Sexta-feira, Maio 23, 2008

PORTUGAL OU TRINTA E TAL ANOS DE TRETAS



Depois do vinte e cinco de Abril de 1974, Portugal foi um Rato Mikey
levado a passear pelos deslumbramentos ocos de uma Elite Política Perene,
essa que esteve sempre lá, sempre no meio da Decisão, sempre lá!,
no cerne do erro, da persistência no erro, na reedição do erro, na reinvenção do erro,
na reincidência no erro, na errância no erro, no erro pelo erro:
lkj
«Quando regressaram as caravelas e nos vimos reduzidos a este pobre e estreito naco de território o que nos foi proposto (e por nós indiscutivelmente aceite, legitimado e reconfirmado) foi um determinado tipo de desenvolvimento. Um determinado tipo de desenvolvimento que, exceptuando algumas poucas verdadeiras pérolas, tudo o mais que nos ofereceram foi pechisbeque. E hoje, apesar de tudo, é por essa via que persistimos (nem vejo quais serão as forças capazes de quebrar essa dinâmica). Vamos concretizar a alta-velocidade ferroviária. Um erro! Vamos fazer a terceira travessia do Tejo em local errado. Um erro! Vão ser lançadas a construção de mais auto-estradas. Um erro! Foram autorizadas a instalação de mais (no total do território) uma dúzia de grandes superfícies. Um erro! Foi autorizado o assalto por parte da indústria de hotelaria, de veraneio, da indústria do turismo, ao complexo do Alqueva. Um erro! Estes serão alguns dos “crimes” que estão a ser cometidos. A estes acrescem os “cometidos” (e foram cometidos, com o nosso beneplácito, por falta de visão da nossa classe política e por igual falta de visão dos nosso capital): cedemos, em troca de Fundos Estruturais (que não reestruturaram nada), a liquidação da nossa industria e frota pesqueira, da nossa industria vidreira, da nossa pobre e pequena agricultura, abandonámos, depauperámos, queimámos a nossa pobre floresta, não aguentámos a nossa indústria naval, a nossa média industria metalúrgica, a nossa média metalo-mecânica... liquidámos ou deixamos que fosse liquidada e nem tentámos a reconversão. Oito erros! Criámos serviços ou melhor não criámos serviços... criámos, na maioria dos casos, redes imbrincadas por meandros de complexos organigramas de dependências funcionais de carácter administrativo que mais não foram, décadas a fio, de fazer com que o que poderia eficazmente ser feito por duas pessoas passou e tinha de ser feito por quatro. Para não ir mais longe fico-me por este exemplo: em Portugal até ao ano passado, na industria seguradora, existiam mais mediadores, angariadores e corretores do que existiam no Reino Unido. Este é um exemplo de muitos!»

GOVERNAM ELES UM PAÍS DE PARVOS?



Honestamente, depois de introduzido pelo Público o fabuloso mecanismo do Twingly,
que permitu uma interacção muito rica, intensa e interessante,
entre sucessivos artigos, notícias, bloggers e leitores-comentadores,
tornei-me num habitual Pingador, twingly user,
mas também num atentíssimo e interessadíssimo leitor dos Comentários dos Leitores.
lkj
A informação que circula só aí é fabulosamente pertinente, ajustada, mais uma vez rica,
permitindo confirmar, excretado em certos casos o jóio dos grandes alijadores de autonomia
e sentido crítico porque babam sempre pela voz do dono,
aquela asserção de que muito gosto, ouvida certa vez a António Câmara,
e que tem a ver com a modernidade de uma sociedade da partilha da informação,
uma sociedade da transparência e da participação bem amplas
pelo alargamento de uma base de saberes acessíveis
e que fundamente o mais diverso tipo de decisões das instâncias para isso por nós indigitadas.
O caso paradigmático do Aeroporto não pode ser esquecido,
ainda que os custos exorbitantes que procuramos evitar afinal se mantenham
devido às necessárias travessias complementares.
Sociedade que deveria ser a nossa, mas não é. E já sabemos porquê, bastando,
para abreviar, lembrar os últimos três anos de unilateralismo, de rigidez decisória,
de estupidez e indiferença às aspirações e inquietações da Sociedade Civil
aos mais diversos níveis para o que a metonímia perfeita
são os processos tantas vezes irrazoáveis da ASAE.
Pela parte vemos o todo.
lkj
Dir-se-ia que os últimos três anos viram um impensável retrocesso da Democracia
por políticas de grande frigidez social, de grande fixação em números e indicadores,
de contorção das pessoas e dos seus condicionamentos naturais
dentro de esses mesmos números e indicadores obedientes e lisonjeiros
para consumo EuroComunitário e ostentação artificial, coisa desmobilizadora!,
políticas de reforço dos grandes Monopólios Económicos Nacionais,
dos grandes negócios de Privados apadrinhados pelo Estado-com-o-olho-no-Privado,
numa estranha opacidade entre o que seja o Interesse Particular e o Interesse Geral,
negócios tantas vezes de escasso ou duvidoso impacto social,
políticas das grandes jogadas de bastidores para favorecimentos de apaniguados,
consagrando, enfim, e em tempos absolutamente proibitivos para o País,
o pernicioso triunfo das inúteis acessorias de luxo tão irrealistas e tão criminosas,
das sinecuras de encher para os boys, dos grandes shows para inglês ver,
em que o investimento na Imagem (Tratado de Lisboa/Nova Alcântara) esmagou
e tornou irrelevante a promoção integral do máximo de pessoas
e do máximo de boas ideias de investimento reprodutivo.
lkj
É nessa medida, na medida em que nada disto escapa ao cidadão atento
e sofredor com as putices de Estado (que a gaguejar muito nos tenta vender mentiras)
que tenho eleito, às vezes dentre centenas de comentários no Público,
um que apodo de Comentário de Ouro e que, em dada matéria,
me parece confluir perfeitamente
com o que eu próprio penso e concluo, além de me parecer o mais fulgurante,
o mais justo, certeiro, cheio de graça e de pertinência possível.
É o caso deste cujo link que não deixo de agregar:
lkj
23.05.2008 - 03h09 - Jorge Ribeiro
«Se a situação não fosse tão grave, até dava para rir. No debate de 4.ª feira, o PM, a propósito dos aumentos dos combustíveis, demonstrou que pensa governar um país de parvos. O argumento foi a existência de uma portaria que fixa a fórmula como é determinado o preço dos combustíveis, de 2003 - da responsabilidade do governo do PSD e PP. Com clara reserva mental, o PM omitiu dois detalhes: 1.º - a tal portaria justificou-se na altura pelo facto de o anterior governo (do PS) ter congelado o preço dos combustíveis e ter alegadamente provocado uma situação difícil para as petrolíferas (leia-se Galp). Solução pontual para regularizar os "prejuízos" - que se contabilizaram em milhões de euros de lucro. E liberalizou-se o preço dos carburantes, pois a livre concorrência é benéfica para o consumidor - está à vista! A cartelização funciona impunemente com a benção de Sócrates. Em impostos o seu (des)governo arrecada verbas impensáveis e não divulgadas. 2.º: o PM e o seu governo não terão poder legislativo? Se ele pensa assim, que vá estudar Direito, porque "engenheiros" a mandar é o que se vê. Pode e deve revogar a portaria através de outra que fixe novas regras. Quem pensa ele que engana?»

