terça-feira, maio 20, 2014

REINCIDIR A CAMINHO DO DESASTRE

Não posso subscrever os apelos à passividade, branca ou nula, a propósito da próxima oportunidade eleitoral. Agora que a campanha para as eleições europeias se esgota, sem que a União Europeia estivesse no centro, uma vez que a refrega eleitoral não passa de um ajuste de contas e uma luta de galos entre o PSD e o PS, o debate e o combate é pelo melhor resultado possível como aferição de um ensaio pré-legislativas 2015. Por isso, no próximo Domingo só na aparência se escolhem os representantes de Portugal no Parlamento Europeu: o que se plebiscita é o Governo Condicionado 2011-2014 ou o Partido-Máfia da Bancarrota 2005-2011. 

É, porém, a Abstenção que vai ganhar. Nas europeias, entre 1987 e 2009, passou de 27,8% para 63,2% e vai voltar a crescer desta vez. No entanto, toda a gente deveria recordar que a demissão do exercício mínimo do voto abre a porta aos extremismos de Esquerda e de Direita, tal como abre a porta a possibilidades grotescas, a oportunistas e aos oportunismos que permitiram o trajecto despesista e insano 2005-2011. Votar também é, senão escolher, evitar males maiores, repetição de males maiores, reincidência em males maiores.

O pior desastre de um Povo é dar de novo o benefício da dúvida a daninhos, rapaces e sociopatas, cujas obras más gritam todos os dias e perseguir-nos-ão ainda por algum tempo, enquanto não lograrmos um País superavitário, de contas sólidas, capaz de crescimento e poupança. Temos a obrigação de construir, finalmente, um tal País, aberto ao Ocidente e ao Oriente, no Euro. 

terça-feira, maio 13, 2014

OITO ANOS DEPOIS


Acho que perdi algum do fulgor e da energia motivacional para uma escrita diária, criativa, com o fôlego habitual. Celebrei há dias oito anos de Palavrossavrvs Rex sem sequer os celebrar. Perdi algum fulgor, não. Suspendi o meu fulgor aqui para o verter noutro lado. Fiz escolhas novas enquanto me desintoxicava de escolhas e dedicações zelosas de que saí desapontado e traído. Mas o meu projecto continua a fazer inteiro sentido para mim. Há tanto sobre que tentar reflectir, tanto para exprimir, e porventura muito mais recepção, hoje, um número maior de leitores a quem agrade a minha forma de ser e de dizer. Não é, porém, ainda o tempo de um regresso a uma volumosa produção aqui, conforme foi sendo habitual. 

Há impasses que me retraem: tenho uma profunda sensação de desadequação ao meu País, àquilo que me oferece e eu deixei de lhe oferecer, tendo eu investido tanto no Saber, na Cultura e na Língua a fim de ensinar outro tanto, quando enchia a sala de aula da paixão portuguesa que me transpassa. O amor e a alegria não se me eclipsaram. Nem a esperança. Dir-se-ia que perante o absurdo que se abateu sobre o meu País [as escolhas dos políticos, muitas delas malignas: foram capazes de sacrificar a esmagadora maioria antes e durante o Ajustamento em vez de sacrificar os interesses incrustados no Estado e sanar milhentas injustiças e parasitismos], pude encontrar uma réstia de fé numa saída pessoal à medida dos meus sonhos, fé nalguma coisa de bom no sentido da minha sobrevivência e da rentabilização dos talentos que possuo. 

Acredito que algo de bom me sucederá. Talvez mais rápido que o movimento da corda sobre o ramo d'árvore com que Papageno quis terminar consigo mesmo, antes de compreender que tinha uma vida feliz e fecunda à sua frente, não só, mas com a companheira perfeita para si. 

sexta-feira, maio 02, 2014

O DEFUNTO





No ano de 1474, que foi por toda a cristandade tão abundante em mercês divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas. Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao lado e na sombra silenciosa da Igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, para além do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da sua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos cor de sol-claro, e colo de garça real. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem se conservou devoto e fiel servidor; ainda que sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e pichéis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara ele o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as manhãs, à hora de prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três ave-marias, a benção e a graça. Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de vésperas, murmurar docemente uma salve-rainha. E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e cuidado galante, em frente do altar da Senhora.

