sexta-feira, dezembro 28, 2007

ANABELA


Evidentemente, Anabela hesitava. Era-lhe penoso admitir.
Estava tensa. O indivíduo-colega que se lhe postava defronte
ameaçava-a com aquele piquete de intervenção feito só de olhares sem degelo, inquiridores.
Mãe de um filho pequeno, professora eléctrica, ainda jovem, e ansiosa Directora de Turma,
não estava preparada ali para qualquer confronto: «Eu tenho todos os documentos!»
lkj
Era tarde de mais. Presidia ao Conselho e temia.
Tinha as palmas húmidas. A língua asperizava,
lembrando pequenos cactos de feiras com florinhas espetadas
ou a textura da de um gato medindo os nossos dedos escorrendo odores de comer.
Era bela. Na estatura extramediana,
na harmonia do rosto oval, nos cabelos que lho enquadravam negrejando em grego.
As ancas firmes, calipígea fêmea. E as pernas sólidas, jónicas.
E os seios num prumo de artilharia.
O carácter era frágil. Por isso temia e hesitava.
Segundo pensara, ninguém ali lhe perdoaria uma falha menor.
Mas falhou. Falhou num pormenor e falhou também no que pensara:
apenas um, aquele colega-indivíduo sisudo e obstinado, lhe fechava as vias de fuga.
Os demais ser-lhe-iam propícios e defendê-la-iam, condescendentes.
Anabela não tinha os documentos todos.
Os papéis ausentes envergonhavam-na de lapso.
Linguajou desculpas. Ruborizou. Gaguejou. Liquefez-se em nadas.
Nessa noite, o olhar ausente e um misto de culpa agressiva
fê-la desejar ter espancado o colega impertinente de miudezas intransigente.
Mas era o filho pequeno entre braços que agora ninava com o olhar perdido.
Depois seria o companheiro entre-pernas que por certo consolaria num apressado consolo.
Anabela tardou a adormecer. Não adormeceu.
A Escola magoava-a de torcionário.
Era um sítio penoso de tensão.
E demandava-a dolorosa
dia após dia após dia.
Após dia!

2 comentários:

KImdaMagna disse...

É o lirismo das nossas vidas,vivendo nosurrealismo doreal lírico, comezinho dia a dia, ofegante...
Adorei a história

antonio ganhão disse...

Brilhante! Muito Josh, embora com a devida contenção e lucidez. Se me permites, insisto na lucidez.