quinta-feira, janeiro 17, 2008

QUEM SE CEVA DA NOSSA CARNE?


Tarantino, o Polvo tinha mel e o Maduro Tinto Foral de Évora,
no copo-balão, era Olimpicamente Divo ao paladar e Odoroso-Celeste,
mas o odor a ironia permanece-me ainda mais intenso na Carne Viva, depois que,
unidos, os quatro, tu, Tiago, António e eu, conspiramos Contra Isto Tudo Tal Como Está.
lkj
Quando um dia Guterres gaguejou o PIB,
estava a profetizar em Gago-Gaffe o estado de Gago-Erro-de-Cálculo-Gaffe-Crasso e Permanente com que o Fosso se Abre e Alarga inexorável
no Portugal de Agora Mesmo.
lkj
No Fosso propriamente dito, não há senão Nada.
Nas extremidades dele, estamos nós, magros,
encostados à parede do cada vez Mais Menos que Só Nada;
na outra, estão os outros, os Poucos, Cevados em Tudo
e Vinte Vezes Mais Num Mês que nós num Ano,
esses que ganham Sempre Mais Que Alguma Coisa e ainda um Pouco Mais,
e Ainda Mais e Mais e Mais.
lkjh
A Sociedade no seu Conjunto é Alarve e Estúpida
no Zero que se Consente que lhe Consintam.
A Mentalidade Empreendedora vigente é Zarolha-a-Zero,
ao engendrar tacanha a conflitualidade e a desmotivação no lado amplo,
fraco e nosso do Fosso, ó injustiça vigorosa!,
que não se transformam em Produtividade e Alegria de Viver
nem com uma arma apontada à nuca.
lkj
No meio, repito, não há Nada e na Extremidade Fraca,
Ampla, Nossa, cada vez haverá Menos porque o Fosso Alarga-se.
Não nos resta senão o Conspirarmos e Resistirmos,
ainda não sabemos exactamente como,
mas tudo começa na Palavra
e a Palavra tem de ser o mais Sáuria Possível
ou Não-Seremos senão a base ampla, Fraca, Nossa,
Estrume Estranho de um País já Destruído e Irremediável.
oiu
NÃO PERGUNTE
LKJ
«Consideremos como uma menção de Cavaco Silva aos salários dos executivos de empresas foi recebida em Portugal. Os adjectivos mais usados: "populista" e "demagógico". Encontramos também "infeliz" e "insólito". Na Quadratura do Círculo, da SIC, o panorama foi tão variado como o electrocardiograma de um cadáver: Pacheco Pereira optou pelo "populista e demagógico", Lobo Xavier pelo "infeliz e insólito" e Jorge Coelho achou que "não fazia sentido" falar do assunto. O Presidente foi até acusado de, crime dos crimes, "ter piscado o olho à esquerda".
lkj
A reacção generalizada foi resumida pelo Jornal de Negócios assim: "Falar em desproporção salarial é "ceder à demagogia"." Reparem bem, não é fazer algo. Não é pensar em fazer. É simplesmente falar do assunto. Ou, como fez o Presidente, "interrogar-se" sobre se seria "justificada" a diferença entre os salários dos administradores e os dos colaboradores.
lkj
Temos às vezes a impressão errada de que a maioria da opinião publicada em Portugal é conservadora. Infelizmente, é pior do que isso: limita-se a ser uma reacção instintiva de protecção do statu quo.
lkj
Curiosamente, é preciso ir à imprensa económica para encontrar uma cantiga diferente: um editorial do Jornal de Negócios considerou que a referência de Cavaco Silva "faz todo o sentido". E onde lemos, já há bastante tempo, que os administradores do BCP estavam a "ir ao bolso" dos seus accionistas com os altos salários de que usufruíam? No Wall Street Journal, nem mais nem menos. Em Portugal seria impossível escrever com uma clareza destas.
lkj
Porém, como revelou um estudo especializado da Mercer, Portugal é o país da UE em que a diferença salarial é maior: os administradores ganham 32 vezes mais do que os funcionários, contra 15 vezes em Espanha, 14 vezes no Reino Unido e dez na Alemanha. E isso não é só porque os funcionários ganham pouco: os altos gestores portugueses ganham os segundos melhores salários da UE, em termos absolutos, só atrás dos ingleses.
lkj