segunda-feira, abril 28, 2014

ESPETO DA SITUAÇÃO

Não trabalho oficial e normalmente desde Outubro de 2012. Sempre cumpri escrupulosamente todos os meus deveres fiscais. Os meus rendimentos globais são abaixo do zero da dignidade, como acontece com milhares de pais de família em Portugal, nos últimos três ou mais anos. Não me mexo, não dou um pio, não clandestinizo laboralmente a minha vida. Nunca o fiz. No entanto, pelo menos desde 2005-2006, o Fisco descobriu e inventou para mim os mais estapafúrdios incumprimentos, as dívidas fiscais mais manhosas, e os juros de mora da praxe, incidentes fiscais que fui pagando conforme pude. E não posso. E continuam. Sou até um sincero entusiasta do trabalho global do competentíssimo Paulo Núncio. Pessoalmente, não sei como apode a minha situação pessoal senão de um espiral depressiva. Depois de esbulhado pelas consequências da Bancarrota, macerado pelo desemprego no Ensino, perseguido pelo opressor BES e pelo persecutório Fisco, resta-me o quê?! Há alturas em que se me evapora toda a esperança.

sexta-feira, abril 11, 2014

SOTURNO BAIXO COTURNO

Um discurso deselegante, simplista, repleto de petulância e preconceito e poeticamente oportunista. Politizar a cerimónia de entrega de um prémio não é coragem, é reduzi-la e degradá-la à baixa mercearia de um passe meramente mediático e autopromocional. Este País não é dos que reclamam recursos esgotados a um Estado Falido com um Governo de Emergência cerceado por um Resgate Externo. Este País não é dos que se penduram em Governos Mãos-Largas, mas só para amigos, até que as bancarrotas eclodem. Este País é dos que assumem as suas responsabilidades e triunfam com mérito sem assacar a um Estado Pré-Falido e seus Governos o milagre subsidionista perpétuo, o maná dos dinheiros públicos correndo como leite e mel. É triste que uma desfocada Esquerdite Aguda suba à cabeça da soturna Alexandra Lucas Coelho, retirando-lhe a grandeza de que deveria ser capaz ao receber um prémio.

quinta-feira, abril 10, 2014

NÃO DEMOS OUVIDOS AOS CORVOS

Não é chocante que o Governo entre em campanha eleitoral com resultados robustos para apresentar, o maior dos quais a evacuação formal da Troyka, uma campanha eleitoral sem manipulação dos números, com mais euforia a partir dos nossos parceiros europeus que propriamente do próprio Governo, Primeiro-Ministro e Vice-Primeiro-Ministro. Gravíssimo foi o que aconteceu em 2009: um Governo em Campanha Eleitoral com aumento demagógico dos salários na Função Pública, com baixa demagógica do IVA, com ajustes directos demagógicos à solta e quase toda a opinião publicada, radializada e televisionada posta a ludibriar a Opinião Pública, lobotomizada pelo spin maléfico que Só-Crash montara. Há uma enorme diferença. Depois, quando os Governos deixam de fazer a diferença, fingindo a diferença com dívida e demagogia, incumbe à Sociedade fazê-la, à diferença. Fazer de Portugal um País mais próspero, mais organizado e mais rico não é uma tarefa dos Governos, mas nossa. Completamente nossa. Será assim e será muito bom para todos. Não vale a pena dar ouvidos a corvos.

terça-feira, abril 08, 2014

SOVAS NA TV

Só-Crash, quando liga o turbo, vai tudo de rojo. O próprio Deus perderia um debate com Só-Crash; Cícero, o famoso tribuno, perderia os debates com Só-Crash; o próprio debate, se fosse gente, perder-se-ia a si mesmo perante Só-Crash. A torção da verdade nas mãos de Só-Crash é um convite a que fique sozinho a macerar, moer, matar, a verdade e os factos porque Só-Crash trata os factos e a verdade como a lavadeira pública trata a roupa: enquanto canta, soca, esmurra e pontapeia a roupa suja. Depois, há uma horda de fãs, cuja consciência foi deliberadamente obscurecida pela fome e sede de facção, que vem aplaudir o processo agressivo e insultuoso de distorcer a verdade e os factos. Só-Crash, se debatesse consigo mesmo, derrotar-se-ia e sovar-se-ia argumentativamente. O homem é um fenómeno para-anormal.

