segunda-feira, dezembro 03, 2007

DOIS TÁRTAROS: O INFERNAL E O DENTÁRIO


O meu patrão lingrinhas anda numas de me praxar de serviços extra
não previstos no inicialmente apalavrado.
Tudo bem, eu faço, eu cumpro, mas como a intencionalidade de me reduzir o vencimento
acordado parece inflexível, também me parece improvável que eu continue por cá.
Veremos.
A seguir a um part-time vem outro.
Absorvi todos os caracteres, o humano invadiu-me de grotesco e sublime,
pintei o que fui vendo e sentindo - os invasores ingleses, sempre bêbados, sempre ousados,
o homem-barril, só contente com duas putas e logo tamanho XL-eslavas,
pobres mulheres no lado súcubo-escravo de se ser mulher
e tantos outros flagrantes de um Porto imprevisto -, eu os verti na minha expressão lavrada.
Larvar é a minha super-nova escrevente: testei e multipliquei o meu sentido do descritivo,
mergulhei fascinado nisto, nisto de haver gente.
Fora do eu e do haver gente, não há literatura que valha a pena!
Steiner tem razão. Os clássicos agrestes, densos, completos, se postos de parte,
se já não revisitados e obrigatórios, convertem-se nos lugares vazios
da nossa própria identidade profunda.
O homem ocidental simplificado,
sem o desdobramento ético das suas tragédias recorrentes,
é o extraterrestre acabado de si mesmo.
lkj
Às vezes, a pobre gente-escória vem até aqui, às bordas do Pub: sobem, pedem.
Pedem os cêntimos de uma sopa, as moedas do sabe-Deus.
Vêm do fundo do seu Tártaro de exclusão e à parte.
Chegam magros, seropositivos de ser e sobretudo de parecer.
É a jovem magra e esquálida que fica sempre à distância como os antigos leprosos,
com a sua história silenciosa por detrás dos ossos recortados dos malares
ou daqueles onde se escondem e afundam uns olhos darfurianos.
É o moço célere que chega precisamente quando as luzes se apagam por completo
no exterior - tem uma moeda de cinquenta cêntimos para trocar
a fim de, contou-me uma vez, aceder à retrete pública,
essa peça metálica de arquitectura urbana
que lembra uma pequena nave espacial que se pilota cagando, mijando e xutando.
Face escalavrada, unhas gigantescas
e um mau-cheiro de usar moto-serra, que de cortar à faca não é hipérbole que chegue.
Para que trocasse lá os cinquenta cêntimos, deixei-o adentrar-se,
atravessar o Pub apinhado e acercar-se do bar.
O barman atendeu-o. Enquanto esperava, vi que o moço dançava, gingava.
Se fosse só por ele e pelo seu modo de dançar, aquele Pub seria um Pub Gay.
Seja como for, o moço dançava, gingava. E foi a dançar-gingar que recebeu os trocos,
dirigiu-se até à porta, donde eu o observava, e lá saíu sempre a gingar-dançar
com um gesto grato para comigo. «Não mais deixes entrar este.
Deixou um pivete de morrer.» - veio o barman exercer pedagogia para comigo.
Ouvi. Nada disse.
lkj
Tutelo a máquina do tabaco e tenho uma espécie de comando para activá-la
sempre que alguém se acerque. Quem se acerque, por bebido que esteja,
faça lá o favorzinho de introduzir as suas moedas e seleccionar a marca.
Uma cinquentona, porém, já bebida veio à bruta tentar exercer a fórmula
do Ambrósio-apetecia-me-algo-mais-que-só-a-erecção-antena-do-comando,
cuja consumação lhe cortei à sílaba intencional 'Amb'
- apodou-me imediatamente de antipático e de isto e aquilo.
Odeio que me peçam para meter moedinhas na ranhura.
E habitualmente nem o faço nem mo pedem.
Tive de ouvir, pela minha implícita recusa,
uma mulher fora de si em gaguezes trôpegas a dizer-me que eu terei-servil
muito que aprender-servil para deixar de ser antipático,
que a minha função ali era ser simpático-prestável-servil.
Foda-se! Uma bebedeira traz quanta mal-fodência há. Haja paciência!
Estou sem ela! Que seca do caralho!
Na verdade, fui-lhe explicando, cheio de uma calma mortífera, ser a primeira vez
que me vinham definir o feitio como 'antipático',
ainda para mais alguém alcoolicamente duvidoso e que nem dois minutos teve
de experiência global de mim. E reiterei-lhe ser simpático
dentro do bom gosto que ser simpático também pressupõe. Nada.
A mulher era uma espécie de locomotiva a vapor
directamente da Rua Escura, da Afurada ou da Ribeira,
meteu na cabeça que eu tinha de me dobrar,
que eu estava ali para me dobrar e ser simpático, como os moços de hotel,
e foi insistindo-ferrovia as suas razões por cima de mim,
com a sua voz estragada e grosseira,
o tártaro infinito dos seus maxilo-inferiores alcoólicos dentes,
o infinito dedo indicador em agressivo riste alcoólico,
o cabelo de bruxa-má montada na alcoólica vassoura,
aquele corpo desproporcional de boneco fêmea (menos o estar nu, Deo Gratias!)
à Guillermo Mordillo.
lj
Por fim, perante o meu lado impassível, lá largou vela,
regressou para o miolo do Pub. Muito mais tarde, sendo das retardatárias,
já batiam as cinco horas, foi dizendo entre dentes e meio a medo,
enquanto saía, «Olha o antipático!».
Dentro de mim, só houve a resposta tácita de um encolher de ombros
como que em câmara de espelhos multiplicadores,
entre o côncavo e convexo,
entre o deformador para gordo e o deformador para magro.
Só sei que a imaginei, lá fora, volitando na sua vassoura
e a cacarejar o riso tabágico e atacado de bronquite
das bruxas de todos os tempos.

2 comentários:

Tiago R Cardoso disse...

Mais uma vez muito bom.

Tou a ver que andas um pouco para o revoltado, não deve ser fácil ter de aturar tanta gente.

Anónimo disse...

http://umjardimnodeserto.nireblog.com/

Caro Joshua

Excelente texto para uma crónica. Publicam-se tantas coisas imprestáveis... Enfim! Tem toda a razão, quando afirma não existir literatura fora da gente. Eu vou mais longe: nada feito por gente pode existir fora da gente. Tudo o resto existe apenas em Deus. Se calhar não concorda, mas antes de passar à recusa conceda a esta ideia um pouco de tempo pensante. Ok?

Saudações bloguísticas.