sábado, dezembro 23, 2006

POEMA «É CARNAVAL TODO O ANO»














Quer um homem queira
quer não queira,
é Carnaval todo o ano:
há armadilhas multicolores,
há apelos mentirosos, tentadores
abrem-se-nos as fauces dos papéis de embrulho de qualquer coisa,
menos da Verdade, uma Verdade essencial e não privatizável.

Pais, tios, sobrinhos
concorrem no pagamento do imposto de serem amados e lembrados.
Avós vêem-se sentados na praça hipermercádica,
onde se sorvem cafés,
exaustos de se entontecerem
e de hesitarem nas grandes superfícies:
brinquedos, jogos, roupa, wiskey, chocolate... Netos!

Rubicundos, os avós arfam e cascalham entre si da aventura mercádica.
Como é belo que os avós babem pelos netos!

É Carnaval todo o ano e o Natal
está moribundo por causa das barbas brancas
e da Coca-Cola que produtificam a época e a esvaziam..

Sim, há jantares de empresa,
de corpos docentes, numa autópsia de baldas e cumpridores,
num balanço de bem vestidos e desleixados,
há agora jantares de todo o tipo e feitio - são os jantares de Natal -
e toda a sentimentalidade jorra,
todo o fumo, toda a gula se transformam em verdade e vida
e faz-se luz:
é o espírito de Natal.

O 'espírito de Natal' é haver Carnaval em que tudo se troca,
trocam-se os papéis, trocam-se as identidades,
faz-se a feira, a degustação do excesso.

Em África é que pode haver Natal,
na Ásia profunda,
no Cáucaso é que pode...
Onde a ceia é somente um pouco menos pobre,
e onde haja frio e fome e pó,
cães lazarentos disputando migalhas com crianças,
famintas, alimentando-se de ar e com moscas e ranho e lágrimas,
aí é que o Natal é Verdade.

Aqui não.
Aqui já temos os brinquedos caros, comemos e arrotamos por dias a fio
e não pensamos em mais nada.
Aqui os mecânicos abusam da clientela,
a clientela abusa de quem tem ao seu serviço,
e tudo vai girando de injustiça em injustiça.

O Natal de Jesus e a teologia da condescendência divina
não interessa a ninguém e partir-te-ei o pescoço, Isaac,
se me vieres falar ou tentar falar de religião outra vez.
Caralho, pá, não estou interessado em argumentos engatilhados.
Poupa-me a conversas sobre religião à queima-roupa que não abrem diálogo nenhum,
mas apenas antena à tua perspectiva unilateral enciclopédica
de campeão em blaterar sobre religião.

Um dia, o Natal será «Estomacal» e dir-se-á:
«Feliz Estomacal!»...
E dar-nos-emos prendas na mesma, e tudo encaixará perfeitamente.
Família? O Natal é pensar na família?
Não é. É uma carga de trabalhos que acomete as mulheres da casa
é uma jantarada apática e cada vez mais vazia
cheia de prendas.

Um dia, o Natal será «Glacial»...
e dir-nos-emos: «Feliz Glacial!».

Sim, porque nós que já congelámos entre os produtos,
seremos glaciários de uma glaciação real e implacável.

É Carnaval quando um homem quiser.


Joaquim Santos

1 comentário:

Susan Jones disse...

There are few gifts one can give that last a lifetime, the inspiration you’ve so willingly and unselfishly shared with the world through your art and talent is one. I’ve been a fortunate benefactor, thank you from the bottom of my heart.
Merry Christmas, Happy Holidays, and the very best of the new year to you and yours.