sexta-feira, abril 04, 2014

AGOSTINHO DA SILVA

Agostinho da Silva (1906-1994), filósofo, poeta e ensaísta português

TRESLEITURAS

Não foi uma participação, dr. Soares. Foi a promoção de uma tragédia, foi a abertura da Caixa de Pandora do sangue e da crueldade, da guerra civil e da malícia nos territórios do Portugal Ultramarino, foi uma debandada irresponsável; foi o primeiro de muitos outros actos de puro amadorismo político, leviandade ideológica e imbecilidade anti-patriótica. O fardo que o Dr. Soares carrega é muito pesado: uma descolonização parola, uma ou duas bancarrotas corruptas com austeridade a doer; a evidência do enriquecimento pessoal à conta e nas costas do Regime; o exercício de décadas de uma nefasta e nociva influência velada no Regime; e agora recentemente os pronunciamentos descabidos, a sandice terminal, o facciosimo primário, a falta de senso escabrosa, a egolatria desonesta, o vício da politiquice. Sem um coração aberto e generoso, sem um ego esvaziado de si mesmo, sem um olhar puro e justo, sem um amor incapaz de trincheira, com que lastro, com que cara, com que mãos ávidas e coração pesado vai este cidadão apresentar-se a Tribunal perante o Incomensurável Amor Divino?! «Tive fome e falaste de política»; «Tive sede e falaste de política.» ; «Estava doente e falaste de política.»

quinta-feira, abril 03, 2014

JONET

O pior inimigo dos desempregados são as Redes Sociais? O pior inimigo da produtividade são as Redes Sociais. O pior inimigo dos casamentos e dos relacionamentos são as Redes Sociais. As Redes Sociais podem ser o pior inimigo de muitas coisas, o pior inimigo de muitos e muitas. Mas hoje, ano e meio depois de o desemprego ter regressado à minha vida e com cara de querer ficar, descobri, e descobri algo tardiamente, que as Redes Sociais são-me afinal um oásis de socialização, uma plataforma gratificante para novas formas de amizade manifestada, um espaço transformador para a comunhão de causas e para a mais esplendorosa criatividade. Quando não há emprego, quando o emprego e a procura de emprego redundam numa enxurrada de derrotas sucessivas, de muros altos e barreiras impossíveis de transpor, ainda bem que temos nas Redes Sociais o escape perfeito, a válvula animicamente remediadora. Em face do labirinto inextricável do desemprego, da destruição gradual da auto-estima pela situação de desempreto, há um porto de abrigo. Por outras palavras, obrigado, Linkedin. Obrigado, Facebook. Obrigado, Twitter. Obrigado, Google+. Obrigado, Blogger. Quanto a Isabel Jonet, compreendo perfeitamente o que quer dizer, mas parece-me simplista de mais e, nesse ponto, pouco fiel à realidade íntima dos desempregados e algo falho em matéria de capacidade para a compaixão.E a compaixão é, ou deveria ser, o departamento prático de que a Isabel Jonet se ocupa como ninguém. Estou aqui a pensar e nunca compreenderei por que motivo ninguém me contacta nem contrata para nada, uma ideia, um projecto criativo. Não é certamente por viver num País de Mierda, como dizem os espanhóis, nem por causa da minha excessiva entrega às Redes Sociais, com exposição de pontos de vista políticos quotidianos a beliscar sobretudo a fantástica agremiação política que é o Partido Socialista e o seu legado. Não. É um mystério para mim, José Manuel Fernandes. Um Mystério.

quarta-feira, abril 02, 2014

GETSEMANI

Da obra de José Manuel dos Santos Ferreira, Jesus Cristo Luz e Sentido da Solidão do Homem
Toda esta tese do José Manuel dos Santos,
e em particular este capítulo,
tem um significado absolutamente vital
e luminoso para mim,
para o sentido da minha vida
e da minha história pessoais.

Viver unido a Cristo e assim morrer
é todo o programa de Vida Feliz
a que posso aspirar
e bem eu sei de que Plenitude pode ela ser feita.
Nasci e cresci nesse halo de Amor Reverencial
e de Adoração ao Senhor Jesus,
numa espera activa e lúcida de Ele, 
Parusia dentro de mim,
Parusia na Plenitude, Loura Seara, para todos,
bebendo da Água Viva da Sua Palavra,
comendo a Sua Humaníssima Carne
e bebendo o Seu Sacratíssimo Sangue,
vivificado desde o meu cerne por Ele todos os dias.

