sexta-feira, dezembro 28, 2007

BHUTTO OU DAS COISAS QUE MORREM E DAS QUE NÃO MORREM


«Porque era mulher e era livre; porque era civilizada e cosmopolita;
porque pertencia àquele grupo social que pela educação e horizontes alargados
não se submete ao reducionismo de uma religiosidade desesperada
que se nutre do analfabetismo e do obscurantismo;
porque acreditava na inevitabilidade da adesão do Islão à contemporaneidade;
porque advogava tudo o que os inimigos da liberdade abominam;
porque fazia frente à sharia, à lapidação, à justiça de sangue e à guerra santa,
foi morta.
Morta pelos barbas-de-açafrão,
danada nas mesquitas e nas madrassas,
Benazir não serve de desculpa aos amigos dos nossos inimigos.
Não era serva nem factotum de Bush,
não era ditadora nem violara os sacrossantos pergaminhos da democracia,
não se lhe conheciam amizades sionistas nem jamais abdicou do véu.
Eles odeiam tudo o que não entendem,
pelo que hoje, mais que uma derrota da Liberdade,
a morte de Benazir Bhutto é um claro demarcador entre a civilização e a barbárie.
A escolha nunca foi tão clara.
Ou se está por "eles" ou se está pela comunidade de valores que,
no Ocidente como no Islão laico,
defende a retirada do confessionalismo
para o mais estrito domínio das escolhas individuais.
Como aqui por mais de uma vez se disse,
o estrertor de um certo Islão nutre-se da violência do desespero.
O tempo demonstrará que, no limite,
os maiores inimigos do Islão foram esses loucos de Deus
que não compreenderam que o tempo de uma certa ideia de religiosidade impositiva, purificadora e totalitária desapareceu.»
lkj
in Combustões.
lkj
[Palavras das mais certeiras e ajustadas, as do Miguel, como é costume.
Quanto a mim, é muito natural que, neste crime anunciado,
o real-factotum de Bush e os barbas-crespas tenham convergido numa sinistra conveniência.
Há crimes que só ocorrem com uma ampla convergência de ódios e de temores.
Mas a coragem e a causa democráticas, ainda que sacrificadas pela desumanidade,
geram e reproduzem sempre mais Coragem e mais ganas por Democracia.
O movimento pela desopressão integral das pessoas alastra irresistível e em graus diversos.
E nada mais repugnante que os violentos e exclusivistas,
que os agentes de uma Violência e Exclusividade que sonega ao Outro
o direito à mais legítima expressão e vivência plenas da sua Pluralidade.
lkj
Resta saber até que ponto quaisquer opções religiosas se inscrevem
no estrito domínio da individualidade
ou se não são antes e sempre um cadinho socializante de interacção/intrusão ideológica
que pode preparar terreno a mais ou menos agudeza no desenvolvimento ético individual.
Se tal desenvolvimento ético não pode ser relegado para o difuso plano individual,
porque é um processo educativo integral fundamentado
em que o cerne dele são as comunidades basistas, família e grupos,
onde estes valores se praticam e ensaiam,
é porque algo mais é requerível
para que vigorem os princípios da Tolerância e da Fraternidade fundamentais.
O mal é que um Darwin feroz tende a reger de competitividade devoradora tudo e todos
e se há um lado negro e agreste da Globalização, ele começa a manifestar-se de mais nesse lado.]

5 comentários:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Dói pensar na morte como algo de irreversível. Mas há ideais que não morrem como há pessoas que também não morrem quando acabam. Os valores da liberdade e do respeito humano contra os fundamentalismos sejam eles islâmicos ou outros,recrudescem muitas vezes quando liquidam aqueles que os apregoam.
Joshua, lutaremos sempre por uma sociedade mais justa sem perder de vista que só existe justiça quando há liberdade e só há liberdade quando existem alternativas.
Um abraço

Tiago R Cardoso disse...

O assassinato de uma grande senhora, o que se espera é que a partir deste facto não se entre em clima de guerra.

antonio ganhão disse...

Ah! O Bush é culpado? Fico mais descançado, como ele está de saída, existe esperança! Avizinham-se tempos de paz e glória!

Blondewithaphd disse...

We're all out of words and maybe that is the best way to describe how we feel!

Dale disse...

Hey! I published your comment. And I repeat, I'd rather have a Joey Jack than a Bhutto any day in terms of making a difference.