quinta-feira, dezembro 20, 2007

VAI UM NATAL DE ARRANCAR PINHEIROS?


Hoje foi um dia intenso.
Vou-me conformando com o meu re-desemprego do Ensino.
Era aquela uma substituição por doença e é tudo muito complexo
porque quem está doente pode melhorar e ter de voltar à escola, a qualquer momento,
mesmo que re-adoeça imediatamente a seguir. E eu sabia disso.
Depois as pessoas do meio escolar, se ele é local e massivo,
na verdade não sabem muitas vezes se devam gostar de alguém novo ou diferente.
Muito menos de alguém bizarro e discreto, como eu,
que nesta fase da minha vida não faço por agradar
e não abro mão da minha loucura ou do meu pathos.
lkj
Perante o meu vulto discreto e obscuro, uns diriam «Ai, é um óptimo rapaz.»
Outros, sobretudo os que mais esfregam as mãos de ansiedade
pelo putativo apertar do gasganete às liberdades blogosferianas:
«Aquilo é um baldas, um libertário, um demónio, um incendiário doido!»
Outros não saberiam opinar nem teriam como.
Mas o meio exerce uma clara pressão inclusiva ou eliminatória sobre um estranho.
O meio avalia, acerta posições e conspira, se farejar algo inabarcável e esse algo for gente.
Não é Sócrates mais popular onde a mediocridade medra? Porquê?
Porque as coisas têm de ser simples e abarcáveis.
Se forem complexas e contraditórias de mais, é porque não servem
os propósitos normalizadores a que tudo deve obedecer.
lkj
Seja como for, foi um dia intenso.
No local costumeiro para o café da manhã,
local que frequento há anos, reencontrei um amigo de infância,
que até tinha motivos para se manter impassível, caso aconchegasse o casulo do orgulho,
talvez para nem sequer corresponder ao cumprimento efusivo e automático que lhe lancei,
mal o reconheci. Pedi-lhe desculpas por qualquer coisa de ofensivo
lá bem soterrado no passado.
Aceitou-as.
Reconheci que fui grosseiro e estúpido na altura, ressalvei o desespero
que então me espicaçava de impaciências.
E a nossa conversa fluiu, entrecortada pela pressa,
esta opressão por outras tarefas urgentes.
Reiterei-lhe várias vezes as desculpas.
Sempre fomos monstros da conversação.
Se nos deixassem, seriam talvez horas de narrativas de vida reciprocadas.
Ele as dele. Eu as minhas. Se nos deixarem, talvez na velhice conversemos
como quem sintetizará as brincadeiras no Recreio da Escola,
os triunfos adolescenciais e as artrites de fim de vida, as literais e as metafóricas.
É a época dos Pinheiros e das Luzes.
lkj
A dado passo, abracei-o. O assunto culposo teimava em aflorar-me aos lábios.
Abracei-o mais a ele que ele a mim.
Respeito que ele se contenha e marque uma pose urbana em toda e qualquer situação social,
ao passo que estou cada vez mais me cagando para essa componente.
Foi bom revê-lo. Escutá-lo.
Talvez me visite ao menos aqui, no meu PALAVROSSAVRVS REX,
pois deixei-lhe o endereço.
lkj
O pior foi depois. Saído dali, em família, feitas algumas magras compras no shopping de eleição
e de proximidade, enquanto eu, mulher e filha, já estávamos no estacionamento,
irrompe à minha esquerda um conflito de casal tão brutal e torrencial
na violência, nas palavras duras,
que em sobressalto senti necessidade
de me conservar atento, não se desse o caso de ele a matar.
lkj
Tudo começou quando ouvi ela a dizer-lhe: «Ó meu grande filho da puta...» Olhei.
Ele já estava dentro do carro, do lado do passageiro, acomodava grandes sacos cheios,
acomodavam, cada qual no seu lado, uma infinidade de sacos,
e ela manda-lhe aquela boca vexatória.
«Que é?, que é?, anda aqui, se és mulher, minha grande puta...»