Não tenho eu, Joaquim Carlos da Rocha Santos,
testemunho e testamento maior
a dar da minha passagem pelo mundo
que o meu Encontro Pessoal, olhos nos olhos,
com o Rei e Senhor do Universo,
Deus Filho, Messias, meu Redentor, Yeshua.

CAPÍTULO SEGUNDO

1. O PARADOXO E A HISTÓRIA


Entremos, pois, com Jesus, na sua Hora, que se cumprirá plenamente, quando o Filho do homem for «entregue às mãos dos pecadores» (Mt 26, 45; Mc 14, 41), pelo que a seu respeito se poderá também dizer: «Esta é a vossa hora e o poder das trevas» (Lc 22, 53). Não obstante, e como o IV Evangelho nos permite entender, será a hora em que Jesus realizará integralmente a missão que o Pai lhe confiou ― «foi precisamente para esta hora que Eu vim» (Jo 12, 27) ― e assim, glorificando o Pai (12, 28), virá a ser Ele mesmo glorificado (12, 23).

Antes, porém, da sua integral consumação no alto da Cruz, esta hora tem já de algum modo o seu início na oração de Jesus no Jardim das Oliveiras ou, mais exactamente, é aí que o seu sentido se manifesta de maneira irrevogável e definitiva por parte do próprio Jesus, como veremos.
Com a consideração da agonia do Getsemani, o nosso itinerário atinge um momento de particular densidade, aquele em que ― deixando de lado por agora a mesma morte ― a solidão de Jesus se nos apresenta mais intensa, mais dramática, quase palpável, pese embora tudo o que há nela de impenetrável e inexprimível.

É aqui que o paradoxo que já anteriormente considerámos, tendo acompanhado toda a vida de Jesus, se revela mais agudo, atingindo de certa forma o seu ponto culminante: na hora derradeira, e apesar de ter expressamente desejado a presença dos seus, Jesus será por eles abandonado, e desde logo a partir do Jardim das Oliveiras. Mas, por outra parte, que poderiam eles fazer, nesse momento em que o Unigénito de Deus iria ser entregue à morte por todos os homens?

As narrativas da oração de Jesus no Getsemani (Mt 26, 36-46; Mc 14, 32-42; Lc 22, 40-46), não obstante a orientação própria de cada evangelista, são todas ela percorridas por esta dialéctica de presença e ausência que tem os apóstolos como protagonistas, e que não pode ser considerada como um mero artifício literário ou apenas como uma composição da comunidade primitiva, mas exige um preciso fundamento histórico.

Em sentido contrário, poderia alguém observar que o núcleo essencial de tudo o que sucedeu no Getsemani consiste na relação de Jesus com o Pai, que os três relatos nos apresentam sob a forma de uma dramática oração. Sendo assim, admitir-se-ia a hipótese de que os primeiros cristãos, conhecendo a íntima relação entre Jesus e o Pai, e sabendo também que Jesus experimentara realmente a agonia na véspera da sua Paixão, sem contudo quebrar os laços que O uniam ao Pai, tenham simplesmente procurado formular os diversos elementos em presença, o que viria a constituir, segundo as diversas tradições, os actuais relatos da agonia (1). Em consequência, seria fácil prescindir da existência de testemunhas directamente envolvidas no acontecimento da agonia, superando deste modo delicados problemas que se lhes encontram conexos e que adiante serão recordados.

Pensamos, porém, que a existência de testemunhas que acompanharam de perto, ainda que de modo francamente imperfeito, a agonia de Jesus, e que é atestada pelos três relatos evangélicos, não pode ser eliminada, e não tanto por se tratar de testemunhas que viriam depois a comunicar o que viram e ouviram, quanto porque, sem elas, a agonia de Jesus ficaria privada de uma dimensão «horizontal» que desempenha, no entanto, uma função insubstituível.

Julgamos que o seu papel de testemunhas, no sentido próprio do termo, não pode ser também menosprezado, porque o carácter único da agonia de Jesus, com tudo o que esta tem de insólito e portanto de verdadeiramente imprevisível, não seria passível de invenção nem sequer de simples «composição» ou projecção do anteriormente sabido; não poderia ser algum modo conhecido o relatado, se não tivesse, de facto, acontecido, e se não tivesse, de facto, sido testemunhado.

