terça-feira, novembro 16, 2010

SÁ CARNEIRO E DEPOIS NINGUÉM

Entre os meus quatro-cinco anos e os meus doze anos, só havia um herói e só havia uma esperança: Francisco Sá Carneiro. A sua morte foi um dos maiores desgostos por que passei. Por altura das suas exéquias, embriaguei-me até ao desmaio pela primeira vez na minha vida, à socapa, com vinho do Porto Vintage, docinho, guardado na sala e fechado. Raptada a chave, gole a gole, enquanto chorava como um bebé e rebolava em prantos pela casa, rouquejava: «Filhos da puta que mataram Sá Carneiro.» [Criança emotiva-intuitiva, os filhos da puta em que estava a pensar, coitados, eram obviamente Mário Soares e Cunhal porque directos beneficiários políticos daquela perda.] As palavras para descrevê-lo, no curto trânsito da sua vida e acção política, são claramente as do Pedro Lomba: «impaciência e patriotismo moral». Era isso, a frescura da ruptura e o sentido de um progresso que se abraça. Testemunhei-o inúmeras vezes a cada debate e declaração televisiva, a cada notícia que me chegava. Aos ombros do meu pai, estava no Aeroporto de Pedras Rubras, quando ele chegou de Londres, algures pelo período revolucionário. Aquela multidão que o amava e saudava via-se prenhe de uma espontânea esperança profunda que ninguém hoje na pseudo-política nacional pode traduzir ou corporizar porque ninguém está próximo das nossas gentes, ninguém sofre com elas, ninguém priva com elas, observa, zela ou se compadece delas: tenho visto em Sócrates, legitimamente o mais insultado e mais odiado de sempre, além de um anticristo da ética e da decência políticas, o mais acabado anti-Sá-Carneiro. Rolo compressor de gente, insensível, altivo para com as pessoas, demagogo, cruel, sádico, serventuário de um grupelho feio de devoristas, Sócrates trouxe-nos ao fedor da dívida esmagadora e à iminência de maiores apertos. Trouxe-nos psicologicamente dentro das suas eternas calças de bombazina vermelha e sapatilhas brancas. De degradação em degradação, depois de Sá Carneiro, efectivamente, não houve nem há Ninguém. Só Mandela, mas não é nosso.

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