domingo, dezembro 03, 2006

DA PUTACASA SEM MISERICÓRIDA













Um ou dois tiros de caçadeira bastariam.
Ou um de um mini-canhão por um bom artilheiro.

Em ninguém esses tiros.

Somente na velha caixa onde se apoia aquele globo transparente
dos sorteios falsos,
falseados,
fraudulentos,
das bolas que giram,
magna ilusão de óptica,
magno ilusionismo sobre a credulidade colectiva,
um ou dois tiros
para que todos vissem
o predeterminismo daquela merda
e percebessem que as bolinhas multicolores sorteadas
não vêm ou pingam de cima,
aleatórias, em sorte, girando com vento nelas,
mas que elas só giram para enganar o parolo,
e que brotam de dentro e de baixo,
escolhidas a dedo
pelos cálculos
reguladores,
gestores
e sornas
de um super-computador
hiper-eficiente
e tão filho da puta
como os filhos da puta que o pariram.

Tudo porque os números gordos vendem mais que a partilha magra
e é preciso garantir isso.

O país nunca aprenderá que é, também aí,
enganado num ludíbrio nacional que, no entanto,
vai enfraquecendo na adesão que merece
em favor de um magnoludíbrio euro-internacional igualzinho,
só que aparentemente mais promissor e dourado!

Completas Falácias!

Veja-se a subtileza das câmeras,
até elas cooperantes com o logro: focam as bolas que rolam,
nunca o desentranhamento delas.

Veja-se as caras sem-abrigo dos representantes do Governo Civil
ou sei lá do quê:
tristes,
perdidos,
como que retirados de sob edifícios
e suas reentrâncias,
puxados para fora das suas camas de cartão,
lavados e barbeados à pressa,
à pressa despiolhados,
ei-los ali, inúteis, focados um segundo,
feios, num sorriso amarelo amordaçado, mas que grita:
«isto é uma aldrabice, fujam que fede a merda»,
ei-los ali, os sem-abrigo dos fiscais, dos observadores espantalhos,
ali para sofrer uns minutos de mentira conspirativa
contra o que o povo supõe ser limpo,
mas ainda assim estátuas bem compenetradas
sob a música deprimente de um músico bêbado ao teclado,
de motivo musical em motivo musical,
e a diarreia verbal da Cirenela
paga e bem paga para rir,
para sorrir, encorajando ilusões
e papaguear promessas
de sorte da treta.


Joaquim Santos

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