Não obstante, mais importante do que tudo isto nos parece ainda o facto de que é a presença desses homens que faz da solidão de Jesus uma solidão total, diversa da solidão que Ele mesmo tantas vezes procurou, nomeadamente para se isolar das multidões ou para se dedicar à oração. Aqui, como veremos adiante mais de perto, Jesus procura a solidão, porque tudo se decide exclusivamente na sua relação com o Pai. Mas procura também a companhia de alguns dos seus discípulos, segundo o dinamismo da partilha que com eles instituíra, e acabara de se consumar na Eucaristia, a qual, porém, ficará agora inteiramente por realizar. Vai para o Jardim das Oliveiras para estar a sós com o Pai, mas experimentará também a solidão do abandono por parte daqueles mesmos que quis levar consigo. Tudo se define no seu diálogo com o Pai, mas os discípulos recusarão participar nessa hora crucial, ainda que, de facto, só «à distância» o pudessem vir a ter feito.

É esta presença dos discípulos na agonia do Jardim das Oliveiras que, por contraste, nos faz ver até ao fundo a inconcebível extensão dessa agonia, a sua abissal profundidade. Por outro lado, porém, se a própria dinâmica interna da solidão assumida por Jesus reclama a presença dos discípulos, é também esta que nos permite o conhecimento da sua efectiva historicidade e do seu conteúdo essencial. Como acima afirmámos, não é primordialmente como testemunhas que os discípulos presentes no Getsemani nos interessam, mas essa sua qualidade é também muito relevante, e merece por isso ser adequadamente valorizada (2).

No entanto, este dado poderia ser posto em dúvida, como frequentemente tem acontecido, em razão, sobretudo, da referência ao sono dos discípulos, mencionado por qualquer dos três relatos evangélicos. Julgamos, porém, que não se justifica uma atitude de cepticismo radical, pois, como observa W. Marchel, «é impossível que todos os discípulos tenham adormecido instantaneamente, automaticamente, ao mesmo tempo e pelas três vezes (cf. Mc; Mt), desde que Jesus se afastou deles para rezar. Aliás, nessa noite, após os grandes acontecimentos das últimas horas, não menos impressionantes que solenes ― a Ceia, a traição de Judas, os discursos de Jesus ― os discípulos estavam todos muito perturbados.

Captando ao menos em parte a gravidade da situação, é de admitir que não tenham sido imediatamente tomados pelo sono, e que tenham permanecido despertos ainda por algum tempo. Eis porque não podem ter deixado de ouvir Jesus, antes de se abandonarem a um semi-sono cheio de inquietação» (3).

Outra objecção muito comum observa que, segundo Lc 22, 41, Jesus se afastou dos discípulos «à distância de cerca de uma pedrada», coisa que parece privá-los de toda a possibilidade de acompanhar o que se tenha passado. Mas também esta dificuldade não se afigura decisiva, porque essa distância é a que separava Jesus do grupo maior dos discípulos (Lc 22, 40), não a que O separava de Pedro, Tiago e João, a quem S. Lucas não se refere, e que (segundo Mt 26, 37; Mc 14, 33) acompanharam mais de perto Jesus, que deles se separou apenas «um pouco» (Mc 14, 15) (4).

Por outra parte, o uso feito por diversos autores desta mesma expressão: «à distância de cerca de uma pedrada» ou de outras semelhantes, parece referir um limite dentro do qual seria ainda possível ver e ouvir (5), coisa que S. Lucas pretenderia também indicar, sugerindo, em consequência, que o acontecimento por ele relatado «teve testemunhas, e foi delas que, directa ou indirectamente, receberia o essencial dos pormenores que nos transmite» (6).

A angustiosa luta de Jesus esteve, pois, de algum modo e por pouco tempo que fosse, ao seu alcance, e apesar disso não puderam ou quiseram vigiar com Jesus. Mais tarde, um ou outro daqueles que Jesus tomou consigo transmitiria à comunidade cristã o testemunho desse episódio singular em que o seu Senhor abraçou humanamente de modo tão dramático, mas ao mesmo tempo com completo assentimento, a vontade do Pai, sem que, porém, da parte dos seus, tivesse podido contar com a mais remota solidariedade.

E não é de excluir que o facto mesmo do sono dos apóstolos possa ter sido literalmente sublinhado nos relatos da cena da Agonia, para pôr ainda mais de manifesto a sua radical incapacidade de estar e lutar com Jesus nesse momento decisivo. Será assim como que um símbolo da desunião que se instaurou entre os discípulos e Jesus (7). O paradoxo é deste modo acentuado até ao extremo, o que mais fortemente destaca, a nosso ver, a sua plena autenticidade histórica, em que cada um dos evangelistas nos introduz segundo a sua acentuação peculiar.

