segunda-feira, março 24, 2008

CAROLINA MICHAËLIS E O GENOCÍDIO DE ESPÍRITO EM PORTUGAL


Saio de casa para mais uma noite no Pub
onde minimizo os efeitos perniciosos do meu desemprego do Ensino.
É Quinta-feira Santa de silêncios. Cá fora, lua a pique, um forte odor a flor de laranjeira
embriaga-me de doçuras densas de história e reminiscências muito minhas.
lkj
As minhas botas firmam-se no lajedo reluzente, húmido, frio, da minha rua
e ainda baila na minha mente a humilhação colectiva da docência em Portugal
compresente na abominável cena do telemóvel no Carolina Michaëlis.
O mal é sistémico e os sinais, os maus sinais!, políticos na verdade determinantes.
Querer fazer da aluna Patrícia o cerne da responsabilização exemplar de tudo,
ou sequer a turma do 9.º C a que pertence,
vindo DREN com um sôfrego atraso justiceiro pomposo de INEM,
é não compreender a necessidade que haveria de,
ao mesmo tempo, sanear, punir e responsabilizar
toda a estrutura discente de que se faz a Escola Pública em Portugal,
pois o estado de bullying é permanente e as vítimas são estas: os Professores,
os Auxiliares da Acção Educativa e uma minoria de alunos bem comportados,
interessados e dedicados,
gente particularmente frágil e pacífica de mais para ripostar.
lkj
O mundo da Educação em Portugal abre fendas por todo o lado.
De repente, saltam Joaquinas e Patrícias, pessoas concretas,
cujos embates perdedores diagnosticam automaticamente a febre letal que enforma o Sistema.
Este consulado governativo, em especial este Ministério da Adulteração Educativa,
tem-se excedido em decisões, despachos e regulamentações asnas,
que imitam políticas experimentalícias
aplicadas em alguns países em tudo modelares da América no Sul
(para arrependimento geral dos povos e governos da América do Sul),
políticas de correcção rápida de indicadores estatísticos
e que na prática redundam na perda de qualidade e de rigor
nas aprendizagens e avaliações,
porque se o Maomé-do-Sucesso-Enlatado não vai à Montanha
dos Números Estatísticos Correctos,
a Montanha dos Números Estatísticos Correctos
despencar-se-á sobre todo o Maomé e adjacências do-Sucesso-Enlatado-Instantâneo.
çlk
Paralelamente a isso, e o meu desemprego do Ensino
pela segunda vez nos últimos três anos, após doze de serviço ininterrupto, atesta-o bem,
tudo se tem feito para hostilizar, humilhar, desmoralizar, uma massa de gente que,
no passado, apesar de tudo era capaz de ser feliz e fazer felizes os seus alunos,
despertando-lhes tesouros indeléveis,
como a fome e sede de Prazer Intelectual,
de Bom Gosto,
o Espírito de Pesquisa,
o Apreço pela Pedra Angular Indentitária e Espiritual dos Clássicos Nacionais,
a Vivência dos Valores da Solidariedade, Espírito de Grupo, Espírito de Partilha,
mas que hoje alberga um profundo desalento entristecido
por se ver absolutamente chantageada e comprimida, no tempo e no espaço,
porque punitiva e metodicamente escravizada.
lkj
Há, aí, consumados zombies que têm alinhado
nesse adiantado Auto-de-Fé antidocentes e o Miguel Sousa Tavares
é um dos do discurso alinhado e demagógico
nessa fogueira estritamente orçamentalística,
tão desumana e cruel como as outras, as Fogueiras Literais.
Perdido entre tantos dossiês e tantas matérias a dominar,
pesquisas para best-sellers normalizados-pipoca, como o Rio das Flores,
(sou muito esse Diogo contemplativo lá narrado! Toda a gente é o Pedro!),
às tantas esquece a herança profundamente humanística,
cheia de bom senso e ética cristã daquela que o gerou,
menosprezando os professores e radicalizando
um discurso gourmet de caçador, viajante e aventureiro.
lkj
É um Genocídio de Espírito, o que este Dissipador Ministério da Decepação
tem levado a efeito. Mário Crespo, no Jornal das Nove,
estava visivelmente chocado com estas imagens-ponta-de-Iceberg.
Mas curioso foi notar a inércia inexpressiva da Odete Santos, do PCP,
e do Deputado Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas, do PSD,
quando confrontados com aquilo.
Há duas espécies de falta de espanto: o de quem já sabia
e o de quem não quer saber.

5 comentários:

antonio ganhão disse...

Muitos pensam que a aluna fez exactamente o que a ministra já devia ter feito há muito tempo! Isto dos professores só lá vai com coacção física directa e em directo nos telejornais!

Quanto à aluna do Micas, quando for para o mercado de trabalho, vai ter uma grande surpresa...

Unknown disse...

Aqui, no outro lado do Atlântico, a situação também é desesperadora. Infelizmente, tudo indica que a ignorância ainda dominará por muitas gerações.

Abraços,
J.

Silvia Madureira disse...

Colega:

Somos colegas.
Eu estou colocada este ano.
Dizem que vou fazer um exame e depois posso ser mandada embora. Serei mais uma...não me espanta e até já estou preparada...penso que não vou deprimir.


Com 28 anos sinto-me desgastada, desiludida, cansada...da profissão. Parece que a exerço há uma década.

Nunca fui tão humilhada durante toda a minha vida como agora. Quando tirei o meu curso, julgava que ía ser respeitada. Eu lutava e estudava com afinco. Os meus pais diziam "é para teres melhor futuro". Perdi a juventude, fins de semana a estudar...e a sonhar com o dia...sonhei muito e acordada.

Na realidade, eu sabia que havia pouco respeito pelos professores, mas...tanto...não imaginava.

Quantas situações iguais a essa passam nas nossas escolas?

Eu tive uma parecida.

Não quis dar o telemóvel...ficou com ele....a rir-se na minha cara.

Berramos um com o outro (eu nunca pensei ter que berrar tanto nesta profissão), não lutámos...e fiquei sem o telemóvel...

Aliás se berro, tenho alunos que berram mais do que eu...

Falta de respeito...só estando lá...

Eu chego a ficar sem palavras...

Por acaso esta situação foi filmada mas quantas acontecem e são camufladas e às vezes pelas pessoas que mais nos poderiam ajudar dentro da instituição...

Como sou nova, sou inexperiente, a culpa é minha...tenho que saber lidar com a brutalidade (é o que tentam impingir).

Força para mim é o que desejo.

Claro que, existem casos de professores maus...como eu tudo...mas de facto...eu penso que perante a minha postura...merecia mais do que isto.

beijo colega

Blondewithaphd disse...

Não devolvam a autoridade aos professores não...

Anónimo disse...

Às vezes fico com a impressão de que os escritores são os fumadores mais bem pagos deste país. Mas não gosto de generalizar...