«... a legislação portuguesa tem vindo a consagrar, de há muito, uma panóplia de férreas regras económicas proteccionistas do trabalhador, desde logo o utópico «direito ao trabalho», como se este não fosse gerado no mercado, mas na Assembleia da República ou nas Centrais Sindicais. Os resultados de tais políticas foram, como está hoje bem à vista de todos, precisamente os inversos dos pretendidos.» rui. a
«After he has suffered, he will see the light of life and be satisfied; by his knowledge my righteous servant will justify many, and he will bear their iniquities.Therefore I will give him a portion among the great, and he will divide the spoils with the strong, because he poured out his life unto death, and was numbered with the transgressors. For he bore the sin of many, and made intercession for the transgressors.» Isaiah 53
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sexta-feira, agosto 02, 2013
sábado, junho 16, 2012
TRABALHAR COMO FORMA DE MORRER
Podemos ser amáveis, adoráveis, amigos, comovermo-nos muito com a espécie humana e o milagre de estar vivos, mas o facto de um ano inteiro de trabalho, com os seus gastos inerentes, não servir nem chegar para uma vida digna, há-de distorcer muitos corações e criar muitos revoltados profundos, cujo vulcão ressabiado um dia forçosamente rebentará. António trabalha há sessenta anos na mesma empresa. Toda a vida falou em descarregar uma metralhadora contra os novos patrões ávidos egoístas, aliás filhos dos velhos patrões porventura mais humanos, quando o negócio ainda era familiar. Porquê? Porque se dão a mordomias, mas cortam nos mais vulneráveis. Porque debitam na empresa despesas pessoais [a empresa é deles, mas faz-se do suor de todos], mas pressionam a mulher da limpeza a poupar no detergente e na água. Porque aumentam vencimentos à administração e a alguns gestores, mas despedem [ou cortam-lhes vencimentos] os mais humildes dos seus escravos. Como é que ficamos? Ganham sempre os que roubam e os que exploram? Perdem sempre os que se matam num trabalho mal pago toda a vida? Quem nos fará justiça?
terça-feira, novembro 22, 2011
UMA GIGANTESCA VERDADE
Uma grande verdade aliada ao facto de que apenas para poder trabalhar muitas vezes as despesas inerentes, altas, para não dizer absurdas, poderiam desmobilizar quem o faz, não fossem os filhos e as obrigações fixas, o que dita em imensos casos, caos familiar, depressão e aquele desânimo inviabilizador do que seja ou se chame produtividade, dado o estado laboralmente esclavagista e moralmente escalavrado para que se caminha: «Não vejo como pode este trabalhador médio dar-se aos “luxos” descritos por Fernanda Câncio. Pelo contrário, se olharmos para as remunerações das mulheres-a-dias chegamos a uma conclusão engraçada. Aqui em Braga, o salário de mercado de uma mulher-a-dias é de €5 por hora. Imagino que no Porto e em Lisboa este salário seja mais alto (possivelmente €6). Admitindo um mês médio de trabalho de 20 a 22 dias, tal corresponderá a um salário mensal entre os €800 e os €1050. Ou seja, muitas mulheres-a-dias estarão entre o primeiro terço de trabalhadores mais bem pagos e, definitivamente, a grande maioria ganha mais do que a maioria dos trabalhadores portugueses por conta de outrem. Ou seja, não só a generalidade da classe média portuguesa não pode contratar uma mulher-a-dias como, pelo contrário, gostaria de ser tão bem pago como uma.» Luís Aguiar-Conraria
quinta-feira, outubro 06, 2011
TAIS OS MEUS PÉS, ASSIM MEU CORAÇÃO
Ainda a madrugada respira, estou pronto para ir apanhar o metro a fim de chegar antecipadamente ao trabalho. Uma hora a pé, com o céu e o silêncio por companheiros, algum suor, um ar perfumado tão comovedor como uma carícia. Não posso falhar, a cada dia e não falho. Não sinto preguiça, mesmo se, ao chegar-se o fim da semana, os meus ossos, tendões e músculos me pedem alguma compaixão. Não lha concedo. Acho até delicioso o meu corpo dorido do caminho diário. Se os meus semelhantes soubessem como há Deus e seguissem assim livres pelas ruas e ruelas da cidade e depois regressassem, como eu, ao fim do dia, famintos, exsudantes, sequiosos, repletos de humildade e mortalidade, olhando o rio de automóveis quase parados nos engarrafamentos da auto-estrada! Tal o meu coração, assim os meus pés. Acompanhar-Te-ia, Jesus, de Jerusalém à Galileia e da Galileia a Jerusalém, mil milhões de vezes que fossem. Estou pronto. Tais os meus pés, assim o meu coração.
