do que é Grandioso, como a tua Hora hoje conclusa; humilde perante o que é Belo, como a tua silenciosa serenidade exemplar toda a vida; humilde ao contemplar o Sublime Humano, como o teu silêncio sofredor que nunca maldisse e nada protestou; finalmente, humilde e reconhecido diante de quem é compassivo, como só o que é Divino e divino no humano pode e sabe ser. Foste uma mulher de paz e sabedoria. Chegada ao ponto-porto onde não há a dissolução e o vazio de um passado, nem a fugacidade opaca de um presente, nem a caducidade perpétua de um futuro, somente convergência imortal dos Seres, sei o que dirás à tua irmã, minha Avô, viva entre os Vivos: «Não te visitei, Ana, quando estavas doente e morrias. Não fui capaz. Remordi por demasiado tempo o ostracismo a que me votou a nossa Mãe Júlia por causa do meu desgraçado casamento com o donjuanesco traste: ela, que também não pôde ser feliz conforme merecia com o nosso Pai Abílio, conhecia o abismo para que me atirava ao escolher o que escolhi. Cortou comigo. Nem à hora da morte quis romper o ter-me banido, a Mãe. Onde isso vai e o nada que é! Mas este teu neto veio ver-me na minha Hora. Cobriu-me de beijos. Beijou-me a mão. Afagou-a muito. Beijou-me a fronte. Muitas vezes. Não queria apartar-se de mim, na minha agonia, marejado. Abençoei-o. Trouxe-me todo o amor e toda a paz que o medulam e são tudo. O teu neto, Ana! O teu neto!» 

Com mil perdões por quanto aparente transporte romântico transpasse o meu texto. A vida é isto. Ando a ler Camilo.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

JAMAIS DESANIMAR

«Deixai-me insistir em que todos leiam a Mensagem de Bento XVI, cristãos e não cristãos que sejam, pois a todos interessa tal base comum. Mas, na sequência do que vou partilhando convosco, não posso deixar de citar, ao menos, o seguinte trecho papal, interrogando primeiro e considerando depois, com grande oportunidade e realismo: “- E quais são os lugares onde amadurece uma verdadeira educação para a paz e a justiça? Antes de mais a família, já que os pais são os primeiros educadores. A família é a célula originária da sociedade. […] Vivemos num mundo em que a família e até a própria vida se vêem constantemente ameaçadas e, não raro, destroçadas. Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustentamento se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mas preciosos: a presença dos pais; uma presença, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experiência e as certezas adquiridas com os anos – o que só se torna viável com o tempo passado juntos. – Queria dizer aos pais para não desanimarem!” (Mensagem, nº 2). Também nós o queremos dizer certamente, amados irmãos e irmãs. Mas só o faremos de facto se nos empenharmos ao máximo para que nas nossas próprias famílias e naquelas que conhecemos, bem assim como nas nossas comunidades cristãs e vizinhanças, tudo fizermos para que cada um dos itens requeridos pelo Papa – condições de trabalho e convivência familiar, transmissão de convicções… - realmente se efectivem.» 

+ Manuel Clemente 
 Sé do Porto, 1 de Janeiro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2012

sábado, dezembro 31, 2011

FIM DE ANO COM ESPREITADELA À CASA DOS DEGREDOS

Catorze familiares à mesma mesa, crianças correndo, rindo em brincadeiras e vozeios eufóricos e venturosos que valem um galáxia, — cá em casa está a ser assim, harmonioso e feliz, o antegosto do novo ano 2012, com o que contenha de ad augusta per angusta. Bacalhau, penca, molho fervido, salada de frutas, vinhos tintos um pouco mais odorosos e menos a martelo, frutos secos e um ou dois queijos nacionais de deliciosa eleição. E, enquanto venho postar mais alguma reflexão efémera, o mulherio comenta a Casa dos Degredos. Entre ser a Teresa Guilherme — e ganhar o que ela ganha, com o ofício simplificado de cuscar, com gula e com arte , e a denúncia do voyeurismo como calcanhar de Aquiles da espécie humana, voga o tema da conversa mulheriana. Entre os homens, bebe-se e observa-se. A televisão, não há dúvida, é um alvo demasiado entediante para fixar o olhar.

