terça-feira, maio 01, 2007

MEU AVÔ ANDARILHO


Noventa e um anos, trinta e três dos quais diante de mim.
Hoje abri aquela porta lá de casa
e meu ser pressentia aquele odor de décadas
que deixavas como uma assinatura de suor,
na roupa dependurada atrás, depois nas paredes,
depois nas coisas,
por todo aquele espaço que é exíguo ali.
Ali, onde pousavas,
com a pátina da tua pele em pó viático, em sal,
o teu eterno boné transpirado,
o teu transpirado casaco.
Resumos-roupa da tua vida, uma vida em girassol,
saudando muito todas as pessoas.
Passaram quatro anos desde que consentiste à morte
que te tomasse.
Nunca conheci ninguém tão rijo
que dela escarnecesse tanto como tu.
Tanta saúde, energia, resiliência,
eram em ti troça pura à morte que foi chegando para os outros à tua volta.
Ela, que veio e foi levando a tua geração e outras gerações,
numa generosidade de pai-natal, desta vez mortal, pai-mortal,
enquanto meditabundo as sepultavas.
Ela, ceifando sempre, movimento de ceifa igual ao movimento semeador,
a todos, mas nunca a ti.
Quantas lágrimas, quanta saudade, junto às lages
dos que, imensos, te precederam!
O teu meio de transporte eram essas pernas:
caminhando, caminhando muito todos os dias,
cheio de ritmo e leveza,
percorrendo distâncias extraordinárias numa idade extraordinária,
peregrinavas por fora o Longínquo para dentro de ti.
Como quero imitar-te nesse uso das pernas
assim tão mercuriano e romeiro!
Lembro por isso o que fazias com o teu corpo: movimento!
Em evasão do labirinto dos ses, no teu passado, não importa: movimento.
Eu sei que celebravas a tua vida
e o evangelho de teres sempre razão no esdrúxulo campeonato invisível do mérito
como o equívoco de quem convoca razões para ser amado.
Tinhas uma vociferada razão indiscutível
como um cilindro que passa o asfalto-família a liso.
Não importa.
Era do teu odor marcado, de décadas, por detrás daquela porta, que eu falava,
meu avô,
odor hoje mais atenuado e imperceptível, mas ainda lá,
sinal do teu vôo liberto em glória
para acenos infinitos a quem passa,
num mesmo mariposa pairar,
num mesmo incandear gaivota,
ante a luz irresistível de haver
tantas Pessoas
Além
como te houvera aquém-morte.

3 comentários:

Anónimo disse...

BELA homenagem ao seu avô, parabéns!

Anónimo disse...

Andava a pé lembrando gaivotas, também faço dele o meu avô adoptivo, se não se importa.

Anónimo disse...

Que bela homenagem...

Obrigado...