Quinta-feira, Maio 22, 2008

O GOLPE DA GALP


dentro do raríssimo, urgente e vital Politicamente Incorrecto para enfrentar
as questões que temos actualmente entre mãos em matéria de preços de combustíveis.
Não é tanto as soluções o que está em causa,
são sobretudo as perguntas que ninguém ousa formular directamente a quem de direito.
E não ousam ou porque têm medo ou porque os perguntados
têm o estatuto inatacável não dos argumentos, mas do poder puro e duro,
porque na escala portuguesa e por vias travessas são e serão sempre a voz do dono,
do amigo do dono, do parente do dono, do conhecido e devedor de favores do dono.

A MULHER DE VERMELHO. TEMPOS DE ÓPIO E DE LOGRO


1. A mulher vestida de vermelho que entrou no Pub ao início da noite
e que quase no fim dela saíu satisfeita e indignada
tinha um protesto veemente a depositar nos meus ouvidos:
queixou-se-me do moço mais desdentado,
mais queimado da ganza, mais desorientado da erva,
mais envelhecido precocemente, mais bêbado e inócuo do mundo,
fez-me queixa do Zé Trinas. Que lhe tocara no braço, que lhe pedira para dançar
e que isso, mais o facto de ele parecer vestido com um pijama, cheirar mal,
não ter um olho e obviamente não ter dentes, a indignou
e por um cisco não lhe deu um par de estalos,
além de ter sido grosseira ao gritar-lhe: «Nem pense!»,
admitiu-mo a mulher de vermelho. A mulher de vermelho era empresária,
disse-mo com todas as letras, perorou dos telemóveis da empresa,
sublinhou o seu carácter e o seu sucesso, vincou que não se mistura com merda.
lkj
E é verdade. O Zé Trinas está na merda. A mulher de vermelho está apaixonada por si mesma.
É uma empresária de sucesso. Tem uma frota de carros no Aeroporto.
E o sucesso é uma coisa incontível, tem de se falar dele a pretexto de Zés Trinas irrisórios.
Tem de se ser cretino por causa dele, do sucesso transbordante,
e separar as águas. «Os bêbados e mal comportados não devem entrar aqui, não é?» É.
- Mas o moço de que me fala nunca teve queixas.
Nunca se comportou mal. É o Zé Trinas. Um tipo que não faz mal a uma mosca,
embora o hálito do Zé seja do tipo invasivo e insecticida, ó minha paciência de Job!
É a primeira vez que um protesto é formulado por causa de um jovem que tira os dentes
para falar comigo, que do seu metro e noventa (fez a tropa de Comandos
e ainda tem resíduos de uma certa estrutura atlética!)
se dobra para me dizer ao ouvido alarvidades e irrelevâncias solenes
como por exemplo vir pedir-me a autorização húmida e perdigotante
para colocar as suas tralhas nos cabides que supervisiono,
assim como para tudo o que lhe venha à cabeça.
lkj
O Zé é um chato. O Zé é inócuo. O Zé é o bobo e o perdido, o naufragado e o derrotado,
que justamente deveria recordar mortalidade à mulher imortal de vermelho,
ela que provavelmente passará desta vida competente e bem sucedida
directamente para a próxima a julgar que comanda e dirige frotas com sucesso
e que terá sucesso para todo o sempre, ámen.
Mais uma a precisar do orgasmo da humildade
e ou da dádiva divina de, por uma vez, se apaixonar por outrém que não ela mesma.
lkj
2. Fora isso, ia uma euforia pelos cafés do Porto
por onde fui passando de caminho para o Pub,
feixes de homens e de jovens juntavam-se no exterior
para fumar em conjunto
como hienas se agregam sôfregas sobre um mesmo cadáver.
Entre o fumo e o olho pisco para o ecrã interior onde um jogo decorria
iam todos certamente trocando banalidades entre si, frases novíssimas
cheias de «Eh, pá, viste aquele penalti?».
O ópio do futebol é pródigo a alienar e servir-se-á por estes tempos prodigamente.
lkj
vai correndo para o mar do oblívio e ninguém nos defende.
Ninguém, por uma vez, ousa a Verdade para connosco.
Tristeza de País!