segunda-feira, novembro 14, 2011

RUI PEDRO, ESPADA DE ACUSAÇÃO AO REGIME

Querem um caso que simbolize e resuma o Regime chamado 'democrático' e 'republicano' que mora em Portugal? Ei-lo. É o do desaparecimento do Rui Pedro. Não foi ele apenas alvo de falhas processuais imperdoáveis, mas sobretudo uma fonte de dor insuportável, excruciante mesmo, para a mãe e demais familiares. Mas não deixa de ser estranhíssima a intimidade deenvolvida e consentida entre o Rui e o fulano Afonso Dias, na altura, com vinte e tal anos. As reportagens são muito claras e o que parece nítido agora como deveria ter sido então são os riscos inerentes a esse tipo de convívio. Tratava-se de um menino de 11 anos. Não há amigos para lá da esfera ou do núcleo duro familiar. Toda a prudência será de menos, infelizmente. Os pormenores deste caso estavam debaixo do nariz e com nexo directo com esse Afonso Dias que o ia buscar a casa para irem passear de carro. Passou tempo de mais antes de um mínimo de clarificação e isso envergonha o Regime e gera um asco difícil de purgar. Nesta democracia para quem pode e para quem tem, os indefesos permanecem indefesos, enquanto o dinheiro configura a essência do Regime: determina diferenças clamorosas de tratamento e celeridade e é por isso que podemos ver desfilar diante de nós de um lado os príncipes da impunidade e, do outro, os escravos da ineficiência judiciária.

sexta-feira, setembro 23, 2011

APROXIMAR-ME DA VIDA

Tento contrariar a lei do progressivo afastamento da vida, tal como a enunciava e praticava Proust a bem dos seus miolos, com uma intensa e extensa fadiga física, meu único vício que me faz percorrer mais de cinquenta quilómetros a pé, todas as semanas, para lá e para cá, rumo ao trabalho e ao descanso no lar familiar. Quero aproximar-me dela, da vida, como Cristo do Leproso, rompendo a convenção.

sábado, setembro 17, 2011

A PROSÓDIA DO AMOR E DA FÉ

Há muito me dei conta da música que habita uma frase banal. Com que melodia e acentos e inflexões se diz o amor e a raiva? Com que melodia se dizia tudo isso há mil ou dois mil anos? Como ler qualquer texto sem o revestir dessa alma por que clama o corpo morto dos caracteres dispostos no túmulo do papel ou do ecrã. Não é por nada, mas não leio coisa nenhuma sem lhe emprestar a minha voz e, portanto, a minha alma. Se rezo, digo-o convicto e saboreio o que digo, milimetricamente vivido. E ontem, quando rezávamos, tu e eu, com as meninas embaladas nas nossas vozes, deitados os quatro, foi exactamente assim. Cantei quanto disse. Numa penumbra amena, o quarto respirava luz e a brisa, tal como a mansa luminosidade lunar, surdia e saudava. E vieram ao coração e depois à voz todas as orações aprendidas na nossa infância. Uma a uma, palavra a palavra, beijámo-las. Concluíste que eram belas, «Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, pois que a ti me confiou a Piedade Divina, hoje e sempre me governa, rege, guarda e ilumina. Ámen. Angele Dei, qui custos es mei, tibi commissum pietate superna, me hodie illumina, custodi, rege et guberna. Amen.». Âncoras da nossa mortalidade.

