segunda-feira, agosto 14, 2006

Vala Incomum










De pá na mão,
obliquando para cima as pupilas
desta cova mandibular,
abre-se ainda, rectangular,
um Céu para onde eu olhe, por um pouco.

Branco, fechado.

O tempo é breve, multicolor, alado em alas anjo.
Mas por que se me faz tanta paz agora
e nenhum frio e nem ranger os dentes ranjo?

No topo ou bordos dela, da tumba vala,
pirâmides terrosas com terrões em despique rolando.
Ao meu lado, os homens do meu povo,
são já um só corpo comigo e,
entre o suor, o bafo entrecortado,
e o tremor de mãos,
pelo esforço coveiro e vítima havido,
é corpo cabisbaixo como eu e como eu mudo.
Por trás, a obediência férrea ao crime,
vozes de comando, pressa voraz.

Voltar-me-ei antes do multíplice dedo engatilhado.

Assim.

E que se danem,
que se revejam no meu rosto morituro
mesmo antes da rajada,
saturado espelho e suturado
nos fios da memória esbanjada.

Quando vier esse som que é gume,
vá este sangue manando,
alastrando quente,
como um degelo rubro na neve
vaporosa,
sem queixume.
.

Joaquim Santos

35 comentários:

caninos disse...

Lindo, lindo ...
Música linda, o poema lindo... admiro-te.
Com toda a seriedade.
Um beijo

Anónimo disse...

"Eu queria que a felicidade fosse eterna
Quem sabe um dia a paz vence a guerra
E o sol estará sempre a brilhar.."

No dia em que o homem souber que tudo o que planta colhe, pensará muitas vezes antes de apertar qualquer gatilho maldito.

Adorei sua poesia, mas é por demais surreal sentir o que sentiram estas pessoas, sejam elas judeus, vítimas de vingança comum, perseguidos políticos..

Gostei muito do seu blog, voltarei mais vezes.

Antônia

Ecumene disse...

Quando vier esse som que é gume,
vá este sangue manando,
alastrando quente,
como um degelo rubro na neve
vaporosa,
sem queixume.
.................



eu gosto das últimas palavras...


Hoje em Grecia nós temos a festa da assumpcion de Santa Maria comemorada em 15 de agosto .

Você tem a mesma festa?
Ninguém trabalha

:)

Teresa Durães disse...

Um poema duro, mas lindo.

Gostei muito.

Roy Frenkiel disse...

A verdade doi...

forte abrax

RF

Ecumene disse...

Joshua disse

Como se diz: «Grande é o coração que perdoa e ama sem limites.»?


Grande = Megali
é=ine
o=i(feminine the heart in greek)
coração=kardiá
que=pu
perdoa=synkhorí
limites=ória
e=ke
ama=agapá
sem=horís


Megáli ine i kardiá pu
sinkhorí ke agapá horís ória


Big is the heart,that forgives
and loves without limits

Sérgio Costa disse...

Grande poema! cheio de talento! Abraços

Anónimo disse...

para que a memória não esqueça... palavras que nos levam à crueza dos actos!...

Anónimo disse...

salve palavrossaurus,

a poesia é a forma mais fina de se encontrar com a vida. evoé, poeta. ch.

angelic fruitcake disse...

muito lindo o poema...gostei muito.é um pouco "violento" porque custa-nos ouvir certas coisas.
beijo e quando quiseres passa lá no meu cantinho.
beij.

José Leite disse...

Lúgubre, mas profundo e sentido! Gostei da abordagem a um tema bem actual... a vida é tudo isso!...

joshua disse...

Que te desdobres
e descubras
no que cai
e jaz esmagado.

Que te revejas
nos actos malígnos do
passado
de cujo sangue
e gatilho
sanguinário
unidos
não cessa
o lavar de mãos.

Éramos nós.
Estivemos lá,
vítimas e cúmplices cem
mil vezes setenta,
julgando escapar
impunes à sementeira
derradeira,
à grande crase
entre o cá e o Além.

Joaquim Santos

José Leite disse...

Caro Joshua:

Li o "remoque" (Roy place) e não percebi a "ironia"...
Será que os dinossauros estão com "ciúmes" dos passarinhos?

Honi soit qui mal y pense!!!

Abrx...

joshua disse...

Rouxinol,

Então eu alguma vez seria capaz de ter 'ciúmes' de si, homem? Isso é tão impossível como o Camões ter ciúmes do Pessoa ou o Zé Cabra ter ciúmes do pior José Cid (também há um óptimo).

Vá lá, nesta canoa da poesia, reme daí que eu remo daqui. Não vê que a canoa gira sobre o seu próprio eixo se nos pomos a prospectar, feitos chicos-espertos, o que realmente pensamos de tudo e de todos?

Abraço

caninos disse...

Meu querido amigo,
as guerras não se fazem só primindo o gatilho ... agora existem as bombas ... que crueldade!


Beijos a todos

Regina Ramão disse...

Joshua:

Vim retribuir tua visita e...que maravilha aportar em um cais de pura arte sensorial concretizada em poesia.

Estou te linkando lá no bloguinho e, certamente, aportareia aqui mais vezes.

Abraço!

Lilis disse...

Gostei!
bjus...

grão de areia disse...

Meu amigo o teu blog é um vicio.
O teu poema num comentário aqui, lembra-me, os ex combatentes do Ultramar,,, tiveste lá alguem?

Porque a minha intuição diz que nunca poderias estar,,,

Já agora no meu, são apenas pétalas que vou lançando ao vento... até existirem flores...em certo canteiro de pedra!

Beijos

Noushu says: disse...

hi, i cant understand ur language.
anyway i guess that it is good.