ESTE PAÍS QUE NÃO SE INDIGNA NEM SE REBELA


Mais notícias da sem-vergonhice que nos sepulta!
Os cemitérios aliás estão cheios de gestores
e de acessores de imagem, para parafrasear uma ideia do João Gonçalves.
kjh
Tão grave é haver mentes gestoras cujas prioridades com o nosso dinheiro de contribuintes
são desoladoramente irrealistas e despudoradamente ofensivas do País que temos
e da cada vez maior multidão dos seus cidadãos desiguais para menos e para pior,
como ser este um Povo não apenas desinformado, mas que mesmo informado disto e de pior
é incapaz de se organizar, incapaz de se levantar, incapaz de se rebelar!
Talvez só mesmo morto o português proteste qualquer coisita que se veja
e mude um estado de coisas intolerável para si e para o seu País,
porque vivo tem mais em que pensar.
lkj
Grave mistério e admiravelmente confrangedor
esta gente com abundante futebol nos cornos e escassa cidadania no coração!

Quarta-feira, Maio 21, 2008

E A BOA MOEDA NÃO EXPULSA A MÁ?


A má moeda é que circula e governa. A boa moeda emigra
e abstém-se de se sujar com Portugal.
lkj
E agora que as famílias colapsam e que as políticas económicas entram
em falência, porque é naturalíssimo que os números não da revisão em baixa,
mas já da recessão técnica
se declarem mais tarde ou mais cedo,
toda a música dos pobrezinhos, dos mais frágeis, dos mais necessitados,
dos mais periféricos do bem-estar, dos que passam fome,
dos que não são Armandos-Vara-BCP nem Fernandos Gomes-Galp,
dos que não são Coelho-Engil e toda a gangada que se amanha bem
sob as profícuas tetas do Aparelho do Estado,
gente anónima sem qualquer transparência que lhes justifique os ganhos abusivos,
de cuja ceva (acessorias de não fazer um caralho, as sumptuaridades, as manigâncias,
os luxos filhos da puta)
nunca se fala nem à direita nem à esquerda,
talvez porque todos os parlamentares (esses papagaios do 'muito bem' no hemicíclo)
aspirem a tais tetinas um dia,
tudo isso será a música nova com que também nos não enganarão.
kjh
Há discursos e palavras só muito recentes para com os mais desfavorecidos,
cheias de coitadinhos sociais dentro que são odiosas e geram asco porque rescendem a falsidade, à mais desavergonhada hipocrisia e indisfarçável calculismo.
Há agora grandes anúncios do Executivo a pender para o social,
com a boca cheia com as vítimas da crise
que nos não podem mover a mais leve emoção.
São uma treta, uma formalidade,
um sentimento insincero e absolutamente ausente
a ignorar e a desprezar

«MODERA-TE», TU DISSESTE!


Os e-mails desagradáveis que tenho recebido
e as mensagens assassinas de anónimos que tenho de moderar multiplicam-se
e na verdade é preciso ter estômago para ler certas pontas de faca
apontadas ao meu coração, rouquejando elas que ou me calo ou me fodo.
lkj
A bloga é na verdade este lugar espinhoso a par de maximamente estimulante.
Mas vivemos afinal numa Democracia em que a palavra 'democracia',
à força de se pronunciar autohipnoticamente, parece chegar e sobrar
para que se pense estar efectivamente numa. E nada mais falso.
A verdade e a democracia são metas ainda e utopias.
Isto ainda é uma Impunecracia, um lugar ainda regido pela lei do mais forte
e não pelo Princípio da Lei e do Direito sem apelo nem agravo.
Se assim não fosse, quem nos apascenta trataria de operar a medidas
tendentes a fazer da nossa sociedade uma sociedade mais integrada,
mais justa, e não fomentar ainda mais este fosso crescente entre ricos e pobres.
lkj
Os e-mails e os anónimos dizem-me também que a verdade e a investigação dos factos
são uma coisa abjecta e destestável a muito cidadão comum
que preferiria não ser molestado com ela e por ela perder as ilusões e os prazeres que ainda lhe restam. Não saber e não pensar muito nas coisas e nos problemas de todos,
mas só em futebol, faz com que na mente de muitos amigos meus e anónimos
não haja mais problemas que pagar a prestação do automóvel e pouco mais.
ljkjh
Nasci num tempo intermédio. Ainda havia a Fé como caminho de Céu
ou a Ideologia como certeza de igualizar o planeta e estabelecer aqui o Céu Comunista.
Hoje, mortas as metas e as ideologias, há somente um individualismo atomizador
das pessoas, uma fractura entre o bem comum e a cupidez desenfreada de cada um.
O cigarro murmurador e o fino-imperial ocioso e desassuntado pelas esplanadas
preenchem uma ideia de lazer nos meus amigos enquanto me dizem que me modere,
que escrevo de mais, sou violento de mais, duro de mais, mesmo se tenho razões.
Os anónimos dizem-me que morra, que estou a morrer, que estou elencado
nas ementas e listas de reeducação mental
pelos bufos e requintados filhos da puta de que o regime se tece.
lkj
Enfim, se o dia-a-dia é tóxico e é melhor não lhe tocar, não investigar mais um pouco,
não estudar, não avaliar, não comparar, não acrescentar variáveis e preencher
lacunas da realidade que a todos diz respeito, é mesmo porque querem que morra
para seguirem descansados no seu descaso,
pois para eles não vale a pena remar contra a maré.
Nasci num tempo intermédio, ainda havia Fé num Céu Fraterno,
numa Justiça Diva que tardaria mas não falharia.
Ainda havia Das Kapital e a utopia comunista servida a dialéctica e a kalashnikov
para estabelecer, quer quiséssemos quer não, o Céu na Terra.
kljh
Sou, portanto, feito de remar contra a Maré.
Remar contra a Maré é a minha natureza. Até que a Maré mude!