segunda-feira, outubro 03, 2011
ESSE SURTO DE BOAS PRÁTICAS
Não consigo determinar em que ponto da nossa história colectiva recente, colocamos na cabeça a beleza poética inscrita no falhar do nosso dever, levando a melhor sobre a entidade patronal, graças a atestados manhosos. Agora a Ordem dos Médicos, como quem acorda do pesadelo da nossa improdutividade cara e da sua responsabilidade directa, vai apresentar nos próximos meses uma proposta ao Ministério da Saúde para reduzir o número de situações em que é necessário atestado médico: em casos como gripes, constipações ou enxaquecas, basta que sejam os cidadãos a assinar uma declaração em como estão ou estiveram doentes. Se a entidade patronal tiver dúvidas, deve poder accionar um mecanismo rápido para mandar uma junta médica a casa do trabalhador. Isso do mecanismo rápido para mandar uma junta média a casa do trabalhador não será assim a modos que... muito caro ao erário?
quinta-feira, novembro 11, 2010
OARISTO
Meu amor, ontem chovia e ventava, enquanto, ao fim da tarde, caminhava de regresso a casa, meio febril e combalido. A espaços, desde o âmago do breu envolvente, céu carregado, um filamento de lua luminosa rompia, enorme, rente ao poente de entre farrapos de nuvens que cavalgavam para norte. Mal jantámos, quis embrenhar-me nos nossos cobertores, pois um frio estranho deixava-me estranhamente transido. Bem viste que tiritava de um tiritar anómalo e foi em espasmos, convulso de frio, que pasmaste o deitar-me tão cedo. Cuidaste bem de mim, vigilante, no desvelo de sempre. Hoje amanheci outro. Já passou. Oiço mas não escuto, quando me recomendas, vez após vez, meiga e feminina: «Não exageres na tua entrega. Protege-te do frio e da chuva. Há dias de tempestade tais que obrigam a medidas de excepção.» Respondo-te que não posso. Digo-te que não quero retroceder do meu voto. Obstinações sofridas, causas inglórias, derrotas anunciadas, alguma coisa enrijece e depura esta vontade ávida por sublime.
sábado, outubro 09, 2010
CHEIRA A DEBANDADA
Com a actual crise económico-financeira portuguesa, em grande medida fruto da impreparação e do amadorismo dos políticos, torna-se ainda menos atractivo trabalhar por cá. Muitos médicos espanhóis optam por abandonar o País com as medidas de austeridade que têm vindo a ser implementadas, mas desde sempre que muitos portugueses fazem a mesma coisa. Pense-se nalguns políticos. Entre burla e circo, lá nos trouxeram à iminente bancarrota. Depois, Guterres, Durão e Sampaio deram o salto. Partiram para mais longe a ser no Mundo o que muitos são nas EPs, paga talvez por um zeloso trabalho de desmantelamento industrial e produtivo que nos permeabilizou a Espanha numa preocupante dependência alimentar. Cúmulo do insólito, Blair elogia Sócrates, o que, enquanto internacional cunha que avaliza, não deixa de ter o seu peso, valendo por mil sessões promocionais da banha da cobra. Deve haver emprego para ele.
