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quinta-feira, janeiro 17, 2013

EÇA E A CRÍTICA A «O CRIME DO PADRE AMARO»

1884 - Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro
O CRIME DO PADRE AMARO recebeu no Brasil e em Portugal alguma atenção da Crítica, quando foi publicado ulteriormente um romance intitulado O PRIMO BAZILIO. E no Brasil e em Portugal escreveu-se (sem todavia aduzir nenhuma prova efectiva) que O CRIME DO PADRE AMARO era uma imitação do romance de Émile Zola — LA FAUTE DE L'ABBÉ MOURET; ou que este livro do autor do ASSOMOIR e de outros magistrais estudos sociais sugeria a ideia, as personagens, a intenção  de O O CRIME DO PADRE AMARO  Eu tenho algumas razões para crer que isto não é correcto. O CRIME DO PADRE AMARO foi escrito em 1871, lido a alguns amigos em 1872, e publicado em 1874. O livro do sr. Zola,  LA FAUTE DE L'ABBÉ MOURET (que é o quinto volume da série ROUGON MACQUART), foi escrito e publicado em 1875. Mas (ainda que isto pareça sobrenatural) eu considero esta razão apenas como subalterna e insuficiente. Eu podia, enfim, ter penetrado no cérebro, no pensamento do sr. Zola, e ter avistado, entre as formas ainda indecisas das suas criações futuras, a figura do abade Mouret, — exactamente como o venerável Anquises no vale dos Elísios podia ver, entre as sombras das raças vindouras flutuando na névoa luminosa do Letes, aquele que um dia devia ser Marcellus. Tais cousas são possíveis. Nem o homem prudente as deve considerar mais extraordinárias que o carro de fogo que arrebatou Elias aos Céus — e outros prodígios provados. O que, segundo penso, mostra melhor que a acusação carece de exactidão, é a simples comparação dos dous romances. LA FAUTE DE L'ABBÉ MOURET é, no seu episódio central, o quadro alegórico da iniciação do primeiro homem e da primeira mulher no amor. O abade Mouret (Sérgio), tendo sido atacado de uma febre cerebral, trazida principalmente pela sua exaltação mística no culto da Virgem, na solidão de um vale abrasado da Provença (primeira parte do livro), é levado para convalescer no Paradou, antigo parque do século XVII a que o abandono refez uma virgindade selvagem, e que é a representação alegórica do Paraíso. Aí, tendo perdido na febre a consciência de si mesmo a ponto de se esquecer do seu sacerdócio e da existência da aldeia, e a consciência do universo a ponto de ter medo do sol e das árvores do Paradou como de monstros estranhos — erra, durante meses, pelas profundidades do bosque inculto, com Albina que é o génio, a Eva desse lugar de legenda; Albina e Sérgio, seminus como no Paraíso, procuram sem cessar, por um instinto que os impele, uma árvore misteriosa, da rama da qual cai a influência afrodisíaca da matéria procriadora; sob este símbolo da Árvore da Ciência se possuem, depois de dias angustiosos em que tenta descobrir, na sua inocência paradisíaca, o meio físico de realizar o amor; depois, numa mútua vergonha súbita, notando a sua nudez, cobrem-se de folhagens; e aí os expulsa, os arranca o padre Arcangias, que é a personificação teocrática do antigo Arcanjo. Na última parte do livro o abade Mouret recupera a consciência de si mesmo, subtrai-se à influência dissolvente da adoração da Virgem, obtém por um esforço da oração e do privilégio da graça a extinção da sua virilidade, e torna-se um asceta sem nada de humano, uma sombra caída aos pés da cruz; e é sem que se lhe mude a cor ao rosto que asperge e responsa o esquife de Albina, que se asfixiou no Paradou sob um montão de flores de perfumes fortes. Os críticos inteligentes que acusam O CRIME DO PADRE AMARO de ser apenas uma imitação da FAUTE DE L'ABBÉ MOURET não tinham infelizmente lido o romance maravilhoso do sr. Zola, que foi talvez a origem de toda a sua glória. A semelhança casual dos dous títulos induziu-os em erro. Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou uma má fé cínica poderia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama de uma alma mística, ao CRIME DO PADRE AMARO, que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé de província portuguesa. Aproveito este momento para agradecer à Crítica do Brasil e de Portugal a atenção que ela tem dado aos meus trabalhos.

                     Bristol, 1 de Janeiro de 1880
                                                                             EÇA DE QUEIROZ

segunda-feira, setembro 10, 2012

segunda-feira, agosto 27, 2012

O PAI DE CHARLES DESLAURIERS

«O pai de Charles Deslauriers, antigo capitão de linha, demissionário em 1818, tornara a casar em Nogent, e, com o dinheiro do dote, tinha comprado um cargo de meirinho, que mal chegava para viver. Exasperado por longas injustiças, sofrendo dos ferimentos antigos, e continuando a chorar pelo Imperador, desferia sobre quem o rodeava as cóleras que o sufocavam. Poucas crianças levaram mais pancada do que o filho. O gaiato não cedia, apesar das tareias. A mãe, quando tentava interpor-se, era maltratada como ele. Por fim, o capitão meteu-o no seu escritório e, durante todo o dia, mantinha-o curvado sobre a carteira a copiar actas, o que lhe tornou o ombro direito visivelmente mais forte do que o outro.» Gustave FlaubertL'Éducation SentimentaleCírculo de Leitores, p. 15