Ecumene disse...

@Joshua

Do you mean that
Western people can convert
to Islam easily,but the opposite...
Islam people to become
westernized
is difficult?

aqui

joshua disse...

Ergotelina, creio que, pelo contrário, os ocidentais dificilmente se converterão a uma fé ainda mais restritiva das suas liberdades, se pensarmos na diminuição generalizada do influxo das igrejas cristãs em todo o ocidente a par de uma pulverização das ofertas no domínio do religioso.

Agora, o que penso é que considerar uma das sociedades islâmicas, por exemplo a Arábia ou o Irão xiita, é perspectivar um modo de conceber a vida humana incompatível com aquilo que as sociedades ocidentais alcançaram e faz delas tão vulneráveis.

O modo como o presidente iraniano, Ahmadinejad justifica a revolução islâmica e a total impermeabilidade ao ocidente é pura e simplesmente uma loucura, como poderás ler no seu blog, uma criação interessante para tanta restrição aos direitos individuais:

http://www.ahmadinejad.ir/

Ma é uma loucura pensar que se pode blindar indefinidamente um povo à irresistível atracção que o mundo no seu conjunto exerce. Manter a identidade e a cultura é importante, mas isso não pode ser feito à custa do ódio à Coca-Cola ou do medo ao desconhecido.

Vives na Grécia? Parece que isso favorece que conversemos livremente.

Conversão hoje soa à obtenção de uma hegemonia no mundo, a um pensamento único, a um monoteísmo de expressão exclusivista, o que é por si só um atentado a uma sociedade que se quer acima de tudo pluralista.

Paulo disse...

Obrigado pelo comentário...
A vida não recua, e não se retarda no ontem. Nós samos o arco do qual os nossos filhos, como flechas vivas, são desparados...
Que a nossa inclinação, na mão do arqueiro, seja para a alegria e não para os "desertos" da criminalidade, das crenças além do bastante ou para onde não há "rostos humanos".
Os nossos filhos não são nossos filhos. São filhos da vida, anelando por si própria.

Mistério de Mim disse...

Poema soberbo!
Sem palavras. Acompanhado de uma música belíssima!
Obrigada pelo teu comentário no meu blog.

Muitas felicidades e sucesso.

Mistério de Mim

joshua disse...

Foto

Sou o segundo
a contar da direita,
sou o terceiro
a contar da esquerda,
o de casaco escuro,
o mais alto e o mais largo talvez
dos que assim nos perfilamos
para receber do fuzil o fogo.

Damo-nos as mãos agora.
Deu-nos para isso.
As nossas faces nuas,
o corpo vestido,
os pés calçados
estão prontos para o momento.

O silêncio é gritante.

O que é morrer?
Sempre se morreu e nunca sabemos o que é
ou que desvinculação
deste tacto e desta luz seja.

Ao menos, se a seguir morreremos, não é empunhando armas,
não é com a culpa igual
de igualmente matarmos.

Se o absurdo soma e segue,
que seria de nós sem a esperança
de que Deus a seguir nos recebe?

Se o absurdo comanda tudo,
porque se nos soleniza dentro tanto
esta hora? E o que é ser homem senão esta palha em trânsito não se sabe para que festiva fogueira?

Dizem que de Deus não há provas?
Mas há.
A mansidão em quem a tenha
absurdiza o absurdo e
é A prova,
o sabor
doce e certo de uma Pátria Outra
onde corre todo o Leite
onde corre todo o Mel.

Sou o segundo
a contar da direita,
sou o terceiro
a contar da esquerda,
o de casaco escuro,
o mais alto e o mais largo talvez
dos que assim nos perfilamos
para receber do fuzil o fogo.

Nada tememos.
Não se nos tremem as pernas.
Não destilamos nem ódio nem vingança.
Só nos vem à memória
o repercutir de uma velha frase de absolvição absoluta: «Ignoram o que fazem. Perdoai-lhes, Abba.»

Joaquim Santos

sonho disse...

Acompanhada de uma música muito aprazível tropecei no teu blog e no teu blog e deparei-me a ler com bastante agrado todos os teus textos plenos de poesia profunda, colorida, sentida, real com que tu nos tens brindado ultimamente.
Foi o primeiro de muitos tropeções.
Agrada-me o teu enorme dom para a escrita, voltarei mais vezes!
Linkei-te no meu blog, espero que não te importes.

Beijinhos
Diana

Anónimo disse...

hi there. thanks for your entry, it's pitty i can't understand yours ;)
bye for now, silvia

Silvia/Michael - Future Capital NI disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Silvia/Michael - Future Capital NI disse...

hi there. thanks for your entry to my blog. it's pitty i can't understand yours ;) bye for now, silvia

Andy disse...

Thank you for comenting my blog,
but I just know a little English.
I can not coment your Archives.
I'm sorry!

Fran Rebelatto disse...

Realmente acho que vamos ter que trocar muitas figurinhas ainda dessas reflexões anormais, ou seriam normais????, enfim sobre a vida...parabéns teu blog é muito bom mesmo...e obrigado pela visita...

Anónimo disse...

Obrigada pela visita ao Rosebud - Livros, poeta. E parabéns pelos teus versos

EuMulher disse...

Vim agradecer a tua visita ao meu cantinho. Deparo com palavras que se unem em sentimentos fortes, que despertam a nossa sensibilidade e nos fazem pensar Parabens pelo teu blog. Beijinhos

Esther disse...

As tristezas do mundo viram arte escrita nas mãos do poeta... Bj!

Andreia disse...

Gostei.

Leila Silva disse...

Olá, bonito blog e obrigada pela visita no ROSELIVROS.
Abraços