2. «PERMANECEI AQUI E VIGIAI COMIGO»

O episódio do Jardim das Oliveiras pode ser considerado de dois pontos de vista diversos, de importância desigual, mas ambos merecedores de atenta análise: a relação de Jesus com o Pai e a sua relação com os discípulos. Aquela é, evidentemente, a mais importante, mas também esta contém um profundo significado. Analisá-la-emos em primeiro lugar. 

EM CASA DO NEGOCIANTE ARNOUX



Tu detiveste-te várias vezes na escada, tão forte o coração te batia.
Uma das tuas luvas, demasiado justa, rebentou;
e, na altura em que enfiavas o rasgão pode debaixo do punho da camisa,
Arnoux, que subia atrás de ti, agarrou-te pelo braço e fez-te entrar.

A antecâmara, decorada à chinesa,
tinha uma lanterna pintada no tecto,
e bambus nos cantos.
Quando atravessavas o salão, tropeçaste numa pele de tigre.
Não tinham acendido os brandões,
mas dois candeeiros ardiam no toucador ao fundo.
A Menina Marthe veio dizer que a mamã estava a vestir-se.
Arnoux levantou-a até à altura da boca para beijá-la;
depois, querendo ser ele próprio a escolher na cave certas garrafas de vinho,
deixou-te com a criança.

Tinha crescido muito desde a viagem de Montereau.
Os cabelos castanhos caíam-lhe em compridos canudos ondulados
sobre os braços nus. O vestido, mais tufado do que a saia de uma bailarina,
permitia ver as barrigas das pernas rosadas,
e toda a sua gentil pessoa cheirava a frescura
como um ramalhete.
Recebeu os comprimentos do cavalheiro com ares sedutores,
fixou neles os olhos profundos,
depois, esgueirando-se por entre os móveis,
desapareceu como um gato.

EBEN NO WESTMINSTER TOWN HALL

UM BELÍSSIMO LIVRO

Não posso deixar de o recomendar vivamente.
Disponível em qualquer Hypermercado junto de si.

segunda-feira, março 24, 2014

CIRCENSE MÁXIMO

O Show...
Só-Crash voltou a emocionar a Nação. Não temos gladiadores. Nem sempre o futebol excita. Há, por isso mesmo, ainda uma enorme expectativa de que um dia Só-Crash habite uma cela ou tropece nas próprias palavras trapaceiras, no tronco caído na estrada da própria antítese em movimento. Enquanto isso não é possível, enquanto o tempo da cela não chega, o desporto disponível é vê-lo no grande Circo que montou para si: ou a cavalgar póneis, ou a fazer de bailarina no dorso do puro-sangue, ou no trapézio, moça que voa de trapezista em trapezista, ou na figura de palhaço rico ou na figura do palhaço pobre, ou a apresentar a entrada dos leões, ou a fazer de domador de tigres, ou a conduzir uma manada de elefantes ou a ser um desses elefantes. Só-Crash é o espectáculo e pelo espectáculo. Não lhe interessa nada a montanha de famílias que a sua pré-bancarrota arrojou para o vazio e a morte social. Importa somente que o Show tem de continuar, como aliás o Regime que o pariu.

sexta-feira, março 14, 2014

O CALÇADO DO PROVINCIANO



 «Quando ando pelas ruas, as pessoas se parecem com as de Berlim, todas vestidas igual, os rostos mais ou menos os mesmos, a mesma cena, porém numa massa populosa».

Hegel, pela primeira vez em Paris, pouco antes da sua morte, em carta à sua mulher:
Recebeste, na mesma semana,
uma carta em que Deslauriers anunciava que chegaria a Paris,
na quinta-feira seguinte.
Então, atiraste-te violentamente a esta afeição
mais sólida e mais elevada.
Um tal homem valia todas as mulheres.
Já não precisarias de Regimbart, de Pellerin, de Hussonnet, de ninguém!

A fim de melhor alojares o amigo,
compraste uma cama de ferro,
uma outra poltrona,
desdobraste as suas roupas de cama;
e, na quinta-feira de manhã,
vestias-te para ires ao encontro de Deslauriers
quando retiniu a campainha da porta. Arnoux entrou.
— Apenas uma palavra! Ontem, mandaram-me de Genebra uma bela truta;
contamos consigo, logo, às sete em ponto… É na rua de Choiseul, 24 bis. Não se esqueça!

