quinta-feira, Outubro 30, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME VI

Outro galheteiro de proprietários do Regime e da Democracia
[As Aventuras do Santa Alcoveta]

 SóCrash, o grande condecorado, a alma e a lama do Regime, sentiu um tremor de gozo ao ouvir falar na extraordinária entrevista do seu ex-ministro e ex-penduricalho ameba de Direita Esquerdizante, Freitas do Amerdeiral. Não perdeu tempo e convocou-o para um Porto, na Bramcamp. Pressuroso, a sumptuosa luminária infalível compareceu e, com enorme deferência, foi o próprio Santa Alcoveta a vir ao átrio recebê-lo:

 — Caramba, pá, Freitas do Amerdeiral, dá cá esses ossos, essas banhas essas bochechas impagáveis, pá! — Meu caro Santa Puta, não imagina a honra em ser por si recebido. Sabe que em Portugal eu pertenço à casta dos especiais...
 — Sim, claro, pá, comendador Amerdeiral, tu és um prodígio sumptuoso da palavra e da ideia...
— As TV chamam por mim, Santa Puta... O que eu digo conta!
— Sim, pá... As nossas TV veneram os fósseis do Regime, os inúteis e as canas agitadas pelo vento, professorais sibilinos... E esse, definitivamente, não é o teu caso, pá. Que encantas pela frescura e pelos postulados de Esquerda...
 — Claro. Eu sei que sou brilhante... Como o Santa Puta sabe, liderei o CDS, mas basicamente o meu espírito pardo servia de biombo ao génio de Amaro de Costa. Estive com Sá Carneiro, embora muito na sua sombra porque o meu carisma é um carisma...
— ... Murcho... Amerdeiral. Deixa lá. O meu gajo, o Costa, também não tem um quarto do meu carisma, mas nós, no Rato, temos estado a trabalhar nisso.

terça-feira, Outubro 28, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME V


[As Aventuas do Santa Alcoveta] 

De óculos escuros e uma gabardine negra, SóCrash, o Santa Puta, encontra-se com o Armando, o Vara, na Pastelaria de Belém para avaliar os progressos no grande Golpe de Estado das Esquerdas em decurso, liderado pelo testa de ferro Costa. Vara cumprimenta-o entre dentes: 

— Então, pá, Zé, Santa Puta? 'Tás bom? E o nosso Costa, como é que a coisa vai? 
— Olá, pá, Armando! Nosso Costa, não. Meu Costa. E o meu Costa vai bem. Fez bem em ir falar de treta de Esquerda para entreter as Esquerdas, lá na taberna irrisória do LIVRE. Eh, pá, aquele Tavares está mortinho por ser ministro. Talvez chegue a chairman da MotaEngil. 
— Cuidado, pá, Santa Puta. O teu gajo continua a nada dizer de substantivo que ultrapasse a mesma lógica do Marinho e Pinto também para que qualquer eventual acordo, seja com quem for, se torne possível, nem que seja com o Diabo. Mas as ideias fazem falta, pá. 
— Ainda bem que falas do Diabo, Vara. Sabes quem foi o gajo que me mandou ter com ele? 
— Com quem? 
— Com o Diabo? 
— Sim, quem é que te mandou ir ter com o Diabo? 
— O filho da mãe do Melícias. Fiquei-lhe com um pó. E no entanto, gostava de um encontro com o gajo. Veste bem e usa bons sapatos e perfumes... 
— Pois, pá. Deste confianças ao padre camarada.... Mas esse nosso gajo Costa... 
— ... Nosso, não, meu Costa... 
— Ou isso, pá, Santa Puta, esse teu Costa não diz nada para além da utilidade que o nada tenha para o processo da tomada de decisões, dá para ver donde vem a sua autoridade política, não é de um carisma de líder visionário como tu, Santa Puta, que ele não tem e nunca terá... 

segunda-feira, Outubro 27, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME IV

[As Aventuras do Santa Alcoveta] 

