quarta-feira, setembro 20, 2006

O BRAÇO













Não me responsabilizarei pelo teu ninho de rato, amiga.
Não farei do teu pulhómetro o meu pulhómetro, amiga.
Não ficarei aqui como bacalhau na seca de peixe,
retesado, de braços esticados e pernas esticadas,
esventrado até à magnífica configuração de uma folha de cartão,
salgando e secando até ao ponto comestível
e cozinhável.

Não vergarei ao peso das tuas murmurações,
nem ao carácter papal infalível e conspirativo da tua bichinha de rabiar,
fazedora de opinião e exigindo lealdades obedientes em troca,
não serei susceptível às tuas tácticas
de sítio.

É bom estar aqui, em órbita, pensando
somente na doçura de te ter mandado foder
só por teres sido tão muralha da China,
inútil e ornamental, grandiosa e arqueologal
perante a minha humilde mão estendida.

Joaquim Santos

2 comentários:

Anónimo disse...

Já não resisto a esta visita diária. Todos os dias me surpreende. A sensibildade à flor da pele. A ternura e a violência da palavra, juntas num único poema, e em harmonia.

Anónimo disse...

O seu blog é maravilhoso. Durante dois meses tenho lido tudo e admiro sua capacidade de expressar todos os sentimentos. Palavrossauro Rex a caçar e a devorar a realidade mesmo.

Bjx