quinta-feira, dezembro 14, 2006

AS RODAS DA TUA CADEIRA














Tens o corpo retorcido e és recto.
Tens a mente brilhante e lúcida,
mais brilhante ainda o Teu olhar
mas o Teu discurso é nublado na baba
de uma articulação sofredora para Ti,
mas o teu pensamento é límpido,
afiadas e certeiras as tuas palavras.

És sentencioso, mas justo.

Zé, pareces-me a silhueta enerme, mansa, enorme
do Deus a Quem sempre adorei apaixonadamente
e que me fala, quando falamos.

Falas, caminhas sentado,
movimentas as tuas pequenas pernas
e as rodas da Tua cadeira deslizam:
sobes rampas, desces rampas,
vences obstáculos,
sob o sol e sob a chuva.
Tens humor e tens justiça,
tens a indignação pronta
contra as vacas que povoam de acrimónia
as salas da docência e da maledicência.

Tomas a tua meia-de-leite por uma palhinha
e dou-te a comungar "Belgas", essas bolachas
amanteigadas,
cada vez mais pequenas
e parcas nas suas respectivas embalagens cromadas,
o que Te desconsola, e és rápido a devorá-las
crocantes, de um tom de hóstia amarelada.

É então que me analisas melhor.
Falas do meu quinto andar desarrumado e do meu labirinto,
de como danço o tango da complacência em vez de o rock do rigor,
com este último derrotado e aquela hipertrofiada.
É quando me chamas filósofo hiperssensível
e me dizes evangelhos de música.
É quando repetes o quanto te aborrece
a imposição seja do que for,
mesmo da democracia,
mesmo da liberdade,
que a Europa, no passado,
e os Estados Unidos agora
exportam a ferro e fogo
com a marreta dos seus interesses disfarçados...

Terminas o Teu lanche, meu Deus, e regressas ao Teu computador, Zé,
em que és Rei e Senhor.
Despeço-me de Ti renovado.

Puro e recto, repito, é como és
e falas das putas e dos cabrões
e tens piadas sexuais com as quais ris muito.
Andas melhor informado que o maior dos mexeriqueiros,
mas tens a língua limpa
e mais limpo ainda o coração de opiniões surpreendentes.

Deves ter vindo para desarranjar-me as revoltas
e os inconformismos materialistas que nunca tive
e só agora tenho.

Deves ter vindo lembrar-me que a minha prioridade és Tu,
o Teu fardo leve e o Teu jugo fácil são a minha prioridade.

Deves ter aparecido diante de mim para me atenuares
a fúria d'alma hoje,
na arena dos enganos,
toureado pela mentira com o meu consentimento.

Vieste lembrar-me que não posso servir a dois senhores
ou pôr entre parêntesis o meu favorito e Verdadeiro
por um prato de lentilhas.

Vieste rir-te comigo
da minha cara de bicho teimoso.

Ámen, Zé.


Joaquim Santos

2 comentários:

Rita Nery disse...

Preocupamo-nos tanto com as nossas vidas, com os nossos problemas e inquietações que nos esqueçemos que existe um mundo para além de nós, um mundo que precisa de nós e ao qual renegamos quase todos os dias a nossa exsistência por mero comodismo.
Só mesmo quando nos toca a nós, só quando alguém por algum motivo nos acorda deste sono da ignorância,é que nos apercebemos da insignificância dos problemas que na realidade não temos.
Mas mesmo esse abrir de olhos é breve...esquecemo-nos facilmente do que não nos convém, esquecemo-nos...O ser humano é mesmo assim, e será...
Beijinhos:)

ivamarle disse...

Feliz Natal e um excelente Ano Novo, cheio de saúde, alegria e toda a força para enfrentar as lutas da vida.