SóCrash, o Santa Alcoveta, o grande herói do gamanço nas governações, o mega mago das comissões, ficou inusitadamente inspirado com o grande colóquio mantido e mentido com o Diabo Nu, especialmente depois da festa no Gambrinus, onde os amigos do Diabo vão amiúde. Já mais refeito, e perante a impopularidade difusa que vai recobrindo o seu Gajo, o Costa, agora chamado o Pluvioso Costa, resolve reunir-se com o seu clone e sósia, o Beato Silva Clone Pereira. A reunião é agendada nas catacumbas do Corporações, onde se giza todos os dias formas de compilar informação de foder adversários, entalar marcelos e chantagear oponentes. O Beato Clone é o primeiro a abrir a habitual conversa de merda. 

— SóCrash, meu querido líder e espelho de trejeitos, o Pluvioso Costa está a ser vítima do tempo e a perder popularidade. Os nossos media fazem o que podem, a SIC e a Constança louvam-no, evitam o contraditório, poupam-no à crítica e a qualquer mácula, como o passivo da CML de mais de 1000 milhões... mas as redes sociais vergastam-no todos os dias... Sobretudo quando chove. 
— Eu quero que as redes sociais se fodam. Já estou farto de mandar dizer que é para não recordarem os negócios que mais me envaidecem. Fala-se no BES, falam em mim. Fala-se na PT, falam em mim. Em vez de criticarem e derrubarem este Governo da Direita Decadente, é a minha obra, o meu legado e a minha herança... Desejem-me, porra, mas esqueçam a gasolineira que fali e a Chafarica da Pátria, que fodi. 
— Acalma-te, Santa Puta! Olha que ainda serás o nosso Presidente da República. E tens de pensar que a Direita anda assustada. E assustada com a própria Direita. Por exemplo, olha o Mendo Castro Henriques. 
— O que tem ele, Clone? 

sexta-feira, Outubro 24, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME III

[As aventuras do Santa Alcoveta] 

SóCrash, o Santa Alcoveta, a regra excepcional do Regime, sente saudades do seu galfarro e discípulo Paulo Campónios. Decide convocá-lo para um jantar numa tasca da Capital. Campónios, feliz por poder ver o mestre, é o primeiro a chegar. Pouco depois, chega o Santa Puta, animado com a promessa de um delicioso repasto, o seu café e o seu cigarro: 

— Olá, meu filho Campónios, como vais, pá? 
— Melhor que nunca, sobretudo depois de o crápula do Seguro nos ameaçar evacuar das listas de deputados para as legislativas de 2015, conseguimos pô-lo a andar primeiro... e tu, Santa Puta?! 
— Estou muito bem, pá... Não... aquilo foi muito bem jogado por nós... Se eu vos perdesse no Parlamento, perderia boa parte da minha força conspirativa no Partido e no País. 

— SóCrash, tu já viste aquela cena do Vítor Bento? 
— Qual merda? O que é que tem o Vítor Bento, pá, Campónios? 
— Antes de sair para a direcção do nosso BES, que degenerou em Novo Banco, o gajo pediu a reforma antecipada do Banco de Portugal. 
— E? 
— O governador Carlos Costa aceitou. 
— E então, Campónios? 
— Só que o gajo nunca chegou a assinar os papéis.

quinta-feira, Outubro 23, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME II

[As Aventuras do Santa Alcoveta]

SóCrash, o Santa Alcoveta, sente-se excitado com as reacções sobressaltadas do Partido Socialista de Extrema-Esquerda ao Orçamento de Estado para 2015, o qual mantém o aumento brutal de impostos e, portanto, não é eleitoralista. Vendo que se aproxima o fim do mês de Outubro sem que se confirme a profecia do Padrinho Don Mariolone... a da queda iminente deste Governo de Direita Decadente, resolve fazer-lhe uma visitinha, dirigindo-se, para o efeito, à Fundação Don Mariolone. Quando Don Mariolone detecta SóCrash, estende-lhe a mão polpuda e o Santa Puta segura-a, dobra o joelho e beija-a repenicadamente: 
— Abençoe-me, Padrinho, Don Mariolone, todo o dinheiro e todo o poder ao nosso Rato, hoje e para sempre... 
— Impostor! Os meus informadores garantem-me que me consideras obsoleto, Santa Puta, e não suportas que eu, pelo jornal i, te desvie da vida política. O que dizes em tua defesa?... 
— Ó Padrinho, por quem é?! Eu sou todo seu, um fanático da sua história e dos seus feitos... Tenho toda a legitimidade para ambicionar uma candidatura à Presidência...