quinta-feira, agosto 05, 2010
AMAR, AMAR MUITO
Por força de algumas circunstâncias, podemos ser remetidos ao grau zero da sociabilidade. Basta o auto-anulamento proveniente de uma situação prolongada de desemprego com o afundamento pessoal e familiar no nada, na irrelevância. Por causa de esse flagelo, como dizem os pivots dos serviços de informação, um homem pode enfiar-se num buraco. O outro lado completamente oposto é ter trabalho, amá-lo, amar os colegas e companheiros dele. Ser sensível à riqueza interior de cada qual, estabelecer empatias fortíssimas com as pessoas do dia a dia e resistir ao desejo de retaliação quando alvos de gestos persecutórios ou manias comparativas entre perfis e modos de ser e estar na vida absolutamente incomparáveis, mas sempre complementares. Dou graças a Deus por ter sido rigorosamente assim na mais completa alegria lá, onde bem longe me reencontrei.
sexta-feira, julho 16, 2010
ENTRE IDAS E VINDAS
Passei o ano a viajar. Canseiras. Fadigas. Fomes. Sedes. Desconfortos. De comboio. De Expresso. 43 mil quilómetros, entre idas e vindas, para poder ensinar num destino longínquo, cumprir minimamente o meu dever, mas não me privar nunca de estar o mais possível com a minha amada família, a cada fim de semana. Quantas vezes não rezei por que qualquer coisa parecida com isto nunca me sucedesse, pelo que dou graças a Deus!
quarta-feira, dezembro 17, 2008
MALEFÍCIOS DO UNIFOMISMO EUROPEU

[Em vez de estrelas, bandeira de molas]
lkj
A história da Europa é recheada de particularismos infinitos
e de uma essencialidade identitária comum. A UE veio
aprimorar em muitos casos o uniformismo mais obtuso
e o nivelamento mais empobrecedor e nem sempre
relevar a tal essencialidade feita de Razão, Ética, Pluralismo,
Consciência, Democracia, Liberdades e Garantias
e um fundo resíduo espiritual assente nos valores do Decálogo
dentro da explosiva generosidade da abertura cristã.
lkj
Apesar de considerar que a harmonização de horários
e modalidades laborais europeia visa compensar a pressão chinesa
e alguma coisa terá de ser feita para reequilibrar essa correlação desnivelada de forças,
pergunto-me por que não flexibilizar a opção de cada estado membro
entre as 48 horas e o prolongamento até às 65 horas semanais.
Não é agradável de um ponto de vista social nem tampouco pacífica,
mas é sempre uma opção livre de quem emprega e de quem trabalha,
quando na prática muitas vezes já se supera de longe o tempo estipulado.
terça-feira, abril 15, 2008
TODOS SOMOS A CHINA

E só ao fim de três anos lá me soube ou lá me pôde admitir que estava deprimido.
Alguém, como ele, outrora um furacão de trabalho,
uma coragem infinita para o trabalho,
para todas as privações e sacrifícios pela miséria de dez euros, trabalhando,
estava afinal deprimido. Bastou compaginar os seus sintomas e sinais
com o elencado numa reportagem que vira na televisão sobre Depressão.
lkj
Também detestava os outros.
Também recusava qualquer espécie de convívio com eles
e tinha asco de todos aqueles com quem fosse obrigado a conviver.
Também não suportava a vida que levava nem se suportava a si mesmo,
nem aos trabalhos de nojo e de lixo que tivera e talvez tivesse de ter novamente,
na construção civil, que lhe liquidou literalmente a saúde,
nos cafés e confeitarias de Matosinhos e do Porto,
onde se concentravam os piores instintos
de uma clientela invejosa, linguaruda e badalhoca, segundo ele,
e dos patrões maus pagadores, abusadores nos horários extra-impostos e infrapagos;
na assistência avulsa a velhinhas, às quais ia limpar o cu duas vezes por dia
por trezentos euros/mês, acumulando estas fraldas laborais
com o pesado horário de servir ao balcão.
lkj
Agora estava deprimido e queria soluções rápidas para ter dinheiro,
expedientes arriscados, muito bem calculados por ele,
mas certamente erróneos e erráticos, como tantos que tentara no passado,
ainda mais agora que se via dolorosamente endividado.
lkj
E eu disse-lhe que o compreendia.