ÉTICA DE PLÁSTICO


Umas das coisas mais belas da história humana, e da história portuguesa recente,
é poder ler o artigo ou a carta aberta que o Ministro do Ambiente Sócrates
escreveu um dia, 1 de Março, 2001,
em reacção a isto de José António Cerejo e confrontá-la,
parágrafo a parágrafo, com os tempos que vivemos sob a sua pata insensível.
lkj
A torção da liberdade informativa para que se inflicta do seu livre curso a bem do público
e sirva ou proteja basicamente a quem lhe pague.
As pressões infinitas sobre jornalistas e as suas matérias, notícias e factos relevantes
para que não saiam ou saiam atenuados e inócuos, pois a caixa dos jornais é todo um discurso.
A conspiração prolongada contra os cidadãos, cercados de taxas por todo o lado,
aos quais se vendem mentiras crassas e a quem em nada se respeita a inteligência,
a capacidade de avaliar a idoneidade ou falta de ela de quem os governa.
lkj
Essa carta é portanto asquerosamente bela.
Nela, vocifera-se pela ética. Ética para aqui, moral para acolá
e o País é hoje uma coisa em estado de choque
pelo mau desenlace das políticas económicas
e em estado de choque por ter suportado linhas de rumo inexoráveis,
inflexíveis, confrontacionais, donde todo o bom senso se ausentou,
onde a liquidação das economias monofamiliares se consumou sem dó nem piedade,
sem o dom das moratórias só para os fortes ou das procrastinações e dilações,
só para empórios, linhas de acção de cuja voragem
nem as IPSS ficam a salvo porque nada se pode opor
à sanha higienista, normalista, tiranicamente inflexível que se alega vir de Bruxelas.
Mas pela parte tomamos o todo.
E pelo todo flagramos a parte podre no seu show pomposo a sós.

