quarta-feira, dezembro 05, 2007

MERDA DE VIDAS. VIDAS DE MERDA


Dos alunos problemáticos, rebeldes, rufias, é que eu gosto mais.
Sinceramente é. A comunidade escolar e certos professores tomam-nos de ponta
e aqueles quase nunca mais têm ou o benefício da dúvida ou um grau de aceitação
que lhes permita novamente sentirem-se gente entre gente.
Por alguma razão, sempre entramos numa empatia tal
que a dado passo aproximam-se e logo começam a fazer revelações extraordinárias
das suas acções loucas e divertidas do passado recente. Ser maroto e malandro é uma arte.
Falam dela por ser passado e possibilidade sempre em aberto, dêem-lhes os motivos.
Recordam-se de malfeitorias como quem, atravessada essa fase,
a olham entre o prazer havido e uma espécie de implícita auto-censura
envergonhada, mas tudo emulsionado de glória, obviamente.
lkj
Comigo foi sempre assim porque nem no Ensino nem em coisa nenhuma
faço qualquer acepção de pessoas, sempre à espreita do milagre revelador
da unicidade de cada uma, e mais que a pedagogia da selecção
e da hierarquização de pessoas segundo os critérios tantas vezes parcialistas do mérito,
pratico a pedagogia do resgate humanizador de pessoas por si mesmas.
lkj
Ao primeiro olhar, os meus alunos da categoria bravia sentem-no e compreendem-no.
Por isso, se me demonstram como praticam / praticaram o desespero activo
«das vacas das storas» nas salas de aula,
as tais que lhes partem inúteis réguas na cabeça,
que lhes gritam ao longo de noventa minutos,
que os mandam estar quietos e calados
cinquenta mil vezes,
que se armam em tesas e generalícias até o tiro lhes sair pela culatra,
que põem voz grossa e fazem as peixeiradas espalhafatosas que puderem
a fim de escaparem ilesas à doxa genérica de que são brutas,
complicadas e, por isso mesmo, incompetentes no básico do básico;
se me narram as batalhas campais nos corredores e espaços abertos das escolas,
se me testemunham as pedras que voam entre putos e, muitas vezes,
para os vidros;
se me revelam os requintes de bloqueio das aulas,
o pretexto da limpeza obediente que inunda a sala de amoníaco ou de lixívia,
inviabilizando a aula, o amontoar das cadeiras por detrás da porta da sala,
impedindo a entrada da docente, o perpétuo desafio e toreio a pé pelos alunos das pessoas
cuja profissão é ensinar o possível e inventar um 'ter tomates' venha quem vier;
se me confessam que os escarros nem sempre acertam no puto rival
mas em cheio na cara do Presidente do Conselho Executivo que apareceu ali a apartar
rivalidades com ossos partidos e maxilares deslocados;
se me relatam que as medidas punitivas no lusco-fusco de uma sala fechada
(Fodinhas de Galo ou de Touro, com entradas de leão e saídas de sendeiro)
nem sempre correm bem: «Ó professor, o Presidente do Conselho Executivo
caga-se todo comigo!» Não me digam! - exclamo eu. «É a sério, professor.
Ele tem medo que se pela de mim. Ao outro dia, estava a descer a persiana
para me zupar, mas quando me meteu a mão levou logo o troco.
Eu disse-lhe: "Tira a puta da pata de cima senão leva!" E ele não fez nadinha.
Ó professor, o meu irmão é que é rufia. Já é homem.
Ao outro dia, acordou no hospital. Tinha tido um coma alcoólico.»;
se me dizem dos vandalismos por esses infinitos Supermercados Modelo
ou pelos nacional-McDonalds infinitos, com carrinhos de compras vazios deslizando
perigosamente por rampas e escadas e morra Sansão e quantos aqui estão
ou McTelhas arrancadas e lançadas para onde McCalhe
até à chegada tardia e lenta da Polícia, que não actua em dias de chuva - sublinham -,
os melhores dias para tainas,
o certo é que conseguem escapulir in extremis sobre as asas de toda a ganza
que treze anos de vida podem albergar;
se, portanto, tudo isto e é só uma síntese, é porque sentem que nunca terão em mim
um docente bufo ou rígido e exigente como um cadáver antecipado,
que os há por aí, sempre infelizes e azedos e com razão.
Os colegas desumanamente profissionais, esses nunca desarmam
para uma urgente naturalidade de mortais.
lkj
Claro que esta violência natural e naturalizadora, processo iniciático,
sempre no passado, sempre imensamente pretérita em relação à data da narração,
vai fazendo vítimas: todos os que a atalham frontalmente e a afrontam.
Professores, naturalmente. Tudo está certo no errado que está
e o Ministério da Educação (este) nada sabe e nem sabe o que diz sobre a violência escolar.
Limita-se a comprimir a vida docente na grande tenaz moderna
com a qual se faz em papa a docência e se sonha com a racionalização
dos recursos humanos através de uma gestão desumana por desmoralizadora.
E essa tenaz faz-se
pela pressão papeliana,
pela pressão parental,
pela pressão da população discente com rédea solta para pressionar por boas notas,
por bons indicadores, por bons resultados, por boas médias, boas estatísticas,
população discente por sua vez cheia de pressões e contorções sociais e familiares.
Este Ministério consuma, assim, uma condenação notória das pessoas que num iludido dia