E o que nos dizem a isto os defensores do statu quo? Que os gestores, para serem de qualidade, têm de ser bem pagos. E que os gestores portugueses têm de ser bem pagos porque a qualidade não abunda. Sim, é contraditório. Sim, é circular. A conclusão é que os gestores portugueses têm de ser extravagantemente bem pagos porque sim.
lkj
Em 2006, os administradores do BCP receberam 3 milhões de euros de vencimento, cada um. Entretanto, esses génios da finança minaram a credibilidade do banco, perdoaram empréstimos a familiares e amigos e, só nos últimos seis meses, o banco perdeu um terço do seu valor.
lkj
Pior ainda, corre uma investigação por suspeitas de terem enganado a bolsa criando empresas off-shore para comprar as suas próprias acções.
lkj
Pergunto-me se não deveríamos antes contratar gestores alemães, que ganham menos e não consta que sejam piores nem mais vigaristas. Mas não quero ser populista nem demagógico. Eu sei que nos EUA toda a gente faz este debate. Na Alemanha, o Governo conservador de Angela Merkel fala em intervir para tabelar os salários dos gestores. Mas em Portugal é melhor nem nos interrogarmos: é insólito.»
lkj
Rui Tavares, [Público assinantes]
lkj
CAPITALISTAS MEDROSOS
lkj
«Imaginem que eu recebia um convite para ir escrever no Público. Batia à porta do director do DN e dizia-lhe: "Pagam-me melhor e eu vou-me embora. Mas queria continuar ligado ao DN. Se a coisa correr mal eu volto." João Marcelino passava-me a mão pelo ombro, dava-me uma pancadinha nas costas e retorquia: "Ó João Miguel, estás à vontade, pá. Vai lá para o Público. Cá estaremos se te aborreceres."
lkj
Seria possível esta conversa acontecer no mundo real? Eeerh não. Mas o pessoal dos bancos não vive no mundo real. E por isso Armando Vara pediu à Caixa Geral de Depósitos, com todo a lata do mundo, que o deixe ir para o BCP mantendo o vínculo à casa. Convenhamos: isto é ridículo.
lkj
É certo que Armando Vara se transformou no homem que o País adora odiar.
É amiguinho de Sócrates, fez carreira a partir do aparelho do PS, chegou longe com poucos estudos,
esteve acusado de trafulhices várias, recebeu um megatacho na administração da Caixa.
Mas ele também não faz muito por melhorar a sua popularidade.
lkj
Vara é a prova de que mesmo dentro de um administrador milionário bate um coração de sindicalista,
desejoso acima de tudo de manter um emprego para a vida.
Os capitalistas desta terra parecem aqueles jovens adultos
que querem muito parecer emancipados e ter o seu próprio apartamento,
mas que depois vão aos domingos a casa da mamã deixar a roupa suja e buscar tupperwares com comida. Armando Vara não se contenta só com os tachos
- ele quer um armário para os guardar.»
lkj
João Miguel Tavares, [Diário de Notícias]

6 comentários:

quintarantino disse...

Homem de Deus... e as "bejecas" que emborcamos ... os cenários que alimentamos ... tu de esferográfica em punho a traçar linhas na toalha de papel lá da cervejaria, dando corpo às efabulações que o António havia gizado antes ... olha que semeou-se por ali uma semente capaz de dar azo a uma revoltazita, não?

Tiago R Cardoso disse...

Eu que não gosto de polvo, por acaso até apreciei, o problema é fazer conspirações a meio da semana e entrar pela noite dentro, só para espíritos revoltosos mais duros, estou aqui que nem posso...

Robin Hood disse...

Vim cumprimentar-te.

Eternamente disse...

Não deixes que os copos te desviem daquilo que realmente és: um homem honesto, que sabe expor e vive com tesão.

quintarantino disse...

ó Josh, tu dize homem... o Penas ter-se-á descoraçado? ninguém o viu em lado algum hoje? catano ...

antonio ganhão disse...

Bem o Penas trabalha e não é funcionário público... e hoje era dia da escolinha.

Fez bem ao Josh as leituras do Foral, mas depois quem ganha mais num mês o que nós ganhamos num ano, ri-se das nossas revoltas.

Nem a leitura atenta e saboreada de um foral nos salva!