Terça-feira, Maio 20, 2008

NICOLAU SANTOS E A CASA CADENTE DA ECONOMIA NACIONAL


O cenário que Nicolau Santos traça para os próximos tempos é mau para todos,
mas é uma lição para o Governo: nunca se viu uma tão impante atitude unilateral
num Governo Português, uma tão certa certeza de rumo, viesse quem viesse.
Todas as medidas eram sempre luminosas e inquestionáveis,
todas as medidas prescindiam da nossa inteligência e do nosso contributo íntimo,
tudo seguiria pelo melhor dos mundos porque sim,
porque eles o diziam. E era mentira.
kjh
O tempo de dizer que a culpa era dos Governos anteriores
transforma-se agora em ridicularia.
«Seria completamente diverso agora se o governo tivesse feito
do lado da despesa o que tinha de ser feito.
Por exemplo concretizar o PRACE.
Pelo contrário, andou a empatar o mais que pôde.
O Governo-Partido Socialista, para equilibrar as contas públicas
socorreu-se de tudo, tudo, tudo, tudo, tudo o que mexia,
tudo o que pôde protelar, até ao limite, ter de emagrecer os Quadros da Função Pública,
onde o País tem sangrado a bom sangrar desde há décadas.
O PS-Governo Socratino vai continuar a castigar os consumidores de combustíveis,
se necessário for elimina benefícios fiscais, caso nisso veja urgência,
aumenta os impostos, de preferência os indirectos,
faz de tudo, procura todas as vias, sendo que o último,
o derradeiro recurso será mexer com a função pública,
o que, como temos visto, nem sequer se coloca porque ideologicamente é uma heresia
e é uma questão idiossincrática: no dia em que o fizesse,
José Sócrates perderia o partido e o PS passa a partido da oposição por muitos anos.»
(Pleitos, Apostilas e Comentários).
lkjh
O PRACE implicava a coragem para reorganizar o Aparelho do Estado,
revendo de alto a baixo as suas funções. Não houve coragem para isso.
E por isso mesmo a derrota das Políticas é ainda mais gritante e deplorável.
Se não é a partidocracia sustida e reorganizada
na sua posição de Mama Desproporcionada Estratégica
e Desporporcionada Estratégica Ordenha de Dinheiros
e Favores do Estado a desencadear a queda precoce do Governo,
será a exasperação pura dos cidadãos e dos comsumidores,
apertados como bagaço-mosto no alambique,
a ditar o fim clamoroso de este consulado triste,
pesado, deprimente, errado e erróneo, chamado Socratura:
LKJ
lkj
«A forte revisão em baixa do crescimento previsto para este ano prova que 1) a economia portuguesa nunca poderia ficar imune à crise internacional, como primeiro-ministro e ministro das Finanças nos andavam a tentar fazer crer; 2) que a situação é mais grave do que se supunha.
lkj
Com efeito, cortar a previsão de crescimento em quase um terço (31,8%),
passando-a de 2,2% para 1,5%, é brutal e remete-nos para próximo do crescimento de 2006 (1,3%). Mas o mais grave é que, se este ano vai ser mau,
o princípio do próximo marcará provavelmente a parte mais funda da crise,
o que, por outras palavras, quer dizer que o crescimento em 2009
pode ainda ser pior que o de 2008.
lkj
Poderia ser diferente? Dificilmente. Mais de 70% das exportações portuguesas
vão para a União Europeia, cujo crescimento também abrandou significativamente.
Mais importante, o nosso principal parceiro comercial, a Espanha, para onde as nossas exportações estavam a crescer bem acima da média europeia,
está igualmente num processo rápido de desaceleração,
com consequências para as nossas vendas ao exterior.
lkj
Sem o motor da exportação, também não existe o do consumo interno,
porque as famílias e empresas estão endividadas e receosas em relação ao futuro.
Quanto ao investimento, tenderá a ser adiado, face ao encarecimento do crédito
e à sua rarefacção.
lkj
Portugal sofre ainda dois outros choques: o da subida das matérias-primas, ou mais especificamente, dos produtos alimentares e do petróleo. A nossa balança comercial vive há longos anos profundamente desequilibrada e o endividamento dos agentes económicos no exterior é também muito elevado.
lkj
É certo que, nos últimos dois anos, a recuperação nas contas públicas
torna o país mais preparado para enfrentar a crise.
Mas uma coisa é estar mais bem preparado, outra é dispor de uma situação orçamental
que lhe permita deixar flutuar os estabilizadores automáticos,
tentando apoiar o crescimento com investimento e apoios públicos.
E essa margem de manobra existe para Espanha mas não para nós.
lkj
Deu apenas para descer um ponto no IVA,
mas não dá sequer para descer outro ponto em 2009,
pela simples razão que as receitas fiscais vão também levar um forte rombo.
lkj
Ora, como o peso das receitas fiscais na redução do défice não foi despiciendo,
é provável que, a par de um menor crescimento
- e é preciso topete para dizer que, mesmo assim, o desemprego vai diminuir! -,
o país também tenha de se confrontar com a agourenta profecia do comissário europeu Joaquin Almunia, segundo a qual, Portugal,
que deixou o ano passado de estar na lista dos países com défice excessivo
(acima de 3%), voltará a cair nessa situação já este ano.
lkj
Tudo somado, vamos passar pelo menos mais dois anos (este e o próximo)
a crescer abaixo da média europeia: serão oito anos a divergir com a Europa!
Se esta situação será boa ou não para o Governo
quando chegarem as eleições de 2009, é algo que dependerá da forma
como o Executivo lidar com a frustração dos eleitores
e com o opositor a Sócrates por parte do PSD.
lkj
Mas o certo é que o Governo vai chegar às eleições
com uma situação económica quase tão má como quando chegou ao poder.
Não era isto que estava previsto pelos estrategas de S. Bento...»
lkj
Nicolau Santos

EROSÃO DA NOSSA PACIÊNCIA


As intervenções do Presidente da República relativas às Políticas do Governo
estão a chegar à perfeição no plano da Ambiguidade Opositiva porque se por um lado
parece elogiar as pseudopreocupações de Pinho, coisa mais que duvidosa,
por outro coloca-se na posição de quem quer saber urgentemente que irregularidades
justificam esta escalada anormal dos preços dos combustíveis:
«Lembrando as declarações de Manuel Pinho, que ontem se afirmou
muito preocupado” com o aumento dos combustíveis,
Cavaco Silva afirmou, esta manhã, em Braga,
que se o ministro pediu a intervenção da AdC
“então é porque desconfia de qualquer coisa”».
lkj
A verdade, porém, é que sempre que um político responsável (ministros, PR)
tem intervindo e opinado sobre estas matérias debaixo do seu nariz,
soa miseravelmente a falso, a falsa solidariedade para connosco:
seja sobre o decréscimo do investimento estrangeiro em 50%
por causa da desatractividade fiscal no País,
seja sobre a rapina e a falta de escrúpulos implícitas nestes preços dos combustíveis
pela concertação cartelista na sua subida sistémica,
conduzindo à fuga massiva dos consumidores para Espanha
e a um estado de pré-rebelião em muitas empresas e pessoas,
factores, enfim, de decapitação económica do País e das pessoas
- tudo nos parece como despudorado paleio de encher.
lkj
Entretanto, esta política do saque desalmado ao cidadão
de pilhagem estratégica das pessoas como forma perpetuamente penalizadora
de o Estado resolver os seus problemas orçamentais e atingir certas metas rapidamente,
ignorando resolver os próprios vícios, abusos e lastros que não ousa atacar,
está a desgastar-nos a paciência e a levar-nos ao limite.