quarta-feira, agosto 01, 2012

FAÇO MINHA A TUA CRÍTICA LITERÁRIA

Sim, também passei pelo martírio de ler Domingos Freitas do Amaral: «Verão Quente é o último romance de Domingos Amaral. Mas, infelizmente, o último romance de Domingos Amaral nunca é o último.» Manuel Araújo

terça-feira, outubro 25, 2011

CREIO NUM SÓ RODRIGUES

A ficção de Rodrigues dos Santos, com todo o respeito que me merece o jornalista e meu parcialmente conterrâneo, concita-me tanto interesse como a caça aos gambuzinos. Isto porque, para mim, há uma espessa incomparabilidade entre, por exemplo, o meu adorado, fabuloso e intrincado Umberto Eco e o nosso humilde e comercial Dan Brown português como entre Hegel e a revista Caras. O sucesso não é tudo. Rodrigues tem sucesso no planeta? Tem. Mas não tem credibilidade académica reconhecida para refutar ou afirmar seja o que for em matéria de teologia. Não compreendo por isso mesmo que casta de asnos [SNPC] da Igreja-Católica-que-eu-sou-também, se atravessa completamente para cair no ridículo ao relevar nada mais que velhas manobras promocionais assentes em pressupostos de pseudo-credibilidade estudiosa e sob frases sonantes como «fontes religiosas e informações históricas e científicas» a fim de, a esta distância e tanta história transcorrida, ter uma palavra ficcional definitiva sobre «a verdadeira identidade de Jesus Cristo». Recorda-me o conto tradicional português A Gaita Milagrosa. O homem da gaita é JRS. O homem da louça partida é a Igreja, mas também o juiz e a mãe entrevada do juiz.

sábado, junho 11, 2011

UM CÃO PERDIDO UIVAVA

«A tropa de Ligne havia desaparecido e apenas os municipais tinham ficado a defender o posto. Uma vaga de intrépidos lançou-se sobre a escada: foram abatidos; outros surgiram: e a porta, abalada por pancadas de barra de ferro, ressoava; os municipais não cediam. Mas uma caleche carregada de feno, e que ardia como um archote gigante, foi levada para junto das paredes. Depressa trouxeram molhos de lenha, palha, um barril de álcool de vinho. O fogo subiu ao longo das pedras; o edifício pôs-se a fumegar por toda a parte como uma solfatara; e largas chamas, no alto, entre as balaustradas do terraço, escapavam-se com um ruído estridente. O primeiro andar do Palais-Royal estava povoado de guardas nacionais. Disparava-se de todas as janelas da praça; as balas assobiavam; a água da fonte rebentava misturava-se com o sangue, fazia poças no chão; escorregava-se na lama, em vestuários, barretinas e armas; Frédéric sentiu debaixo dos pés uma coisa mole: era a mão de um sargento de capote cinzento, deitado de borco no regueiro. Continuavam a chegar novos bandos de povo, empurrando os combatentes para o posto. A fuzilaria tornava-se mais repetida. Os vendedores de vinhos estavam abertos; ia-se lá de tempos a tempos fumar um cachimbo, beber um copo de cerveja, depois regressava-se ao combate. Um cão perdido uivava. Isto fazia rir.» Gustave FlaubertL'Éducation SentimentaleCírculo de Leitores

domingo, novembro 15, 2009

L'ÉDUCATION SENTIMENTALE — SÉNÉCAL

«As convicções de Sénécal eram mais desinteressadas. Todas as noites, quando acabava o trabalho, voltava para a mansarda, e buscava nos livros com que justificar os seus sonhos. Tinha anotado o Contrato Social. Enchia-se com a Revista Independente. Conhecia Mably, Morelly, Fourier, Saint-Simon, Comte, Cabet, Louis Blanc, apesar da carroça dos escritores socialistas, os que reclamam para a humanidade o nível das casernas, os que gostariam de diverti-la num lupanar ou de vergá-la a um balcão; e, da mistura de tudo isto, criara um ideal de democracia virtuosa, tendo duplo aspecto de uma quinta e de uma fábrica de fiação, uma espécie de Lacedemónia americana onde o indivíduo apenas existiria para servir a sociedade, mais omnipotente, absoluta, infalível, e divina do que os grandes Lamas e os Nabucodonosores. Não tinha uma dúvida sobre a eventualidade próxima desta concepção; e Sénécal encarniçava-se em cima de tudo quanto julgava ser-lhe hostil, com racionínios de geómetra e uma boa fé de inquisidor. Os títulos nobiliárquicos, as cruzes, os penachos, as librés sobretudo, e até as reputações demasiado sonoras escandalizavam-no; tanto os seus estudos como os seus sofrimentos lhe avivavam todos os dias o seu ódio essencial a toda e qualquer distinção ou superioridade.» Gustave Flaubert, L'Éducation Sentimentale, Círculo de Leitores, p. 137