sábado, setembro 10, 2011

RENTE AO CHÃO NA CADEIA ALIMENTAR

Eu estou bem, obrigado. Teso, mas feliz. Não me assusta a subida do IVA do gás, da electricidade. Vou usar água gelada no banho quotidiano e reforçar o número de cobertores quando o frio vier. Estou perfeitamente calmo com as taxas de solidariedade no IRS e IRC porque sou pobre e são baixos os meus rendimentos de professor-escravo, descartável há dezasseis anos com um pontapé no cu garantido todos os anos. Não me aquece nem arrefece a subida da tributação de mais-valias no IRS nem com a sobretaxa do IRS equivalente a uma parte substancial do subsídio de Natal porque estou muito rente ao chão na cadeia alimentar nacional, muito longe, mas mesmo muito longe! dos que auferem reformas duplas ou triplas na flor dos seus quarenta ou cinquenta anos para não falar dos reformados do regime, engordados por décadas de regabofe legislativo em benefício próprio da politicagem rosa-laranja. Estou em paz com o fim dos reembolsos de despesas de saúde e de educação nos dois últimos escalões do IRS porque tenho procurado acima de tudo estar de boa saúde, reutilizar manuais escolares e usá-los numa perspectiva o mais virtual possível. Quanto ao fim das comparticipações nos contraceptivos, como casal também estou também em paz. Se vierem, há muito tempo que o DIU [Dispositivo Intra Uterino] nos substituiu a pílula fornecida pelo Centro de Saúde. Não era para a comprar que nos introduzíamos na fila bocejante da farmácia. Opino frequentemente que Portugal necessita de terramoto natalista e que essa é uma questão de sobrevivência nacional a médio e a longo prazos. Não há futuro para o nosso País sem um acréscimo significativo de nascimentos e a sucessão natural e decente das gerações, superando o número de óbitos. Esse é um problema que a esquerda chupista-socialista escamoteia como escamoteava a da dívida pública e a da bancarrota iminente. A despenalização da IVG, tal como está a ser operacionalizada, é uma obscenidade e uma injustiça pela inversão das prioridades. Sim a uma política de saúde sexual integrada. Sim à racionalização do acesso a meios contraceptivos. Fim a um Estado em tudo paternalista e em quase tudo facilitista. Bem-vinda, responsabilidade pessoal!

quinta-feira, setembro 08, 2011

FAMINTO DE LAZER, É COMO DIZ O OUTRO

Foda-se! Caramba! Quando eu digo que estive no Brasil, não falta quem pense que isto são rios de dinheiro, montes de renda e proventos mil. Não é verdade. Bem pelo contrário. Foi sofrendo, poupando e privando-nos de muita coisa, andando a pé todo um ano de trabalho, que essa viagem se tornou possível. Valeu-nos, ou poderia ter valido como contributo do lado de lá, por exemplo, a venda de um touro para financiar parte da aventura de amor e família que nos leva a matar saudades. E mesmo assim, concluída a nossa estada lá, ficámos com alguns compromissos por suprir por uns meses. Será um par de meses apertadíssimos. Depois há o velho cerco injusto do Fisco, graças a uma célebre lei retroactiva, absolutamente injusta e imoral, do consulado socratino que me inventou uma dívida fiscal que na verdade não contraí, e me persegue desde 2006, na sua horrenda sanha desmoralizadora: e eu pago e volto a pagar e a pagar e a pagar e a pagar. Depois há outros problemas e vicissitudes, com o BES à perna, penhorando sem piedade, com todo o seu poder de usar e abusar, avaliar e desavaliar imóveis, o vencimento mínimo e penuriando o meu escasso ar e o meu pouco vento. Aqui, no burgo gaiense-portuense, cá o blogger trabalha, bloga o mais que possa, come saladas, dorme, dá amor, alimento e aconchego às filhas e vive na apertada paz doméstica. Faz o possível. Quanto a sair em lazer, cultura, música clássica, isso é-me miragem. Uma impossibilidade concreta. Custa-me estar privado do que seria para mim uma hora e meia a chorar a rir, caso pudesse ir ver o Miguel Guilherme e o Bruno Nogueira, na peça anunciada acima onde, ao que parece, o humor parvo e a conversa da treta pontificam. Por variadíssimas razões, não está ao alcance do meu mísero porta-moedas. Não posso chorar a rir com eles? Posso chorar a chorar sem eles.