quarta-feira, Outubro 22, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME I


[As Aventuras do Santa Alcoveta]

SóCrash, o Santa Alcoveta, convoca à Bramcamp o seu protegido Costa para fazer o ponto de situação da situação do silêncio e percurso do Costa enquanto seu Gajo. Ei-los juntos, finalmente, juntos, na grande sala repleta de perfumadas rosas vermelhas. Uma coisa aborrece sobremaneira SóCrash. Não, não é a rejeição do PEC IV. Foi aquilo que o Ministro António Pires de Lima ousou dizer no passado dia 14 à Comissão Parlamentar de Economia. Costa é o primeiro a tomar a palavra:

— Olha, pá, SóCrash, a chuva já passou, as sondagens que nós encomendamos dizem o que queremos... 
 — Gajo, podes continuar calado, mas bem que me poderias defender publicamente do que o pulha do Pires me está a assacar? 
— O quê, Santa Puta? Sabes que há coisas que é melhor eu nem comentar. 
— Gajo Costa, o Pires disse que os problemas actuais da PT foram causados no passado por mim, pá, que tudo começou com os meus Governos e acabou com os meus Governos, pá... 

segunda-feira, Outubro 20, 2014

EU SONDO, TU SONDAS

COSTA OU OS DIAS DA TUMEFACÇÃO

Mais algumas semanas e os resultados das sondagens e pequenas medições de popularidade ditarão ainda o estado de graça de Costa, o gajo do SóCrash e de Don Mariolone Soares. Costa não passa de um peixe-balão a gozar os últimos momentos de tumefacção messiânica, popularidade e efeito surpresa. Neste momento e por algum tempo ainda.

Tirando o caso de se tratarem de sondagens a soldo e à medida do freguês, coisa a que os anos SóCrash nos habituaram, se forem fidedignos, estes resultados atestam a enorme vocação e pendor imbecil das massas aleatoriamente chamadas a expender opinião e a fazer corpo nas estatísticas. Só por crassa falta de memória e de massa crítica, o PS poderia alcançar a sua segunda maioria absoluta, neste século. Impensável. Mas a partir daqui será sempre a descer porque a realidade dura e exigente das contas públicas e os constrangimentos da moeda única e da consolidação em Portugal farão o seu caminho, esmagando Costa e o PS com as alternativas que na verdade não têm. O Partido-Máfia tem o seu próprio lastro e os seus muros intransponíveis.

Não será possível ao Peixe-Balão Costa manter o inchaço impante e a popularidade por inerência, perante um Governo quanto mais responsável mais impopular e mais impopular também porque a agenda dos Media Televisivos da Capital segue caminhos que o financiamento por recursos misteriosos em paraísos fiscais poderiam explicar, a ganância dos interesses na sombra poderia explicar, mas não a honestidade intelectual nem a isenção jornalística, basta ver e ouvir as torpezas de Constança Cunha e Sá ou os torpedos parciais de Ana Lourenço para perceber o alinhamento editorial das estações.

O efeito Costa pode ser este, superficialmente popular, e essa popularidade grandemente devedora do seu silêncio, mas poderá revelar-se terrível e penoso quando o Pluvioso Alcaide voltar a falar e porventura converter-se em Governo para fazer nada mais que o que está a ser feito. Recordemos que, na semana passada, a crise política grega levou este País de regresso às complicações de 2010, com os juros a pagar pelos empréstimos pedidos a dispararem para 9%. Costa, os socialistas e a Extrema-Esquerda, querem enfrentar a dívida e o défice não pelo cumprimento de metas duras impostas de fora e negociadas com a relatividade absolutista do credor, mas pelo alívio unilateral dos processos de cumprimento. Só que a via sancionada pela chancelerina Merkel contra a derrapagem dos défices dos diversos países do Euro não poderia ser mais implacável: o alívio virá pelo cumprimento e não pela descompressão e abrandamento da consolidação.

