TODO O IDEALISMO DESEMBOCA NISTO


Constelação de emoções, quando ligo o rádio alto em direcção a este Pub.
A Greve Geral foi, tenho a certeza, um sucesso,
mas o papagaio governamental, porta-voz de serviço,
tinha a sua cábula - leu-a num esgar-sorriso de actor preparado e peremptório,
numa pose toda dura lex sed lex.
Pela rádio, a partir da Índia, ainda ouvi a declaração risonha e eufórica
do Primeiro-Ministro, reduzindo tudo ao pró-forma,
ao ritual de ter de haver greve, impermeável, naturalmente, às razões de queixa que a motivaram,
eufórico, decerto, porque na Índia ele é olhado como um líder europeu emergente,
o que, diga-se, é verdade. Sócrates emerge na Europa como um líder cada vez menos
irrelevante, alguém cuja voz estridente-aguda e inglês ocasional estabelecem uma marca
afirmativa clara, incisiva, menos parda que a de outros líderes europeus
que não manifestam vigor ou veemência, quando discursam.
Dito isto, evidentemente que para mim é só isto - uma voz e uma veemência eficazes
na mesma linha da de um bom actor, de um sofrível palhaço circense ou mimo,
porque os valores que subjazem ao seu perfil são os do oco,
os dos imperativos do Dinheiro, os do paradigma renovado do lucro pelo lucro
que converte as pessoas em despromovidos dos direitos por que lutaram e deram a vida
gerações de trabalhadores.
Nós, os vendedores do nosso trabalho, estamos à mercê de uma nova lógica
impessoalística e oportunística que ofende a Pessoa na sua dignidade o mais que possa,
esmifrando-lhe, entre outras coisas, os parcos cêntimos vitais que lhe puder esmifrar.
lkj
Beneficiei de um escasso subsídio de desemprego entre Setembro e parte de Novembro.
Chamado para uma escola por trinta dias, foi-me então dito que o cruzamento de dados
e a informação interna do sistema fariam o seu papel cessatório do subsídio
junto da Segurança Social: hoje recebo uma daquelas cartas estúpidas, de gelar,
veiculando a ideia de que recebi esse apoio indevidamente durante esses meses
e deverei repôr 1555 euros. Que absurdo é viver em Portugal, hoje!
Que Segurança Social tão ordeira e escrupulosa, tão ignorante e cega,
como certos Tribunais ao decidirem acórdãos
que lesam crianças vinculadas afectivamente a pais adoptivos!
Ora eu, que todo este tempo andei bem além de somente a cagar e a tossir
para me manter à tona das minhas despesas e das minhas dívidas,
eu, que abracei este part-time calvariano nocturno só para poder sobreviver,
literalmente sobreviver, como é que posso desencantar sequer um terço daquele valor
sem ter de dar o cu por isso? A opção de pagar faseadamente faz-me rir,
porque de pagamentos faseados estou eu já bem servido, obrigado.
Parece ritual imprimir um tom de gravidade inexorável e de ilícito com cartas destas
a quem, por direito, acede a um seu direito, no caso, um subsídio.
Em doze anos de ensino, só por duas vezes recorri ao subsídio de desemprego,
ficando a esmagadora parte do tempo, pelo menos durante o mês de Setembro,
sem auferir nem de esse nem de quaisquer rendimentos.
Era a minha negligência necessitada em acção.
Há dois anos, tudo mudou.
Estive um ano inteiro desempregado do Ensino, perplexamente desempregado do Ensino,
amargurando uma experiência nova que, numa fase crucial da minha vida,
acabou por me modelar imenso.
Em pleno coração do Porto, vivi uma aventura de Pobre,
numa casa pobre, num trabalho nem sequer remunerado e cheio de sacrifícios e privações.
Acabadinho de ser pai (digo que foi ontem, mas isto é uma metáfora,
é a expressão de um tempo psicológico
cujas agruras e delícias mantenho próximas da lembrança).
Agora, sob as maldades assumidas pelo Ministro Santos Silva,
sinto-me e a todos num tempo de um perfil plenipotenciário governativo,
pleniprepotenciário governativo, onde tudo é possível
e onde o livre-trânsito para outras e as mesmas maldades é completo.
lkj
Recordo o que tive de aturar numa escola onde um professor era e é
uma coisa tão esmagável como uma barata. Aí ouvi que eu, como professor,
era perfeito, só faltando que os alunos me respeitassem, isto é, temessem,
aí fui recrutado compulsivamente, mal me apresentei, por uma colega
para um Projecto de Trabalho no âmbito da Pedagogia Diferenciada: ali, todo o aninho
a reunir em grupo, a barato-falar e a planificar para aquecer (a colega que me recrutou
embolsou sabiamente nem sei quanto por cabeça recrutada,
mas certamente muito e a contento com tal sábia 'iniciativa'!) e, no fim,
num célebre almoço de esse nosso grupo, na Fundação Cupertino de Miranda,
ao som de um piano embriagado e gago, ainda escutei a boca questionadora invasivo-ofensiva
de um paneleiro de um colega Psicólogo, muito peneirento,
muito pedantolas, muito a par dos meus transes de sofrimento
com/por causa de uma fêmea em ruptura comigo-adeus, após oito anos,
quando perguntou entreteinerescamente,
mal arranjei outra, «como era foder uma mulher loura e canora».
Os comensais riram, tão circunspectos e adequados nas suas poses contidas e adequadas.
Houve quem tivesse sincera pena da minha ingenuidade silenciosa, aparentemente contemporizadora, debaixo daquele abuso, daquele uso da minha intimidade
para efeitos de entretenimento do grupo. Fiquei ruivo, fodido de raiva.
Emudeci de bobo-bombo da festa em corte!
Eu ali, usado para encher bolsos de colegas que se mexem só para encher os bolsos.
Usado para o riso parvo e cretino de um diletante, um vanitas vanitatis em fugura de gente,
tiranizado um ano inteiro por uma uma turma-bem, turma da alta sociedade portuense,
turma de filhos privilegiados e negligenciados, pequenos tiranos do zero-professor,
turma tirana no ano meu lectivo mais mal-pago de sempre!
khj
Esse cagão Psiólogo Escolar, irmão de um ministro omnipresente e ainda no activo,
by the way, é - nada contra e com todo o respeito! - gay.
Não tinha era qualquer cretina necessidade de,
ainda por cima, ser um caralho de um paneleiro para comigo!