Que eu mesmo roçava infinitas vezes o que ele sentia,
mas tinha coisas no meu dia-a-dia, em especial este meu blogue,
que me mantinham vivo e motivado,
que mesmo os dez euros semanais na treta megamentirosa, megamanipulada do Euromilhões
eram somente uma janela de esperança tendo em conta um panorama difícil
herdado de uma fugaz ligação a uma mulher-problema-louro,
Aventureira da Loucura e da Ignorância, que tanto e tanto e tanto me lesou
e ainda hoje lesa com as dívidas que contraíu
e depois vêm cair sobre mim como meteoritos de inesperado e de injusto,
venham do Fisco, esse especialista em foder com os mais fodidos e rebentados,
enchendo-os de ressentimento e de desmoralização, como eu,
venham do Condomínio que ela não pagou,
da TVCabo que ela não pagou, dos serviços de Água, Gás e Luz que ela não pagou,
e que me vêm cair no colo inocente para que lhos remeta para que os pague ela.
Disse-lhe que ao menos eu tinha esperança em ser lido e amado um dia,
que lutava por isso todos os dias,
que ele deveria procurar ajuda urgentemente.
Era o que eu faria.
lkj
E, no dia seguinte, quando armou aquela discussão com a mulher,
sempre violentíssimas e unilaterais da parte dele, ela é toda lágrimas silenciosas,
eu estava lá, vi e ouvi, quando disse que mais lhe valia dar um tiro na cabeça
se fosse para continuar a amargar trabalho e humilhações na merda de este país.
lkj
Mal sabe ele a urgência de este país recheado de desempregados,
como ele, como eu,
se assemelhar com a China o mais depressa possível,
para melhor sobreviver aos critérios devastadores do seu crescimento económico,
ou não fosse Portugal, segundo Pinho, o paraíso dos baixos salários
por que qualquer investidor estrangeiro, de preferência o chinês!, deveria salivar.
lkj
Naturalmente, eu disse-lhe que se estiver novamente disponível para limpar cus a velhas,
mesmo que por muito menos de trezentos euros/mês, como no passado,
eu o acompanharia e ajudaria no serviço, com toda a prontidão.
Tal como a ele, também me agonia a falta de dinheiro
e o espectro da miséria sobre mim e a minha família é notório e deprimente.
Não sou nenhum Pina Moura, nada tenho a ver com Armando Vara
e só noutra vida aspirarei ser o foguete natural do sucesso-Jorge Coelho
alcandorado a uma qualquer mega-Mota-Engil
absolutamente isenta e desinteressada.
terça-feira, fevereiro 05, 2008
MANUAL SOBRE GENTE

Ao meu Amigo
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GALINHA LABORAL
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Perante a nova lei laboral e todo edifício do trabalho com o Livro Branco e a Reforma
que se flexiprescreve e se flexiprepara, finco-galinha os pés em estrela na luz-asfalto.
Olho dextrivolúvel o horizonte-minhoca. Ainda tenho penas. Sinto-me quentinha nelas.
Não sei se vá, não sei se fique por vermes e migalhas catáveis do chão reluzente pós-chuva!
No Ovo, fui implume. No Fim, serei degolada, deplumada,
esventrada, cozinhada, comida, descarnada, desossada!