Espera-se, pois, que os ventos de guerra amainem e que o abrandamento económico dê lugar à vitalidade das bolsas europeias. Do que precisamos é de líderes duros de rins, capazes de resistir à facilidade e dispostos a cumprir na íntegra as metas dos défices. O que hoje possa parecer intoleravelmente exigente converter-se-á progressivamente na rocha sólida a basear a nossa riqueza e semelhança com os países de ponta da União.

sexta-feira, Setembro 19, 2014

RASGADA

Gaivota de asa rasgada
pena intermitente, desdentada,
voa, pia, à bolina
contra o vento sul,
à bolina, contra o vento sul,
entre o cinza e o azul,
entre o cinza e o azul.

segunda-feira, Setembro 08, 2014

RADIOHEAD INTEGRADOS

Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O'Brien, Colin Greenwood e Phil Selway
Foi durante uns dos meus voos intra-brasileiros pela Avianca que, dada a oferta em entretenimento a bordo incluir a vídeo-audição de The King of Limbs, in the Basement, me senti inspirado e instado a recobrir, ouvir e conhecer, toda a discografia dos Radioheah, não apenas no plano musical, mas também no plano poético e no das artes gráficas que acompanharam a produção dos sucessivos álbuns. Para começo de conversa, a submersão na atmosfera musical resulta numa impressão de intensidade, envolvimento e um que de desconforto kafkiano, dada a linha questionadora e provocatória que medula toda a obra, desde Pablo Honey, 1993, passando por The Bends, 1995; OK Computer, 1997; Kid A, 2000; Amnesiac, 2001; Hail to the Thief, 2003; In Rainbows, 2007, e, finalmente, mas espero que nunca por fim, The King of Limbs, 2011. Estão integrados, in toto, na minha sensibilidade.

sexta-feira, Setembro 05, 2014

LISTA DE DELÍCIAS NO MEU BRASIL

Na Roça, se silenciares a cidade que há em ti, renascerás rural,
místico, íntimo do Criador, sensível ao Seu
Sopro, dócil ao Seu Cristo.
Aquele enxame farto efémero de libélulas, voando à caça de moscas, numa vertigem rectilínea, obliqua, para trás, para diante, em torno da velha odorosa baraúna lá de casa; aquele beija-flor, mínimo, supersónico, em voo brusco, de arbusto em arbusto, entre pétalas rosa, roxo, encarnado; aquela profusão de pássaros sonoros e multicolores, laranja vivo, preto e branco, encarnado, o pica-pau de penugem à moicano, mas especialmente o pássaro azul, sempre só, sempre a solo, entre os demais, todos bicando os nossos restos de arroz, feijão, cuscuz, nenhum deles medindo demasiado distâncias com humanos; aquele sol tão ardente, mal o dia nasce, e ainda ardente enquanto se põe; aqueles crepúsculos de fogo no fim da tarde ou ao romper do dia perante os quais é preciso rezar; a hora intensa do amor, quando a hora do amor intenso chegou; aquele último suspiro da madrugada, o alfange lunar, dois planetas em conjunção; as minhas costas nuas, meu peito, embrenhado na caatinga por horas sentindo os cheiros umburana, quebra-faca, perscrutando chocalhos, revirando cristais, pontapeando espinhos; sol posto, abelhões zumbindo religiosamente como que em adoração ao Criador, entre os ramos e as flores da grande árvore; aquele silêncio místico à hora rubra do horizonte rubro; aquele céu nocturno absoluto, silente, repleto de estrelas desnudando sem mácula a Via Láctea; aquele meu reclinar na rede defronte a quase tudo isto e repleto disto tudo. Este meu encontro com o Criador, à brisa da tarde, e o Seu Santo, lá, no mais completo abandono filial, sem ânsias, sem medos, sem passado, sem futuro, absorto no Momento, fora do mundo, submerso no Cerne.

terça-feira, Setembro 02, 2014

DEAF-INIÇÃO

É um espirro
É um espasmo
É um respaldo pasmo
esponjoso e espraiado.