segunda-feira, setembro 05, 2011

A POUPANÇA DA MINHA AVÓ

A minha avó poupava. Nunca conheci ninguém mais controlado, capaz de racionalizar até ao limite os seus parcos ganhos e os seus ínfimos gastos. Produzia e vendia flores, com finalidades funéreas, todo o ano, no curto recanto do nosso quintal, arrancando as ervas daninhas pela tardinha, num saudoso e silencioso sossego muito dela. Ao meu avô era-lhe recordada a hora da rega, e lá andava ele, para cá e para lá, com o regador vermelho de plástico, que enchia à bomba por seu braço, regador resistente aos anos, embora a desbotar e a desfazer-se. Foi uma sorte ter ela tido Estado Social e uns poucos anos de reforma antes de adoecer e partir. Nascera em Fevereiro de 1912. Vira a dureza das décadas. Hoje, com o Estado Social moribundo, caso não se aperfeiçoe uma sociedade do trabalho e não da dependência fácil, não há outro caminho senão viver Portugal um pouco mais como a minha avó, incapaz de desperdício, realista e prudente ao extremo. Talvez saísse ela menos, pouco se divertisse, mas amealhou independência e tinha um zelo salazarista pelo seu quinhão honesto. É preciso uma vontade de ferro e uma coragem infinita para transformar o estrume em ouro e amealhar uma poupança baseada no trabalho sacrificado e na disciplina pessoal.

domingo, junho 05, 2011

UM FALCÃO AO FIM DA TARDE

Especialmente durante as minhas viagens semanais para o Sul profundo e de regresso a casa, no Grande Porto, ano passado, fui reparando, para além das majestosas cegonhas, nas pequenas aves de rapina e no seu voo inconfundível, pairando a grande altura. Pela janela obsessiva do Expresso, do Alfa ou do Intercidades, passando a Mealhada, passando Coimbra, terras de Portugal atravessadas na A1, aves e o seu avistamento é o que não falta. De então para cá, olho ainda mais para o céu. Especialmente no meu bairro. Encanto-me com o que tenho ao meu dispor. Rolas em grande número. Pombas, pardais, andorinhas, gaivotas, imensas gaivotas, no seu voo furtivo e perscrutador. E, recentemente, também falcões ou espécimens equivalentes. Ontem, ao entardecer, já com o horizonte róseo-alaranjado, tive a sorte de observar uma dessas aves. Após a passagem de um avião, mantive os olhos no céu convidativo, observando as suas matizes em toda a extensão, e aí estava ele, direcção noroeste, a uns trezentos metros de altura, estático, pairando num ponto fixo do céu. Espantoso. Estávamos em família, num bom convívio, e logo chamei a atenção de todos para o que eu via. De súbito, num exibicionismo louco, próprio de um duplo, stunt bird Evel Knievel da natureza, o pássaro desata num voo picado a altíssima velocidade, num ângulo quase vertical. Qualquer coisa de belo, emocionante e, no entanto, um espectáculo de bairro, entre as árvores e as casas. Fiquei electrizado e feliz. Feliz também por ter podido partilhar esse instante. Além de observar invejoso todo o ano os aviões comerciais que passam por cima de casa, agora tenho falcões observáveis com um pouco de sorte e paciência ou na espontânea naturalidade de reparar neles, erguendo ainda mais os olhos da esperança, da contemplação e do prazer de viver. Talvez se estejam a reproduzir por todo o lado, suburbanos, lado a lado com os seres humanos, na minha freguesia à beira-mar.

quinta-feira, novembro 11, 2010

OARISTO

Meu amor, ontem chovia e ventava, enquanto, ao fim da tarde, caminhava de regresso a casa, meio febril e combalido. A espaços, desde o âmago do breu envolvente, céu carregado, um filamento de lua luminosa rompia, enorme, rente ao poente de entre farrapos de nuvens que cavalgavam para norte. Mal jantámos, quis embrenhar-me nos nossos cobertores, pois um frio estranho deixava-me estranhamente transido. Bem viste que tiritava de um tiritar anómalo e foi em espasmos, convulso de frio, que pasmaste o deitar-me tão cedo. Cuidaste bem de mim, vigilante, no desvelo de sempre. Hoje amanheci outro. Já passou. Oiço mas não escuto, quando me recomendas, vez após vez, meiga e feminina: «Não exageres na tua entrega. Protege-te do frio e da chuva. Há dias de tempestade tais que obrigam a medidas de excepção.» Respondo-te que não posso. Digo-te que não quero retroceder do meu voto. Obstinações sofridas, causas inglórias, derrotas anunciadas, alguma coisa enrijece e depura esta vontade ávida por sublime.