MIGUEL SOUSA TAVARES, O FUMO E A BLOGA


Notoriamente, pode ler-se aqui, Miguel Sousa Tavares lida mal com a bloga
e lida ainda pior com ela que outros desconhecedores e preconceituosos
como o próprio Procurador que, quando no Parlamento a ela se referiu,
fez tábua rasa de esta nova e autêntica dimensão da cidadania,
de preciosa reflexão multilateral aberta, de riqueza pessoal torrencial e inesperada,
bem como de todos os defeitos e contradições da espécie humana.
lkj
Notoriamente também, as posições que foi tomando no diferendo Professores/Ministra
sempre em favor da Ministra e muito mal informado dos conteúdos e processos
abjectos empregados pelo Governo e por esta filha da Extrema Esquerda,
redundaram em não poucas deserções e desapontamentos com ele.
lkj
A questão do fumo intercontinentalmente fretado do Primeiro-Ministro
trata-a de forma cómica e ambígua: «Mas também digo que é preciso ter um estômago
à prova de vómitos para, sendo jornalista [Luciano Alvarez] convidado
a bordo do avião do Governo,
aproveitar a oportunidade para denunciar as fraquezas íntimas dos governantes.
Sim, já adivinho a justificação: interesse público na notícia.
Talvez sim, mas não é a mensagem que está em causa, mas os métodos do mensageiro.
Eu, se fosse o primeiro-ministro, da próxima vez dizia-lhes: "Agora vão em voo comercial e paguem os vossos bilhetes". Mas eu, se fosse primeiro-ministro,
não teria aprovado esta lei nem me esconderia para fumar.»
lkj
Como se os jornalistas não tivessem andado ao moche nos helicópteros da Venezuela!!!
A questão central é que, em matéria de fumo ou de caça, MST deixa de pensar
e de ter uma visão equidistante dos problemas para se meter no cerne deles.
Mas não há problema se nessas matérias deixa de pensar,
porque os certeiros comentários que recebe
encarregam-se de o ajudar a pensar e a pensar-se.
E há sempre um Comentário de Ouro.

Segunda-feira, Maio 19, 2008

GOSTAM DESTA POSIÇÃO? II


Fui, pela primeira vez, mal necessitei, abastecer na Bomba de um centro comercial.
Não estou para estar naquela enrabada posição servil e indiferente à Galp e à BP
em face das habilidades sem piedade em decurso
e se posso poupar em média cinco ou muitos mais cêntimos/litro, não há que hesitar.
lkj
Local amplo e muito bem servido de condições, agora pertencente ao Continente,
chegado ali, só fiquei desapontado pelo facto de sermos, pelo menos à hora a que fui,
tão poucos, ali, na habitual ou ocasional situação de rebelião visionária
contra os cabrões nacionais do Cartel Petrolífero
mais o Estado que a eles se associa e deles beneficia.
lkj
Era domingo, dia de domingueiros, e provavelmente
a multidão dos pagadores de impostos e de passentos obedientes à fatalidade
aldrabona de terem de ser estes os preços da mentira,
enquanto ainda não sobem mais, coisa que acontecerá lá para o Verão,
andava sobretudo a passear por essas festas populares que agora afloram
no Grande Porto e por esses litorais ou, ainda mais plausível,
a assistir ao tédio da Taça de Portugal.
Confortei-me a pensar nisto como atenuante.
lkj
Meu Deus, que ao menos nas outras horas, as gasolineiras sintam o decréscimo
dos seus lucros, o desvio dos seus clientes, a perda a pique dos seus ganhos!
Eu vou à luta! E tu, leitor distraído, vais à luta?

ARMAZÉM DE ENCÓMIOS


Domingo, Maio 18, 2008

BATER NO PCP É PAROLO


com a marreta estafada de velhos argumentos,
história do Menino e do Lobo contada pelo Lobo Verdadeiro.
O Poder Absoluto existe e está na mão do Governo, não do PCP.
O Aparelho do Estado está nas mãos do PS, não nas do PCP.
lkj
Do ponto de vista da verdade dos factos,
o PCP não é ameaça para ninguém, mas um último reduto de equilíbrios
na presente erosão da pessoa sob a sanha do lucro.
Acredito que esta força partidária verá reforçada amplamente
a sua votação nas próximas eleições, dada a presente descrença no PSD
em autofagia e remissão exclusiva ao ridículo e a questões de lana caprina.
lkj
Foi o PS, com José Sócrates, que estalinizou o País, não o PCP,
foi ele que inventou Sibérias simbólicas castigadoras
da moral nacional desnecessárias, não o PCP,
foi ele que desgastou, hostilizou e desmoralizou amplos sectores de massa crítica
e profissional da nossa sociedade, não o PCP,
foi ele que aprimorou técnicas de açambarcar pelo Estado em detrimento da Economia,
foi ele que foi além na fusão do Estado consigo mesmo-PS, não o PCP,
foi ele que manteve intocáveis os privilégios sumptuários
das chefias e chefias intermédias cobradoras de favores que quando mamam,
mamam em silêncio e sem qualquer transparência e justificação pública e publicitada.
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Até prova em contrário, a mentira é-nos servida e não se retracta.
Trata-se isto de um grande movimento silencioso, abjectamente clientelar,
que faz o que quer em cima do Povo, nas costas do Povo,
sem que o Povo compreenda, avalie, tome consciência e aja
contra o que se anda a fazer para mal e atraso de todos.
O PCP não obstará em nada a acordos e boas concertações.
O Governo quer, o Governo faz. Pode. E toda a gente se rende.
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Quer bater no ceguinho-PCP? Vá o PM bater no ceguinho na Venezuela!