É um esmifrar esmagante e estuprado.
Sal, quanto do teu mar é um latrocínio crocodiliano-lacrimoso em Portugal?!
O caralho do bom-nome e a puta da honra
que os foda!


quinta-feira, Junho 19, 2014

ARROZ CAROLÍNGIO

Não é carolino o arroz
que como
diário,
vital,
repetente,
exército albino no meu prato rápido e fugidio.
É carolíngio.
Sou eu o Carlos que impera sobre o império de arroz
que come
carolino.
Carolíngio.
Carlovíngio.

quinta-feira, Junho 12, 2014

CRISTINA SCUCCIA CONTRATADA PELO RATO

Numa tentativa desesperada de reconciliar as hostes, Cristina Scuccia, a freira cantora, foi contratada pelo Rato a fim de entreter os quatro meses antes das primárias, na tentativa de que as diversas facções desavindas se entendam, beijem e abracem como nos bons velhos tempos. 

As eminências pardas do Rato, numa prova de união a toda a prova, esperam que daí resulte um milagre para que toda a Loja Ratense regresse ao braço dado e tal pelas avenidas e aos grandes inchaços de Esquerda. 

SóCrash já garantiu que vai abraçar Seguro com uma lagrimazita no canto do olho crocodilo perparada pelos assessores, meticulosos nestas coisas piroseiras mediáticas e verbo de encher. Soares já indicou o desejo de ter lá um colchão para assistir e dormir a sesta ao mesmo tempo. 

Costa já disse que vai guardar a faca a aplaudir comovido a freira e olhar com ternura para Seguro. Seguro ainda não sabe o que fará, mas garante que não há qualquer pressa.

domingo, Junho 08, 2014

NEM COSTA TRAVESTIDO DE GUEIXA



Há uma euforia pubescente em torno de Costa que me parece manifestamente exagerada porque com laivos messiânicos e fascizantes: os líderes predestinados e providenciais são uma fase primitiva e ultrapassada da experiência europeia do Poder em diálogo de sedução e conquista com as Massas. Tal como me parece um perfeito exagero a apreciação negativa e pessimista dos resultados averbados pela Coligação PSD-CDS-PP, nas últimas Europeias. Aí, ninguém ganhou. Ninguém perdeu. Ninguém se afirmou. Ganhou a abstenção massiva, brutal. Por isso mesmo, os resultados da coligação são intransponíveis para um cenário de legislativas, muito mais a doer e muito mais frio. 

A sorte da liderança governamental Passos-Portas não se joga na disputa menor entre a impreparação de Seguro e o voluntarismo retórico de Costa. Joga-se, sim, e toda, na questão do crescimento do PIB, na queda do desemprego e no controlo consolidado do défice. O sucesso nestas frentes, aliás prestes a ser constatado no balanço do segundo trimestre e seguintes, equivale a um regresso do eleitorado arredio em refregas eleitorais menores, um eleitorado amorfo, mal informado, que não vota por sistema ou que vota por puro clubismo acrítico e ritual. E votará para exorcizar o que tenha a temer ou segundo o canto de sereia com que queira sucumbir, como em 2009. 

Sendo o socialismo uma obsolescência ideológica e um vazio absoluto político de soluções credíveis na Europa, mas não só, unicamente um eleitorado doente, decadente e imbecilizado apostaria no escuro, em Seguro ou Costa. A maquilhagem das lideranças já não pode esconder a tragicidade das políticas seguidas até 2011. Não há volta a dar. Nem Seguro nem Costa. Nem Costa travestido de Gueixa.

sexta-feira, Junho 06, 2014

O MOSTRENGO CONSTITUCIONAL

Como é que pode haver um País contente pelo facto de, resolvidos problemas sérios de uma ingerência externa óbvia e descarada, provocada pelo PS, Partido-Máfia/Partido-Festa, o Estado ter de se submeter, sequestrado, aos ditames bloqueadores do Tribunal Constitucional?! A Constituição cheira mal. E quem lhe pastoreia aleatoriamente o respeito não se lava desde a década de setenta do século XX. 