Fala daqui, fala dali, de repente
estava a moça, de longos cabelos, soluçando, a apanhar na boca,
a ser escovada e prensada por punhos e palmas, soluçando, chorando sempre,
palmas e punhos pelo corpo a eito, entre um sacudir de moscas e um pregrar de pregos.
lkj
Ninguém se aproximava do casal, É Natal!, é natural que ainda hoje façam as pazes,
mas muitos eram os pescoços que agora volteavam para ver e avaliar a coisa.
O careca do namorado, mais baixo que ela,
mas bravo e ameaçador como o Demónio da Tasmânia,
mete-se no carro como quem quer arrancar, mas não arranca. Ela de fora, em prantos!
Ele liga o automóvel. Desliga-o.
Ela luta pelo carro, gritando, batendo no muro vítreo, unhando-o.
Ele sai do carro.
Ela foge.
Ele apanha-a e continua o processo de escovagem do corpo dela
com música soluçante de fundo.
lkj
Um segurança motorizado do shopping acerca-se e é logo ameaçado
pelo careca passado namorado que ela apodara de «grande filho da puta».
O segurança acelera dali, como quem foge antes que beba, para pedir reforços.
O jovem careca afasta-se da namorada chorosa. Tacticamente seria melhor desaparecer.
Reentra no shopping e eu, que já me afastara e rolava lento pelo estacionamento,
todo olhos e alertas para aquilo desbragado, compreendi que era Natal.
O jovem careca olha fixamente a traseira do meu carro que se afasta também.
lkj
Ali estava eu, com a minha doce mulher e doce filha,
na harmonia e paz celestes de sempre onde não falta a devida adrenalina meiga,
a fazer umas pobres compritas despretensiosas,
a conversar da vida, cooperantes, amiguinhos,
eu a dizer que aquilo era falta de dinheiro
e ela a achar que era mas é hábito e que o traste só era 'homem' com aquela pobre
e talvez fosse todo negocial com um macho maior que ele. Já se sabe.
Eu, além da tese da falta de dinheiro, também considerei,
dentro do grande espírito do Natal, tal como ele está e o põem,
que um companheiro violento é sempre um tipo de homem em conflito
com a sua masculinidade: como o seu consciente e subconsciente a negam,
o que é uma auto-agressão, ele arranja maneira de a afirmar, agredindo o fácil.
Assim.
lkj
Talvez ainda hoje durmam juntos.
Ele trará um ramo de flores.
Chorará de paixão e desespero por que lhe perdoe.
Ela aconchegará uma lágrima comiserativa junto ao olho inchado e aureolado de carmim,
passará as costas da mão pelo lábio cortado.
Mais tarde, o cimento de uma boa foda, melhor que todas as outras,
deixará em aberto mais Natais com prendas e cenas iguais
num estacionamento qualquer.
lkj
As coisas que uma boa foda atenuam!
Enfim, é Natal! Está tudo demente!

4 comentários:

quintarantino disse...

Ele há gajos que realmente ... mas quem sabe aquilo não passasse mesmo de avantajado preliminar para uma real penetração!

Ricardo Rayol disse...

O mais bizarro é homem bater em mulher, tu se meter e encher o gajo de porradas e depois a gaja vir toda histérica chorando pelo amado abatido. Mas não deixo passar mesmo assim, sabe-se lá se o cara não a mata com gente oklhando.

Carol disse...

Depois do teu texto e do comentário do Quin, olha, fiquei sem palavras!
Desculpa a longa ausência, mas tem sido impossível aparecer por aqui. Tal como a tua, também a minha vida não tem estado fácil.

Tiago R Cardoso disse...

Pois no Natal, como no resto do ano as cavalgadoras andam à solta...

Em relação ao escrito de hoje lá no Notas, agradeço o teu comentário, aguardo também pelo dia em que o cineasta, tu e eu nos sentemos para conversar.