É natural! Sou Galinha Laboral.
lkj
A vida no Pub vai seguindo o seu caminho compensatório
de maiores agruras para mim. É verdade que,
afastado do ensino de uma forma semi-voluntária,
aproveito para lamber as feridas de ser professor
com o desapontamento pelo desassossego oco
que inconstitucionalmente o Ministério vai disfarçando de Reforma, palavra hoje
por muitos esgrimida, mesmo analistas de renome e blogue feito nas TV's
mas que significa basicamente foder com as pessoas, roubar-lhes a dignidade
e, se possível ou de preferência, todas as condições para uma vida familiar.
E tudo à pala do rigor. O único rigor por que suspiram os tecnocratas
do Ministério da Educação é o nosso rigor mortis psicológico e anímico.
lkj
Tornei-me mais decidido e estreito no agarrar-bóia o meu lugar na Noite Portuense.
Comecei há meses, como um estranho, estranhando tudo.
Mordi e engoli o meu orgulho. O trabalho entranhou-se-me
e flui-me agora natural e vital. O que faço é simples e ninguém me pressiona
ou abusa da minha paciência e integridade nos patamares violatórios da Escola.
A minha paciência e integridade passam bem incólumes na exigências da Noite.
Algumas horas gélidas, um final de madrugada com algum esforço físico
e garanto algum sustento em casa. Menos mal.
lkj
As noites sucedem-se, cheias de peripécias que levariam semanas a narrar
e que derramarei por aqui ao sabor do meu pós-sono.
Os clientes tornam-se-me familiares.
Vêm os mesmos pobres.
Vêm os mesmos ricos.
Mulheres solitárias cinquentinas que aportam aqui
saídas de altos carrões a lembrar Ministérios
ou Secretarias de Estado: chegam com os seus casacos de peles infalíveis,
com as suas consabidas jóias e plásticas (mamariamente em rotunda silicone pomo,
silicone em bucal beiçolas a insinuar fellatios infinitas)
e lançam-me um sorriso-chicote tímido que despreza, deseja e enlameia,
trazem a sua solidão tenebrosa e irresolúvel e partem com ela,
com o estrito consumo mínimo, (são rigorosas com o dinheiro e isto é típico de ricos!),
não me deixam uma moeda de cinquenta cêntimos nem de vinte, também nunca peço nada.
Partem, reentrando nos seus carrões à Ministério da Propaganda, infinitos BMW's,
lúbricos Mercedes lambendo a estrada
metálicos cunilinguus TDI de arte e precisão tecnológicas sedentas, rumorejando,
gemendo e chorando pela estrada à imagem das suas tristes condutoras.
Lá fora, ronda-as o moina barbudo que assedia todo o automobilista
que as suas pernas incansáveis alcancem.
Exige moedinhas de cinquenta cêntimos para cima
para a dose e para o fino. Chega a atirar ao chão, ameaçador e violento,
todas as moedas de vinte ou de dez cêntimos que lhe dêem.
Tem um tecto por automobilista.
Detém uma área de exploração e guarda-a como um urso a cria,
dormindo-hibernando sob as arcadas a fim de garantir uma safra
de mais de catorze horas logo ali por moedinhas, mal acorde malcheirento.
lkj
Ao meu Pub chegam também os bêbados do costume, já tocados,
sempre naquele leve cambalear de náufragos mal refeitos do arrastar-se até à praia,
do enclavinhar-se na derradeira rocha esguia. Ei-los que vêm!
O José Maria, tão manso e que chega com os seus bigodes Lech Walesa e a sua bonomia.
Aquele outro Velho hemidesdentado e barbudo, sempre bebido, atrevido e prevarivador
no que ao indevidamente tabagizar diz respeito e que já não fala o que se possa parecer
com um mínimo inteligível, proferindo centenas de milhar de "foda-se's"
por tudo e por nada. Tem ar de insuportável e concomitantemente mal-amado.
Por ter esboçado pifiamente aceder por quatro vezes
o cigarro dentro do Pub, provocatório, está-lhe vedado o acesso.
Ou o matosinhense Zé, que chega já com álcool e desata a falar, a falar
até que toda a gente deserta de o aturar: põe aquela língua oscilante na boca aberta
a perdigotar-me a face... É um desafio à minha paciência.