O fóssil Constitucional é defendido por fósseis sem noções de micro ou macroeconomia que não compreendem nada de contas nem de futuro sustentável. Pensam a vapor na era digital. Cunhal escreveu, mandou escrever, com os pés esse documento pós-revolucionário, num tempo sem Internet, sem Facebook, quando a informação mal pairava sobre as cabeças dos pobres portugueses, gado dócil a votar em videirinhos e em grandes estômagos regimentais com que se danou o País década após década. 

Hoje, tirando uns condóminos ferrenhos da secção partidária da esquina, a verdade e o realismo das Contas Públicas estão à mão de quem os quiser abarcar com factos e não com as fantasias subjectivistas e estatistas das Esquerdas. Os guardiões da papelada obsoleta de 1976, 32 mil palavras-verbo de encher!, não têm servido senão para nos desassossegar o presente e assassinar o futuro. Em caso de bancarrota e desequilíbrio das contas públicas, coisa que tem sido cíclica e natural, dada a propensão imbecil para preferir e eleger o Partido-Bancarrota, a Constituição não deveria servir nem sequer para acender um fogão a lenha a fim de se preparar o almoço. Deveria ser suspensa até que o Estado se pusesse a salvo de danos e perdas maiores. 

Os Partidos-Lixo, Partidos-Lóbi, Partidos da Rotatividade que nos assam vivos, desempregados e bem fodidos, deveriam rever o quanto antes o Mostrengo Constitucional. Já não há pachorra para tanta porcaria, palavreado, dezenas de páginas e páginas, chumbos-vetos canhestros do pessoal sinecural do Tribunal Constitucional. Já basta.

terça-feira, Maio 20, 2014

REINCIDIR A CAMINHO DO DESASTRE

Não posso subscrever os apelos à passividade, branca ou nula, a propósito da próxima oportunidade eleitoral. Agora que a campanha para as eleições europeias se esgota, sem que a União Europeia estivesse no centro, uma vez que a refrega eleitoral não passa de um ajuste de contas e uma luta de galos entre o PSD e o PS, o debate e o combate é pelo melhor resultado possível como aferição de um ensaio pré-legislativas 2015. Por isso, no próximo Domingo só na aparência se escolhem os representantes de Portugal no Parlamento Europeu: o que se plebiscita é o Governo Condicionado 2011-2014 ou o Partido-Máfia da Bancarrota 2005-2011. 

É, porém, a Abstenção que vai ganhar. Nas europeias, entre 1987 e 2009, passou de 27,8% para 63,2% e vai voltar a crescer desta vez. No entanto, toda a gente deveria recordar que a demissão do exercício mínimo do voto abre a porta aos extremismos de Esquerda e de Direita, tal como abre a porta a possibilidades grotescas, a oportunistas e aos oportunismos que permitiram o trajecto despesista e insano 2005-2011. Votar também é, senão escolher, evitar males maiores, repetição de males maiores, reincidência em males maiores.

O pior desastre de um Povo é dar de novo o benefício da dúvida a daninhos, rapaces e sociopatas, cujas obras más gritam todos os dias e perseguir-nos-ão ainda por algum tempo, enquanto não lograrmos um País superavitário, de contas sólidas, capaz de crescimento e poupança. Temos a obrigação de construir, finalmente, um tal País, aberto ao Ocidente e ao Oriente, no Euro. 

terça-feira, Maio 13, 2014

OITO ANOS DEPOIS


Acho que perdi algum do fulgor e da energia motivacional para uma escrita diária, criativa, com o fôlego habitual. Celebrei há dias oito anos de Palavrossavrvs Rex sem sequer os celebrar. Perdi algum fulgor, não. Suspendi o meu fulgor aqui para o verter noutro lado. Fiz escolhas novas enquanto me desintoxicava de escolhas e dedicações zelosas de que saí desapontado e traído. Mas o meu projecto continua a fazer inteiro sentido para mim. Há tanto sobre que tentar reflectir, tanto para exprimir, e porventura muito mais recepção, hoje, um número maior de leitores a quem agrade a minha forma de ser e de dizer. Não é, porém, ainda o tempo de um regresso a uma volumosa produção aqui, conforme foi sendo habitual. 

