segunda-feira, outubro 29, 2012

O QUE EU FAÇO PARA LIDAR COM ESTA MERDA

Já me deprimi. Já me envenenei de ressentimento. Pelas desventuras nacionais e minhas, já culpei Sócrates, Cavaco, a mim mesmo, o Diabo a Quatro, mas há actores e responsáveis de quem não gosto, os quais, pelo seu egoísmo, hipocrisia e dormência, tenho de verberar e verbero mesmo. Hoje, entendo a escrita quotidiana no PALAVROSSAVRVS REX e no Aventar como a minha luta por um novo Portugal. Progrido por tentativa e erro. Erro muito, mas não é possível que erre sempre. Tenho 42 anos. Laboralmente, desde 1996, nunca tive paz. Nunca tive certezas. Nunca fui sendo senão precário e pontualmente desempregado. Correr todos os dias os meus dez quilómetros bordejando a minha praia, ajuda. Ler ajuda. Viver da família, para a família, ajuda. Estar de alma e coração com a Mulher e as Filhas, Irmãs, Cunhados, Sobrinhos, e os Pais Amados, ajuda, todos, aliás, cada vez mais amados, cada vez mais solidários e, se isso é possível, mais próximos. Estar em casa pressupõe não gastar dinheiro. Nada. Pressupõe privilegiar muitas vezes uma ou duas boas sopas e nada mais. Acho que correr como um cavalo ou um galgo ou uma avestruz a qualquer hora do dia ou da noite os meus cinco mais cinco quilómetros, decisão tomada há três meses e fielmente mantida, devolveu-me um vírus que inconscientemente havia recalcado desde os meus catorze anos, como se camadas e crostas de rotina e habitualidade se soltassem do meu couro: o vírus de um certo messianismo relacional, coisa benigna, fonte inesgotável de comunhão com a Humanidade e concretizada coração a coração. O que é esse meu messianismo relacional? Uma inclinação fortíssima para o outro, seja ele um velho conhecido, um vizinho, seja alguém acabado de conhecer: estabeleço empatias imediatas e fortíssimas com as pessoas de sempre e com as que vou conhecendo, embora nem todas tenham os olhos abertos e o coração pronto para compreender o que é este sorriso que ostento e quanto menos razões para sorrir, mais sorrio e mais acolho venha quem vier autêntico, fraterno, humilde. O meu olhar fixa-se neles. Os meus ouvidos bebem as suas palavras e partilhas de vida. Eventualmente, a cumplicidade firma-se e transforma-se num abraço fraterno, sincero, forte, quotidiano, euforia do encontro com o outro por ser plenitude, por ser a verdade, por ser o centro realizador de se ser humano. Corro a abraçar o ceguinho aqui da freguesia e a trocar umas palavras de bênção e bem-querer com ele. Estou assim. Lembro-me que, com catorze anos, qualquer coisa como isto irrompeu em mim de um modo absolutamente transformador e irreprimível. Simples e humilde, este messianismo nada tem de narcísico. O meu olhar repousa efectivamente no outro por ele mesmo, ele-mistério, ele casa-tenda onde Deus também é centelha e cintila. O olhar é quase tudo, revela tudo, neste meu vírus messianismo relacional. Olhos nos olhos, explicar-te-ia isto de um modo perfeito, leitor, ao apertar-te a mão. Ao abraçar-te. Ao varar-te num relance coruscante. Se isto é doença, faz-me feliz. Se isto é doença, não quero ser curado.

7 comentários:

Grego disse...

Meu caro Joaquim, só lamento não poder ser mais um desses transeuntes, para poder trocar contigo esse abraço fraterno que aconchega a alma, mais do que qualquer futilidade que, por falta de visão, nos torna mais cegos aos reais valores da vida, do aquele que cumprimentas com cumplicidade enternecedora. Saudades!
Grande abraço.

Isabel Gonçalves disse...

Ó meu caro Palavrossaurus,eu sempre simpatizei consigo (sim, sim, apesar de... :) )! Ora, depois deste post, que li hoje no Aventar (já não comento lá porque me fartei dos imbecis, dos estúpidos e dos ignorantes!) fiquei a gostar de si muito, mas muito, muito mais!

Quando consideramos os nossos semelhantes como sendo exactamente da mesma massa de que somos feitos, atingimos o grau de humanidade desejável para tornar este Mundo bem melhor! A mudança, como sempre digo, começa no indivíduo. E são atitudes como as suas que começam a pôr em funcionamento a mudança colectiva!

Bem haja!

Beijinho grande!

bibónorte disse...

Caro Joaquim
Gostei muito de conhecer esta faceta da sua pessoa.Cheio de ternura para com o outro, principalmente com a família que revela amar incondicionalmente.
Abraço

joshua disse...

Meus caríssimos Pedro, Isabel, Bibónorte, as vossas palavras são-me bálsamo e uma fonte de alegria.

Pedro, foi e será sempre delicioso partilhar tudo na fraternidade de uma Tasca, a vida, os sonhos, as memórias, as paixões e causas da vida, horas e horas de conversação repleta, um entendimento de amigos para além do Céu e para além da Terra. Abraço Forte, meu Amigo.

Isabel, bem humana e bem sensível, equilibrada na palavra e na adesão ao essencial nesta vida. Um beijinho e bem-hajas.

Bibónorte, és um amigo. Ponto. Muito para lá do acordo e do desacordo que não resumem tudo nem nos resumem. Um grande abraço.

bibónorte disse...

Caro Joaquim
Só um reparo:amiga em vez de amigo:)
Venho aqui diariamente.
Abraço

joshua disse...

Corrigido. As minhas desculpas, caríssima bibónorte!

Joana disse...

Caramba! Não o conheço de lado nenhum... mas neste momento daria tudo para me cruzar consigo na rua para poder abraçá-lo.
Se for doença... só espero que contagie todos aqueles que por si passarem.

Abraço. Apertado.
Joana