Foste obrigado a sentar-te.
Os joelhos fraquejavam-te.
Repetias para contigo: «Enfim! Enfim!».
Depois escreveste ao alfaiate, ao chapeleiro, ao sapateiro;
e mandaste entregar estes três bilhetes por três moços de recados diferentes.

A chave girou na fechadura
e o porteiro apareceu, com uma mala às costas.
Tu, ao veres Deslauriers, puseste-te a tremer
como uma mulher adúltera sob o olhar do esposo.
— Que é que tens tu, afinal? — disse Deslauriers. — Com certeza recebeste uma carta minha?
Não tiveste forças para mentir.
Abriste os braços e lançaste-te-lhe ao peito.
Em seguida, o praticante narrou a sua história.
O pai quisera prestar contas da tutela,
supondo que essas contas prescreviam em dez anos.
Mas, sabido em processo, Deslauriers havia, por fim,
arrancado toda a herança da mãe,
sete mil francos certos, que tinha ali,
consigo, numa carteira velha.
— É uma reserva, em caso de azar.
Tenho de tratar de coloca-los e de me arrumar, já amanhã de manhã.
Por hoje, férias completas, e todo teu, meu velho!
— Oh!, não te prendas — disseste. — Se tinhas para esta noite
alguma coisa importante…
— Essa agora! Seria um orgulhoso miserável…
Este epíteto, lançado ao acaso, tocou-te em pleno coração,
como uma alusão ultrajante.

O porteiro tinha posto em cima da mesa,
perto da lareira, costeletas, gelatina, uma lagosta,
uma sobremesa, e duas garrafas de vinho de Bordéus.
Uma tão boa recepção comoveu Deslauriers.
— Tratas-me como um rei, palavra de honra!
Falaram do passado, do futuro;
e, de vez em quando, davam-se as mãos por cima da mesa,
encarando-se um minuto com ternura.

Mas um moço de recados trouxe um chapéu novo.
Deslauriers assinalou, em voz alta,
o quanto o forro era brilhante.
Depois, o próprio alfaiate veio entregar a casaca,
passada a ferro.
— Dir-se-ia que te vais casar — disse Deslauriers.
Uma hora mais tarde, apareceu um terceiro indivíduo
e retirou de um enorme saco negro um par de botas de verniz,
esplêndidas. Enquanto as experimentavas,
o sapateiro observava sorrateiramente o calçado do provinciano.
— O senhor não precisa de nada?
— Obrigado — replicou o praticante,
metendo debaixo da cadeira os seus velhos sapatos de cordões.
Esta humilhação incomodou-te.
Hesitavas em fazer a tua confidência.
Por fim, exclamaste, como que tomado por uma ideia:
— Ah!, com mil diabos, já me esquecia!
— Mas que se passa?
— Esta noite, janto na cidade!
— Em casa dos Dambreuse? Por que é que nunca me falas deles nas tuas cartas?

Não era em casa dos Dambreuse, mas em casa dos Arnoux.
— Devias ter-me avisado! — disse Deslauriers. — Teria vindo um dia mais tarde.
— Impossível! — replicaste bruscamente. — Só me convidaram esta manhã,
há bocadinho.

E, para resgatar a tua falta e distraíres o amigo,
desataste as cordas entrelaçadas da mala,
arrumaste na cómoda todas as tuas coisas,
querias dar-lhe a tua própria cama,
dormir no gabinete da lenha.
Depois, a partir das quatro horas,
começaste a fazer os preparativos da sua toilette.
— Tens tempo de sobra! — disse o outro.
Enfim, vestiu-se, partiu.
«Cá estão os ricos!», pensou Deslauriers.
E foi jantar à rua Saint-Jacques, a um pequeno restaurante seu conhecido.
«Walter Benjamin é fascinado pela multidão, pela massa que circula pela Paris do século XIX. Ele encontra, nesse acúmulo de indivíduos, o assassino e o detective, o comerciante esperto que fica aberto até mais tarde e, é claro, encontra também o poeta, que flana pelas ruas de olhos e ouvidos bem abertos, captando a pulsação do anonimato. Benjamin defende a ideia de que não havia nada como Paris.» KFK