Há impasses que me retraem: tenho uma profunda sensação de desadequação ao meu País, àquilo que me oferece e eu deixei de lhe oferecer, tendo eu investido tanto no Saber, na Cultura e na Língua a fim de ensinar outro tanto, quando enchia a sala de aula da paixão portuguesa que me transpassa. O amor e a alegria não se me eclipsaram. Nem a esperança. Dir-se-ia que perante o absurdo que se abateu sobre o meu País [as escolhas dos políticos, muitas delas malignas: foram capazes de sacrificar a esmagadora maioria antes e durante o Ajustamento em vez de sacrificar os interesses incrustados no Estado e sanar milhentas injustiças e parasitismos], pude encontrar uma réstia de fé numa saída pessoal à medida dos meus sonhos, fé nalguma coisa de bom no sentido da minha sobrevivência e da rentabilização dos talentos que possuo. 

Acredito que algo de bom me sucederá. Talvez mais rápido que o movimento da corda sobre o ramo d'árvore com que Papageno quis terminar consigo mesmo, antes de compreender que tinha uma vida feliz e fecunda à sua frente, não só, mas com a companheira perfeita para si. 

sexta-feira, Maio 02, 2014

O DEFUNTO





No ano de 1474, que foi por toda a cristandade tão abundante em mercês divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas. Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao lado e na sombra silenciosa da Igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, para além do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da sua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos cor de sol-claro, e colo de garça real. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem se conservou devoto e fiel servidor; ainda que sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e pichéis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara ele o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as manhãs, à hora de prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três ave-marias, a benção e a graça. Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de vésperas, murmurar docemente uma salve-rainha. E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e cuidado galante, em frente do altar da Senhora.

segunda-feira, Abril 28, 2014

ESPETO DA SITUAÇÃO

Não trabalho oficial e normalmente desde Outubro de 2012. Sempre cumpri escrupulosamente todos os meus deveres fiscais. Os meus rendimentos globais são abaixo do zero da dignidade, como acontece com milhares de pais de família em Portugal, nos últimos três ou mais anos. Não me mexo, não dou um pio, não clandestinizo laboralmente a minha vida. Nunca o fiz. No entanto, pelo menos desde 2005-2006, o Fisco descobriu e inventou para mim os mais estapafúrdios incumprimentos, as dívidas fiscais mais manhosas, e os juros de mora da praxe, incidentes fiscais que fui pagando conforme pude. E não posso. E continuam. Sou até um sincero entusiasta do trabalho global do competentíssimo Paulo Núncio. Pessoalmente, não sei como apode a minha situação pessoal senão de um espiral depressiva. Depois de esbulhado pelas consequências da Bancarrota, macerado pelo desemprego no Ensino, perseguido pelo opressor BES e pelo persecutório Fisco, resta-me o quê?! Há alturas em que se me evapora toda a esperança.

sexta-feira, Abril 11, 2014

SOTURNO BAIXO COTURNO

Um discurso deselegante, simplista, repleto de petulância e preconceito e poeticamente oportunista. Politizar a cerimónia de entrega de um prémio não é coragem, é reduzi-la e degradá-la à baixa mercearia de um passe meramente mediático e autopromocional. Este País não é dos que reclamam recursos esgotados a um Estado Falido com um Governo de Emergência cerceado por um Resgate Externo. Este País não é dos que se penduram em Governos Mãos-Largas, mas só para amigos, até que as bancarrotas eclodem. Este País é dos que assumem as suas responsabilidades e triunfam com mérito sem assacar a um Estado Pré-Falido e seus Governos o milagre subsidionista perpétuo, o maná dos dinheiros públicos correndo como leite e mel. É triste que uma desfocada Esquerdite Aguda suba à cabeça da soturna Alexandra Lucas Coelho, retirando-lhe a grandeza de que deveria ser capaz ao receber um prémio.