Tem um rostito de sapo, com os seus olhitos inchados, e anda-me fora e dentro,
por aqui perdido, cravando os ouvidos peregrinos e pacientes seja a quem for.
É vê-lo atrás das mulheres, a insistir por que fiquem, quando já vão saindo,
mortas por se soltarem daquele emplastro autocolante de gente.
lkj
Os bêbados, tal como as putas, marcam sempre.
Não sei se devido ao óbvio que obviam nos seus rostos, se devido ao facto de misteriosamente
se terem despojado de alguma coisa que tolda, tornando-se paradoxalmente transparentes.
Aquela doença de alma com que sucumbem, resgata-lhes algo precioso.
Quando os formosos pés do Filho de Deus pisaram este pó,
eram esses o centro daquele amor incondicional ao qual nada pode interpor-se.
Isso mantém-se válido porque o paradoxo da autenticidade emerge da Margem
e pela humilhação comparece uma verdade que toca:
os extremos tocam-se no plano do pecado e da santidade, sendo num caso
um inferno de ruptura atroz e no outro uma suavidade unificada, gratificante, toda de paz.
lkj
A minha esposa diz-me muitas vezes que eu só me apaixono pelos mais pobres,
que é só com eles que eu todo me empatizo e com os miseráveis que me sinto feliz,
que até me faço de miserável sem grandes razões para isso.
Se sim, é instintivo e intuitivo.
Diz-me também que me afasto dos outros, dos qualificados e cultos,
desprezando-os e sendo indiferente e frio com essas pessoas. Não sei.
Gosto das pessoas, de todas as pessoas e anelo por que não sofram
e os seus corações de dia para dia mais se assemelhem àquela luminosidade-aura
de transGente, que vejo nítida e notória nos bêbados e nas putas.
lkj
Comprazo-me em encontrar gente no descair das máscaras.
Habitado como está, rareia afinal gente no nosso mundo.
«Felizes as pessoas que têm misericórdia dos outros, pois Deus terá misericórdia delas.
Felizes as pessoas que têm o coração puro, pois elas verão a Deus.»
Felizes as pessoas que têm o coração puro, pois elas verão a Deus.»
É esta, afinal, a minha carta de marear!
sexta-feira, novembro 16, 2007
NEGRA CORAGEM

Bêbado de sono e enjoado de cansaço,
Escola, part-time nocturno,
privações de toda a espécie,
sinto-me simplesmente doente.
Sem descanso adequado, sem qualquer compensação,
sem qualquer estabilidade,
sem terra firme,
entre as fomes de horas que me retesam os nervos,
as fraquezas suportadas,
a angústia da falta de dinheiro,
apesar de tudo lanço-me em frente,
mergulho numa dimensão de vida que nunca foi a minha, sempre tão doméstica.
Vou então ser flexível e articulado. Dar o máximo de mim. Sobreviver.
lkj
Escola, part-time nocturno,
privações de toda a espécie,
sinto-me simplesmente doente.
Sem descanso adequado, sem qualquer compensação,
sem qualquer estabilidade,
sem terra firme,
entre as fomes de horas que me retesam os nervos,
as fraquezas suportadas,
a angústia da falta de dinheiro,
apesar de tudo lanço-me em frente,
mergulho numa dimensão de vida que nunca foi a minha, sempre tão doméstica.
Vou então ser flexível e articulado. Dar o máximo de mim. Sobreviver.
lkj
De dia, ensino, dou-me todo em afecto e em quanto eu saiba,
é um Ensino enquanto duram trinta dias, teimo e teimarei em ensinar.
Não posso desistir de esta dimensão de mim.
De noite, recebo, enquadro, controlo,
reponho os stocks de bebida,
perco, no fundo, todas as poses profissionais ou outras que nunca tive
e cumpro o meu dever com o maior dos zelos e concentração.
Ganho aí um dinheiro que logo se esvai todo em combustível e em pão.
