segunda-feira, maio 14, 2007

A LER NO COMBUSTÕES:


Talvez, com o texto seguinte, os meus alunos compreendam
que é isto exactamente o que se pode ver por todo o lado,
algo de que eles são também vítimas evidentes
e a que de igual modo não me sinto escapar.
Se privilegio a proximidade com os meus alunos,
se coloco à frente a negociação respeitosa e diferenciada com eles,
no comportamento e no aproveitamento,
se pratico a não violentação da sua vontade e liberdade
desde que exercidas num sentido mínimo das suas responsabilidades-de-alunos,
se lhes sou confidente atento e interessado
das suas espontâneas e naturais confidências,
se me bato contra toda a autoridade autoritariamente exercida,
com o que me confronto depois
é com um modo chacal de passar por cima de estas pessoas e dos seus contextos
por colegas ciosos de mostrar o severo serviço de um pau autoritário.
Ora, os tempos são de negociação paciente e permanente,
são de mediação contínua de toda a forma de conflitualidade.
Talvez por misteriosos processos de mobbing é que vá perder já o meu trabalho,
depois de nove meses de sabe-Deus que tormentos.
E talvez o perca também
porque os PodereS têm tentáculos bem longos
que a sua incomodada tentacular razão bem conhece:

É uma prática bem portuguesa, ao contrário do que muitos poderão pensar.
Aqui não se mata ninguém no Forum;
as pessoas são "desaparecidas" por processos mágicos.
Deixam de ser convidadas; depois, deixam de ser referidas,
não aparecem nas reuniões, corta-se-lhes uma fatia do salário,
depois outra e, finalmente, desaparecem.
Um dos mais praticados processos
de destruição de identidade pública leva, sintomaticamente,
um designativo que poucos conseguirão identificar: mobbing.

Sei do que falo. Fizeram-me o mesmo por três ou quatro vezes:

num jornal para onde fui ocupar funções de director-adjunto e do qual,
depois de o haver servido sem remuneração
- ah, como era um bom escoteiro nessa altura -
recebi os tratos de polé mais indignos;
numa universidade que servi exemplarmente,
à qual entreguei, pronta para facturar,
uma pós-graduação com todos os apetrechos requeridos,
mais uma biblioteca cumprindo todos os requisitos exigidos por lei;
numa empresa privada,
onde reorganizei todos os processos de recuperação de dívidas mal paradas,
as quais, logo que ressarcidas, me valeram um convite para funções inferiores,
com salário inferior e tudo; por último, em funções superiores de direcção no Estado,
ganhas em concurso público
face a concorrentes que antecipadamente
haviam recebido garantias de sucesso.

O mobbing é uma prática complexa,
tão complexa que raramente se conseguem reunir provas
que confirmem a sua existência;
daí que seja um dos expedientes mais usados num país onde a cobardia prevalece.
Meias-palavras, uns pós de intriga, uma pitada de difamação,
muita invejazinha, medíocres e tolos à mistura e, pronto,
uma vítima isolada, denegrida, intimidada e "desaparecida".
Este processo campeia nos ministérios, nas universidades,
nas câmaras, nas empresas públicas e privadas.
Praticam-na, sobretudo, os desclassificados trabalhando em rede,
os tolos ciosos das suas quintas e campanários,
os descerebrados e incapazes
aterrados pela perspectiva de se baterem contra homens
(e mulheres) dotados de coluna vertebral,
princípios e capacidade de realização.

Se atentarmos, o mobbing não se realiza apenas contra pessoas singulares:
há-o contra grupos, empresas, partidos cuja existência pode, de algum modo,
diminuir a eficácia de uma sociedade fundada no faz-de-conta.
Um dos mais bem sucedidos processos de mobbing
estriba-se no imenso arsenal de possibilidades que o ridículo apresenta.
Rir-se de uma pessoa/grupo, contar anedotas,
deixar um rasto de suspeições, troçar de um corte de cabelo,
de uma característica da indumentária, do sotaque, da forma de andar
são, acreditem-me, bem mais eficazes que rebater princípios.
Posso dar-vos cinco exemplos, que estimo bem sucedidos,
de vítimas do mobbing português:
D. Duarte de Bragança, Alberto João Jardim, a Igreja Católica,
os empresários e a função pública.
Escolho-os arbitrariamente,
posto que não são, na parte que não no todo,
objecto da minha simpatia especial.
Contra eles exerce-se mobbing activo,
permanente e tão impiedoso que se acabou por fundir com essas personalidades,
com aquela instituição e com aquelas ocupações.
Pensemos, pensemos,
e logo nos surgirão dezenas de outros casos análogos de mobbing,
surgidos do prodigioso alfobre de canalhices
de que é capaz este povo que se esgota na arte maior de serrar pernas,
destruir pedestais e ostracizar da Cidade
aqueles que a poderiam ajudar a sair da mansa mediocridade em que vive inebriada.

Considero-me um homem forte,
resistente às provações e capaz de arrostar lutas prolongadas e até sangrentas.
Para além disso, como tenho alguns meios materiais
que me isentam de prestar vassalagem a quem quer que seja,
sacudo tentativas de mobbing e saio a terreiro,
de espada em riste e vocabulário solto,
sempre que um qualquer bandido se atreve recorrer a tal manobra.
Contudo, sei de muitos que não resistem.
É deveras triste assistir ao infame espectáculo das matilhas despedaçando um pobre escolhido como alvo de mobbing.
Ontem encontrei um velho conhecido, homem probo, respeitador,
esforçado e, para mais, de uma inocência que perdi há muito.
Disse-me, envergonhado, quase que desculpando-se, que perdera o emprego.
Fiquei surpreendido, pois tenho-o como alguém capaz de ultrapassar em dedicação ao trabalho a generalidade dos outros bípedes.
Mas logo, implacável e nua, caíu a razão:
"trabalhei para eles durante dez anos,
mas logo que terminei o doutoramento senti que tudo se havia conjugado para me perder". Apertei-lhe a mão e vi-o, vergado, quase velho,
afastar-se com passo curto, encostado às paredes.
Disse para os meus botões: outra vítima do mobbing!
Que terra notável esta,
que "defeitos os tem todos, só lhe faltando as qualidades" (Almada).
çjhkjh

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