quinta-feira, maio 10, 2007

POR UMA REVISÃO DO TEU CONCEITO DE LIDERANÇA


A glória do teu ego lança-te no limbo, meu amigo, vez após vez,
porque és duro e obstinado de cabeça.
Aliás, não compreendo a que espécie de cornadura pertences caprina.
Vejo-te como num filme em câmera lenta,
atirando piadas atrevidas sobre os teus colegas,
gerando um grande fenómeno de estar frio
e ser necessário aconchegarmo-nos ao gargalhar crepitante das tuas bocas,
à falta de melhor fuel.
Já sei que não suportas a solidão e que por isso mesmo
assaltas companhia,
ao montares cerco a quem não consiga dizer-te "não".
Depois os dias passam e estabeleces aquela rotina tutorial
onde há um espírito de serviço e generosidade-táxi: dás-te todo,
mas exiges muito mais, sufocando essa pobre alma ao teu cerco bem intencionado
e bem apertado.
É claro que não lês quaisquer livros, nunca leste.
És, como direi?,
um homem de acção e um puto eterno nas partidas,
a contemplação enregela-te.
Porém, sabes tudo acerca de tudo.
Aconselhas sobre tudo.
Lá vais arrancar argumentos ao cu c'um gancho e,
sacando do teu charuto experiente e sábio,
falas da vida enciclopédico.
Meu amigo controleiro,
meu amigo bisbilhoteiro,
meu amigo superficial,
mas por que hás-de querer dominar os corações e as mentes dos teus protegidos
ou seja lá de quem for?
De repente, apanhas pela frente quem não te seja dócil ou grato pelos
teus serviços-táxi ou de aconselhamento matrimonial,
alguém a quem cansa a tua generosidade que oprime e invade,
alguém mais inteligente e sensível,
que te percebe as manhas e detecta o teu fraco por fracos e, depois, como farás?
Recorda que já magoaste e humilhaste
amigos e colegas pelo triunfo imediato, fogo-preso, de uma piada tua.
Para ti é «que o mundo se dane,
se toda a gente puder rir da última frase atrevida a propósito de alguém ao lado e presente».
Pois bem, abdica das tuas ilusões e contrói liberdade e autenticidade à tua volta.
Abdica de esse espírito concorrencial com quem brilha mais,
sabe mais e é mais amado que tu
e que desde logo atacas e feres só por que tu,
e tu somente, brilhes, aparentes saber mais,
e sejas amado.
Repara: todos se cansam de ti e te abandonam
ou na forma ameaçada ou na forma concretizada ou nas duas.
Está na hora de reveres o teu conceito de liderança
e de semeares liberdade e autenticidade à tua volta, meu amigo tirano.
Meu pequeno tirano e egocêntrico,
longinquamente amigo,
com ataques ocasionais de gostares de mim,
dizendo-o muito etilizado,
na mesma proporção com que me trais por pensamentos,
palavras e omissões,
naturalmente.

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