MOZART: TRIO K. 502 - II. LARGHETTO


Mozart: Trío K. 502 - II. Larghetto from Aula de Cámara on Vimeo.

Sábado, Maio 17, 2008

MONOPUTÓLOGO


Ela fazia anos. Chegou só, como sempre, entre as poucas mulheres que ousam sair sós.
No Pub, cantaram-lhe e tocaram-lhe os parabéns e ela, que passa o tempo a sorrir,
sorria ainda mais e deslizava na pista. Já a vi com tantos homens!
Porque ao sair do Pub nunca sai só. Faz-se levar por alguém novo ou de alguma outra vez.
O próximo é sempre o mais importante. E, de facto no final de esta noite,
sairia com um cinquentão, homem simpático e manso,
que me cumulou com uma suculenta gorjeta de um euro e meio,
satisfeitíssimo com o engate e o namoro com a brasileira Jociara.
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No início da noite, porém, Jociara veio fumar pelo menos três vezes cá fora
e, sem me consultar, fez de mim alguém que a ouviria em confissão.
(eu estava terrivelmente mal humorado porque, oito meses depois
todos os trâmites consabidos e rotinados,
o meu patrão resolveu chamar-me agora a atenção
dos meus deveres de repositor de stock de bebidas nos frigoríficos
e de outros meus consabidos deveres,
um stock que antes se renovava vertiginosamente a cada dia e hoje,
dada a recessão de clientela, muito a espaços carece de se renovar, e revoltei-me!).
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Mal falei. Acenava apenas. Mostrava compreender à medida que se desfiava.
No vaivém dança que dança, bebe que bebe, fuma que fuma, retornava ao seu assento
e convocava-me a atenção, prosseguindo a sua enorme narração de vida.
Quem, saindo, nos via ali lado a lado,
tinha incrustado no olhar o que por inúmeras vezes me haviam sussurrado:
«Tão linda. É pena ser puta!»
E por longos minutos, Jociara disse-se.
Disse-se monoassuntando um seu relacionamento prolongado,
que notoriamente a torturava e obcecava.
Falou abundantemente de um só homem. Relatou tê-lo insultado,
mas era só dele, muito mais que dos filhos ou de si e da sua vida, que no fundo falava.
Que estivera num restaurante brasileiro da cidade, de amigos, a festejar,
que bebera champanhe, depois cerveja, depois vinho do Porto,
depois caipirinha, depois whisky, que comera do que quisera
e agora estava ali, entre outras caipirinhas e outras cervejas,
como se nada fosse. Que era feliz e autónoma e alegre e bem-humorada,
mas foi-me passando o amplo panorama ou o vasto arsenal de tecnóloga do prazer.
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Sentou-se. Brandia o cigarro, enquanto dizia das suas coisas numa vozinha de pássaro,
olhando muito para mim e sorrindo-me muito. Mal audíveis as suas palavras.
Quase sussuradas. E foi de cócoras, teve de ser!, que a pude escutar
adequada e compassivamente.
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«Faço quarenta e dois anos. Tenho um relacionamente desde há oito anos.
Estive no Brasil quinze dias e, quando cheguei, vi que ele não me respeitou novamente.
Sim, é aquele gordo que esteve cá daquela vez, aquele barbudo bem humorado.
Trabalha na imprensa e na advocacia. Tem muito dinheiro.
Saíu durante esse tempo em que viajei. Saíu com moças com vinte e dois anos.
Ele tem cinquenta e um. Eu disse-lhe: "Não tens vergonha?! Um homem dessa idade
a sair com moças tão mais novas?! Eu faço tudo pra você,
boto uma lingerie picante só prá você,
faço todos os carinhos e gostos na cama, aquilo que você gosta,
sou eu que lhe esvazio os colhões todos os dias e você me faz isto?!
Não sabe me respeitar?! Eu não preciso de você para nada!
Posso ter os homens que eu quiser, seis homem na semana a quem esvaziar os colhões!
Vá prá puta que te pariu, não quero ver-te mais à minha frente".
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Mas ele um dia me disse, e isso doeu de mais, que tinha vergonha
de me apresentar aos seus amigos porque eu era uma mulher velha.
Isso doeu. "Vá prá puta que te há-de parir, seu gordo de merda, você não se enxerga, não!?"
Eu não preciso dele, não. Tenho a vida feita. Ganhei o meu dinheiro.
Não preciso do dinheiro dele, não. Posso ter quem eu quiser.
Os meus filhos estão bem na vida. Meu filho está muito bem,
não preciso me preocupar. Sou feliz e bem humorada.
No outro dia, disse pra mim comprar um vestido, que ele pagava.
Eu fui. Levei o cheque dele assinado. Mas depois quis saber o preço.
Pode? Um presente, o que eu quisesse e a seguir me pergunta o preço.
Eu disse-lhe: "Você é um canalha mesmo. Guarde o seu dinheiro.
Eu posso comprar o que eu quiser a hora que quiser. Não preciso de você pra nada.
Nem preciso de nada de você." Aí não aceitei.
E fui comprar com o meu dinheiro um vestido.
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Ele não me respeita em nada. Tem casa, comida, tudo o que quiser, e mesmo assim
anda saindo com moças de vinte e dois anos, me mentindo que não é verdade,
quando pessoas amigas os viram juntos e me contaram. Ele disse: "Ah, não sei o quê,
já sei quem foi a bruxa velha que te contou essa mentira."
E eu disse: "Bruxa velha, não. Amiga, alguém que gosta de mim e de quem eu gosto.
Você não presta, não vale nada, seu filho da puta, seu cabrão."
Mas não adiante. Sempre ele volta. Sempre tudo volta ao mesmo.
As outras podem ser mais novas, de furico apertadinho, mas não sabem nada.
Eu conheço ele bem.
Faço pra ele tudo o que um homem quer e gosta. O que ele gosta. Tudo!
Aquele bestão é rico. Tem poder. Tem acesso à imprensa como jornalista
e, com o que ele sabe como advogado, deixa com medo muita gente. E isso é poder.
Mas não pode comprar amor, carinho e prazer como só eu lhe dou.»
lkj
Três pedaços intercortados de conversa. Conversa rompida pelo meu trabalho,
pelo seu impulso para dançar e beber e rir, e mais adiante retomada.
Jociara ria e gargalhava, enquanto amargamente se narrava.
Cada pedaço reatado cada cigarro que beijava.
E a compaixão tomou conta de mim. Saber que há uma rede-prisão invisível e bem real
constritiva, mantendo captiva Jociara.
Só de cócoras se pode compreender.
Só de cócoras se possa talvez reencontrar a noção perdida de 'próximo',
num tempo em que todos no fundo se fazem abissalmente distantes.