quarta-feira, novembro 03, 2010

UMA GALINHA QUE ERA UM CÃO

Durante anos, muitos, a bichinha resistiu a qualquer veleidade felina, no pátio e no quintal, porque era mais gato belicoso que qualquer gato. Emparceirou com dois patos, sortudos remanescentes de uma mais vasta postura, que eram seus amigos. Ela, destemida, protegia-os amiúde. Era vê-los unidos, os três, sob o calor mais inclemente ou abrigados da chuva e do vento mais uivante. Saudável, produziu um rio de ovos acumulados num local combinado. A nossa galinha era o cão da casa. Mais que um cão, aliás. Respeitávamo-la. Amávamo-la. De apetite insaciável, canibalizava restos de frango, reputada carnívora, e nada desperdiçava. Riamos porque enxotava a concorrência, atemorizando-a, sobretudo gatos e outros bichos à borda da tigela de latão prateado. Mas hoje, pela manhãzinha, não pôde resistir a dois cães filhos da puta invasores. Deve ter dado luta. Debalde, pois era já idosa. Foi um desgosto. Um sincero desgosto. Penas por todo o pátio. Notícia dada pelos vizinhos.

sexta-feira, setembro 10, 2010

MEU PAI, MEU EMAÚS

Ontem reparei nas tuas mãos, meu pai. Essas mãos que foram jovens, firmes, amplas, sempre afáveis, ostentam hoje o mesmo calor mas numa carne levemente emurchecida, beleza nova. Têm Deus na textura, no tom moreno de Judeu Português. Falavas, ao jantar, à mesa onde nos sentamos todos os dias, bebemos o vinho rubro, tomando a frugal refeição. Comecei a reparar nelas, súbita epifania, como os de Emaús no Desconhecido cujas palavras lhes incandesciam o âmago e logo desapareceu para existir ainda mais incomparavelmente para eles e para os demais. Essas mãos! Como as caminhadas intermináveis escola-casa e casa-escola que fazia muito jovem ainda, quando por qualquer razão todo eu era uma prece pungente e no entanto discreta pela saúde e protecção de ti, pai, e da mãe, fiz, só nesta semana, cinquenta quilómetros a pé, dobadoira humana, tecendo perseverança, indo ao garante do meu pão mínimo, sob o sol nascente, e voltando dele, sob o sol poente, entre o ardor do meu suor e a mansa brisa, fadiga de peregrino demandando a própria paz. Austero, farei o mesmo a cada dia, todo o santo ano, meu Emaús, meu pai. Por ti, por elas. E tanto mais obstinado, sob o sol, o frio, a chuva, quanto mais me disserem: «Tu não vais conseguir.»

sábado, agosto 28, 2010

A MÁSCARA FACIAL E O MEU BEBÉ

Nunca esquecerei o modo como tu, Bebé, filha minha novinha, vieste a correr para o refúgio do meu colo, quando a tua tia de repente se te afigurou assustadora com aquela máscara facial. Correste na minha direcção num pranto continuado e convulsivo, como se a não conhecesses de lado nenhum. Saltaste para os meus braços, enquanto choravas aterrorizada, abraçaste-me num aperto sôfrego com essas mãozitas bem enclavinhadas nos meus ombros, sufocada de sustinho. Na maior parte do tempo tão irreverente, destemida, o meu amorzinho de menos de dois aninhos, roliça e linda! No entanto bastou a misteriosa máscara facial da titia para um acesso, afinal tão raro, de terrorzinho lindo que o Papi consolou. Tesouro!

sexta-feira, julho 16, 2010

ENTRE IDAS E VINDAS

Passei o ano a viajar. Canseiras. Fadigas. Fomes. Sedes. Desconfortos. De comboio. De Expresso. 43 mil quilómetros, entre idas e vindas, para poder ensinar num destino longínquo, cumprir minimamente o meu dever, mas não me privar nunca de estar o mais possível com a minha amada família, a cada fim de semana. Quantas vezes não rezei por que qualquer coisa parecida com isto nunca me sucedesse, pelo que dou graças a Deus!