sexta-feira, janeiro 25, 2008

DESIDÉRIO MURCHO


TOLERÂNCIA E OFENSA
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«A tolerância é uma das noções mais difíceis de compreender.
Confunde-se geralmente com o relativismo epistémico
e esta confusão denuncia incapacidade ou até falta de vontade para aceitar a tolerância.
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Os pensadores pós-modernistas são responsáveis
por contaminar a cultura contemporânea com esta confusão grave,
que acaba por tornar impossível a genuína tolerância.
Ser tolerante é aceitar o direito de alguém afirmar
o que pensamos firmemente ser falso ou errado ou inaceitável ou ofensivo.
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Isto é de tal modo difícil de assimilar
que os pensadores pós-modernistas se sentem na necessidade de declarar
que não há "verdades", mas apenas "construções sociais da realidade".
E, por causa disso, todas as diferentes "construções" são igualmente aceitáveis.
Pensa-se então que esta atitude é tolerante, quando, ironicamente,
torna impossível a tolerância.
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Pois se ninguém pode realmente estar errado
nem dizer coisas falsas nem inaceitáveis,
não podemos realmente ser tolerantes:
limitamo-nos a aceitar todas as perspectivas
que reconhecemos à partida serem tão aceitáveis como as nossas.
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Pior: a falsa tolerância abre as portas ao fanatismo,
cada vez mais presente na sociedade contemporânea.
O fanatismo consiste em usar sistematicamente a noção de ofensa
para silenciar os outros. Assiste-se assim à imposição de um discurso falsamente politicamente correcto, proibindo-se seja quem for
de dizer seja o que for que possa ser ofensivo seja para quem for.
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Não se pode dizer que o cristianismo, o islamismo,
o budismo ou o judaísmo são basicamente tolices supersticiosas,
porque isso é ofensivo. Não se pode dizer, como James Watson,
que os negros são menos inteligentes do que os brancos.
Não se pode fazer cartoons a gozar com Maomé.
E, numa reviravolta digna dos Monthy Python,
os docentes da Universidade de Roma La Sapienza
declaram-se ofendidos com as opiniões do Papa sobre Galileu
e os estudantes encenam protestos mediáticos
análogos aos protestos contra os cartoons do Maomé.
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A tolerância pressupõe a convicção do erro.
Só podemos tolerar o que estamos convictos que é um erro inaceitável,
uma falsidade patente, um absurdo ofensivo.
Tolerar é tolerar humanamente.
Não é tolerar epistemicamente,
no sentido de defender que qualquer afirmação é igualmente justificável epistemicamente.
Não é epistemicamente justificável a opinião
de que o Holocausto não existiu ou que qualquer negro
é menos inteligente do que qualquer branco
ou que os seres humanos descendem de Adão e Eva.
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E é precisamente porque tais opiniões são claramente falsas,
claramente injustificáveis, que podemos ser tolerantes relativamente
a quem as defende. Ser tolerante é defender as pessoas que têm ideias falsas,
idiotas ou inaceitáveis e atacar essas ideias;
não é atacar as pessoas para evitar o incómodo de provar
que as suas ideias são falsas.
E, se tais ideias nos ofendem, paciência.
Não é possível garantir a liberdade de expressão
e ao mesmo tempo garantir que não seremos ofendidos».
lkj
22 de Janeiro, Público

5 comentários:

Pata Negra disse...

Sendo assim vou começar a ser mais tolerante e mais inconformado.
Um abraço revolucionário

SEMPRE disse...

Joshua
Não gosto muito da palavra tolerância. Prefiro substituí-la por compreensão e englobar nesta última todas as diferenças de opinião.
Um abraço

Silvia Madureira disse...

Joshua:

Li o teu comentário...

Eu vou continuar...não sei até quando.

um beijo muito grande

Blondewithaphd disse...

Identifico-me. Estamos, porém, é num mundo pós-pósmodernismo, não é?

Manuel S. Fonseca disse...

Gosto da palavra tolerância. Gosto da palavra verdade (mesmo que seja uma ficção). Gosto da palavra confronto. Gosto da palavra incómodo. Gosto da palvra frontal. Gosto muito deste texto de Desidério. Não gosto, por isso, de argumentos ad hominem