ISABELA, PARA TI TUDO É GÁS!


Isabela, o teu questionamento dos mecanismos a montante e a jusante do BA foi divertido
e as réplicas e tréplicas igualmente divertidas: mas cumpre-me defender os vadios,
os encostados, os aproveitadores do Sistema:
eu, se não não trabalhasse, borraria a minha cara de merda. Trabalho.
É uma sorte. Mas também tenho vontade de borrá-la por causa do que se paga em Portugal, Isabela, e do quanto se oprime e abusa na linha de montagem, puta que os pariu, esses patrõezolas que, quando a casa treme e não vende, apelam ao espírito de equipa, à união e capacidade de sofrimento, mas quando a casa rende, foda-se!, só pagam o combinadinho
e nada de prémios de produtividade ou de constância, lealdade, espírito de sacrifício. Puta que os pariu, cambada de cabrões avaros!
lkj
E tu sabes que eu, tendo passado pelo Sistema Público de Ensino,
também vi muita merda na mó de cima e muito mérito na mó de baixo.
Quando, ao fim de doze anos consecutivos,
fiquei desempregado numa base de ano sim, ano não,
e vi baldados sistematicamente os meus esforços por humanizar
o zoológico perdagógico em que transformaram a Escola,
sendo os professores somente entretainers e mestre da nulidade,
e me vi, uma vez mais, a palavra consola!, na merda, compreendi tudo.
lkj
O trabalho é uma palavra redonda na boca de toda a gente como a pasta medicinal Couto:
eu, por objecção de consciência, por birra, por protesto, por sentimento de injustiça crassa,
FIZ-ME VADIO, ABRACEI A PREGUIÇA E ENCOSTEI-ME, ENQUANTO POSSO,
À FALHENTA E MISERENTA SEGURANÇA SOCIAL NACIONAL.
lkj
Peso e pesarei, enquanto puder, ao caralho do Estado, Isabela,
porque o Estado e quem de momento o rege,
nos tem mentido descaradamente e nos tem pedofilizado as vergonhas:
é só fazer as contas. É o Estado e quem o representa quem nos tem desmoralizado,
onerado desapiedadamente, seguindo uma linha de conduta e de política
de contornos negativos e depressores.
lkj
É o Estado, mau exemplo em tudo!, que, com estas políticas de nos carregar nos calos,
nos tem desmobilizado de nós mesmos, de sonhar, de viver,
de trabalhar com prazer e confiança,
soltando os cães Fisco e Bancário contra tudo o que mexe e contra todos,
sobretudo os menos robustos.
lkj
O Povo, o Povo que tu conheces, tem como chefes MENTIROSOS.
E esses mentirosos têm levado ao colo os verdadeiros parasitas,
o verdadeiro lastro que nos conserva em seco,
muito longe de navegar ao largo, como a Grécia já navega,
é que na Grécia as políticas têm sido mais patrióticas
e o bem-estar geral lá tem sido mais meta
contra o que cá as mentiras sornas nos têm vendido e se pratica.
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Por isso não brinco ao trabalho, Isabela,
não vou participar no jogo do trabalho. Os que pregam o trabalho
e a produtividade só nos fodem e riem do nosso suor.
Os que, moralóides, moralizam o discurso e a praxis dos vadios
e falam dos ciganos e dos vadios, dos preguiçosos,
como poderiam falar dos que já tiveram orgasmos e nós não,
os filhos da puta, tenham lá paciência!
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Quem está na miséria, cá em baixo,
devolve com ironia os comportamento sornas de quem, Nos Quadros do Sector Público,
anda a forrar-se de benesses, sinecuras, grandes mamadas,
grandes comparticipações, grandes vencimentos, obscenas condições,
desproporcionais regalias! Tenham lá paciência!
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Portanto, Isabela, queres denunciar os pançudos,
começa por cima, e logo tu, que és parte da inteligentsia nacional,
da grande imprensa nacional, e a quem a ficção da fábrica de parafusos
assenta tão primoro