quinta-feira, novembro 11, 2010

OARISTO

Meu amor, ontem chovia e ventava, enquanto, ao fim da tarde, caminhava de regresso a casa, meio febril e combalido. A espaços, desde o âmago do breu envolvente, céu carregado, um filamento de lua luminosa rompia, enorme, rente ao poente de entre farrapos de nuvens que cavalgavam para norte. Mal jantámos, quis embrenhar-me nos nossos cobertores, pois um frio estranho deixava-me estranhamente transido. Bem viste que tiritava de um tiritar anómalo e foi em espasmos, convulso de frio, que pasmaste o deitar-me tão cedo. Cuidaste bem de mim, vigilante, no desvelo de sempre. Hoje amanheci outro. Já passou. Oiço mas não escuto, quando me recomendas, vez após vez, meiga e feminina: «Não exageres na tua entrega. Protege-te do frio e da chuva. Há dias de tempestade tais que obrigam a medidas de excepção.» Respondo-te que não posso. Digo-te que não quero retroceder do meu voto. Obstinações sofridas, causas inglórias, derrotas anunciadas, alguma coisa enrijece e depura esta vontade ávida por sublime.

2 comentários:

floribundus disse...

meu lema
«de pé ou morto,
nunca de cócoras»

cuidado com a saúde

Daniel Santos disse...

estes teus momentos fascinam um pobre analfabeto como eu. Bravo Joshua.