quinta-feira, janeiro 17, 2008

ANJO REFORMADO


Ser rejeitado pelos homens é um processo reincidente
para quem nasceu com a Marca: eu nasci com a Marca.
Tive os meus transportes místicos muito cedo
e quando esbocei falar a minha Língua - o Espirituês, provavelmente -,
franziram-me as sobrancelhas e a comunicação faliu.
Na altura não podia dar-me conta - tinha acabado de deslizar do ventre maduro da minha mãe -
o Espirituês estava a extinguir-se.
Por isso mesmo, tenho a clara impressão de que estou a mais e à parte no mundo dos homens:
andar a apontar o Céu a Répteis e não em direcção ao Belo Azul Alienado,
mas em direcção ao Fulgor das Faces, de todas as Faces humano-estelares,
até parece inglório. E é.
lkj
A fricção de linguagens é grande, a minoria perde,
e não é calor aquilo que resulta, ética pouca.
O que resulta é uma enorme perplexidade
como se os corpóreos-espíritos, quase toda a gente-rude,

por um instinto insolente antigo, genética-inércia,
se recusassem a parturizar-se plenos
numa Língua que é Porta e abre para cá, mas abre para Lá,
acedendo nós, nela, à baça luminosidade macia que inculca Confiança
no dolente labirinto que é cá.
É isso: as pessoas julgam que já nasceram. Nada mais errado!
Estão inteiramente por nascer e às vezes vão a enterrar
sem sequer lhes terem rebentado as águas,
a não ser que a Marca os bafeje antes de esse ponto.
Aí a Língua Nova solta-se-lhes muda. Com ela abrem o Livro de não-Morrer, Morrendo.
Eu sei que os bafeja porque essa enorme Hora de Trânsito,
que parece tão ínfima, mesquinha mesmo, que nunca surpreende o que Passa
dá-lhe um arregalar de olhos que, na fracção do infrassegundo,
compreende tudo.
lkj
É a Hora Signo da Marca Rubra.
lkj
Quem, porém, nasce com a Marca - vive sempre de olhos arregalados,
compreende sempre tudo,
mas fala uma Língua inacessível - o imortalês, provavelmente -, aos demais mortais.
Em Portugal a extinção da minha Língua é um facto extraordinário, uma antítese dele.
Lembra o advento desta era das ambulâncias que não terão rodas a medir
para acorrer aos que acumularam anos, quando acometidos do pânico da Hora,
esses que ainda amam as manhãs frescas,
o canto do galo, o silêncio ultrassónico dos amanhecer laranja-róseos.
Também eles se estão a extinguir e a ser extintos,
convertendo-se em números.
Porque poucos velhos imaginaram
que seriam para aqueles decisores o lastro que desfigura de desalinho os números.
Porque poucos jovens suporiam
que, para aqueles decisores, seriam a fatia de desemprego
a varrer para sob o tapete asseado dos números.
A minha Língua, a minha psique sabedora de haver Lá, admite ser Anjo. Pronto, admite.
Confessa-se angélica, mas submete-se, sarcástica, à Reforma Estrutural de Nome,
que está na moda ter de ser até para si, para mim. Só um Anjo Bipolar, mesmo,
a quem passa muitas vezes o Sol pela Lua.
É duro andar por aí sem convencionalismo de espécie nenhuma
e descalço nesta Língua de mais ninguém.


9 comentários:

M.Boltar disse...

Dear Rex,
I just found your comentary in my blog. (You did that long time ago)
I really enjoy your blog, but unluckily I only can read spanish or English, and guess a little portuniol...
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Best,
Marcela: nakamann@hotmail.com

Anónimo disse...

Dear Rex,
I Just get your comentary from my blog. (sorry, it was long time ago)
Anyway, I really enjoy your creativity but unluckily I only read spanish or english and sometimes guess some portuniol...
I would like if you don't mind include your blog in mine and include you in the mainling list that people who collaborate and look at the project receive.
All the best,
Marcela.

amigona avó e a neta princesa disse...

Ai que eu adorei este parto!!! Mas gostei muito do espi..., espera deixa ver como se escreve - espirituês!!!!Fenomenal!
Abraço...

Tiago R Cardoso disse...

De facto muito passam por esta vida e morrem sem terem vivido, limitaram-se a andar por aqui de uma forma plástica sem nunca abrirem os olhos.
Como eu te disse, muitos deviam levar com o peso do aço, para ver se acordavam.
Eu digo, tirando as dores, talvez tenha sido uma das coisas melhores que me aconteceu.

Anónimo disse...

Meu caro amigo,
garanto-lhe que não está só - revejo-me completamente no que escreve. A mesma sensação de estranheza, a mesma perplexidade, o mesmo nojo pelo modo de existir predominante. Em face desta identidade sentida e tendo vivido já mais tempo, aviso-o que vai ser SEMPRE MUITO DIFÍCIL. Mas... ainda assim, posso dar-lhe um sopro de esperança: quase tudo tenho sacrificado à liberdade de viver, à negação do título que afirma ser insustentável a leveza do ser, e até agora o Espírito em mim ainda não foi vencido.
Fiquei tão impressionado (pronto, eu confesso que a palavra certa é comovido) que, logo que possa, vou escrever um poste resposta ao seu, fazendo ao mesmo tempo uma homenagem a Martin Luther King, assassinado faz agora 40 anos.

Permita-me que lhe deixe aqui o desafio à participação no passatempo com prémio que decorre lá pelo meu sítio. A participação da sua escrita será um privilégio. Conto com o seu comentário e desde já o coloco entre os favoritos à vitória.

Um grande abraço e um bem-haja em Espirituês por ter escrto este texto.

antonio ganhão disse...

Quem não nasceu com a Marca será sempre lastro que desfigura de desalinho em direcção ao Belo Azul Alienado, inscritos no Livro de não-Morrer, Morrendo.

A dor rebenta-nos as águas, só podemos vir a este mundo chorando.

quintarantino disse...

... não te apoquentes nem com a marca, nem com a língua... enquanto houverem homens como tu haverá sempre vigilantes e guardiães do templo!

Robin Hood disse...

Vem tomar um copo ao Cadeirão da Malta que há novidades frescas.

Anónimo disse...

O materialês fala muito alto e ocupa muito espaço no "Amirável Mundo Novo" que estas gentes estão a prepar (não só cá em Portugal)...
Mas estas gentes, de facto, "estão inteiramente por nascer"!
"É duro andar por aí", é verdade, mas vale a pena - in the end, only kindness matters...