Mas vou à luta. Mas não desisto. Mas resisto.
Essas políticas reformadoras ma non tropo e só para quem não tem voz,
cheias de pseudo, cheias de peso e sofrimento para a massa
e levezas e descontos e complementos de vencimento ou de reforma
para um conjunto de caralhos favorecidos
(que podiam estar inteiros no cu do Paulo Cara-de-Bebé Pedroso
que mesmo assim nunca estariam lá
só porque ele negaria que estivessem lá e, plim!, realmente não estavam lá),
essas reformas cospem-me na cara todos os dias.
Estão ali para me fazerem em farelo e em caca de galinha e ao meu suor irrisório.
Sei os desempregados que telefonam todos os dias para anúncios,
para marcar entrevistas, para entrar na grande engrenagem do dinheiro,
sei-os suplicantes e desanimados.
Conheço as suas vozes inseguras e o seu misterioso limiar de tolerância por transcorrer.
É para fora de este país que partem. Arriscam em Espanha. Vão arriscando fora,
lançados fora pelo País de Correia de Campos, o grande abutre e novo Mefistófeles:
«Mas é que preciso mesmo de trabalhar. Moro em Valbom.
Mas acha mesmo que me vão admitir. É que aí é longe.
Para não ir aí para nada. Preciso mesmo, mesmo de trabalhar.»
lkj
O Ensino, na sua vertente sistémica, emagrece.
De noite, recebo, enquadro, controlo,
reponho os stocks de bebida,
perco, no fundo, todas as poses profissionais ou outras que nunca tive
e cumpro o meu dever com o maior dos zelos e concentração.
Ganho aí um dinheiro que logo se esvai todo em combustível e em pão.
Mas vou à luta. Mas não desisto. Mas resisto.
Essas políticas reformadoras ma non tropo e só para quem não tem voz,
cheias de pseudo, cheias de peso e sofrimento para a massa
e levezas e descontos e complementos de vencimento ou de reforma
para um conjunto de caralhos favorecidos
(que podiam estar inteiros no cu do Paulo Cara-de-Bebé Pedroso
que mesmo assim nunca estariam lá
só porque ele negaria que estivessem lá e, plim!, realmente não estavam lá),
essas reformas cospem-me na cara todos os dias.
Estão ali para me fazerem em farelo e em caca de galinha e ao meu suor irrisório.
Sei os desempregados que telefonam todos os dias para anúncios,
para marcar entrevistas, para entrar na grande engrenagem do dinheiro,
sei-os suplicantes e desanimados.
Conheço as suas vozes inseguras e o seu misterioso limiar de tolerância por transcorrer.
É para fora de este país que partem. Arriscam em Espanha. Vão arriscando fora,
lançados fora pelo País de Correia de Campos, o grande abutre e novo Mefistófeles:
«Mas é que preciso mesmo de trabalhar. Moro em Valbom.
Mas acha mesmo que me vão admitir. É que aí é longe.
Para não ir aí para nada. Preciso mesmo, mesmo de trabalhar.»
lkj
O Ensino, na sua vertente sistémica, emagrece.
Essa é a grande sarna com que se coça quem governa.
Tem cada vez mais técnicos e cada vez menos sábios.
Não é uma agência de emprego - diz do ME a própria Ministra,
que é uma forma de dizer que as pessoas passaram a coisas descartáveis
e não há tapete fácil para debaixo do qual se possam varrer.
Este Pub, onde peno e observo a vida e as pessoas,
Tem cada vez mais técnicos e cada vez menos sábios.
Não é uma agência de emprego - diz do ME a própria Ministra,
que é uma forma de dizer que as pessoas passaram a coisas descartáveis
e não há tapete fácil para debaixo do qual se possam varrer.
Este Pub, onde peno e observo a vida e as pessoas,
este Pub, onde viajo para dentro das minhas feridas,
já está a rebentar pelas costuras.
já está a rebentar pelas costuras.
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