abraçaram isto que parecia uma profissão e hoje é um manicómio,
uma fábrica de neuróticos, de torturados, um albergue de cérebros fundidos,
alzeimerizadas mentes de impotência,
afónicos de irrelevância, parkinsonianos de nulidade.
Todo o professor quer ser mais teso que o outro.
Todo o professor quer ter mais tomates que o outro.
Todo o professor quer ter mais pulso e autoridade que o outro.
No processo, fode a voz, fode a mente, fode o corpo,
desgasta-se a olhos vistos,
caso não tenha alguns oásis de reconhecimento e de sincero afecto no processo.
Perante aquilo que sei e que observo, sinto que ambientalmente
são tempos piores que maus os que se vivem nas escolas e se ontem mesmo
aquela funcionária AdaAE (Auxiliar da Acção Educativa), notoriamente embriagada,
que me dizia: «Tem de ser assim, sôtôr, é preciso ser duro com eles,
senão eles comem a gente...» era também um símbolo acabado de tudo isto,
com o seu hálito etílico que me magoava
com aquele cambalear e aquele olhar dançante nas órbitas,
ao desabar de lado,
por pouco falhava!, sobre a cadeira de vigilância do Sector,
a verdade é que todos caminhamos nos nossos limites físicos e psicológicos,
cambaleando também ou de cansaço ou de perplexidade
ou de esta imponderável derrota dentro da cegueira obstinada do Sistema kafka-lurdesiano.
lkj
Não cheguei a dizer porquê, mas digo-o agora, oito dias depois,
que um dia de estes também eu bebi de mais dentro de tal espírito de exaustão em face
de uma vida difícil e violenta, exigente fisicamente, exigente psiquicamente,
exigente animicamente, uma vida tão sem tempo, tão sem lazer, tão sem dinheiro,
de onde se desaba fragorosamente no momentâneo escapismo
de uma garrafa de maduro tinto mais à mão.
Ou verde. Ou branco. Pode ser Whisky.
Pode ser Vodka-Laranja-Limão.
Cachaça Caribé.
Tequilla.
lkj
Nessa noite agonizei as minhas dores, mas também as exorcizei.
No dia seguinte, estava na Escola como se nada fosse. Nunca tenho ressacas!
A ressaca da minha vida, tal como ela é, chega e sobra!
lkj
Ainda nos aguardam as cotas avaliativas de 'excelente' e as de 'não satisfaz',
o grande alea iacta est está predeterminado, sendo que a vida é assim:
turmas que abusam o mais que podem de um professor de cada vez,
turmas onde a quantidade é boa gestão embora esmague e oprima a docência qualitativa,
turmas onde o desrespeito dos alunos e a afonia dos docentes
é um cenário de Céu inspirado a partir das altas instâncias incompetentes
e burocráticas Lemos e quejandos secretários de estado.
Há erros de casting deliberados que só convêm à chamada gestão na Educação.
Quem Governo recua nas novas taxas sobre os saquinhos de compras já taxados,
que recua de esses cinco cêntimos tão poderosos e rendáveis, ainda que mal-vistos,
por que não recua de se permitir a brutalizar e imolar gente em nome
não se sabe que Totem gestionário? É só multiplicar os exemplos de não-recuo disto.
lkj
[Oiço acerca da república das bananas-para-alguns em que se converteu o BCP
e dá vontade de rir e de chorar e de voltar a rir e voltar a chorar:
este país é o infantário da Alta Finança e o Jardim-Escola de todas as coisas sérias.
Roda-se ainda por cá, casting ilimitado, Voando Sobre um Ninho de Cucos.
Faz-se pouco dos portugueses de todas as formas imagináveis
a cada abuso de monta, a cada excesso a que certos Buracos-do-Cu sem ética se dão!
É Millennium! É Jardim! É o limite da vergonha!
Também por isso dá vontade de enlouquecer de bebida e de caos.
Se não são vocês, leitores e não-sei-se-amigos!
Aguentai-me, que lhes vou às fuças, aos adminstroberdamerdas imorais!]
lkj
Muito a propósito, se querem ler uma síntese excelente do CAVAQUISMO,
do seu halo de oco com o presente ramificado nódulo socretino, ela está aqui!
Quando se olha para trás, compreende-se com que bacalhau seco nos presidenciamos.
Os vazios adoram os vazios.
Os autoritários adoram os autoritários.
Amam rever-se em alguém como eles e também os Lurdes apadrinham.
lkj
Merda de vida! Tudo isto é tão aborto! Vida de merda!

2 comentários:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Joshua
Não sei o que te diga. Não é fácil ser professor hoje em dia. As escolas não estão preparadas para a diversidade cultural, familis destruturadas, crianças que ficam largas horas entregues a si próprias. A escola não tem resposta e com a incapacidade de dignificação da classe docente, pior ainda.

Hoje no Notas Soltas temos debate sobre a legalização da prostituição. Não queres dar a tua opinião sobre este tema?http://notassoltasideiastontas.blogspot.com

antonio ganhão disse...

"Recordam-se de malfeitorias como quem, atravessada essa fase,
a olham entre o prazer havido e uma espécie de implícita auto-censura
envergonhada, mas tudo emulsionado de glória, obviamente."

Esta frase está brilhante! Começo mesmo a acreditar que o meu amigo é professor. Mas, o que me conta sobre empatias não me surpreende, eu próprio lhe detecto um certo comportamento anti-social. A outro nível, ou não, o meu amgio relaciona-se com a actual ministra como um rufia.