Comments

antonio ganhão said…
Meu caro este teu universo é de uma abertura perturbadora, uma escrita poderosa arrasta-nos em turbilhão para dentro dele e vejo-me a perguntar e agora? Como vais sair de mais esta?

Julgava que este universo nunca nos podia acontecer, que termos uma profissão e vontade de trabalhar nos protegeria dele para sempre. Aqui assisto a uma novela que é a realidade que me envolve. Mas não tem que ser assim, lá no meu sítio terminei a trilogia do aço, com um grito de esperança.
Ricardo Rayol said…
Somos escravos do vil metal, infelizmente. Mas tua saga trabalhista daria um livro. Sei como é ficar desempregado, dinheiro contado. Mas pelo menos não era, ainda, pai
quintarantino said…
Fellini, falando sério, como é mesmo essa de um gay querer saber como é aquilo de pinar uma loira?
De resto, meu, tudo up?

Olha lá, tu que sabes das minhas passagens pelas Madalenas, "maila-me" um destes dias, pá... vamos emborcar uma bejeca ou duas ou até tainar... mas "maila-me". A sério.
Sei que existes said…
Este país está uma desgraça!
Beijocas grandes
Joshua
Venho ouvir os teus desabafos e deixar-te um abraço solidário. Isto está ruim mas... não há mal que sempre dure.
Tenho esperança de um dia chegar aqui e encontrar um post mais optimista e, nessa altura, acredita, ficarei feliz.
Um abraço
lavidanoespera said…
Gracias por tu visita
Anonymous said…
mt interessante o blogue. n conhecia.

deixo uma dica de um autor novo que merece ser divulgado:

www.tiagonene.pt.vu

Patsy

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